Strange Things
19 Dezenove
Notas iniciais
There you go, hearing voices and noises again
There you stand, back in time that it all once began
There you are, in vain
Não imaginou o quão mais complicado seria ver Andrômeda ir embora. Já havia mentido para ela sobre o paradeiro de Delphini e seria mais uma coisa que somaria às suas noites mal dormidas. Tinha saído da biblioteca e foi ao seu quarto buscar um livro para devolver ao acervo original. Quando chegou, viu Hermione deitada no chão.
Hermione olhava o teto com o lustre de cristal e parecia bastante pensativa sobre qualquer coisa. Se deitou no tapete ao lado dela e virou a cabeça, observando aquele mar de cabelos castanhos desgrenhados no chão. Começou a acarinhar o braço dela com a ponta dos dedos, fazendo-a despertar do que quer que estivesse pensando.
“O que você tem?”, perguntou.
“Um pouco de dor, mas vai passar”, a ouviu responder.
“E o que eu posso fazer para fazer a sua dor passar?”, perguntou.
“Nada, apenas acontece todos os meses e não vai para nunca de acontecer. O nome disso é cólica e ninguém merece passar por isso”.
Isso poderia ser bom. Se ela estava sentindo as dores que antecipavam o seu período, isso significava que poderia relaxar quanto ao que estava deixando-o ansioso. Logo, se tranquilizou um pouco.
Rodolfo passou o braço ao redor de Hermione e não demorou muito para que Leaf entrasse na biblioteca para se deitar com eles no chão. Sentiu o focinho gelado dele bater no seu pé descalço e riu. Queria poder ficar ali para sempre, parecia ser tão confortável e bem-vindo. Se deixou ser levado para a terra dos sonhos e lá permaneceu até sentir o seu braço queimar em dor.
Acordou assustado e com a Marca Negra serpenteando na sua pele, transformando o seu sono sereno e pesado em um completo pesadelo. Hermione ainda estava ao seu lado e dormia agarrada ao pelo de Leaf. Se levantou cambaleando e conseguiu chegar até a escrivaninha. Pegou um pedaço de pergaminho e uma pena para escrever.
Fui chamado. Volto logo. Não se preocupe. — R
Calçou desajeitadamente um par de botas de couro de dragão que estavam no canto do cômodo na porta de correr e os amarrou com a varinha para não perder muito tempo. Correu para a porta de entrada, não demorando muito para desaparatar e reaparecer nos jardins da Mansão Malfoy.
“Mas que droga?!”, uma voz feminina gritou. “Ah, é só você”.
Era a garota Weasley, dali-a-um-ano Malfoy, montada em uma vassoura. Atrás dela vinham Draco e o filho de Zabini, Blásio.
“Você nunca vai se acostumar, ruiva”, falou sem dar muita atenção a ela.
“Como está Hermione? Narcisa me deixou escrever, mas o seu Lorde das Trevas castigou Draco por isso”, Gina Weasley disse quando chegou ao seu lado, flutuando na sua Nimbus 2001.
“Bem. Ela está bem, saudável, bem alimentada e absorvendo a minha biblioteca pela alma todas as vezes que ela senta lá. Não se preocupe, ela está bem comigo”, respondeu. “Eu nunca me acostumei com esse entra e sai de gente da minha casa quando o Lorde ficou lá e olha que foram poucas semanas. Agora vá, os seus companheiros não vão aguentar muito tempo com aquela Goles nas mãos.
Subiu as escadas que davam acesso à porta dos fundos e o seu braço não parava de lhe incomodar. A pele ao redor da Marca Negra estava vermelha. Andou o mais rápido que conseguiu para não deixar transparecer o seu desespero, dali não sairia algo muito bom.
“Por Merlin. Por Merlin. Por Merlin”, repetiu incansavelmente baixinho antes de encontrar a sala de jantar cheia e com os seus companheiros adultos sentados dispostos em ambos os lados da mesa. Tomou um lugar vazio e tentou relaxar os ombros para não parecer ansioso.
“Recentemente descobri algo que me deixou muitíssimo triste. Perdemos dois companheiros, meus amigos. Nossos queridos Aleto e Amico Carrow nos deixaram há algumas semanas e só hoje lhes contei pois finalmente descobri quem fez isso aos nossos caros amigos”, o Lorde das Trevas disse.
Estremeceu. Um filete de suor gelado desceu pela sua nuca e apertou a varinha com tanta força que se demorasse mais um pouco, sabia que a quebraria e não teria de onde tirar outra. Engoliu a seco e continuou em silêncio.
A sua cadeira deslizou no chão e não demorou muito para ser jogado no centro da mesa, batendo com o nariz no mogno. Lhe arrancou sangue pelo que viu da mancha na madeira. Foi arrastado até o Lorde das Trevas até que ficou suspenso no ar, de cabeça para baixo. Não conseguia mexer a cabeça, mas ouvia alguns rindo do que estava acontecendo.
“Eu deveria matar você, Rodolfo. É tão fraco, tão dispensável. Tão inferior. Não consegue ser metade do que o seu pai foi e Belatriz foi mais que o dobro dos dois juntos. Traidor de sangue, tão traidor quanto o seu irmão e a sua mãe eram. Há quanto tempo não brinco com você, querido amigo. Crucio!”, ouviu.
Algo inundava o seu corpo e parecia que estava queimando de dentro para fora. As suas entranhas se reviravam por dentro e o seu membro se contorcia a ponto de se encolher e esticar depois. A sua cabeça girava e havia barulho, não conseguia respirar. Sentiu um osso quebrando, depois todos os seus ossos.
Então passou. E começou tudo novamente.
Passou. E começou tudo novamente.
Começou tudo novamente.
Tudo novamente.
Novamente.
A sua cabeça bateu na mesa e não tinha forças para sequer abrir os olhos, muito menos respirar. Seria bom que morresse logo de uma vez, não aguentava mais. Quando pensou que lhe seria aplicada algum tipo de misericórdia, sentiu alguém sentando no seu colo e esticando o seu braço, rindo.
“Não sabe há quanto tempo quis fazer isso, Roddy”, ouviu Thorfinn Rowle dizer. Ainda se lembrava da voz do homem. “Uma pequena vingança, do tamanho de Delphini”.
Gritou. Gritou com toda a força que tinha nos pulmões. O seu braço queimava, como nunca havia queimado antes. Mas não era o braço da Marca, era o outro. Continuou gritando, contudo, a dor não passou. Só passaria quando Rowle decidisse que pararia o que estava fazendo com ele.
Não aguentou, só viu escuridão.
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Hermione acordou assustada quando ouviu Leaf latindo. Se virou e correu para a sala principal, tendo uma das piores visões que poderia ter.
Rodolfo estava deitado desajeitado sendo segurado por Blásio Zabini e Draco Malfoy na sala de estar. Estava desacordado, tinha o nariz quebrado e as roupas ensanguentadas.
“Meu Deus, o que aconteceu com ele?”, andou até os rapazes e sinalizou para que ele o colocassem no sofá.
“O Lorde das Trevas se vingou pela morte dos Carrow, Granger”, Blásio disse e levou uma mão aos lábios, horrorizada.
“Não importava o quanto eles fossem inúteis, eles obedeciam”, Draco falou. “Não sabemos ao certo quantas vezes ele foi acertado pela Maldição Cruciatus, mas foram muitas mais do que alguém poderia suportar”.
Se ajoelhou ao lado de Rodolfo e viu como ele parecia... morto. Esticou a mão até o pescoço dele e conseguiu sentir um fio de pulso vindo dele. Encostou a cabeça no braço de Rodolfo e viu a manga rasgada, revelando um ferimento igual ao que teve um dia, mas era outro termo. Traidor de Sangue. Começou a chorar desesperadamente. Tinham feito isso com ele por sua culpa? Ainda não tinha se esquecido que ele tinha matado os Carrow e isso só confirmou agora, com ele totalmente devastado deitado no sofá.
“Me ajudem. Vocês vão leva-lo para o quarto”, falou quando viu os dois carregarem o corpo de Rodolfo lentamente escada acima.
Entraram no quarto e logo Rodolfo foi pousado na cama com a delicadeza de um elefante.
“Você deveria chamar um medibruxo, Granger. Ele parece ter quebrado algumas costelas além do nariz, fora o braço deslocado”, Draco disse.
“Eu cuido disso, Malfoy. Você e Zabini podem ir, eu assumo daqui”.
“Sério, Granger, eu acho que você deveria chamar um medi-”, interrompeu.
“Eu passei quase um ano por aí com Harry e Ron, não me diga que não sei lidar com o que aconteceu com Rodolfo pois eu fiquei aquele tempo todo consertando as maluquices dos dois”, disse em rudeza.
Ouviu os dois indo embora e nem precisou chamar Alef. O elfo apareceu com uma cuba com água morna e depois materializou toalhas de banho fofas. Colocou tudo de um lado da cama.
“Não é muito diferente do que acontecia quando o mestre era jovem, senhora”, o elfo doméstico falou.
“Isso já aconteceu outras vezes?”, não era para se espantar, mas não pode evitar.
“Quando se tem um mestre como o do mestre Rodolfo, coisas assim acontecem”, Alef contou. “Pode levar algumas horas ou alguns dias, mas ele vai acordar. O mestre tem a cabeça forte”.
Se sentou ao lado de Rodolfo na cama e segurou a mão dele ainda chorando. Ele simplesmente não acordava. Tirou as botas que ele usava, a camisa de botões, depois a camiseta de algodão, a calça e por fim as meias. Não era o momento de ficar vermelha como uma jovenzinha, Rodolfo precisava dela. Retirou a roupa de baixo dele e o viu completamente nu e vulnerável. O seu coração se apertou no peito.
Molhando uma toalha na água morna, começou a limpar o corpo de Rodolfo. Parecia idiota fazer isso manualmente já que era uma bruxa e poderia muito bem fazer isso tudo com a varinha, mas parecia que estava realmente cuidando de Rodolfo se fizesse isso desse modo. Tirou todo o sangue do rosto dele e viu o quanto o nariz dele estava inchado, limpou o abdômen vendo manchas roxas do lado direito aonde estavam as suas costelas quebradas. Chegou um pouco mais embaixo e viu que nada havia acontecido ali, estava intimamente intacto. Continuou o trabalho até ter que limpar o ferimento no braço direito de Rodolfo.
Suspirou. O Traidor de Sangue e a Sangue Ruim. O que tinham feito com eles não era humano, não passavam de animais, então? Ficaria ali uma cicatriz igual à sua, permanente e que nunca cicatrizaria de fato, inflamando cada vez mais.
Terminada a limpeza de Rodolfo, conjurou os pijamas dele e o vestiu com a varinha. Consertou o nariz dele, deixando-o normal novamente. Fez um curativo no braço, remendou as costelas e Alef levou algumas poções para que ele tomasse. Não morreria desidratado ou por fome se dependesse o elfo. Assim que a criaturinha saiu, Hermione se deitou cuidadosamente ao lado de Rodolfo na cama, se colocando por cima do braço dele e apoiando a sua cabeça no peito que subia e descia discretamente.
Chorou novamente. Não sabia por que chorava tanto por ele, por um casamento que havia forçado os dois juntos. Apenas sabia que sentiria a falta dele se ele se fosse, percebendo assim que não passava de mais uma vítima desse monstro que duvidava muito que havia sido um homem um dia. Se agarrou ao corpo adormecido de Rodolfo e ali ficou até o dia seguinte. Ele não havia acordado ainda.
Todos os dias Alef ia e fazia a mesma coisa junto dela. Rodolfo estava vivo, só não estava acordado. Tinha medo que ele tivesse ficado com algum tipo de sequela, que tivesse ficado demente por causa do que aconteceu. Começou a dar razão para Draco Malfoy, deveria mesmo ter procurado um medibruxo. Se Rodolfo não fosse o mesmo de antes não se perdoaria nunca.
Estava no banheiro, era manhã e estava sentindo náuseas. A torta de chocolate de Alef nunca havia lhe feito mal e sabia que estava se alimentando de forma horrível desde que Dolfo apareceu quase morto na sala. Isso já fazia duas semanas. Ainda não tinha comido nada e colocou tudo isso e mais para fora. Quando levantou a cabeça, ouviu um gemido de dor vindo do quarto. Foi até a pia, só poderia estar alucinando. Lavou a boca e escovou os dentes. Ouviu um segundo gemido e aqui não poderia ser coincidência. Deixou tudo o que estava fazendo lá e correu com a escova de dentes na mão de volta para o quarto, apenas para ver Rodolfo tentar se levantar sozinho da cama. Se aproximou e se ajoelhou de frente para Rodolfo
“Calma, calma. Você acabou de acordar, claro que não vai conseguir se levantar logo de cara. Como está se sentindo? Você dormiu por duas semanas! Tem ideia de como me deixou preocupada?”, começou a disparar.
“Uma briga de cada vez, Mione”, foi a primeira vez que ele a chamou por um apelido. “Meu corpo dói. Sempre dói. E parece que a minha cabeça vai explodir”, o ouviu bocejando.
“Quem fez isso com você? Quem fez tudo isso com você?”, perguntou.
“O mestre, Thorfinn Rowle, que diferença faz? Por que o meu braço está queimando?”, tentou impedir, mas Rodolfo foi mais rápido e arrancou a bandagem, dando de cara com a cicatriz. Ele não tinha reação, era como se soubesse que aquilo estava lá o tempo todo. “No fundo, é isso que eu sou”, ele deu de ombros.
“Eu não queria que tivesse visto assim”, disse sombria.
“Se tem uma coisa que eu aprendi com você foi que não podemos proteger um ao outro para sempre”, o ouviu dizendo. “O que você tem? Está doente?”
“Só um pouco enjoada, parece que a torta de chocolate de Alef começou a me fazer mal. Você não ouviu nada do que eu disse a você durante esse tempo todo?”
“Ouvi algumas juras de amor enquanto eu estava aqui, mas não tudo”, Rodolfo riu. Ele parecia preocupado.
“Então é sinal de que está alucinando como eu suspeitava. Você precisa comer, Alef vai ficar feliz em trazer um café da manhã completo”, se levantou e beijou o rosto de Rodolfo, aonde a barba estava por fazer. “Nunca mais faça isso comigo, Dolfo”.
(Trail of Tears – Shaman)
Lá vai você, ouvindo vozes e barulhos novamente
Você permanece lá, voltando no tempo aonde tudo começou uma vez
Aí está você, em vão
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