Strada Per L'inferno
68 Ameaças à chefa
Notas iniciais
Cheguei em casa com os olhares dos seguranças sobre mim. Não esperava menos, já que eles nunca perdiam a chance de secar a patroa, ainda mais sem a presença do patrão. Mas uma patroa em um vestido que a valorizava e o rosto todo borrado e inchado era ainda mais chamativo. Abri a porta já sabendo que não o encontraria ali. Grace fechou a porta à minha passagem e me acompanhou até o quarto. Joguei minhas coisas no divã ao pé da cama antes de me livrar dos saltos e ir pro banheiro. Liguei a banheira e achei o olhar preocupado de minha irmã quando retornei sem minhas joias.
— Tudo bem?
Confirmei com um aceno e prendi meu cabelo nele mesmo.
— Só foi tudo muito intenso. E a maneira que Aaron foi embora... Eu quero acreditar que foi por atuação, mas não sei. Tenho quase certeza que ele perdeu a cabeça também por algo que babbo disse.
— Eu não o conheço como você, Lane. Não sei dizer. Mas ele me parece do tipo impulsivo...
— Ele é impulsivo. É disso que tenho medo. Tenho medo de que ele acabe mergulhando demais no personagem.
— Por que não liga para ele de novo?
— Já tentei aquelas vezes no carro. Ele não vai atender. — recebi um sorriso triste seu de resposta.
Pensei em pegar um pijama meu no closet e uma lingerie, mas mudei de ideia quando vi as roupas dele ali. Troquei tudo por uma cueca e uma camiseta.
— Eu vou te deixar para pensar. Mas sabe que, qualquer coisa, estou no quarto ao lado.
Ela me abraçou e eu retribuí, ainda que sem jeito pelas roupas em meus braços. Antes que ela saísse pela porta, impedi-a.
— Obrigada, Grace.
Ela se virou, surpresa, mas sorrindo doce. A porta se fechou à sua passagem e fui até o banheiro. Deixei as roupas em cima da pia, desfazendo-me das minhas. Antes de entrar, algo me impediu. Voltei ao quarto e peguei meu celular na bolsa. A água quente me abraçou assim que mergulhei meu corpo. Meus cabelos presos ficaram para fora enquanto apoiava a cabeça contra a borda e olhava a tela do celular. Nenhuma ligação dele. Indo contra o que disse a Grace, voltei a ligar. Uma, duas, três... Na sétima tentativa, desisti. Deixei o celular na bancada dos sais e cobri meu rosto com as mãos.
Tinha um pressentimento ruim e tudo ia diretamente a Aaron.
A água já tinha esfriado consideravelmente e eu já havia pensado demais quando o som que queria ouvir soou. Com toda a urgência, peguei-o. O aparelho quase escorregou de meus dedos e caiu na banheira, mas consegui levá-lo até a orelha somente com alguns pingos. O número na tela era não identificado, mas pensei que pudesse ser o do escritório de Aaron ou qualquer outro lugar que ele estivesse.
— Aaron!
— Sinto que irá se desapontar ao descobrir que não é seu amado.
Engoli em seco, abrindo os olhos e sentindo meu coração murchar todas as expectativas que tinha de ouvir sua voz. Pelo contrário, era a última voz que esperava ouvir.
— Callum...
— Como vai, Lane? Não muito bem, pelo que percebi.
— Deve estar me ligando por causa do prazo. — ignorei sua pergunta.
— Direta. Esqueci que gosta desse estilo. Sim, liguei por causa de nossas pequena conversa e nosso prazo. Como está bem lembrada, ele expirava hoje, mais especificamente, duas horas e três minutos atrás. Mas sabia que estava ocupada, então não quis atrapalhar.
— Pensei que tinha dito que se eu não ligasse já saberia minha resposta.
— Eu realmente disse isso, mas quis te dar outra chance. Afinal, você é uma pessoa especial, Lane.
— Não vejo nada diferente em mim para os outros. Mas já que ligou querendo sua resposta, aqui está: não.
— Outch! Tão seca e objetiva. Onde está sua compaixão, Lane?
— Onde está a sua, Callum?
— Posso ao menos saber o motivo da recusa? Aposto que com essa memória boa que tem, deve se lembrar de tudo que disse.
— Me lembro, mas lembro também de tudo que me aconteceu depois e não foi agradável. Já deve saber que Aaron descobriu e o que decorreu a partir daí.
— Fiquei sabendo. Mas tive a impressão também no jantar que você é do tipo de mulher que não pode ser impedida por maridos preconceituosos.
— E eu tive a impressão de que você é do tipo de homem que joga, manipula, Callum. E eu posso afirmar que embora me bajule com frequências, falando ocasionalmente verdades como seu apreço por minha aparência, você me acha boba o suficiente para cair em sua armadilha.
— Mais itens à lista de impressões: desconfiada e convencida. Sabe, você é uma mulher realmente bela, e só por isso deixo passar. Mas tome cuidado, se isso crescer e se tornar um ego como o de seu marido, não será nada bonito.
— Quer saber? Não importa — grunhi irritada. — Eu não aceitei porque Aaron me mataria caso pulasse dentro, mas porque não confio em você. E porque sei que, pelo jeito que as coisas estão fodidas, você não precisa da minha ajuda. Você sabe disso e quis deixar ainda mais claro para Aaron. Mas espero que ele ache algum jeito de ganhar isso de você. E não porque ele é meu marido, mas porque ele é, com certeza, melhor do que você.
Sua respiração soou pesada do outro lado. Sabia que tinha atacado seu ego e estava pouco me lixando para isso. Só queria acabar logo com aquela conversa exasperante e sabia que Callum era ótimo em enrolar.
— Está brincando com fogo, Lane. Só tome cuidado. Toda essa confiança pode desmoronar e você pode se arrepender de ter ficado do lado errado quando for deixada para trás. E talvez não seja tão legal como estou sendo e não lhe estenda a mão amiga quando precisar.
Ele desligou o telefone em minha cara, sendo o mal educado dessa vez. Bufei e joguei o telefone de lado, no chão mesmo. Saí da banheira pouco depois, sem mais paciência para a mesma. Entrei no quarto com as roupas de Aaron no corpo e o celular na mão. Sabia que ele não voltaria tão cedo, por isso deitei na cama e tentei dormir.
Mas sono é mais precioso do que diamante em garimpo e a mansão não era um lugar apropriado para ele.
Um som alto me despertou das poucas horas de cochilo e me sentei na cama, assustada, olhando de um lado ao outro. Aquele som era inconfundível. Aaron não estava ao meu lado, na verdade, as cobertas ali continuavam intactas. Meu coração começou a disparar mais forte. Peguei a arma no criado mudo e corri para a porta, não me importando com chinelo ou roupão. O corredor parecia calmo. Abri a porta do quarto de Grace e ela estava sentada na cama, encolhida e abraçada aos lençóis.
— Isso foi...? — olhou-me espantada.
— Foi. Eu vou descer para ver...
— Lane, não!
— ... não saia deste quarto por nada desse mundo até eu voltar. Tranque a porta e caso algo aconteça, tem uma arma carregada embaixo da cama.
— Eu não sei...
— Só use se for emergência, sim?
Ela assentiu e saí do quarto. Ouvi seus passos e a tranca ser girada em seguida. Com a arma firme em meus dedos trêmulos, andei na ponta dos pés até as escadas. Optei pela dos fundos, pois a da sala era muito visível. A cozinha estava normal e passei sem mais delongas até o escritório. Tentei abrir a porta e estava trancada. Não ouvia barulhos lá dentro então concluí que não havia nada ali. Segui para a sala e meu coração disparou. Assim como a arma. A porta se abriu e antes que visse que era Alfredo e Brad do outro lado, disparei. Por sorte, acertei a parede ao lado.
— Me assustaram! — coloquei a mão no peito, abaixando a arma.
— Desculpe, senhora. Está bem?
— Estou. Mas o que está acontecendo? — aproximei-me com a arma ainda entre os dedos.
Ambos se entreolharam e Alfredo tomou a frente.
— Não sabemos bem, senhora. Deixaram algo no jardim e um dos nossos homens foi abatido.
— O que deixaram no jardim?
Ele não me respondeu. Virei-me para Brad e pedi para que subisse comigo e ficasse de olho em Grace. Alfredo permaneceu na porta enquanto íamos até o segundo andar.
— Grace, sou eu. Abra a porta.
Ela abriu imediatamente e me olhou atenta, com os olhos castanhos esbugalhados.
— O que aconteceu?
— Eu não sei bem. Vou descobrir agora. Brad vai ficar aqui na porta, vigiando. Ainda assim, fique atenta.
— Lane, tome cuidado.
Sorri de modo tranquilizante e olhei para Brad uma última vez antes de deixá-lo com minha irmã. Corri para o quarto, pegando um casaco, também de Aaron, e calçando um chinelo. Voltei ao andar de baixo sem largar a arma. Essa só largaria quando Aaron voltasse.
— Eu quero ver.
— Senhora, eu acho...
— Vai me mostrar ou acharei sozinha?
E ele me levou sem "mas" até o jardim. Todos os seguranças se voltaram para mim, mas os ignorei, indo até o aglomerado formado no centro do gramado. Abriram passagem, olhando para as minhas pernas antes de se afastarem ao verem a arma. A patroa poderia ser boba e estar usando uma arma só para intimidar, mas era melhor não arriscar. No centro do tumulto, estava um dos seguranças. Ele estava caído de cara com o chão. Atrás de sua cabeça havia um pequeno buraco, mas, no chão, a poça de sangue era grande. Levei a mão a boca quando vi o que estava em suas mãos.
Uma boneca estava caída entre seus dedos sobre um mini paraquedas. Ela estava encharcada pelo sangue do segurança, mas não era isso o que me chocava. Era a boneca em si. Os cabelos eram castanhos longos e os olhos, azuis cristais abertos em choque. No meio do peito, sobre o vestido preto de veludo, uma faca.
A boneca era uma cópia minha, morta.
Afastei-me cambaleando e bati em Alfredo, que me segurou pelo cotovelo. Todos me encaravam esperando uma reação, mas eu não tinha. A boneca era a minha cópia, morta e ensanguentada. Fiquei encarando-a até notar algo. No sapato, havia algo branco saindo. Aproximei-me e, mesmo com náuseas, puxei o que se mostrou um pedaço de papel. Desdobrei com sangue nos dedos.
"Ficar com ele é uma faca de dois gumes: ou morre pelas mãos dele ou pelas minhas".
Engoli em seco, amassando o papel e encarando de novo a cena aos meus pés.
— O que aconteceu exatamente?
— Estava tudo normal até que Jackson se aproximou dizendo ter encontrado a boneca em galhos nos fundos. Quando ele estava se aproximando para me mostrar, foi atingido por trás e caiu. Não sabemos bem de onde veio o tiro, mas acreditamos que daquela direção. — seu dedo apontava para o outro lado da rua, em um dos vários arbustos que separava a casa de outra mansão.
— Quero homens circulando pela casa toda. Alguns parados nas portas e janelas.
Olhei mais uma vez para a boneca e o homem caído.
— Qual era o nome dele mesmo?
— Jackson, senhora.
— Providenciem as coisas corretamente para Jackson, coloquem a boneca em uma caixa e deixem no balcão da cozinha.
— Mas e o patrão, senhora?
Suspirei, esfregando os olhos com o dorso da mão. Não sabia que horas eram, mas já devia ser altas horas da manhã e se Aaron não havia retornado ainda, não faria até o amanhecer. E eu não permitiria que aquele pobre homem ficasse estirado no meu jardim feito um enfeite macabro. Muito menos que aquela boneca horripilante continuasse ali.
— Esperem mais uma hora até limparem tudo. Se ele não chegar nesse tempo, tirem fotos e façam o que mando.
Eles assentiram e voltei para a casa. Alfredo me acompanhou até a porta e perguntou se precisava de alguma coisa. Neguei e ele voltou junto aos outros em sua função de chefe da segurança. O papel estava amassado em minha mão quando cheguei até o corredor. Dispensei Brad e coloquei a cabeça para dentro do quarto de Grace.
— Está tudo bem?
— Está. — forcei um sorriso, escondendo as mãos para trás.
— O que aconteceu lá fora?
— Não sei bem. Alguém tentou invadir a mansão e acertou um dos seguranças, mas agora está tudo bem. Volte a dormir.
Ela concordou, mais seu último olhar era desconfiado. Abri o registro da torneira de meu quarto e deixei que a água levasse o sangue de Jackson. Esfreguei minhas mãos com sabão ainda, várias e várias vezes. As cenas do jardim voltavam e eu me perguntava como conseguira ser forte.
Voltei ao quarto, deixando aquele bilhete na bancada. Joguei o casaco sobre a bolsa no divã e deixei a arma no meu criado. Quando olhei as horas, já se passava das três. E ainda sem nenhuma notícia de Aaron. Precisava dele para me confortar, mas ele não estava lá. Não o culpava, era para um bem maior, mas meu coração pesava pensando sempre no pior. Ele não dera notícias sequer desde que saiu feito bala do restaurante.
Deitei e me agarrei ao seu travesseiro, inalando seu cheiro até conseguir dormir de novo.
(...)
Os raios de sol já brilhavam pelas frestas da cortina quando despertei. Fora uma noite mal dormida e agitada. O relógio indicava oito e dezoito. Ainda estava abraçada ao travesseiro de Aaron. Seu lado da cama sem vestígios seus. Levantei-me e fiz minha higiene matinal. No processo, fui lembrando da noite anterior e olhei para a bancada.
O bilhete não estava mais ali.
Saí do quarto, indo até o de Grace e achando-o vazio. Na cozinha, havia vozes. Desci as escadas rapidamente e encontrei-a falando animada com Colin e Agustina.
— Lane, menina! Bom dia.
Todos se viraram para mim e via um sorriso genuíno no rosto de minha irmã, além de um leve rubor. Meu amigo também parecia bem disposto aquela manhã. Teria sorrido contente com a cena se não...
— Grace, você esteve em meu banheiro?
— Não, por quê?
— Alguém esteve em meu quarto hoje?
— Aaron, provavelmente.
— Ele esteve em casa?
— Ele tá no escritório. — Colin apontou acima dos ombros.
Saí em disparada para lá. Ouvi-o me chamar e perguntar se eu estava bem, mas ignorei. Coloquei a senha e abri a porta, sentindo todos os olhares se voltarem para mim. Aaron estava atrás de sua mesa e o resto dos meninos, pela sala. Caitlin também estava ali. Mas ignorei todos, fixando somente em meu marido. Ele me encarava de volta e quando meu olhar baixou um pouco, notei o que estava sobre sua mesa. À luz do dia e do escritório, a boneca era ainda mais arrepiante.
— Lane...
Soltei maçaneta e a porta se fechou nas minhas costas. Minha amiga veio até mim e me abraçou.
— Como você está?
Apenas balancei a cabeça e ela me soltou com os olhos preocupados. Atrás, Aaron vinha em minha direção. Encurtei nossa distância e ele me abraçou forte, enterrando minha cabeça em seu peito. Agarrei forte em sua camiseta e senti seus dedos em meus fios, prensando minha orelha ainda mais contra as batidas de seu coração. Eram rápidas. Ele beijou o topo de minha cabeça e pegou meu rosto.
— Você está bem?
— Tô.
— Me desculpa por não estar aqui.
— Tudo bem. Está tudo bem.
Ele sabia que meu sorriso era falso e eu sabia que seus lábios apertados eram mais do que somente nervoso por mim. Desviei de possíveis novas perguntas pegando suas mãos e abaixando.
— Você pegou o que estava em cima da bancada do banheiro?
Ele confirmou e voltou para detrás da mesa. Nick veio me abraçar e eu sorri para os outros. Caitlin me puxou com ela até os sofás.
— Grace não sabe sobre isso, não é?
— Não. Imaginei que não quisesse que ela soubesse, então Colin ficou lá fora com ela, a distraindo.
— Depois eu converso com ela.
— O que aconteceu?
Expliquei a história toda, sem interrupções. Desde como acordei até as ordens que dei. Aaron me fitava sério e concentrado. Via o cansaço em suas expressões e ele continuava com a mesma roupa de ontem, com exceção do paletó e da camisa, que tinha alguns botões abertos, além de totalmente amassada.
— Alfredo me disse que alguns homens deram uma olhada no lugar que o segurança disse ter visto a boneca e na vizinha atrás de possíveis rastros do atirador. Não encontraram nada.
— O que dizia no papel? — Caitlin perguntou curiosa.
Todos nos olharam, em expectativa também. Aaron pelo visto não havia dito sobre o bilhete.
— "Estar com ele é uma faca de dois gumes: ou morre pelas mãos dele ou pelas minhas" — recitei de cor as palavras que li uma vez, mas que queimavam em minha mente como se fossem várias.
Não o olhei. Caitlin tinha as sobrancelhas arqueadas e Dylan assobiou, impressionado.
— Vocês podem sair um pouco e me deixar a sós com a Lane?
Todos concordaram e, em um minuto, só restava nós dois na sala. Eu não fui até Aaron como de costume, mas sim ele veio até mim. Eu queria a maior distância possível daquela boneca. Olhei para ele quando se sentou ao meu lado. Puxando-me para si, sentei em seu colo e ele me olhou bem nos olhos antes de me beijar.
— Você está bem? — voltou a repetir.
— Não. — abri o jogo, suspirando e afastando meu cabelo. — Eu queria que você estivesse aqui comigo ontem. Eu fiquei com tanto medo que pudesse ter sido algo com você quando acordei com o tiro e você não estava lá...
— Me desculpa. Porra. — esfregou os olhos. — Eu passei a noite na boate. Sabe, eu estava vendo algumas coisas minhas e do plano, mas eu estava bebendo nesse meio tempo e acabei dormindo em cima dos papéis. Só acordei com Dylan me ligando dizendo que Alfredo tinha ligado e tinha problemas aqui. Aí que vim correndo.
— Eu te liguei várias vezes. Por que não atendeu?
— Eu não estava ouvindo — mentiu na cara dura.
Balancei a cabeça e a virei, encarando o papel de parede com os lábios entre os dentes. Ele puxou meu queixo e me fez encará-lo de novo. Aaron me escondia algo, eu sabia.
— Você sabe que eu queria estar aqui. Eu tô mais puto comigo mesmo por ter te deixado aqui em perigo do que você comigo por isso.
— Eu não estou puta, Aaron, eu só... Aquela boneca é medonha, eu tive que dar as ordens sem nem ter ideia do que fazer enquanto me fazia de forte. E ainda tinha Grace para proteger.
— Eu sei, eu sei, merda! — tombou a cabeça para trás, as palavras abafadas pelas mãos no rosto.
Seu peito subia e descia rapidamente e sua respiração era pesada. Eu via o quanto ele estava se punindo e mesmo que uma pequena parte de mim ficasse satisfeita com aquilo, a maioria me repugnava porque a culpa totalmente não era dele. Sem contar que esse episódio o lembrava de Sienna. Ele a deixara só e ela morrera. Ele não queria que a história se repetisse. Peguei em suas mãos e as puxei, fazendo-o me olhar.
— Eu realmente tô um pouco chateada, mas a culpa não é sua. Você não tinha como adivinhar que isso ia acontecer, e você estava concentrado no plano. Simplesmente aconteceu. Não há nada a ser feito. O que importa é o agora. E agora, você tá aqui e eu tô bem e me sentindo segura.
Beijei-o e ele retribuiu. Senti seu toque em minha cintura e cabelos, enquanto apoiava-me em seu tórax e acariciava sua nuca. Afastei-me e sorri tranquilizadora, fazendo-o relaxar um pouco a carranca, mas não sorrir de volta. Deitei em seu peito e ele apertou suas mãos em minha bunda, deixando-me ainda mais colada a ele.
— Alfredo me contou do tiro. Queria ter visto isso. — ri pelo nariz.
— Eu tinha de me defender e eles me deram um susto.
Meu queixo foi levantado e ele me fez olhá-lo.
— Vou te dar uma arma e quero que a leve sempre com você agora. Nick consegue a licença e você não vai nem mais dormir se ela não estiver embaixo do travesseiro.
— Vou ter que fazer sexo com ela entre os dedos? Arranhando seu abdômen com ela? — brinquei, passando o dedo em toda extensão de seu tronco.
Ele revirou os olhos, mas sabia que queria sorrir também.
— Porra, não provoca dessa maneira quando quero ser sério. — ri, dando-lhe um selinho. — Eu não confio em mais nada, Lane. E agora com toda essa merda vindo aí... Quero você com a arma como se ela fosse parte de você.
— Entendi, Aaron. Por mim, tudo bem.
Ele me beijou de novo e, desta vez, tive que me ajeitar para uma melhor posição. Mexi-me em seu colo, ouvindo-o xingar entre meus lábios. Estava bem em cima de seu membro e rebolei só para provocar.
— Vadia. — apertou minha polpa, fazendo-me rir beijando suas bochechas e pescoço.
Ele me jogou para o lado, fazendo-me sorrir sapeca enquanto me ajeitava no sofá.
— Você tem ideia de quem possa ter mandado?
Ele me olhou confuso e apontei com a cabeça para a boneca. Ele a encarou por um longo tempo antes de se virar para mim:
— Suspeito só.
— Callum?
— Está na lista.
Mas sentia em seu tom que, como eu, ele não acreditava muito nessa opção. Não contara a ele sobre a ligação na noite anterior. Por mais que ele tivesse me ameaçado e a boneca chego horas depois, algo me dizia que ele não a mandara.
Levantei-me do sofá e sua atenção voltou a mim.
— Vamos tomar café. E depois você vai tomar um banho e descansar.
— Lane... — começou a esfregar os olhos com seu tom.
— Você está acabado. Os garotos podem se virar sem você. E você podre é tão válido quanto um jogador com tontura. Então, uma vez na sua vida, me ouça.
Bufando e xingando baixo, ele se levantou. Sorri satisfeita, pois essa era a indicação de que ganhara. Dei-lhe mais um beijo, sentindo minha bunda estalar em vingança. Ele estava fissurado nela, só podia ser.
— Quero essa camiseta de volta.
— Não ia devolver a cueca mesmo...
— Você está com uma cueca minha?
Um sorriso maroto se formou antes de eu ir para a porta. Minha mão travou na maçaneta quando uma pergunta cruzou minha mente.
— Aaron, quando sairmos...?
— Sim, tudo volta ao que era antes. Nick me garantiu que o sistema de câmeras está limpo e os empregados, com exceção de Agustina, estão de folga. Os seguranças não podem entrar a não ser que eu autorize, mas, por segurança, melhor mantermos as aparências.
Suspirei e concordei. Ele me prensou contra a porta, acariciando minha cintura e minha bochecha.
— Seus pais logo vão ficar sabendo e por mais merda que tudo isso tenha sido, acho que pode ter nos ajudado.
— É. Eles vão pirar e vão me querer longe. E depois de tudo que disseram ontem...
— O que aconteceu depois que fui embora?
— Eles disseram que voltariam a entrar em contato e não desistiriam até nos ter por perto novamente, onde acham que realmente estamos seguras.
— Isso ajuda. — molhou os lábios.
Sabia que estava irritado de novo e antes que perdesse a coragem ou a oportunidade:
— O que aconteceu para você ir embora?
— Seu pai e eu conversamos e aproveitei para fazer uma cena, te largando ali.
— Só isso? — arqueei a sobrancelha. — Meu pai não te disse nada que te irritou pra valer?
— Seu pai sempre fala merda que me irrita, eu só peguei uma delas e fingi que me atingia de verdade.
Ele mentia. De novo. Concordei, abrindo um pequeno sorriso, encerrando a conversa. Ele me puxou para um último amasso, esse o mais quente de todos.
— Use essa vermelhidão para fingir que brigamos de novo — sussurrou, mordendo minha orelha.
Empurrei-o e ele sorria para mim. Aaron era bipolar. E com certeza estava me tornando também. Arrumei meu cabelo e esfreguei os olhos. Piscando para ele, saí fungando no corredor.
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