Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
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Notas iniciais
O recesso escolar pelo feriado de ação de graças e pelo luto ao falecimento de Ethan haviam chegado ao fim, assim como o mês de novembro. Todos estavam de volta ao colégio, e agora começaram os preparativos para as festividades de dezembro.
Evan estava sozinho com Chris na sala do grêmio, auxiliando-o a organizar algumas de suas obrigações de fim de ano após uma cansativa reunião com o resto dos representantes de classe. Sabia que, com a temporada de esportes e suas responsabilidades como presidente do comitê estudantil o amigo estava exausto, portanto não se incomodava em diminuir o peso em seus ombros sempre que possível.
— Valeu pela ajuda, cara. — Levantou os braços, esticando a coluna, espreguiçando-se por um longo tempo. — O dia de fotos pro anuário é um porre de organizar, mas pelo menos a gente conseguiu adiantar a lista de presença. Agora só falta esvaziar uma sala e avisar o fotógrafo. — Os olhos correram pela sala apreciando o trabalho cumprido, contudo logo pararam nas marcas arroxeadas bem marcadas no rosto do colega, diminuindo sua animação. Sabia que as coisas acabariam assim no instante que o viu se apresentar em público sem seu disfarce e sentia-se um idiota por não tê-lo parado.
Os pais dele não aprovavam seu amor pela música no geral, já que para eles, a única opção plausível era que agisse como um herdeiro decente e seguisse carreira em medicina para assumir os negócios da família.
— Tranquilo, a sua namorada sequestrou a minha até a hora do almoço e hoje não tem treino do clube. Fiquei sem nada pra fazer. — Respondeu desinteressado, dando-lhe um tapinha camarada nas costas.
— É, elas voltaram a se entender depois do aniversário da Pan. — Engoliu seco, empenhando-se em esconder sua preocupação com os ferimentos do amigo. — E por falar nela, como estão as coisas depois da sua declaração melosa no meio da rua? Vocês dois sumiram do nada. — O provocou, fitando-o com um sorrisinho ladino forçado. Não queria agir estranho ao seu redor e nem deixá-lo desconfortável, então deu um jeito de trazer apenas a parte boa do tópico à tona, sem mencionar suas consequências.
— Declaração melosa o caramba, vai se foder. — Revirou os olhos demonstrando incômodo, embora fosse incapaz de esconder o semblante parcialmente satisfeito. Um tanto sem graça, sentou-se ao lado dele e continuou a conversa: — Sei que vou parecer um babaca em te contar isso, mas ela perdeu a virgindade comigo aquele dia.
— É, você é mesmo um babaca. — Riu, dando-lhe um leve soco no ombro. — Qual o próximo passo? Pegar o cobertor que vocês usaram e pendurar no meio do pátio pra se gabar disso?
— Pra merda, Chris. Te contei porque você é quase meu irmão, mas eu não sairia falando isso por aí. — Retribuiu o golpe, balançando negativamente a cabeça. Parecia incomodado com algo. — Ela tava... diferente. Linda, confiante e divertida como sempre, mas diferente. — Titubeou, recordando-se de uma frieza incomum que antes não existia na garota. — Enfim, acho que eu estraguei tudo quando deixei escapar que amava ela.
— Deixou escapar o quê? — Questionou surpreso, quase caindo do assento. A garganta se fechou e voltou a abrir após tossir duas vezes. Que diabos havia escutado? Sabia melhor do que ninguém o quanto o melhor amigo era desapegado de seus relacionamentos, portanto emocionar-se a esse ponto não parecia normal. Jamais o presenciara agir com tanta carência e desespero. — Você tá louco? O que ela respondeu?
— Ela não respondeu nada. Nem sei se ouviu na verdade, e depois de um tempo o Diego apareceu pra levar ela embora. — Explicou frustrado, percorrendo os cabelos com a mão. — Não consigo dormir direito desde essa porra.
— É melhor que ela não tenha ouvido. Depois de todas as coisas que aconteceram, acho que ela não vai querer um relacionamento sério tão cedo. — Murmurou, o olhar vidrado nas paredes brancas logo pararam acima do retrato de Ethan posicionado ali em homenagem à sua morte. O irritava vê-lo, porém formalidades da escola eram formalidades da escola. Cerrou o punho e acrescentou melancólico: — Já me admira ela ter dormido com você.
— O que tem de tão impressionante nisso, idiota? — Franziu o cenho irritado, contudo amaciou ao encará-lo e perceber em sua face uma expressão cheia de dúvidas e angústias. O conhecia perfeitamente a ponto de notar que algo estava errado. — Tem alguma coisa que eu precise saber? — Inquiriu, vendo-o sobressaltar. Definitivamente algo estava errado.
— Não sei, cara. Se ela quisesse te contar, ela mesma faria isso. — Levantou-se, caminhando até uma das gavetas para guardar os papéis utilizados na reunião anterior. Logo voltou a encarar a fotografia. — E, além disso, não é legal ficar revivendo os mortos. — Essa última parte saiu de seus lábios com tanta sutileza que se tornou quase impossível de ouvi-la.
Evan rosnou e diminuiu novamente a distância entre eles, obrigando-o a fazer contato visual direto como se o intimasse, inviabilizando que evitasse o tópico.
— Chris, ela é minha namorada agora. — Sentenciou angustiado, tentando disfarçar a ansiedade. — Se fosse um segredo sobre a Sarah você ia querer que eu te contasse, não ia?
— O problema é o jeito como você vai reagir. — Sinalizou que lhe entregasse as pastas jogadas acima da mesa, sendo prontamente obedecido. — E honestamente eu nem te culparia. Até eu estourei quando o Naoki me contou.
— Naoki? Espera, tem a ver com ele? Não vai me falar que...
— Não, cara. Não, pelo amor.
Evan suspirou aliviado e continuou a encará-lo com firmeza, sem dar espaço para inventar mais desculpas ou postergar o tema. Era um ultimato, portanto não tinha mais para aonde fugir. Dado por vencido, ele levantou as mãos para demonstrar que se rendia e acomodou-se para começar a falar, contando todos os detalhes conhecidos. Embora não fosse a história completa, fora o suficiente para fazer o colega perder a cabeça. Óbvio, oras. Quem não ficaria irritado com esse tipo de descoberta? Sua única reação foi golpear uma das mesas, desejando muito poder reviver o responsável para arrancar-lhe um a um dos dentes na base do soco. Talvez perdesse todos os ossos e a pele da mão? Provavelmente, mas vê-lo em agonia da mesma forma que sua amada ficara quando tão abruptamente tocada por ele faria valer a pena.
— Espera, aonde você vai, Evan? — O interrogou ao vê-lo repentinamente recolher a jaqueta e se dirigir até a saída com os ombros tensos. Algo em seu semblante o fazia temer; o modo como fitara o retrato de Ethan com tanto desgosto foi o suficiente para saber que, em breve, faria alguma besteira. Decerto só não a teria quebrado com os punho ainda porque lhe daria problemas como representante, apesar de não faltar vontade de fazê-lo. — Evan! — Insistiu.
— Preciso esfriar a cabeça. — Essa foi a única coisa rumorejada, impassivelmente, sem nem sequer uma pitada de todo o ódio que lutava para conter. Não estava tão irritado assim? Não. Definitivamente estava furioso, porém seu modo de agir era um enigma também. Parte de si aparentava um autocontrole impecável, e a outra estouraria a qualquer segundo.
Existia a possibilidade de estar se segurando para comprovar mudança? Por querer demonstrar que era capaz de agir corretamente? Chris enchia a mente com ponderações, conquanto nenhuma parecesse ser a exata.
Se a vida fosse uma história em quadrinhos, Evan com certeza teria fumaça saindo de cima de seu corpo quando fechou a porta ao retirar-se apressadamente sem dizer mais nada.
Parou para pensar por um minuto, colocando na balança os prós e contras de ir atrás dele. Preocupava-se com a estupidez que podia fazer com as informações descobertas, contudo não gostaria de impor sua companhia e invadir seu espaço pessoal caso necessitasse realmente de um tempo sozinho.
Mas quer saber? Era seu melhor amigo, droga. Deixá-lo solitário para lidar com a notícia de que sua namorada, e aparentemente a mulher que ele amava, fora abusada por alguém não parecia muito considerável de sua parte, então deu de ombros e deixou de lado as responsabilidades do grêmio estudantil para persegui-lo.
Era muito tarde, no entanto. Quando colocou os pés no corredor, percebeu que já o havia perdido de vista. Apressando o passo para ver se conseguia encontrá-lo na saída, deparou-se com sua namorada e Isis encostadas de maneira suspeita na entrada de uma das salas, obrigando-se a parar e averiguar a situação.
— O que vocês estão fazendo, mocinhas? — Acercou-se com as sobrancelhas arqueadas, observando-as se esforçarem para esconder a fechadura.
— Nada. — Alegaram em uníssono, aumentando a desconfiança.
— É a Alex batendo aí? — Inquiriu surpreso, escutando estrondos incansáveis tomarem conta do corredor vazio e uma voz abafada muito conhecida do outro lado, repetidamente requisitando que a retirassem dali. Estendeu a mão e retirou-as da frente, alcançando a maçaneta no intuito de girá-la. — Tá trancado? Cadê a chave? Alguém pode me explicar o que tá acontecendo aqui? — Cruzou os braços, observando-as calmamente. Ambas esboçavam feições amedrontadas como se houvessem sido pegas no flagra.
— Nós trancamos ela com a Pan pra ver se elas se resolviam. — Sarah soou envergonhada pela atitude imatura. — O Naoki estava preocupado com a Alex, então ele organizou isso. — Esfregou os braços suavemente, quebrando contato visual. Estava arrependida por ter concordado em ajudar nesse esquema infantil.
— Meu Deus. — Riu, apertando-a contra si em um abraço caloroso, demonstrando não estar irritado apesar da bagunça. — Tudo bem que tinham jeitos melhores de ajudar, mas agora que a merda já foi feita... — deu de ombros — só queria saber como vocês deram conta de trancar essas duas juntas sem causar a terceira guerra mundial.
— Ah, foi fácil. — Isis comentou. — A gente mentiu dizendo que o diretor estava chamando elas pras fotos do anuário, aí quando elas entraram na sala, o Naoki trancou. — Explicou entusiasmada, comprovando divertimento com a situação.
— E cadê ele?
— O clube de debates precisou da ajuda dele com sei lá o quê, mas ele vai voltar com a chave depois do almoço. — Bocejou cansada, sentando-se no chão ao lado da porta e apoiando as costas nos armários. — No lugar de vocês eu sentaria também, porque se depender da Alex, esse drama vai demorar pra se resolver ainda.
— Eu ouvi isso, sua canalha. — Deu um forte chute contra a porta, manifestando seu descontentamento com as circunstâncias e com o fato de ter sido ofendida.
— Ótimo, você anda precisando ouvir algumas coisinhas mesmo. — Isis retribuiu o golpe, fazendo-a recuar alguns passos.
A capitã do time de basquete retrocedeu com um grunhido e se encolheu em uma das mesas, silenciosamente aceitando seu destino de ficar trancafiada nas próximas horas. Apoiou os cotovelos e virou-se até Pan, ficando desconfortável com o quanto estava sendo diretamente encarada. Bom, sempre fora muito direta com seus sentimentos e tinha o costume de nunca desviar o olhar como qualquer outro ser humano o faria, normalmente causando constrangimento aos que tentavam manter um diálogo com ela.
— Tá me encarando assim por quê? — Estalou a língua fingindo estar incomodada, apesar de no fundo querer fazer as pazes.
— Por que eu sinto sua falta. — Admitiu, ousando puxar uma cadeira para se acomodar ao seu lado. — O Diego me pediu pra te dar um tempo, mas...
— Eu também sinto — aqui o semblante de Pan cintilou com esperança — mas da antiga você, de quando eu não sabia nada sobre a sua família. — Completou, desanimando-a rapidamente. Ficara sem palavras.
Não era como se pudesse simplesmente garantir que essa descoberta não atrapalharia sua vida, e depois de ter pressionado tanto seu pai a ser honesto e permitir seu envolvimento nos negócios, alegar ser distinta de todos os outros seria hipocrisia. Sempre fora tão criminosa quanto eles, fechando os olhos para cada atrocidade cometida e fingindo inocência, porém só havia admitido isso para si mesma recentemente. Ao menos era um início.
— É um assunto meio delicado pra sair falando abertamente por aí, por mais que eu já tenha feito isso. — Esboçou um leve sorrisinho, lembrando da própria gafe cometida em seu primeiro dia no colégio. — Mesmo assim me desculpa por ter escondido de você quando todos os outros já sabiam.
— Foi chato me sentir excluída, mas tá de boa agora. Acho que sei o motivo que fez o Chris não querer me contar.
— Pensei que fosse só porque você ia ficar com medo.
Alex negou com a cabeça.
— Seria mentira falar que não fiquei apavorada com as coisas que aconteceram com a Kate ou com o Chris, mas não é só isso. — Ajeitou-se no assento, apertou as mãos e mordeu os lábios nervosa. Memórias nada agradáveis vieram à tona. — Uns três anos atrás a gente quase perdeu a lanchonete porque meu pai se viciou em jogos. Ele saía escondido toda noite pra se enfiar nos cassinos, pensando que ia ganhar e no fim só perdia mais dinheiro ainda. — Seu tom de voz diminuiu, já afetada emocionalmente pelo assunto. Orgulhosa como o usual, recusou-se a sucumbir e disfarçou pigarreando antes de continuar: — Pra encurtar a história, ele se afundou em dívidas e nem ele nem minha mãe tinham mais direito de pedir créditos pro banco, então um cara do cassino ofereceu emprestar dinheiro e ele aceitou sem perguntar nada. — Engoliu seco; os arrepios em seus braços eram perceptíveis. — No fim, esse cara era bem perigoso e...
— Aconteceu alguma coisa com o seu pai? — Inquiriu angustiada.
— O cara cobrou juros ridículos, o empréstimo virou o triplo do valor e obviamente a gente não tinha como pagar, aí eles destruíram boa parte da lanchonete e levaram tudo do caixa depois de quase matarem o meu pai. — Dedilhou ansiosa contra a mesa. — Enfim, a mãe do Chris pediu um empréstimo e ajudou a gente a se livrar desse desgraçado, mas até hoje a gente continua em dívida com ela e com o hospital também. Não é nada pessoal com você ou a sua família, só que não dá pra ficar confortável sabendo que eles mexem com esse tipo de coisa. Eu só preciso de mais tempo.
Pan suspirou e se deu por vencida, ciente de que ela tinha todos os motivos do mundo para não querer se envolver com sua vida e todo o drama dela. Agiotagem claramente se encontrava presente nos negócios e não seria estranho que uma situação exatamente igual à essa estivesse acontecendo agora mesmo pelas mãos de conhecidos seus. Não se tornava menos cruel e ilegal por ser sua família a fazê-lo, embora honestamente parte de si já não desse importância alguma para isso. Negócios eram apenas negócios, certo?
— Quando você decidir eu vou estar aqui. — Abraçou-a suavemente, e depois de alguns segundos de receio, teve o gesto retribuído. — Obrigada por se abrir comigo.
— Sabe, você tá diferente. — Sussurrou, afastando-se para analisá-la. — Deve ser porque o clima continua esquisito entre a gente. — Deu de ombros, ignorando suas dúvidas e mudando de assunto: — Fiquei sabendo que você tá namorando o Evan agora. Jurava que você e o seu segurança antigo lá iam acabar juntos, mas se você gosta mesmo do Evan tá de boa. Ele é legal de verdade, o único problema é que se esforça muito, muito mesmo pra tentar te impressionar e acaba parecendo um idiota.
— O Hec foi embora. — Seu timbre saiu falho; as palavras pareciam lâminas afiadas em sua garganta. Acreditava ter superado, contudo repetir em voz alta a atingia mais do que o esperado. — E o Evan é mesmo uma boa pessoa, mas... — ponderou ser honesta e cortou a frase no meio. Que bem faria admitir que só o estava usando para sanar sua carência emocional? — Ah, nada, esqueci o que ia falar. — Completou neutra, sem esconder-se atrás de uma alegria falsa como usualmente fazia.
— Agora que vocês se resolveram, estão liberadas. — Naoki abriu a porta estrondosamente, fazendo-as sobressaltarem com o susto de terem sido tão abruptamente interrompidas. — Foi mal pelo atraso. Eu sei que devia ter aparecido no almoço, mas acabou demorando lá na sala de debates.
Alex rangeu os dentes irritada, aproximando-se dele em passos pesados. Puxou-o pelo colarinho e o forçou a ficar em sua altura, segurando com força suas bochechas, roçando propositalmente as unhas contra sua pele no intuito de machucá-lo um pouco.
— Seu merda, da próxima vez que inventar de me fazer perder o treino da manhã em época de campeonato e me obrigar a voltar pra quadra de barriga vazia eu te mato. — Ameaçou, causando-lhe alguns arrepios amedrontados. A entonação nada amigável o forçou a entender seu erro. Basquete era muito importante para ela, afinal, portanto somente assentiu e foi bruscamente solto antes de vê-la correr até o clube apressada.
— Pan? — Isis interrompeu, chamando-a com uma seriedade intimidadora. — Vamos conversar rapidinho? — Sinalizou com o polegar que se retirassem até o pátio para terem alguma privacidade. Após sentarem-se juntas em um dos bancos seguiu: — Eu ouvi sem querer a ultima parte da sua conversa lá dentro. Sobre o Evan.
— Não tem problema. Era só isso?
— Eu não vim pra me desculpar por ter escutado. Você pode enganar todo mundo com esse seu rostinho de sonsa, mas não pode me enganar. Eu sou atriz, esqueceu? — Comentou casualmente, retirando-a da zona de conforto. Seu coração falhou uma batida por descobrir que alguém enxergava além de sua máscara criada recentemente. — Fica tranquila, não vim pra te julgar também. Seria hipocrisia minha, até porque eu devo ter magoado várias mulheres tentando esquecer a Kate no passado.
— Não deu certo, né?
— Eu voltei, não voltei? — Deu um sorrisinho nostálgico, cruzando os braços, porém logo fechou a expressão. — É por isso que eu preciso saber se existe a mínima chance de você se apaixonar por ele. O Evan é quase um irmão pra mim, sabe? Foi ele quem me indicou pros diretores e alavancou minha carreira quando eu não era ninguém. Ele pode ser tosco em muitos aspectos, mas é a primeira vez que eu vejo ele tão fissurado em uma pessoa e não quero ter que recolher os cacos do que restar dele no final dessa história toda.
Pan encontrava-se em um estado aonde seu interior era uma bagunça completa. O havia entregado seu primeiro beijo, sua virgindade, havia feito todo o possível para que ele se tornasse alguém inesquecível e indispensável. Quer dizer, todos sempre lhe disseram que uma mulher não conseguia esquecer do primeiro homem que havia beijado ou se entregado por completo, mas então porque Evan era retirado de seus pensamentos tão facilmente? Por que não era esforço algum deixar de pensar em todos os momentos aparentemente maravilhosos que compartilharam juntos? E o mais importante, por que nenhum daqueles momentos fazia seus batimentos se descompassarem?
— Não existe. — Confessou fria, dando-se por vencida. Não era justo para nenhum dos dois continuar com essa farsa. — Eu tentei, mas não consigo sentir nada por ele.
— Amor não é uma coisa que dá pra forçar. — Isis soou inesperadamente compreensiva, apesar da pontada de raiva no fundo de sua voz. Bom, estava usando alguém importante para ela como fantoche então compreendia os motivos de seu rancor. — Se for amor mesmo você não vai precisar ficar se forçando a sentir nada. Vai ser natural, crescer aos poucos.
— Tem algum jeito de saber? — Questionou; os olhos fixos na colega para não permitir que até a menor das informações escapasse. Obviamente existiam pessoas amadas em sua vida, porém até aquele momento, o amor romântico fora uma experiência que ainda não conseguira vivenciar. Ao menos não conscientemente.
— Não tem uma fórmula, mas dá pra se perguntar algumas coisas. — Ajeitou a postura, colocando uma perna acima da outra. — Por exemplo, antes de dormir ou quando você acorda, qual o primeiro rosto que vem na sua cabeça? Ou quando alguma coisa legal acontece, pra quem você tem vontade de contar primeiro? — Respirou fundo, quase como um suspiro emocionado. Claramente imaginava sua amada à medida que dialogava. — Quem te dá um calor na barriga e te deixa nervosa só por fazer uma coisa simples como sorrir ou chegar perto? E o mais importante... quando você sonha com o futuro, quem tá do seu lado?
Inconscientemente, enquanto a ouvia citar aquela interminável lista, repetia mentalmente um único nome que a fizera ser atingida pelo choque de realidade mais uma vez. Mais uma última e maldita vez, lhe obrigando a perceber que todas as perguntas possuíam apenas um nome como resposta.
O nome de Hector.
Em sua despedida ele havia se declarado e perguntado sobre seus sentimentos, mas ainda não tinha noção da resposta. Nunca vivera um primeiro amor, afinal, e o compromisso de se apaixonar por um assassino procurado era eterno, independente do que o futuro reservasse para o casal. Naquela época, não estava pronta para assumi-lo, porém nesse instante, nada disso importava. Seria uma mentirosa alegar inocência à essa altura, e pior ainda se ousasse alegar se importar com a profissão daquele homem. Há tempos não se incomodava com isso e agora tinha certeza absoluta. O amava e recusava-se a passar mais um único dia sequer sem que ele soubesse disso. Necessitava respondê-lo.
Seu coração palpitava dolorosamente. Seria o arrependimento de tê-lo deixado partir ou a necessidade de reavê-lo? Eufórica, levantou-se sem abrir a boca e saiu correndo em direção à sua casa. Estava na hora de resolver isso, apesar de compreender que não existia solução imediata. Que levasse um dia ou dois, não importava, apenas precisava se livrar desse peso em seu peito e seguir em frente.
Nesse meio tempo existia uma tarefa a ser cumprida, e isso sim não podia esperar até o dia de amanhã;
Terminar com Evan o mais rápido possível.
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