Strada Per L'inferno
31 Em todos os sentidos
Notas iniciais
Os dias decorreram-se como grãos de areia numa ampulheta.
Eu dava o máximo de mim nos ensaios com Caitlin, passando horas após sua saída no estúdio. Miranda não havia voltado ainda e sentia-me mais solitária do que nunca. Mal olhava na cara de Aaron, que mal parava em casa e pouco se esforçava para manter um diálogo comigo. Trocávamos somente as palavras necessárias e evitávamos ao máximo a exposição desnecessária à presença do outro. Em compensação, ligava todos os dias a minha família. E mentia todas as vezes que era questionada sobre "Henry" e como estava meu relacionamento com ele. Dilacerava-me a felicidade e alivio nas vozes de minha mãe e irmã.
Desliguei o telefone e abaixei-o certa manhã após dialogar brevemente com Grace. Ela estava apressada, pois iria viajar para Roma no final da tarde com mamãe e algumas amigas. Sorri com seu contentamento e ansiedade. Traçava desenhos aleatórios com as unhas na ilha da cozinha, perdida em pensamentos, quanto senti mãos cobrir meus olhos. Pelos dedos finos e unhas longas e afiadas, deduzi quem fosse sorrindo.
– Quem é?
– Minha amiga loira que me dá aulas de dança sensual? – ri. Ela imitou-me e descobriu minha vista. Olhei-a acomodar-se no banco ao meu lado e cumprimentar-me.
– "Dança sensual"? – levantou as sobrancelhas. – Gostei dessa.
– Não sei que outro nome posso dar ao que fazemos.
– Ensinamentos de movimentos sensuais que deixam qualquer cara de pau duro. – riu ao ver minha expressão de nariz torto.
– Prefiro "dança sensual".
– Eu desconfiava que sim. – sorriu branda, olhando rapidamente para o telefone e apontando-o com a longa unha roxa púrpura. – Falava com sua família?
– Sim. Falava com Grace. Ela está animada com uma viagem que farão a Roma à noite.
– Sua família inteira vai?
– Não. Só ela, minha mãe e algumas amigas. Meu pai não é... Desse tipo.
– Que tipo? — arqueou a sobrancelha. Evitava falar com Caitlin sobre as sujeiras de minha família, embora tivesse séria desconfiança que já soubesse.
– Do tipo que tira férias. Ele é focado no trabalho. É raro às vezes que tira folga.
Assentiu, sem comentar nada. Não me dei ao trabalho de acrescentar algo ou prosseguir com essa conversa.
– Mas então? Você está adiantada. – comentei olhando para o relógio e desviando de assunto.
– Pois é. Vim ver como você estava.
– Por quê? – perguntei rindo, confusa. Caitlin abriu a boca, como em choque, mordendo o lábio inferior após.
– Aaron não te contou?
– Contou o que?
– Hoje ele e os meninos irão assaltar um banco.
Meu queixo caiu. Pouco via Aaron, muito menos falávamo-nos. Ele não dissera ou insinuara uma palavra sobre isso em minha presença. Andava muito fora, verdade, mas pensava que estava na noite com mulheres aleatórias.
– Aaron não disse nada. – comentei um pouco desnorteada, passando a mão no cabelo.
– Nada?
– Aaron não fala sobre o trabalho e eu evito perguntar. Na verdade, eu o evito. – deixe o cabelo cair, suspirando. Caitlin assentiu ciente de todo o estresse entre nós. – Como você sabe do assalto?
– Dylan comentou comigo ontem.
– Você o viu ontem? – surpreendi-me. Caitlin bufou numa expressão de desgosto.
– Vi. – admitiu como se ferisse seu orgulho.
– Como? – perguntou empolgada, querendo mais detalhes.
– Longa história. – balançou a mão. – Ele apareceu no clube que trabalho e acabamos conversando.
– Só conversando? – elevei as sobrancelhas, descrença. Caitlin espantou-se ofendida, fazendo-me rir.
– Lane Walker, que malicia toda é essa?
– Não é malicia. Só descrença. Sabe, você e Dylan num clube; você com uma roupa apertada, provavelmente, e ele te olhando com desejo...
– Pode parar! – levantou a mão provocando-me mais risadas. – Essa não é a Lane que conheço. Meu Deus, seja lá quem seja você, traz a minha amiga de volta! Esse ser malicioso e de pensamentos poluídos, eu desconheço!
– Uma parte da culpa é sua.
– E a outra é de quem? – sorriu maliciosa.
– Viu? Você faz igual! – apontei indignada. Ela gargalhou. – Não pode reclamar quando faço! Não é justo.
– Posso sim porque você não é assim corrompida.
– Aaron me corrompeu. – disse simples e automática. Caitlin pareceu um pouco chocada de inicio, mas relaxou e sorriu a mim.
– Em todos os sentidos, hm? – brincou para descontrair. Choquei-me de novo e rimos ao fim, antes de iniciarmos outra conversa.
POV Aaron
– Todos estão me ouvindo? – perguntei no ponto. Ouvi todos manifestarem-se positivamente. – Ok. Nick, como estão as coisas no banco?
– Normais. Os seguranças já estão agitados com a troca de turnos.
Olhei no relógio e faltavam cinco minutos. Avisei aos meninos pelo ponto e eles concordaram. Peguei a arma ao meu lado e chequei a quantidade de balas antes de trava-la e deixa-la em mãos.
– O sistema de câmeras já está desativado, pessoal. O caminho está liberado.
– Está na hora, pessoal. Vamos roubar alguns doces. – sorri.
Sai dos carros ouvindo suas ovações e encontrei-os logo atrás de mim, imitando-me. Dylan, Zac e Colin estavam com roupas pretas e máscaras idênticas as minhas. O último detalhe era insignificante, pois mesmo que fossemos identificados, o suborno era mole. Nick continuou a falar do ponto; ele estava em uma van a três quadras de distância, coordenando tudo e inteirado no sistema de segurança do banco. Seguimos a porta dos fundos com as armas apontadas. Uma vez dentro do banco, éramos guiados pelas lembranças da planta e pelas informações que Nick passava.
– Aaron, há um cara se aproximando pelo corredor oeste. Ele vai dar de cara com vocês em um minuto.
Olhei para os garotos e eles assentiram em amostra de que ouviram e sabiam o que fazer. Encostamo-nos a parede e o cara passou em nossa frente. Dei uma coronhada em sua cabeça e ele caiu desmaiado. Colin tomou a frente e puxou-o, arrastando-o até uma sala perto para escondê-lo. Continuamos o caminho por trás até Nick nos avisar que os seguranças novos estavam indo tomar seus lugares. Apressamo-nos e pegamo-los no corredor. Trocamos socos e coronhadas, evitando dar tiros e chamar a atenção. Saímos com alguns arranhões, mas deixando-os para trás desacordados. Andamos até a sala da gerência, onde batemos na porta e a voz grave do gerente respondeu dando-nos certeza de que ali estava. Num piscar de olhos, Dylan, Colin e eu estávamos com as armas apontadas para sua cabeça enquanto Zac nos dava cobertura no corredor. O cara assustou-se, deixando os óculos e papéis caírem no chão.
– O que é isso? – levantou-se assustado, gaguejando.
– Eu sugiro que você coloque as mãos para o alto e não aperte esse botão de pânico embaixo de sua mesa se não quiser tomar tiro. – disse com a voz nasalada graças à máscara. O cara, que havia feito menção de fazer exatamente o que eu dissera, tremeu e levantou as mãos.
Olhei a Colin e indiquei o gerente com a cabeça. Entendendo-me, ele aproximou-se e arrancou-o da cadeira pelas costas da camiseta, encostando sua arma diretamente na cabeça dele.
– Agora, nos ouça com atenção. Vamos sair daqui e você permanecerá quietinho e fará tudo que falarmos se não quiser ter seus miolos estourados. Entendido?
Ele maneou a cabeça para cima e para baixo, engolindo em seco. Saí à frente com Colin empurrando-o logo atrás. Dylan e Zac completavam o comboio, respectivamente.
– Os seguranças no banco estão começando a ficar agitados com a demora. Agilizem. – Nick pediu no ponto. Olhei rapidamente aos outros e eles assentiram.
Chegamos à porta que dividia a área restrita aos funcionários do saguão. Demos uma primeira espiada e os seguranças comunicavam-se agitados pelos rádios. Um deles andou em direção à porta e nos esquivamos, esperando-o. Assim que passou pela porta, dei-lhe um tiro no pescoço. Sangue esguichou manchou nossas roupas. O gerente ficou horrorizado, arregalando os olhos quando Zac meteu um tiro na barriga do segurança e esse, enfim, caiu no chão. As atenções se voltaram para onde estávamos e saímos com as armas já apontadas. As pessoas se puseram a gritar e se jogar no chão ao mesmo tempo em que a troca de tiros entre nós e os segurança começava. A diversão não durou muito, uma vez que nossos tiros acertavam suas cabeças e corações certeiramente e os seus estouravam somente os vidros. Seus corpos caíam quase ao mesmo tempo sem vida no chão, provocando baques altos. Os gritos aumentaram de volume.
– Calem a boca e me escutem ou terão o mesmo fim. – sobrepus-me a barulheira, que gradativa e rapidamente diminuiu. – Bom. Gosto assim. Agora, quero todos encostados de costas naquela parede com as mãos atrás do corpo. Todo tipo de objeto quero que seja deixado para trás: serão vocês e as roupas do corpo. E se alguém não entendeu que não quero ninguém aqui cogitando chamar a polícia, vai ter sérios problemas. Compreendido?
Todos manearam a cabeça e, com Zac e Dylan organizando-os e supervisionando-os, colocaram-se de costas colados à parede. Uma vez que todos estavam organizados, deixei Zac para trás com Dylan e segui com Colin e o gerente para a outra ala do banco. O homem ainda tremia e estava branco feito papel.
– Agora. – paramos em frente ao cofre central. – Você vai digitar a senha e colocar sua mão nesse detector. Sem gracinhas. Qualquer movimento suspeito ou desnecessário, já sabe: seus filhos ficarão órfãos.
– Co-como sabe que tenho filhos? – perguntou assustado, empalidecendo mais.
– Não sabia. Agora sei. – apontei minha arma também para sua cabeça e ele vi o suor escorrer de sua testa. – Anda logo.
Ele se virou para o cofre e tremendo, digitou a senha e colocou sua palma para identificação. A primeira vez deu senha invalida. Grunhi e Colin apertou mais a arma contra a cabeça do gerente. Vendo-nos impacientes, digitou novamente. Mais trêmulo ainda, duvidei que a senha fosse desta vez. E sabia que três tentativas erradas, o cofre travava-se e a policia era chamada. Para a sorte do careca, o cofre abriu-se. Pude ouvi-lo respirar de alivio antes de Colin dar-lhe uma coronhada e ele cair desmaiado. Entramos no cofre e começamos a encher os sacos que levamos. Preenchíamos um e jogávamo-lo para fora, ocupando-nos em encher outro.
– Aaron, Colin, andem logo. A policia já foi avisada e está a caminho. Vocês têm dez minutos no máximo. – Nick disse no ponto. Colin parou e me olhou, mas ignorei-o.
– Está parado por quê? Temos ainda tempo para encher mais sacos.
– Cara, já enchemos o suficiente. Não é melhor nos mandarmos agora com folga?
– Se você é bichinha e prefere perder toda a adrenalina e dinheiro, que vá agora. – dei de ombros. Bufou, mas não contestou mais. Ao invés, ajudou-me a encher mais sacos de dinheiro.
– Seis minutos, Aaron! A policia está há dez quadras.
– Hora de nos mandar. – suspirei decepcionado, fechando o saco em minhas mãos. Colin fechou o dele também e saímos do cofre. Pegamos todos e levamos até o saguão principal.
– Foi um prazer passar esse tempo com vocês. – me virei aos civis, que me olhavam com raiva e medo. Muito medo. – Mas tenho compromissos inadiáveis que não me permitem nem saber o nome de vocês. – sorri sarcástico, colocando alguns dos sacos no chão para os outros carregarem. Eles pegaram enquanto dava instruções aos telespectadores.
– Seguinte: nós vamos sair pela mesma porta que entramos. – apontei com a arma. – Se um de vocês tiver a genial ideia de vir atrás de nós, leva chumbo. Compreendido? – todos assentiram e sorri satisfeito.
– Vamos. – Dylan chamou-me e vi que estávamos prontos para partir.
– On-onde está o gerente? – um funcionário, um homem de mais ou menos trinta anos, perguntou. Ri pelo nariz, decidindo brincar um pouco com eles.
– Está tirando um cochilo. Talvez para sempre. E se não quiserem o mesmo destino, sugiro que fiquem quietinhos. – saí deliciando-me com suas expressões de medo.
– A policia está a duas quadras agora. É melhor vocês correrem.
Xinguei baixo e comecei a correr pelos mesmos corredores que viemos, acompanhado de perto pelos meninos. Ouvimos passos perto da saída e saquei minha arma. Virei o corredor e vi dois seguranças correndo em nossa direção. Atirei em um no coração e Dylan em outro na mão, fazendo-o soltar a arma, e no joelho. Abri a porta da saída de emergência, pulando para a rua. Os carros de fuga continuavam ali e jogamos todo o dinheiro nos bancos traseiros, não perdendo tempo para tomarmos o lugar do motorista. Tirei a máscara e deixei a arma no colo, acelerando o carro assim que o liguei. Saímos da viela e vimos às viaturas policiais estacionadas e os policiais saindo de dentro delas. Assim que nos viram, sacaram as armas e começaram a disparar. Acertaram a lateral dos carros de e antes que pudessem conseguir acertar os vidros, disparávamos para longe. Pelo retrovisor, vi-os entrar em seus carros.
– Agora que a brincadeira fica boa. – ri a mim mesmo.
Afundei mais o pé no acelerador e entramos em uma avenida movimentada. Os carros de passeio assustaram-se e cortamos entre eles, deixando-os decidirem qual era a cor do carro enquanto já estávamos à milhas de distância. Um policial conseguiu aproximar-se de mim pela faixa da direita. Sabia que ele não sacaria a arma com medo de ferir algum inocente. Um ônibus estava saindo de uma rua e entrando na avenida a alguns metros a frente da viatura. Uma ideia surgiu-me.
Joguei o carro contra o carro da policia, fazendo-o perder o controle da direção por alguns instantes; instantes o suficiente para que afastasse e deliciasse-me com ele metendo o carro na traseira do ônibus. O carro transformou-se em ferro retorcido e as atenções todas se voltaram para a cena, dando-me oportunidade para escapar calmo. Saí da avenida principal, entrando em ruazinhas segundo o plano de fuga.
– Nick, cadê os garotos? – gritei no ponto por cima do ronco do motor.
– Estão a dez quilômetros à sua frente. Estão chegando na estrada já.
Bufei e acelerei mais. Ouvi o barulho de outro motor, menos potente e forçado ao máximo, atrás de mim. Olhei pelo retrovisor para confirmar minha suspeita de que era uma viatura policial. Ri de escárnio e afundei o pé no acelerador, abrindo margem maior ainda de distancia. Cheguei à estrada e visualizei a minha equipe mais a frente. Duas viaturas estavam em seus encalços também. Aproximei-me do carro de Dylan e abri minha janela, assim como ele a dele.
– Plano E. – gritei. Ele assentiu, entendendo, e passei em sua frente.
As três viaturas estavam próximas, tendo desempenhos melhores do que esperava para latas velhas impotentes. Dylan buzinou duas vezes e todos os nossos carros alinharam-se. Os policiais animaram-se com o ato, pensando ser mais fácil para pegar-nos. Dirigíamos com o pé grudado no acelerador, passando dos duzentos por hora. Buzinei três vezes e Colin, na ponta oeste, entrou bruscamente para a esquerda, invadindo a outra pista. Vi-o sacar a arma e atirar em uma das viaturas. Uma das balas entrou pela janela do motorista e logo o para-brisa por dentro estava ensanguentado. Dylan, quase no mesmo momento, entrou na pista contrária e atirou em outra viatura. O tiro pegou nos pneus e no braço do motorista, fazendo o cara desacelerar e ser acertado pela viatura ensanguentada. Só faltava mais um.
Desacelerei um pouco o carro e fiquei a uma faixa de distância da terceira viatura. Abaixei a janela e o policial saudou-me com tiros. Um pegou na lataria e outro passou voando por meus olhos, estilhaçando a janela do passageiro. Rangi os dentes e atirei também, acertando a lataria e o seu braço na direção. Contorceu-se de dor e aproveitei sua distração para acertar seu tanque de gasolina. Acelerei ao máximo e vi pelo retrovisor o carro explodir e ser tomado pelas chamas. Urrei de alegria e fiz a conversão proibida, juntando-me aos meninos na pista contrária.
– Hoje à noite tem comemoração! Por minha conta! – gritei no ponto e ouvi-os urrarem em êxtase também. Olhei de volta para estrada, vendo o caos que se tornara, e sorri pensando que, essa noite, Lane teria um pouco de diversão também.
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