Strada Per L'inferno
61 Guerra Fria
Notas iniciais
Aaron abaixou a arma, mas meus olhos não paravam de alternar entre meus parentes na porta. Babbo parecia calmo, ainda que seu maxilar parecesse travado ao me ver com uma camiseta maior do que o meu tamanho e meu marido sem uma. Já mamma e Grace pareciam chocadas com o conjunto da obra.
— Desculpa, chefe. Não estava conseguindo falar contigo para avisar da chegada deles, e como você me disse que a passagem do senhor Antenore era liberada...
— Na próxima, vem na frente e me avisa — bufou, e Alfredo concordou com a cabeça. — Pode ir.
Ele se virou e saiu fechando a porta. Levantamo-nos, Aaron pousando a arma em cima da mesa, e eu me voltando constrangida para minha família. Mamma e Grace também não pareciam confortáveis, dando olhares de relance a Aaron. Não sabia se era pelo fato de uma arma estar em suas mãos segundos atrás ou de sua camiseta estar em meu corpo, mostrando todos os seus atributos e machucados.
— O que vocês fazem aqui? Não íamos nos ver à noite no restaurante?
— É assim que recebe a sua familia, Lane? — babbo perguntou com a sobrancelha arqueada.
Pelo seu olhar que desceu por meu corpo, tinha certeza de que não se referia só às minhas palavras.
— Quando ela chega de supetão na casa dos outros, é. — Aaron deu de ombros.
Virei-me para ele, matando-o com os olhos. A parte feminina da minha família não esperava aquela resposta, já a parte masculina abriu um sorriso falso, que foi retribuído.
— Estamos atrapalhando, querida? — mamãe perguntou hesitante.
Seus olhos estavam em nossas roupas. Na falta delas também. Neguei com um aceno, cruzando os braços para me abraçar.
— Não, mamma. De jeito nenhum.
Ela forçou um sorriso, assentindo.
— Certeza, figlia? — meu pai provocou.
Sabia que não era para mim, e sim para Aaron; para ver como ele reagiria. E foi exatamente do jeito que babbo esperava.
— Na verdade, estão. Mas você não vai gostar de saber o que seria.
— Aaron! — suspirei, olhando-o suplicante.
— Aaron? Não era Henry? — Grace perguntou confusa.
Escondi meu rosto nas mãos, expirando com força. Quando voltei a olhar para as pessoas na sala, foi com raiva e cansaço.
— Vocês podem esperar aqui na sala alguns minutos enquanto eu converso com meu marido lá em cima?
— O que está acontecendo, Lane? — mamma perguntou preocupada.
— Mamma, por favor. Eu já explico tudo, só... cinco minutos. Agustina irá serví-los com café, água, qualquer coisa que queiram.
Ela concordou a contragosto, e eles se viraram, indo até os sofás. Olhei para Aaron e ele me seguiu, pegando a arma, até a cozinha. Notei que eles repararam no acessório nas mãos de meu marido e Grace e minha mãe estremeceram. Pedi para Agustina ir até a sala antes de subir até o quarto com Aaron logo atrás. Ele quis se certificar que o escritório estava trancado antes de subir.
Entrei no quarto e ele fechou a porta logo atrás. Passava minhas mãos no cabelo, andando em círculos no meio do cômodo.
— O que a gente vai fazer agora?
— Contar a verdade. — deu de ombros, entrando no closet.
Segui-o e o vi escolher uma camiseta e a vestir despreocupadamente.
— Você está falando sério? Aaron, minha mãe e Grace vão pirar. E meu pai vai adorar. Você e ele tem essa implicância...
— Lane, sua mãe não é boba como você pensa. Aposto que ela já deve desconfiar de mim desde o casamento, só nunca falou. Já sua irmã... É, ela vai surtar, mas supera. Você superou. E eu não tenho implicância com seu pai. Só não gosto e não confio nele, e ele a mesma coisa comigo. Ponto.
— Mas têm um contrato juntos — murmurei, virando de costas e seguindo para o banheiro.
— O que você disse? — elevou a voz.
— Que você diz não gostar de meu pai, mas se meteu em negócios com ele. Me meteu no meio dos seus negócios com ele.
Aaron entrou no banheiro e arqueou a sobrancelha para mim. Bufei e terminei meu coque, entrando no boxe. Ele se encostou ao batente da porta.
— Eu não preciso ser amiguinho de ninguém para fazer negócios. Ninguém é amiguinho de ninguém nesse mundo, Lane, a maioria daria um tiro na testa do outro se pudesse. E o resto, nas costas mesmo.
— Okay, Aaron. Entendi. — suspirei, deixando a água morna cair em mim.
Não se passou nem um minuto antes de vê-lo morder os lábios e me encarar com tudo, menos boas intenções.
— Sabe que minha vontade é de entrar aí agora mesmo e fazer sua família inteira saber o que a gente faz de melhor, não?
— Brigar? — levantei as sobrancelhas.
— Foder. — sorriu cafajeste.
Revirei os olhos e virei de costas.
— Péssima escolha. Agora não saio mesmo daqui.
— Você poderia parar um minuto de pensar em sexo? Aaron, a gente acabou de transar no seu escritório. Ainda estava sentindo suas mãos no meu corpo quando meus pais me viram com sua camiseta no meio da sala, toda suada e descabelada. Eu estou pirando e você não está ajudando.
— Desculpa se eu tenho mais com o que me preocupar do que sua família saber de algo que está na cara.
— Meu Deus, Aaron! Uma vez, me ajuda!
Peguei minha toalha e saí do box. Ele se aproximou e puxou a toalha de mim. Olhei-o furiosa e ele me envolveu na mesma, trazendo-me para perto e apertando minha bunda.
— Minha cabeça está estourando também, Lane. Acabei de ganhar um presentinho que, além de prejudicar meus planos, tinha duas mensagens bem claras. E uma delas dizia a respeito de você. Eu tô cansado e dolorido pra caralho. Mas eu tô aqui contigo indo ver a porra da sua família que, se já não gosta de mim, não vai gostar. Então, menos com o seu chilique.
Afastei-me dele e ajeitei a toalha em meu corpo. Virei-me de costas e comecei a pentear meu cabelo assim que o soltei. Pelo reflexo do espelho, podia vê-lo me encarando de braços cruzados. Suspirei e me virei, segurando na pia.
— Eu sei que você está tenso, mas eu também estou. Meu pai pode não gostar de você, mas minha mãe e Grace são diferentes. Você foi agradável com elas da outra vez, e elas gostaram. Desde que você seja você mesmo e mostre o quanto gosta de mim, elas irão gostar também.
Ele bufou e bagunçou os fios. Aproximei-me, dando-lhe um selinho. Ele quis me segurar e aprofundar o beijo, mas fugi antes disso.
— E tente não ser tão grosso, por favor.
— Impossível, gata. — piscou malicioso.
Revirei os olhos e fui para o closet. Em menos de dez minutos, descia as escadas da mansão de mãos dadas com Aaron. Ele estava vestido como ele mesmo, em uma jeans e uma camiseta lisa, após eu o fazer trocar a camiseta com inscrições pornográficas. Eu me arrumara um pouco mais em um vestido claro até acima dos joelhos e uma maquiagem básica e rápida.
Todos se viraram e percebi que Agustina já havia feito o que pedira. Sentei-me com Aaron no sofá oposto aos que os três ocupavam. Meu pai estava calmo, mas as outras duas pareciam apreensivas e ansiosas. Elas olhavam bem para mim e Aaron, mas principalmente para ele.
O ar estava pesado e sabia que tinha que começar falando, mas não tinha coragem. Então meu pai deu o empurrão:
— Está bem, rapaz? Está com hematomas feios...
Sabia que babbo estava a provocar e sabia que Aaron era o que tinha menos a perder ali com as revelações dos próximos minutos. Então ele cedeu.
— Estou ótimo. Não é qualquer explosão que vai me derrubar.
— Explosão? — mamma gaguejou.
— Tentaram me matar, mas vaso ruim não quebra.
Minha mãe empalideceu e Grace pareceu chocada com horrorizada, enquanto babbo e Aaron não disfarçavam a disputa raivosa de olhares. Suspirei e abaixei a cabeça, respirando fundo. A guerra de egos entre os dois estava dificultando para mim. Eles queriam pintar um ao outro como vilões e não percebiam, ou não se importavam, com quem ficasse no meio e saísse prejudicado.
Mamma notou a Guerra Fria dos dois, e sua cor branca passou para inexistente. Seus lábios abriram e ela olhava loucamente para nós três.
"Sua mãe não é boba como você pensa. Aposto que ela já deve desconfiar de mim desde o casamento...".
— O que está acontecendo aqui? — perguntou pausadamente, mas de maneira nenhuma calma.
— É uma longa história, mamma...
— Não, Lane. — balançou a cabeça, cortando-me.
Ela se virou para o marido e ele continuava impassível. Sem se importar com o olhar de minha mãe, terminou seu café e colocou na mesinha.
— Antenore, não me diga que você...
— Meu marido se chama Aaron Walker. E ele não trabalha no ramo do aço.
As palavras pularam da minha boca e fechei os olhos, apertando os dedos de Aaron nos meus quando minha mãe se virou para mim. Não os abri, mesmo ouvindo suas respirações pesadas. E isso era tudo também, pois não houve um barulho sequer na sala pelo minuto seguinte.
Até minha mãe explodir.
— SAPEVO CHE ERA UNA BUGIA! TU MI HA PROMESSO CHE LA NOSTRA FIGLIA NON SAREBBE COINVOLTO CON PERSONE DI LORO TIPO!
Mamma estava de pé num canto da sala, olhando furiosa para meu pai. Nunca a vira tão possessa antes. E meu pai não estava nada contente também, embora não fosse pelos mesmos motivos que minha mãe.
— La nostra figlia non coinvolge con persone di mio tipo, Chiara.
— Ancora no. — Aaron deu um sorrisinho.
Ele recebeu mais um olhar feio de mim e um frio de meu pai, mas minha mãe não pareceu ligar para seu comentário.
— Dio, Antenore! Eu não posso crer que você meteu a nossa filha nisso! A nossa filha que passou anos protegendo para no final fazer isso?!
— Mamma, o que está acontecendo? — Grace perguntou confusa.
Ela balançou a cabeça e fechou os olhos, cobrindo a boca. Quando abriu os olhos, pousou-os sobre mim. E havia pena. Pena e arrependimento. Ela se aproximou e se abaixou em minha frente, passando as mãos por meu rosto. Havia lágrimas em seus olhos e isso me afetava mais do que sua raiva para com meu pai.
— Mia Lane. Oh Dio! Mi dispiace tanto, mia cara! Ho cercato di tenerti lontano da tutto. Voi e la vostra sorella, ma...
— Sono nato nel bel mezzo di esso tutto, mamma. — interrompi-a. — Non si poteva nascondere la verità a lungo.
Ela balançou a cabeça de novo e acariciou meu rosto com as primeiras lágrimas rolando. Fiz menção de limpá-las, mas ela foi mais rápida, espantando-as e se afastando. Ela voltou ao canto da sala, secando o rosto furiosamente antes de voltar a extravasar com meu pai.
— É tudo culpa sua! VOCÊ ENTREGOU NOSSA FILHA PARA ESSE HOMEM POR CAUSA DA PORCARIA DOS SEUS NEGÓCIOS!
Babbo a olhou. E era tão gélido e tão cortante. Não reconheci o homem que me criou e amou durante dezessete anos naquele olhar.
— Basti, Chiara. È già stato fatto.
Ela comprimiu os lábios numa linha fina, pálida e raivosa. Olhando-o de um jeito que me levou a não a reconhecer também: com ódio, rancor. Ódio do tipo que não se cria no momento, mas se alimenta por anos da maneira mais sutil e voraz.
Grace olhava tudo perdida e amedrontada. E quando ela me encarou, senti uma pontada de pena. Pena por estar prestes a lhe revelar tudo que descobrira seis meses atrás. Pena por lhe revelar de um modo tão ruim quanto o que eu descobri.
— O que está acontecendo? — perguntou em voz baixa.
Suspirei e me aproximei dela, abaixando-me em sua frente e pegando suas mãos. Ela me olhou ainda mais temerosa.
— Grace, eu estou aqui, okay? Eu sei que vai ser difícil, mas é a verdade. Você saberia uma hora ou outra e... — suspirei e a olhei, olhei seus olhos perturbados, e meu coração se apertou por ela. — Eu estou aqui.
— Do que você tá falando, Lane? Saber do quê? Que verdade? Eu não estou entendendo nada!
Olhei para meus pais. Mamma ainda estava de costas, suas mãos no rosto. Não ouvia, mas sabia que ela chorava. Babbo encarava a lareira, sem dizer ou pretender dizer algo.
— Grace, Aaron, meu marido, se casou comigo por causa de um acordo entre ele e o papai. Por causa dos negócios dele e do babbo.
— Que negócios?
Suspirei e fechei os olhos. Aaron fizera de forma tão fácil. Dolorosa, mas fácil. Como arrancar um band-aid de uma vez. A diferença era que ele não se importava. Não se importava se ia me machucar ou não. Mas agora, sendo eu dizendo isso para alguém tão importante para mim desde que me entendo por gente; alguém que sempre foi protegida, não só pelos pais, mas por mim também, era difícil. Era muito...
— Seu pai é um bandido, Grace.
Virei-me incrédula para minha mãe. Grace tinha a boca aberta. Mamma se virou e nos olhou com os olhos já secos, a postura ereta e os braços cruzados. Grace não acreditava nas palavras proferidas, mas eu não acreditava no modo como elas foram ditas. Saíram tão frias quanto o olhar que Chiara Giordano ostentava.
— Seu pai e esse homem. — apontou a Aaron. — Os dois são bandidos.
— Olha como fala, Chiara. — babbo estreitou os olhos.
Ela não pareceu intimidada.
— Estou mentindo, Antenore? — voltou-se a meu marido. — Estou mentindo, Aaron, Henry, seja lá qual for seu nome?
— Aaron. E sim, senhora. O termo correto é traficante.
— Aaron! — bufei, olhando-o em súplica para calar a boca.
Voltei-me a minha irmã e ela estava branca feito papel. Olhava para todos na sala, incrédula.
— Isso é verdade?
Sua voz saiu ainda mais baixa e, desta vez, estava falhada. Assenti e a abracei. Ela não retribuiu de primeira e, quando o fez, foi fraco. Ela estava em choque e eu mais que ninguém a entendia bem.
Afastei-me e coloquei seus cabelos atrás das orelhas, segurando ainda mais forte em suas mãos.
— Está tudo bem, Grace. Eu estou aqui.
— Babbo...
Ele se virou para a filha e parecia um pouco mais humano ao ver o estado dela. Mas isso não quer dizer que ele disse algo ou tentou se aproximar para consolá-la.
— Come si può?
Ele engoliu em seco e se virou para frente de novo. Passou a mão, com o grande anel de ouro que conhecia desde o berço, em seu rosto.
— É uma longa história, mia girasole. O importante é que criei vocês nesse meio com toda a segurança que pude e acho que fiz um bom trabalho.
— Até dar a própria filha a um traficante de outro país por causa da porcaria de uma aliança.
— Se te consola, Chiara, sua filha voltará para casa em um mês.
— O quê? — eu e Aaron perguntamos juntos.
Nossos olhares se cruzaram e vi algo diferente nos seus olhos. Não era... Voltei-me para babbo quando Aaron desviou para ele também, antes que pudesse confirmar se vira o que imaginava.
— Do que está falando?
— Antenore. — Aaron rangeu os dentes em ameaça.
— Não tenho medo de você, garoto. E de qualquer forma, minha filha já sabe que estará livre de você em breve.
Aaron me olhou em choque por alguns segundos. Ele fora pego de surpresa como poucas vezes. Engoli em seco e abaixei a cabeça, vendo seu maxilar travar.
— Do que você está falando, Antenore? — mamma insistiu, ainda levemente confusa.
Grace continuava atônita, observando tudo com a cor de um papel. Estava preocupada com ela, mas esse assunto demandava toda a minha atenção.
— Eu nunca daria nossa filha para alguém sem a precaver. Eu não dei, na verdade. Eles só estão casados por um ano, que, aliás, acaba daqui a um mês. E então ela poderá voltar para casa.
Olhei para Aaron, mas ele não me olhava. Ele encarava babbo, e sua expressão era fechada, dura. E quando seus olhos se voltaram para mim, não estavam, de forma alguma, mais mansos.
— Foi isso que o Mantovani te falou, não foi? No baile.
Assenti e ele bufou, passando os dedos pelos cabelos, levantando-se. Vi-o se encaminhar até a mesinha de bebidas, virando o copo na garganta assim que o encheu. Mamma observou-o quieta, desgostosa pela ação do genro, antes de se aproximar de mim e sorrir leve e forçada.
— Você voltará para casa, querida. Voltará para o seu lar.
— Ela não vai.
Viramo-nos para Aaron, que já se servia do segundo copo. Ele poderia parecer calmo, mas reconhecia a tensão em seus ombros e sua expressão endurecida.
Nada calmo como aparentava.
— Como?
— Você ouviu, senhora. Sua filha não vai voltar com vocês.
— E o que exatamente a impede, rapaz? — cruzou os braços e o confrontou.
— Primeiro, o fato de que eu não sou um rapaz, como você e seu marido gostam de dizer. Eu sou um homem e se não acredita, pergunte para sua filha. — senti minhas bochechas corarem mesmo sob a grosseria de sua fala. — Segundo, eu vou impedí-la de ir. Ela é minha mulher, não importa se a bosta de um contrato que diz isso termina daqui a um mês ou não. Eu não deixo o que é meu ir. Simples.
Dona Chiara pareceu sem fala por alguns segundos. Ela tinha a postura ainda firme e os olhos também, mas os lábios tremiam de leve. Quando ela foi se pronunciar, babbo tomou a frente.
— Lane é livre, rapaz. Ela será livre de você, ao menos, em um mês. E não há nada que você possa fazer para impedir.
Aaron rangeu os dentes e apertou forte o copo entres os dedos.
— Veremos. — foi sua resposta baixa e fria.
Babbo se levantou e ajeitou o paletó, virando-se para seu oponente. Seu olhar e as palavras que o seguiram foram dignos da frieza e pulso firme de meu marido:
— Veremos.
E dando uma última olhada em mim, como em aviso, saiu em direção à porta com calma e sem olhar para trás. Mamma suspirou e se virou para mim. Ela pegou em minhas mãos e massageou nas suas, encarando-as antes de ter coragem de fazer a mesma coisa com meus olhos.
— Eu sei que erramos, Lane. Sei que errei. Mas, por favor, acredite em mim quando digo que foi para o seu bem e de sua irmã. E mesmo que seja difícil, quero que você me perdoe e volte para casa comigo, sua irmã e seu pai. Sei que não será mais a mesma coisa, porém lá é seu lugar. Não te quero longe de mim, de nós, mais.
Ela me abraçou antes que pudesse dizer algo e sussurrou em minha orelha naquele italiano manso de canção de ninar:
— Não cometa o mesmo erro que eu.
Ela se afastou, deixando-me para trás confusa, parada no meio da sala e me perguntando se suas palavras pareciam ter outro sentido ou só era coisa de minha cabeça.
Ela se abaixou na frente de Grace. O olhar da filha sobre a mãe era carregado de nojo e aversão.
— Grace, querida, sei que seu pai e eu erramos, mas como disse a sua irmã, foi para o bem de vocês. Foi por amor. Então, me perdoe, meu amor. Nos perdoe. Só queríamos te proteger.
Grace fechou os olhos e respirou fundo. Mamãe se levantou e fez menção de abraçá-la, mas Grace fugiu rápido. Ela se levantou e ficou do outro lado da sala, fugindo tão rápido do carinho da outra como um vampiro foge do sol.
— Eu não quero a senhora nem meu pai por perto. Eu não quero mentirosos perto de mim.
Mamma comprimiu os lábios e se levantou calma do chão. Minha irmã se voltou a mim e havia súplica nos seus olhos.
— Lane, me deixa ficar. Por favor. Eu te imploro.
Fiquei sem reação. Olhei para minha irmã e para minha mãe, cada uma querendo de mim uma ação, uma palavra, diferente. Quem me deu o rumo, no entanto, foi Aaron. Ele ainda estava tenso, mas quando meus olhos confusos encontraram com os seus, tudo clareou. Ele me dizia o que fazer e era "siga o seu coração".
Não de modo delicado. Em sua palavras, deveria ser algo como "faça a porra que quiser".
— Mamma, deixe Grace ficar. Será melhor.
Ela olhou para a filha mais nova, que exalava alívio e gratidão para mim, e concordou com a cabeça, derrotada. Pegando a bolsa no sofá, ela se virou pela última vez para nós antes de sumir pela porta aberta da sala:
— Vi amo, figlie miei. Faccio di tutto per voi. Non dubitate mai che.
A porta se fechou a suas costas e eu me virei para Grace. Ela me olhou também antes de se jogar em meus braços e chorar. Passei as mãos em seu cabelo, abraçando-a forte, e olhei para Aaron. Ele me encarava sem expressão. Literalmente, eu não conseguia desvendar um único sentimento, pensamento, que passava por aquela cabeça.
Ele terminou o copo de uísque e se trancou no escritório sem olhar para trás.
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