Strada Per L'inferno
56 Um ano
Notas iniciais
Callum estava à frente, cumprimentando alguns convidados. A puta ao seu lado sorria forçadamente, parecendo uma boneca de filmes de terror ao invés de simpática. Ele era bonito, isso era inegável. O queixo era estreito e o rosto, quadrado. O nariz não era nem pequeno nem grande e as sobrancelhas eram grossas na medida. Os cabelos eram de um castanho claro. O sorriso nos lábios finos era falso, e isso era algo que se notava de cara.
Virei a taça de champanhe, pretendendo não passar dessa dose essa noite. Tinha quer estar sóbria, por mais que um pouco de álcool no sangue ajudasse. Fixei em Callum e, por sorte, desviei no momento em que ele se voltou em minha direção. Estava agradecida por não estar mais nos sofás, mas sim na mesa, onde várias pessoas me encobriam de seu olhar.
O que eu menos queria, ou precisava, nesta noite, era de sua atenção.
Ele cumprimentava mesa por mesa, parecendo muito educado; eu tentava observá-lo discretamente enquanto divagava minha atenção em outras coisas aleatórias. Como em uma conversa de políticos e policiais a duas mesas de distância ou em duas putas soltando risinhos como confidentes enquanto seus acompanhantes conversavam. Tentava ao máximo não olhar para a direção da mesa de Aaron. Era difícil, no entanto. Eu me sentia bem confiante antes, mas agora, com Callum ali a metros de distância e um neon escrito "ação" piscando em minha cabeça, era difícil não deixar a ventania tomar conta de meu estômago.
— ... claro, claro, senador Richard. Entendo totalmente.
Meu corpo tencionou ao ouvir essa voz. Era a voz do escritório. Não precisei ouvir outra frase vinda de cima de meu ombro para confirmar. Não poderia ser...? Virei meu pescoço discretamente, como se observasse tudo tediosa, e achei o dono da voz. Era ele. Callum sorria falsamente a um político, ouvindo com atenção o que ele falava. Nem notei que a puta já não estava ao seu lado. Estava chocada com a minha recém-óbvia descoberta.
Callum era o homem do escritório.
Porque, pelas plantas da casa que estudara com Colin, sabia que o lugar que espionara era seu escritório particular. Então a probabilidade de o homem ser ele era grande. Mesmo assim, descobrir que era ele me deixou sem reação por algum tempo, e fiquei encarando-o descaradamente como estava tentando não fazer.
Como estava tentando não fazer para ele virar e me encarar de volta com um sorriso incrivelmente sexy e meticuloso, como fazia agora.
Senti meu estômago afundar. Ele me encarava com curiosidade e diversão, pois eu deveria estar com cara de boba. Tentei me recuperar, sorrindo como uma garota tímida enquanto desviava os olhos. Mas naquele vestido apertado e maquiagem sensual, pendia mais para falsa casta.
Ouvi sua voz se despedir do senador com quem conversava a duas mesas de distância e meu corpo se tencionou de novo. Minha mesa poderia ser a próxima. Estiquei minha mão embaixo da mesa e apertei a toalha, rezando para que não. Quando sua voz soou de novo acima de meus ombros, cumprimentando os homens da mesa de trás, respirei aliviada. Precisava sair dali o mais rápido possível, pois a minha mesa seria a próxima sem dúvidas.
Peguei minha bolsa e me levantei o mais suave e calma que pude. Não olhei em sua direção um momento sequer enquanto andava calma e confiante ao banheiro, mas tinha o palpite que seus olhos me seguiram por um bom tempo. Perguntei-me se Aaron viu isso enquanto entrava no espaço amplo e arejado, todo em mármore e pedras trabalhadas, com sofá e poltronas até. Aproximei-me de uma bancada com espelho e me encarei. Estava um pouco pálida, mas nada gritante graças a minha pele alva.
Abri a bolsa e retirei o blush e o batom. Dei um ar a meu rosto e retoquei meus lábios intactos. Pensei em Aaron e em como fizera a mesma coisa para somente ter o que fazer em sua presença. Sorri de leve sob a coloração sangue/vinho.
— ...odeio isso também!
Meus olhos fitaram duas figuras que entravam no banheiro conversando despreocupadas. Soube de primeira que eram putas. Mas o que só notei depois foi que não eram putas quaisquer.
— Aaron nem me deu bola. Não que eu caia de quatro por ele como outras, mas que eu não reclamaria se esse peixe caísse na minha rede, não reclamaria.
Elas riram e as reconheci com as putas com os meninos. As putas de meu marido. E uma delas estava com o meu marido. Respirei fundo e decidi fingir que ainda passava o batom enquanto, pela segunda vez em uma hora, ouvia a conversa dos outros.
— Ele tá de quatro pela mulherzinha. Você viu aquele dia que ele a levou lá.
— É... Não reparei muito nela, mas achei que ela fosse mais. Sei lá. Muito sem sal. Pensei que seria a Mulher Maravilha para conseguir domá-lo.
As duas riram e apertei o batom em minha mão. Depois teria uma boa conversa com Aaron sobre como ele deveria passar a tratar suas empregadas daqui para frente. De preferência, com uma distância segura de dez metros. Elas falaram sobre outras coisas, como Zack e a amiguinha puta delas flertando descaradamente. Arrumei-me rapidamente só para ter a certeza de que nada estava fora do lugar e saí do banheiro perdida em meus pensamentos. Se uma daquelas piranhas tentasse envolver meu marido em seus dentinhos afiados e traiçoeiros, eu...
Meu corpo se chocou contra algo sólido e maior e perdi o equilíbrio sobre os saltos. Mãos fortes me agarraram pelas costas e cintura, e, instintivamente, larguei minha bolsa e agarrei seus braços. Respirava rápido, assim como as batidas de meu coração aumentaram. Levantei os olhos para olhar o homem que me salvara e ganhei um motivo mais consistente para estar assustada.
Callum sorria galanteador e divertido, reprimindo uma risada.
— Você está bem?
Soltei-me gentilmente de suas mãos, uma delas a centímetros de minha bunda. Sorri forçada, esperando que assim não parecesse, balançando minha cabeça afirmativamente a sua pergunta.
— Diria para tomar cuidado se não fosse tão bonita e tivesse sido um prazer segurá-la.
— Me desculpe. — sorri mais relaxada. — Eu estava distraída.
— Entendo, senhorita...
— Ava Wilde.
— Ava Wilde. — repetiu meu nome, sorrindo um pouco mais.
Ele saboreava meu nome, assim como seus olhos passeavam por meu corpo distraída e atentamente. Para desviar de sua falta discrição, fiz menção de pegar minha bolsa. Mas ele me impediu, segurando gentilmente em meu pulso. Sorrindo cavalheiro, pegou a bolsa para mim.
— Obrigada.
— Não achava que seria educado de minha parte permitir que se abaixasse. Ainda mais nesse vestido.
Apertei a bolsa em minhas mãos, sorrindo de volta. Não queria entrar em seu joguinho, mas uma vez que ele estava jogando, ou eu entrava, ou era massacrada viva.
— Bom, eu adoraria conversar mais, senhorita Ava, mas eu realmente preciso falar com os outros convidados.
— Entendo. E por favor, só Ava.
— Se assim deseja, Ava.
Retribuí seu sorriso insinuante. Ele pegou minha mão e passou-a entre a sua, sentindo-a antes de plantar um longo beijo no dorso.
— E antes que eu me esqueça, meu nome é Callum. Callum Madox.
— Eu sei, senhor Madox.
— Callum. Só Callum.
— Callum. — mastiguei seu nome como ele fez com o meu.
Arranquei um último sorriso dele antes de nos afastarmos, eu de volta a minha mesa, e ele de volta ao seu papel de anfitrião. Tinha prometido não tomar mais nada naquela noite, mas não resisti quando um garçom passou com uma bandeja de champanhe. Peguei uma taça e me retirei para a sacada, passando reto por minha mesa, e bem longe da de Aaron, de onde vi seu olhar fulminante ser dirigido a mim. Apoiei minha bolsa na sacada e tomei um generoso gole de champanhe. Ali não havia câmeras, mas poucas pessoas ao redor, então me dei ao luxo de respirar fora da personagem.
Quem era aquela mulher na sala com Callum? Por que, voltando a analisar a cena e ouvir suas vozes em minha cabeça, pensava que a voz dela não era tão desconhecida assim? Por que diabos Callum tinha que ser tão sedutor, fazendo-me esquecer por alguns segundos as náuseas que ele provocava em mim só pelas histórias que ouvi? E, finamente, por que Aaron tinha que ser um idiota e não me deixar participar mais ativamente de sua vida, levando-me ao ponto de me meter numa enrascada que tinha certeza que não estava preparada para lidar?
— Sempre pensando molto, piccola Lane...
Virei a cabeça, assustada.
POV Aaron
Cerrei os punhos por baixo da mesa e tentei não fazer o mesmo com o meu maxilar. Lane e Callum conversando. Lane e Callum trocando sorrisinhos. O filho da puta do cara que eu mais odiava tocando na minha mulher, e ela deixando. E eu assistindo a tudo de camarote, do outro lado do salão, sem poder enfiar uma bala na testa dele. Ou talvez dos dois. Pois essa história de Lane querer se impor ainda não me descia bem.
— Cara, relaxa. Ela só está encenando. Ela não está flertando de verdade com aquele filho da puta.
— Ela é uma boa atriz. — Colin comentou, olhando quando ela sorriu ao beijo que aquele maldito deu em sua mão.
Eu me certificaria que ela esfregasse bem aquela mão depois, até sair sangue se fosse preciso. Não queria nenhum vestígio daquele cara no corpo da minha garota. Nem a maldita digital.
— Cala a boca, Colin. Antes que a minha vontade de acabar com ele se volte a você.
Ele nada disse, mas sorriu satisfeito ao terminar sua bebida. Ele vivia para me atormentar. Lane se afastou do bastardo, e minha vontade foi de correr até ela e pegar com força em seu braço, fazendo-a chorar antes mesmo de começar a questioná-la que merda eles tinham conversado.
— Aí, cara, já acabou. Ela foi bem. Ela mandou bem. O cara acreditou nela.
— Ele se amarrou nela. — Zack corrigiu.
Dylan o fuzilou e eu cerrei ainda mais os punhos, acompanhando-a com o olhar. Ela não voltou a sua mesa. Pelo contrário. Foi para a varanda com mais uma taça de champanhe, evitando olhar para o meu lado do salão. Ela sabia que eu pensava em mil e um jeitos de torturá-la enquanto não desgrudava os olhos dela. Porra, ela tinha que estar tão gostosa? Aquele desgraçado a devorou com os olhos. Devorou seus peitos. Os meus peitos. Só de pensar em ele a tocando, só de pensar nas coisas sujas que ele provavelmente imaginou fazendo com ela, queria sair atirando em todos ali.
Lane era minha. Seu corpo era meu. Só eu a havia tocado e assim seria até ela morrer. O que, convenhamos, podia não estar muito longe de acontecer.
Pensei em levantar e segui-la, mas vi uma movimentação estranha. As pessoas que estavam na sacada saíram praticamente uma por uma e outras entraram. Homens e uma mulher só. Cinco. Todos muitos sérios, apesar de tentarem relaxar com suas... Águas na mão? Olhei para a mesa de Dom Mantovani e só Antenore estava ali, conversando com o oficial de polícia da cidade. Comprimi os lábios, encostando-me a cadeira e tentando relaxar. Não adiantaria de nada ir até lá. Mantovani estava com ela. Sem contar que foderia com tudo. Pois Callum havia sumido um dos corredores labirintos da casa, mas seus olhos continuavam por ali em toda parte. Exceto na parte externa e onde o chefe da máfia italiana estava.
As garotas voltaram do banheiro sorridentes, mas logo se contiveram quando viram a minha expressão. Cindy sentou-se ao meu lado como se eu fosse mordê-la a qualquer momento. Eu poderia morder a qualquer momento, mas não seria ela. Virei o resto de bebida no meu copo e acenei a um garçom para vir encher, e meus olhos se desgrudaram daquela porta enquanto minha mente ainda imaginava o que eles poderiam estar conversando.
POV Lane
Dom Mantovani sorria sereno para mim, do jeito terno que sempre fizera. Sempre tive um apreço por Dom Mantovani. Ele sempre fora bom conosco, não só com meus pais, mas comigo e com minha irmã também. Por vezes, ele foi até mais amoroso que meu pai. Nunca o vira como um homem intimamente, nem agora que sabia que ele era chefe da máfia.
Quase me peguei sorrindo afetuosa de volta, mas lembrei que ali não era a Itália e não estávamos em minha ou sua casa, mas sim na mansão do homem que mais odiava meu marido, do outro lado do Atlântico.
— O senhor me assustou. — levei a mão ao peito, rindo com sinceridade e esforço. — Mas deve ter me contundido com alguém.
— Não precisa fingir, Lane. Só há homens meus por aqui e não há câmeras. Podemos conversa calmamente.
Engoli em seco, olhando para seus olhos sinceros e calmos. Sempre calmos. Gostava deles. Não só pela sensação calma e carinhosa que transmitiam, mas porque lembravam os meus. Eram azuis também, apesar de mais escuros, e não puxados para o verde.
Don Mantovani não era velho. Ele deveria estar próximo dos sessenta, assim como babbo. Mas ele não possuía uma barriga enorme ou barba branca. Nem ele, nem babbo. Os dois eram o que se chamaria por aqui de "coroas gatos". Ele tinha traços fortes que impunham respeito e até medo, se eu não tivesse crescido ouvindo seus elogios e gestos brandos.
— Está tudo bem com você, Lane?
Voltei a realidade e levantei a cabeça. Ele esperava pacientemente minha resposta. Podia ser sincera ou mentir, mas sentia que, se escolhesse a segunda opção, ele saberia. Nunca percebera antes, mas agora que tudo era claro para mim, Dom Mantovani era um ótimo intérprete. Por isso sempre sabia quando mentíamos sobre quem roubara um pedaço de bolo antes do jantar.
Balancei a cabeça a sua resposta e peguei o champanhe, tomando mais um gole em sua frente sem me importar com a possível repreensão, que não veio.
— O que há de errado?
— Quer mesmo que eu comece a listar? — ri pelo nariz.
Ele sorriu de lado, olhando para frente. Imitei-o. Eu fora um pouco hostil e sarcástica como...
— Esse menino realmente está te mudando.
— Bom, não seria estranho, uma vez que somos casados e nos vemos todos os dias.
Mais uma vez, estava agindo como Aaron. Ele riu com sinceridade.
— Sim, sim. Estranho seria se nada tivesse mudado.
O silêncio pairou por alguns instantes enquanto encarávamos os pântanos que cercavam a mansão. Nova Orleans era uma cidade pantanosa, agraciada e amaldiçoada pelo Rio Mississippi. Portanto, não era estranho vistas como essa.
— Aaron não é mau ou grosso sempre. Ele só é difícil. Mas eu sei lidar com isso. Agora eu sei.
— Ele já chegou a te machucar?
Mordi o lábio. Não respondi de imediato, mas Dom Mantovani não tomou meu silêncio como uma confirmação.
— Ele sempre me machuca, mas é porque ele não sabe lidar com a situação.
— Que situação?
— A de ter alguém se importando com ele de novo.
Dom Mantovani suspirou, olhando para a paisagem de novo.
— Você gosta desse rapaz, pelo que vejo.
— Sim. Mesmo com todos os defeitos, ele pode ser descente. E ele também foi a primeira pessoa que abriu os meus olhos para o que me cercava. — acrescentei com certo amargor.
— Seu pai só desejava protegê-la. — rebateu calmo, parecendo não se ofender. — Todos nós, na verdade. É um mundo muito sujo para crianças crescerem.
— Eu já não era nenhuma criança quando casei com Aaron e ele me contou tudo.
— Seria um choque para você. Ninguém sabia como contar.
— Então decidiram que me casar com um estranho e deixar essa tarefa para ele era o melhor? — arqueei a sobrancelha.
— O acordo era que Aaron não contaria nada.
— Então eu permaneceria o resto da minha vida casada com ele e eu não notaria que ele é um mafioso?
Dom Mantovani balançou a cabeça, parecendo chateado. Ele me olhou e, desta vez, havia compaixão e pena.
— Ele não te contou, Lane?
— Me contou o que?
— O casamento de vocês acaba dentro de um mês. A papelada que você assinou, achando que era os papéis de casamento, era um contrato de um ano.
Minha boca abriu, mas nada saía dela. Encarava Don Mantovani sem acreditar. Não poderia ser verdade. Dei alguns passos para trás. Minha mão esbarrou na taça de champanhe e a mesma caiu em meus pés, molhando minhas sandálias e enchendo o chão de cacos pequenos.
— Isso é mentira. — sussurrei, segurando-me na sacada.
— Você se machucou? – perguntou preocupado.
Balancei a cabeça, engolindo em seco.
—Me diz que isso, esse... absurdo, é mentira.
Dom Mantovani suspirou, fechando os olhos.
— Não, não é, piccola Lane.
E seu tom e olhos eram tão firmes que eu acreditei nele. Fechei os olhos e apertei minha bolsa na sacada. O vento batia em meus pés molhados, mas a única coisa em que eu focava era a mais primordial e necessária que o ser humano sabe fazer: respirar.
— Que contrato é esse? Quais os termos dele?
Dom Mantovani suspirou e eu abri os olhos felinos para ele.
— É delicado, piccola. Seu casamento foi, digamos, uma garantia para o bom cumprimento do contrato.
— E nele Aaron poderia fazer o que quisesse comigo?
Minha voz pingava amargor e decepção. Meu próprio pai e meu tio de consideração me entregando de bandeja ao perigoso desconhecido. Minha própria família me traindo.
— Não. Seu pai e eu tomamos todos os cuidados para que você fosse preservada e que nada acontecesse sem seu consentimento. Caso sim, o contrato seria rompido.
— Então ele não podia me tocar a não ser que eu quisesse, mas podia jogar toda a minha história sórdida e desconhecida em minha cara como uma bomba?
— Não, não. Caso isso acontecesse, o contrato seria rompido. Ele não podia tocar no assunto, a não ser que você descobrisse tudo antes. O que, infelizmente, sabemos que assim foi.
A cena de Aaron jogando em minha cara a verdadeira identidade de minha família passou rápido em minha cabeça. Não me parecia que eu sabia nada mais que eu fora enganada por, até então, aquele desconhecido que chamava de marido. Mas nada disse, apenas comprimi os lábios. Voltei-me às árvores brejeiras, ouvindo os sons dos sapos e vendo os vagalumes sem realmente ouvir ou ver aquilo. Minha cabeça estava a milhas dali, revendo cada pedaço de meu passado recente para pegar alguma ponta sem nó que pudesse denunciar a mais nova facada que levara pelas costas.
Aaron era um bom ator, concluí. Nunca disse nada ou mostrou que nosso casamento era mais do que somente arranjado.
A não ser quando eu...
— Me rendo, me rendo!
Ri alto quando ele finalmente conseguiu me pegar e me jogar na cama. Ele estava em cima de mim e fazia cócegas em minha barriga.
Seu humor estava ótimo naquele dia. O trabalho deveria ter sido bom, apesar de não ter perguntado. Nunca perguntava. E mesmo que sim, não teria tempo para isso, pois ele mal chegou e já estava tentando transar comigo no balcão da cozinha. Eu estava cozinhando, não queria bagunça. Nem possíveis vestígios que levassem Agustina a me dirigir aqueles olhares insinuantes de novo. A única saída para suas investidas foi correr, dando início a um jogo de gato e rato pela casa. Jogo esse que ele acabou de ganhar, pegando-me no quarto de hóspedes e me jogando na cama.
— Para, para! Por favor! — pedi aos risos, sem fôlego.
— Só se você disser as palavras mágicas.
— Por favor!
— Não.
— Aaron! — choraminguei numa espécie de riso.
— Diga: me solta, Aaron lindo e gostoso que me faz gozar chorando de felicidade no seu pau mágico.
— Eu não vou dizer isso! — balancei a cabeça.
Um sorriso malicioso se abriu mais e ele voltou com as cócegas.
— Okay, okay! Me solta, Aaron lindo e gostoso.
— Que..?
— Que me enche de cócegas.
— Resposta errada. Última chance, amore mio.
— QUE ME FAZ GOZAR CHORANDO DE FELICIDADE NO SEU PAU MÁGICO!
Ele caiu na gargalhada, soltando-me e caindo ao meu lado. Meu peito subia e descia freneticamente e minha respiração soava como um motor. Virei a cabeça e o vi se acabando de rir. Sorri de lado, revirando os olhos e me voltando ao teto para me recuperar antes de sentir seus beijos em meu pescoço, atordoando-me.
— Preciso te fazer falar mais obscenidades. Te ver gritando essas coisas sujas com o rosto queimando é excitante e engraçado pra caralho.
— Engraçadinho. — mostrei a língua para ele.
Ele sorriu, puxando-me para cima dele e me beijando antes de me dar a chance de recuperar todo o fôlego. Suspirei, sentindo suas mãos apertando minha bunda contra o seu corpo enquanto as minhas passeavam em seus cabelos. Caí com o rosto na curvatura de seu pescoço, ofegando tão alto quanto antes.
— A gente nunca transou nesse quarto. — ele observou após alguns minutos.
— Meu Deus... — murmurei, sentindo meu rosto corar.
Ele riu, fazendo um carinho distraído em minha bunda.
— É a verdade... A gente precisa começar a correr e batizar os cômodos dessa casa.
— Por que correr? Vamos nos mudar? — brinquei, levantando o rosto e rindo fraco.
Ele sorriu, mas não era mais sincero. E seus olhos... Nublados. Escondendo algo de mim.
— Não. Você vai. Aquele cara que assaltou a casa daquela vez vai voltar e te sequestrar. Você vai passar a viver num galpão minúsculo longe daqui. E ele vai te torturar. Muito.
— Hm, é? E onde meu maridinho estará para não impedir essa atrocidade? — sorri, erguendo a sobrancelha e entrando em sua brincadeira.
— Trabalhando. Ele vai chegar em casa e ficar arrasado por não te achar. Vai colocar a cidade toda atrás da sua boceta, só imaginando o que aquele maníaco pode estar fazendo com ela.
— Aaron!
Ele voltou a rir alto enquanto afundava a cabeça na curvatura de seu pescoço de novo.
— Lane?
— O quê? — perguntei abafado e fingindo estar brava.
— Eu vou sentir sua falta.
Levantei a cabeça e ele me olhava sério. Minha cabeça pendeu para o lado enquanto ele afastava meu cabelo para trás e acariciava minha nuca e rosto.
— Vai sentir minha falta? — perguntei calma, analisando sua face.
Ele parecia triste, entalado com algo. Seus olhos, intensos quando proferiram as palavras, fugiam dos meus.
— Aham. Vou sentir falta da sua boceta e dos seus peitos que estarão sendo usados por aquele tarado.
Abri a boca, incrédula, e ele levantou os olhos, sorrindo maroto. Eu estava acreditando em sua encenação. Ele começou a rir de minha feição e eu tentei sair de cima dele, fingindo-me de brava.
— Não, Lane. Fica. A gente tem que batizar esse quarto antes de você ser sequestrada.
Ele me puxou pela cintura e me jogou de volta na cama, ficando de quatro em cima de mim. Começou a distribuir vários beijos por minha face enquanto eu tentava empurrá-lo com um bico no rosto. Ele me olhou e riu, colando sua boca à minha. Tentei fugir, mas a carne é fraca e logo retribuía com paixão e calma seu beijo.
— Sabia que você fica uma gracinha emburrada?
Ele voltou a rir enquanto eu empurrava de leve seu ombro, murmurando um "idiota" com um sorriso nos lábios.
— O idiota que te faz gozar chorando de felicidade no pau mágico dele.
E me beijou, rindo de novo sobre meu bico/sorriso.
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