Strange Things
23 Vinte e Três
Notas iniciais
It longs to kill you, are you willing to die?
The coldest blood runs through my veins, you know my name
Estava passando mal.
Estava cansado, mas nada que as suas poções revigorantes não resolvessem. Hermione estava dando uma canseira no seu corpo e confessava que estava adorando essa fase em que o corpo dela pedia por ele mais e mais.
Depois que ela descobriu o que estava acontecendo para o seu corpo mudar tanto, Rodolfo só podia agradecer que ela estivesse desse modo, insaciável. Ser acordado no meio da noite com ela se aconchegando no seu corpo, a respiração pesada e perguntando se ele se importava de fazer amor com ela naquele momento.
Não queria outra coisa da vida.
Tinha outras coisas para fazer ou pensar? Talvez. Contudo, ficar aos chamegos com Hermione era melhor. Queria aproveitar antes que isso tudo caísse no limbo.
Não havia sido chamado nos últimos dias e isso poderia acontecer a qualquer momento agora que o seu herdeiro havia sido escancarado para o mundo. Duas felicitações sinceras haviam chegado, depois veio um berrador de Ronan e as outras correspondências não haviam sido respondidas.
O consumo de doces havia ficado mais intenso mesmo com Alef dizendo que Hermione não poderia se fartar pois isso faria mal tanto a ela quanto ao bebê. Ela disse uma palavra difícil chamada diabetes gestacional e não sabia o que isso poderia significar.
O Lorde o havia chamado não muito depois que enviou todas as corujas aos seus associados atualizando o status de Hermione. Se odiou por fazer isso. O Lorde o parabenizou como se não o tivesse quase matado há um mês. As suas costelas ainda doíam e a sua cabeça às vezes apagava, mas nada que não conseguisse lidar.
A noite continuava escura e nublada. Durante muito tempo aquilo não mudaria e ainda não conseguia se acostumar. Melhor, não queria relembrar. A noite escura e com chuva o fazia se lembrar de Azkaban e sofria em pensar que o seu plano talvez o levasse de volta para lá.
Estava quase tudo orquestrado.
Mais algumas semanas e poderia ou ir para Azkaban de vez ou morrer de vez, alguma coisa aconteceria definitivamente na sua vida e precisava se preparar.
Astolfo estava seguro de que conseguiriam fazer tudo sozinhos e isso o irritava. Não conseguiriam fazer o que tinham para fazer se ele estivesse confortável com o que fariam. Era algo passível de morte e matar alguém não era o queria no momento, poderiam se comprometer logo e isso era ruim para Astolfo. Rodolfo sabia que o seu nome estava sujo e poderia permanecer assim, mas não comprometeria alguém que não merecia.
O plano estava todo desenhado: pegariam o cálice, o matariam com fogomaldito e só faltaria Nagini e o próprio Lorde. Só depois percebeu que fazia algum sentido o que Hermione dizia sobre as Casas de Hogwarts e a grandeza do seu mestre.
Era tão difícil abrir mão do que tinha conquistado e se via assim. Provavelmente não veria o seu filho crescer, mas sabia que o mundo dele seria melhor. Não o deixaria passar pelo mesmo que passou e manteria essa promessa.
A sua garrafa de uísque de fogo já estava chegando ao fim, precisaria providenciar mais para poder ter coragem de fazer o que tinha que fazer. Sentiria falta de Hermione, muita. Era fácil se acostumar a ter companhia e difícil seria se desfazer disso tudo. Os sacrifícios que faria por quem amava.
Rabastan. Hermione. O seu filho que nasceria dali há meses.
Não veria o seu filho crescer se tudo desse certo. Mas o certo era que ele crescesse seguro em um mundo onde pudesse viver em paz. Há anos teria querido matar quem o dissesse que um dia teria um filho mestiço. Belatriz riria descontroladamente, com certeza, e ela ainda conseguiria pagar pela própria língua porque ela conseguiu arranjar um filho assim antes dele. Amargurado, finalizou a garrafa e se preparou para subir.
Aproveitar era o seu lema, antes que tudo desmoronasse.
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A noite caía escura e abafada para julho. Rodolfo não conseguia dormir completamente vestido. Era geralmente no meio da noite que Hermione começava a tocar o seu braço pensando que ele estivesse dormindo. Ela se acomodava ao seu lado, como o corpo encostado no seu mais do que deveria ser saudável e sentia as unhas curtas dela lhe acariciando mais ainda.
Nessa noite não foi diferente.
Discreta, ela começou a tocar a sua pele a ponto de conseguir sentir o calor que ela emanava por estarem tão próximos. O ambiente, a proximidade, a intimidade... tudo isso os deixava quentes. Corpos quentes geralmente incendiavam na cama. Como queria incendiar com Hermione, mas gostava dessas investidas tímidas. Isso tornava a sedução justa.
Se virou e continuou de olhos fechados, sabia que ela se sentia envergonhada por estar fazendo isso desse jeito. Um jeito certo, diga-se de passagem. Ela sempre passava os dedos por cima da sua nova cicatriz. Estava em casa há tanto tempo que não tinha porque esconder que a marca do que era estava lá. O seu pai o teria deserdado se ainda estivesse vivo, sabia que sim. A sua mãe era mais tolerante, ela daria de ombros e ficaria extasiada em saber da possibilidade de não ser Belatriz a lhe dar um neto.
Os lábios quentes de Hermione denunciavam as suas próximas ações, gostava quando ela beijava quase que imperceptivelmente o seu ombro para depois passear com os dedos no seu rosto. Geralmente sorria e não seria diferente.
Os seus dedos encontraram os dela e logo se entrelaçaram. Não precisava dizer muito, as suas ações valiam mais que palavras e Hermione já confiava no que poderia sair dali. Era um pouco ou bastante arrogante da sua parte dizer que estava lá para dar o que ela precisasse nos momentos em que se encontravam. O corpo quer o que o corpo quer, o seu pai dizia. E o corpo dela parecia pedir por ele enlouquecidamente, o medibruxo disse que isso poderia acontecer.
“É o bebê fazendo isso, eu sei”, disse a ela rindo.
“Quando você fala assim, soa estranho. Você se incomodaria de fazer amor comigo esta noite?”, ela perguntou rindo. Puxou a mão dela para perto do seu peito e percebeu quando ela suspirou ao ver mais uma vez a sua cicatriz. “Nós já conversamos sobre isso”.
Não deixou que ela insistisse. Não poderia agora. Falar sobre a verdade no seu corpo era uma tortura e achava que já era torturado o suficiente pelo seu mestre.
Gostava quando a encontrava mais que pronta, isso facilitava tanto as coisas. Entrou com facilidade e sabia que estava mal acostumado com essas coisinhas que faziam no silêncio da madrugada na sua casa silenciosa. Gostava de ouvi-la sussurrar o seu nome enquanto investia.
O modo como lhe segurava pelas pernas deixava bastante claro que queria mais e precisava aproveita enquanto essa recente energia tomava conta do corpo dela.
“J’adore, chérie. Je t’aime”, sussurrou. Ofegante enquanto ouvia Hermione ter o seu máximo debaixo do seu corpo.
Quando ela abriu os olhos, o encarou de forma estranha, como se soubesse o que estava pensando ou tivesse entendido o que falou.
“Quando eu tinha treze anos, passei o verão na França com os meus pais. Eu entendi o que você falou. Eu... sinto o mesmo”, Hermione disse.
“Desde quando?”, perguntou agarrando-a pela cintura e mordiscando o ombro dela.
“Desde que você apareceu quase morto aqui, quando Malfoy e Zabini trouxeram você para casa naquele estado. Eu realizei. Qualquer coisa que nos tenha acontecido nos últimos meses, eu amo. Não deveria ter acontecido assim”.
“Mas você sabe que se não fosse assim, nunca teria, de fato, acontecido. Eu ainda estaria preso a Belatriz e você teria se casado com o garoto Weasley. Quantos filhos vocês teriam?”, perguntou rindo.
“Quinze filhos e uma casa afastada da cidade. Não teremos quinze filhos”, ela disse incerta.
“Não teremos quinze filhos”, repetiu.
De repente, tudo voltou e começou a pensar de novo no que faria logo mais com Astolfo. O tempo estava passando e a hora estava chegando.
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Quando acordou no dia seguinte, sabia que era um dia a menos no tempo que ficaria com Hermione. Poderia ser a qualquer momento, poderia ser na próxima semana, no próximo mês, mas sabia que tinha que ser logo se não quisesse desaparecer em definitivo. Retornar para Azkaban não estava nos seus planos, não sabia o que era pior: a loucura ou a morte.
O verão chegando caloroso e logo um banho gelado se fez necessário para espantar o suor. Não estava sentindo nada na marca, ou pela marca, talvez só indiferença. Ao chegar no quarto, viu Hermione começar a se preparar para levantar. Tinha curiosidades, perguntas a fazer a ela, sabia que ela não gostaria de responde-las.
Esperou que ela fizesse o seu ritual matinal de higiene e depois a sentiu sentada na cama ao seu lado. Estava vestida num roupão felpudo escuro igual ao seu. Brincava com as suas mãos no colo e tinha conhecimento que ela não gostava quando fazia isso.
“Não quero que me entenda mal, mas eu preciso saber uma coisa. Ou algumas coisas”.
“O que você quer saber?”, ela perguntou.
“Quando vocês mataram as horcruxes, o que aconteceu?”, perguntou.
“Por que quer saber isso?”, sentiu Hermione se mexer para ficar mais ereta.
“Apenas preciso que me conte, isso faz parte de você. Eu preciso saber o que você sentiu”.
Queria saber o que esperar disso. O que passaria, o que sentiria. Queria saber como não se afetar tanto.
“É um pedaço de alma dentro de um objeto, nenhum bruxo que tenha feito isso era bom. Então acho que seria algo esperado que acontecesse algo”, não era bem a resposta que queria.
Virou o seu rosto e viu Hermione confusa, a sua expressão dizia que ela falaria mais se permitisse. Tocou a mão dela e concedeu que falasse mais.
“Eu não estava lá quando o diário de Tom Riddle ou o anel de Marvolo Gaunt ou o medalhão de Salazar Sonserina foram destruídos, mas Harry me disse que aquilo lutava com todas as forças para não ser destruído. Ele e Ron... bom, eles me disseram que viram algo estranho quando o medalhão se abriu”.
“O que aconteceu?”, indagou curioso.
“Ron disse que ele viu uma fumaça sair e depois se materializar como eu e Harry, nus, falando coisas sem sentido. Ele tem imaginação, suponho”, ela confessou.
Se o que Hermione estava lhe dizendo era uma verdade, a horcrux poderia usar os seus medos para lhe causar tormento. Sabia que Ron Weasley ainda era apaixonado por ela e naquela época os sentimentos deveriam estar ainda mais aflorados na busca por salvar o mundo bruxo. O medo dele era de não ter Hermione como sua e se ela estava nua junto de Harry Potter era porque ele viu que ela não ficaria com ele. Pelo menos isso foi o que tentou mostrar. O que aquelas coisas mostrariam para si?
Tinha medo de ver o seu irmão lhe perguntando porque não fez nada para lhe salvar ou a sua mãe lhe dizendo que não estava contente com o rumo que tinha tomado na vida ao abraçar esse perigo de vida como estilo. Na pior das hipóteses, imaginava Belatriz saindo de dentro da fumaça para lhe atormentar por ter pagado caro para manter a sua filha longe do pai. Sem dúvidas, essa única coisa era a que mais lhe assustava e a que mais parecia plausível de acontecer. Também poderia ser que o próprio Lorde das Trevas aparecesse para clamar que tinha sido traído pelo seu melhor homem.
Rodolfo olhou a Marca Negra em um braço e a cicatriz no outro. Ambíguo, os dois gumes de uma mesma lâmina. A primeira definiu os vinte primeiros anos da sua vida, a segunda estava lhe definindo bem mais que a primeira e era única coisa que importava no momento. Agora tinha por quem se importar, quem cuidar, quem zelar. Mesmo que não passasse o resto da vida com eles, passaria o resto da vida sabendo que tinha feito pelo menos uma coisa certa na vida.
A hora estava chegando e ela chegaria para deixar de ver os incontáveis tons de cinza. Veria o preto no branco e todos sabiam do que era capaz.
(You Know My Name – Chris Cornell)
Aos poucos o matará, está disposto a morrer?
O mais frio sangue corre nas minhas veias, você sabe o meu nome
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