Strada Per L'inferno
8 Marido e mulher
Notas iniciais
Depois de me despedir de meu quarto, despedi-me brevemente de minha casa. Não me deixaram ir até o bosque despedir-me também, pois “sujaria o vestido”. Após minhas despedidas de meu lar, na sala foi acrescentado o ultimo detalhe para considerar-me oficialmente pronta: o véu. Era enorme, dois metros e meio de comprimento, e era preso pela tiara. Babbo, que bancara tudo por orgulho e pelo ditado “o pai da noiva que arca com tudo”, alugara um carro antigo para levar-me até a igreja. Eu entrei neste, enquanto minha sorella e mamma foram em outro carro logo atrás, seguido de outro com as amigas de mamma. Durante todo o caminho, fui rezando baixinho em italiano, pedindo que, já que não conseguira impedir este casamento, ele pudesse ao menos ser sucedido.
O carro, em pouco tempo, foi se aproximando da capela. Era pequenina e era a mais bonita e apropriada em meu vilarejo para casamentos. Num estilo totalmente renascentista, desde pequena minha ideia era casar ali mesmo. Porém não nessas circunstancias e com este homem, obviamente. Para poder entrar na igreja havia alguns lances de degraus, e no meio desses lances, meu pai já aguardava minha chegada. Assim que ele me viu através do vidro do carro, abriu um sorriso carinhoso e grande que me confortavam desde que era uma garotinha.
–Sei belíssima, figlia! – Ele elogiou-me ao abrir a porta do carro e ajudar-me a sair do carro.
–Grazie babbo – Agradeci-o com um sorriso tímido.
Mamma e Grace saíram do carro de trás, enquanto as amigas de mamma saíram do outro e entraram direto na igreja, vindo a minha direção para ajeitar o vestido, o véu e a mim mesma antes de minha entrada na igreja, que teve a porta fechada logo após a passagem da última amiga de minha mãe para o interior. Depois de poucos alisamentos em meu vestido e véu, e passadas de mão em meus cabelos e rosto, eu estava pronta. Ao menos superficialmente. Por dentro, milhares de vozes culminavam em minha cabeça, pedindo que corresse o mais rápido que minhas pernas me permitissem. Mas tanto as vozes quanto eu sabíamos que isso não era uma possibilidade.
–Il mio piccolo Lane! – Mamma botou as mãos no rosto, admirando-me emocionada.
Uma lágrima escorreu de seus olhos e eu limpei-a enquanto traçava caminho pela sua bochecha.
–Niente da piangere, mamma, ricordi? – Olhei-a com um sorriso triste.
Ela assentiu com a cabeça, fechando os olhos e balançando a cabeça. Ela voltou a abrir seus olhos e deu-me um beijo no topo da cabeça, segurando-a, e deu-me as costas para entrar na igreja apressadamente antes que se debulhasse em lágrimas. Minha irmã se aproximou de mim e pegou minhas mãos, olhando-me.
–É agora que você vai me deixar... – Ela brincou, tentando descontrair um pouco, com um sorriso brincalhão de tristeza nos lábios.
–Mai – Neguei-a, sorrindo triste.
Ela abraçou-me forte, sem se importar se amassaria o meu ou o seu vestido. Eu agarrei-a também forte, sabendo que não poderia mais acorda-la todas as manhãs que ela permanecesse até mais das onze na cama. Ela se apartou de mim e ambas estávamos emocionadas, mas nenhuma chorou. Era o trato: nada de borrar a maquiagem.
Grace era minha dama de honra, então ela ajudou-me a desamassar meu vestido, que amassara um pouco com o abraço, e fez o mesmo com o seu. Em seguida, ela ajeitou minha cauda e meu véu, pegando o seu boque e o meu no carro. O meu era de rosas vermelhas e o de Grace era de rosas brancas, ambos fazendo contrate com as cores de nossos vestidos. Sorri a ela uma última vez, antes dela se postar a minha frente para a entrada na igreja.
Babbo se posicionou ao meu lado, enquanto as portas da igreja se abriam e o casal de crianças, filhos de amigos de meus pais, que já estavam no topo das escadarias e entravam na igreja aos primeiros sons da marcha nupcial. Eram uma garotinha e um garotinho, ambos não muito crescidos, que vestiam um vestidinho rosa claro e um terno e entravam jogando pétalas de rosas e levavam uma almofadinha turquesa com as alianças, respectivamente. As crianças completaram seu trajeto dentro da igreja com rapidez, e Grace, que já subira os degraus, caminhou para a entrada da igreja, agraciando a todos com seu sorriso que demostrava uma felicidade que eu e ela sabíamos não ser tão grande assim. A próxima a entrar seria eu, e isso me deixava com borboletas de inseguranças no estomago.
–Nervosa? – Babbo olhou-me, questionando-me com um sorriso.
–Muito, babbo – Confirmei a ele, olhando-o insegura.
–Não fique – Ele pediu – Henry é um ótimo rapaz.
Eu sorri fraco e virei-me novamente para frente. Queria acreditar com todas as minhas forças no que meu pai acabara de me dizer. Mas algo em mim repelia essa ideia.
Minha entrada na igreja então chegou. Babbo estendeu seu braço e eu encaixei o meu ao dele. Respirei fundo e tentei abrir o sorriso o mais sincero que podia. Subimos lentamente os degraus e em pouco pude ter visão plena do interior da igreja e de todos dentro dela. Todos os olhares eram voltados, sem exceção, a mim, o que não me ajudava muito quanto a minha insegurança e vontade de fugi dali. Tentei abrir mais meu sorriso, achando não estar convincente o suficiente, e caminhei em passo lento para o interior da capela. Esta, como dissera, era pequenina, para no máximo 200 pessoas. Ali tinha, porém, havia cerca de cem convidados.
E enquanto todos me olhavam entrar gloriosa, ou como eles pensavam eu estar, meus olhos só podiam focar uma pessoa. Henry sorria, mas o seu sorriso clichê frio. Eu bem que preverá isso, porém isso não significava que não dava importância a minha previsão estar certa. Era o dia de nosso casamento, e o mínimo que ele poderia fazer era ter a decência de ao menos tentar se esforçar a aparentar alegria. Porém aí que morava o problema: a todos, o sorriso dele era aquele típico sorriso abobado de um noivo quando vê sua amada entrar na igreja. Parecia que somente a mim aquele sorriso não era bem isso. Passei o percurso da entrada ao altar inteiro fixando Henry no altar, e quando meu pai parou, parei junto, só então dando conta de que já não poderia mais andar. O altar estava diante de mim, assim como Henry.
Babbo olhou-me com um sorriso feliz e olhos doces, antes de dar-me um beijo no topo de minha cabeça. Ele virou-se a Henry, apertando a mão do mesmo e sussurrando algumas palavras perto de seu ouvido que não pude ouvir. Henry respondeu-o, também em sussurros que não pude ouvir, com seu sorriso marca no rosto e babbo entregou-me a Henry, que abriu mais seu sorriso frio a mim, embrulhando-me o estomago. Ele curvou-se ligeiramente, beijando minha mão demoradamente sem tirar os olhos de minha face, que o observava. Ele pegou minha mão com leveza e subiu comigo os dois degraus do altar.
–Está linda, minha cara – Ele cochichou a mim enquanto todos se sentavam para o inicio da cerimonia. Fechei os olhos, prendendo o ar em meus pulmões.
Assim, a cerimonia começou. Não prestei muita atenção ao que o padre falava, pois mergulhara em pensamentos, assim como acredito que Henry tenha feito. Porém pude ouvir algumas palavras como “il vero amore” e “l'unione di due anime che sono nati gli uni agli altri”, que me deixavam em dúvida se deveria interromper o padre para dize-lo como estava errado ou se deveria rir sarcástica de como aquilo em nada se encaixava no meu casamento. Quando o padre disse “se qualcuno qui è contro questo matrimonio, pronunciarsi ora o taci per sempre”, confesso que torcia para que alguma alma naquela capela se pronunciasse e salvasse-me de meu destino quase certo. Porém isso não ocorreu, fazendo-me crer que muito, pouco, a partir dali, poderia ser feito a para dar o fim que desejava aquela cerimonia.
–Lane Aurora Giordano, accetta di sposare Henry Louis Smith? – Padre perguntou, tirando-me de meus devaneios.
Eu olhei para Henry. Ele tinha uma expressão calma, tranquila. Como se soubesse que eu iria aceitar de qualquer maneira, e que sendo assim, já era sua esposa. Olhei para meus pais, sentados na primeira fila do lado direito. Eles, com o resto da igreja, com exceção de Henry, tinham uma expressão de ansiedade e alegria misturadas. Olhei também para Grace, que ao lado de Henry, tinha uma expressão mais ansiosa pelo que responderia do que alegre por estar me casando. Voltei a mirar Henry e este abriu mais seu sorriso, confirmando a mim que ele sabia que aceitaria. Eu não tinha saída: não poderia desapontar meus pais e ver suas expressões, que mais do que de todos, eram alegres, irem-se embora. Eu era a boa filha, a filha obediente, que nunca os desapontaria se pudesse evitar. E esse deveria ser o principal motivo, acredito, para Henry crer que eu seria sua em pouco.
–Sì – Respondi após um profundo suspiro.
Todos na capela respiraram aliviados, aumentando seus sorrisos contentes e dispersando a preocupação. Henry sorriu satisfeito, vitorioso eu até diria.
–Henry Louis Smith, accetta di sposare Lane Aurora Giordano? – O padre se voltou a Henry.
–Sì – Henry nem hesitou antes de aceitar.
O garotinho que segurava a almofada com as alianças veio à frente. Ele se posicionou na frente de nós, de costas ao corredor da igreja, estendendo a almofada a ambos. Na almofada, duas alianças de ouro se encontravam uma ao lado da outra. Nada fora do padrão, bem tradicional, na verdade. Eu peguei a maior, a de Henry, e botei em seu dedo anelar esquerdo, pronunciando as palavras que o padre ditava a mim. Ele pegou a minha e botou delicadamente em meu dedo anelar esquerdo, sorrindo vitoriosamente frio ao pronunciar as mesmas palavras que eu pronunciara e que, agora, o padre ditava a ele.
–Vi dichiaro marito e moglie. Allora si può baciare la sposa – Anunciou o padre.
Henry puxou-me pela cintura, um pouco rápido demais, a seu encontro. Ele grudou meu corpo ao dele e encostou seus lábios nos meus tão repentinamente que ainda processava o que o padre falara. Henry possuía um hálito de menta refrescante, muito bom digamos a parte. A voracidade e pressa com que Henry me pegara, culminaram em um beijo de língua voraz. Sua língua não estava de brincadeira com a minha, e ele explorava sem pudor cada milímetro de minha boca. Era bom, apesar de apressado, ele beijava bem. Aquilo me surpreendeu em muito, pois esperava que recebesse no máximo um selinho demorado.
Ele desgrudou-se de mim, tão rápido quando grudou, e surpreendeu-me de novo. Ainda meio tonta por sua separação rápida, e mais ainda pelo efeito de seu beijo em mim, nós nos voltamos a uma capela em ebulição de alegria. Mamma tinha lágrimas no rosto, assim como minha avó e algumas tias mais próximas. Grace olhava-nos com o maior sorriso que poderia ter, e dessa vez sabia ser sincero. Por mais que ela estivesse triste por minha saída de casa, ela queria tanto quanto a mim que me sucedesse bem no casamento. Babbo, porém, era o mais alegre e orgulhoso dali. Poderia ser duro deixar sua menina ir para os braços de outro cara, mas ele aparentava estar bem feliz pelo que o futuro reservava-me a partir dali. No fim, todos sorriam e comemoravam.
Desviei minha atenção de toda aquela comemoração e foquei em Henry. Ele tinha seu sorriso frio, mas vitorioso, no rosto. Além de marcas de batom borradas perto dos lábios. Involuntariamente, levantei minha mão, esfregando o polegar em seu rosto para as marcas saírem. Ele olhou-me surpreso e duro, mas como percebeu que todos nos notavam, suavizou seu olhar e quase pude crer que a doçura e carinho neles por mim eram verdadeiros. Abaixei minha mão, após tirar as marcas de seu rosto, assim como o olhar. Quando voltei a subi-lo, direcionei-o para toda a igreja, forçando um sorriso feliz.
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