Notas iniciais
Olá, meus caros leitores ♥ pra quem ficou um tempinho sem postar capítulos, eu decidi compensar vocês postando dois na mesma semana. Espero que vocês fiquem felizes (o que eu duvido muito, pq esse capítulo aqui me deixou triste ;a) Boa leiturinha ♥ OBS> PRA NÃO FICAR CONFUSO, O QUE TÁ EM ITÁLICO É LEMBRANÇA.

Assim que chegaram à casa da amiga, Pan saltara do veículo antes que fosse detida outra vez por seu próprio corpo amedrontado, não aguardando nem ao menos que Sandro o estacionasse. Ethan desferia golpes contra o portão da casa na intenção de abri-lo, porém quando deparou-se com ela, logo aproximou-se para segurar seus pulsos em um gesto violento, querendo descontar as próprias frustrações na garota que, até então, ele acreditava ser a responsável por toda sua miséria.

— É tudo culpa sua, vagabunda! — Vociferava, fazendo questão de apertar cada vez mais a pele da garota, deixando a marca de suas mãos. — Se você não tivesse aparecido ela ainda seria minha.

— Isso dói, Ethan. Me solta, por favor. — Suplicou, tentando escapar.

— "Isso dói"? — Repetiu, sorrindo de um jeito sádico. Apreciava vê-la tão amedrontada. — Que se foda.

Quando levantou sua mão visando acertá-la, Sandro segurou seu braço e deu-lhe um forte chute no tronco, empurrando-o diretamente para o chão. Com uma expressão fria e completamente despreocupada, sacou seu revólver do bolso e mirou bem no meio dos olhos do garoto, deixando-o paralisado pelo medo.

— Por favor, não! — A garota interveio, entrando em meio ao fogo cruzado. — Eu imploro, por favor, não mata ele.

— Eu adoraria saber por quê qualquer pessoa no universo defenderia um lixo desses. Particularmente, eu acho que o mundo seria um lugar melhor se eu me livrasse dele aqui e agora. — Comentou, guardando sua arma e agarrando os pulsos de Ethan, assim como fizera com sua protegida. — Você tem muita sorte, moleque. — Dobrou com força para trás aquelas mãos que haviam pecado ao tocá-la, na intenção de quebrar seus pulsos. Ouviu-o grunhir com a dor enquanto respirava forte, já quase sem ar. Era uma sensação insuportável.

— Sandro! — Sarah o repreendeu pelo gesto bruto, direcionando imediatamente sua atenção para a amiga, no intuito de averiguar seu estado mental naquele momento. Não queria que presenciasse uma cena como aquela.

— Esse disgraziato tem mais é que agradecer por eu não ter estourado os miolos dele. Considere uma cortesia da bambina.

Ela segurava com força as mãos trêmulas de Pan, tentando acalmá-la. Por um segundo, pensou que a culpa fosse de Sandro por tê-la assustado, porém logo percebeu que não era bem assim. Sua alma parecia não ter paz quando olhava para Ethan, e não demorou muito para que ela ligasse os pontos e compreendesse o quanto ele a havia machucado.

— Meninas? São vocês? — A voz de Kate ecoou em um timbre baixo, demonstrando toda a tristeza que continha dentro de si. Assim que teve a certeza de quem eram, correu até os braços de Pan, abraçando-a com força enquanto se deixava desabar ali mesmo. Estava aterrorizada. — Obrigada por vir. Obrigada. — Murmurou com dificuldade, devido à garganta fechada após tanto tempo chorando.

— Nós somos amigas, não somos? — Afagou com delicadeza os cabelos da colega, vendo-a chorar no conforto de seu carinho.

— Vocês querem entrar?

— Não, elas não querem, mocinha. — Sandro interveio, abrindo a porta do carro com certa fúria em seu semblante. — Você, sim. Entra no carro, não posso permitir que elas continuem correndo perigo por sua causa.

— Você está exagerando. — Sarah retrucou de braços cruzados, defendendo-a, entretanto recebeu um olhar irado que a fez encolher os ombros e ceder. Não era sábio discutir com aquele homem, principalmente após a cena violenta de Ethan para com sua protegida. — Ok, vamos pro carro antes que alguém morra.

— Morra? — Kate indagou surpresa, escondendo-se entre as amigas.

— É só um modo de falar. — Olhou novamente para Sandro, na tentativa de fazê-lo relaxar o semblante para que não a assustasse tanto. Sem sucesso, no entanto. — Ou talvez não. — Sussurrou para si mesma, aconchegando-se no banco traseiro. Ainda que insegura, Kate cedeu, buscando algumas roupas em sua casa e trancando-a antes de sentar-se ao lado das amigas e partir.

— Ele já foi? — Perguntou, referindo-se à Ethan. Não queria que ele continuasse a incomodar toda a vizinhança.

— Deve ter fugido com o rabo entre as pernas. — Sarah ironizou.

Poucas palavras foram trocadas até que chegassem. Kate ficara desconfortável na presença de Sandro, o que era compreensível, já que não o conhecia bem e nem sabia o motivo por trás daquela atitude tão violenta e grosseira. No entanto, desde a partida de Isis, era a primeira vez que sentia-se tão acolhida e protegida. Em meio às amigas, a única coisa em que conseguia pensar era no quanto sua afeição por ambas crescia cada vez mais, e estava muito grata por tê-las conhecido.

— Será que eu poderia usar o banheiro? — A convidada sussurrou enquanto subiam as escadas. A casa estava deserta por dentro, como sempre.

— Sim, você já sabe o caminho, né? — Sarah perguntou, recebendo um aceno afirmativo em resposta.

— Pode ir também. Vou pegar alguma coisa pra comer e já alcanço vocês duas. — A anfitriã respondeu, descendo rapidamente até a cozinha. Ela apenas assentiu e completou o trajeto, deitando-se em sua cama enquanto aguardava por Kate.

Pan logo pegou três colheres e um pote de sorvete para que todas pudessem comer. Sabendo que não era muito cuidadosa e que provavelmente acabaria sujando a cama ou o sofá, começou a revirar todos os armários e gavetas em busca de guardanapos, sem importar-se com o estrondo que fazia ao bagunçar as coisas.

— Se não fossem por esses cabelos vermelhos que eu conheço tão bem, pensaria que alguém tinha conseguido invadir a casa. — Hector aproximou-se por trás de seu corpo, fazendo-a derrubar todas as coisas que segurava devido ao susto. — O que está procurando? — Perguntou, recolhendo os objetos do chão.

— Guardanapos.

— Não temos guardanapos, quer que eu saia pra comprar?

— Não precisa. — Sussurrou, encarando os próprios pés. — Você tá muito esquisito. Pensei que ainda estivesse irritado comigo.

— Vem aqui. — Retrucou, puxando-a consigo até o sofá e sentando-se ao seu lado.

— O que foi?

— Preciso recarregar as energias. Tive um dia cheio hoje. — Murmurou, abraçando-a por trás. Aquele perfume tão natural que apenas ela possuía o inebriava completamente. Vez ou outra, quando se deixava aproximar, encontrava-se perdido nos próprios pensamentos enquanto tentava lutar contra os mais profundos desejos de tê-la para si. A chama que se acendia todas as vezes que a tocava era inegável, porém também proibida e profana. — Me deixa ficar assim só por alguns segundos. — Pediu próximo à sua orelha, causando-lhe um arrepio instantâneo.

— Tá. — Assentiu, um pouco sem jeito.

— Eu deveria perguntar sobre esses pulsos marcados? — Indagou com certa raiva, porém sem aumentar o tom de voz. Com o queixo apoiado no ombro da moça, passou suavemente os polegares naqueles pulsos vermelhos.

— O Sandro já vai te contar de qualquer forma. — Resmungou, acomodando-se em suas pernas e retirando o lacre da embalagem de seu sorvete, para enfiar uma colher cheia na boca. — Eu não quero ter medo, Hec. — Disse encarando-o nos olhos, de cima para baixo.

— Medo? De quê?

— Medo de que você possa acabar matando alguém por minha causa. — Desabafou em tom baixo, um pouco dominada por seu nervosismo. Não era de seu feitio tocar em assuntos como aquele, portanto a surpresa foi inevitável.

Após uma breve pausa e um suspiro, Hector compreendeu e puxou-a novamente para si, sem respondê-la enquanto a apertava em um abraço afobado, tentando reprimir os próprios sentimentos. Não queria chateá-la, porém pensar que alguém a estava atormentando e encostando as mãos sujas naquele pequeno e frágil corpo o deixava à beira da loucura. Ao contrário de Sandro, ele talvez poderia falhar em se conter. Era impossível prometer-lhe qualquer coisa.

— Suas amigas estão vendo tudo. — Sussurrou, depositando um leve beijo naqueles cabelos que tanto amava.

— Sarah, Kate, ele já entregou vocês! — Ela provocou, fazendo-as saírem de seu esconderijo, no topo da escadaria.

— Era uma cena tão rara, não queríamos atrapalhar. — Sarah sorriu com certa malícia.

— Sim, foi a última vez. — Ele levantou-se suavemente, para não incomodar a garota que estava apoiada em suas pernas. — Vou cozinhar alguma coisa, vocês devem estar com fome.

— Como assim "a última vez"? — Pan indagou confusa, sem obter resposta alguma.

Hector havia prometido à si mesmo que aquela seria a última vez permitindo-se agir conforme os próprios sentimentos por ela. Era imprescindível que continuasse a viver com aquela fraqueza. Apaixonar-se por ela dia após dia era como uma faca de dois gumes; Em alguns momentos trazia-lhe uma alegria incomparável, e em outros, o fazia enlouquecer à ponto de quase perder o controle. Por sua sanidade mental, não podia continuar assim. Sarah também compreendera a intenção oculta por trás daquelas palavras, porém embora muito quisesse, não poderia dizer nada à sua melhor amiga.

— Isso é sorvete? — Kate aconchegou-se no sofá e pegou uma colher, contudo fora logo interrompida pela única amiga responsável, que retirou o pote de suas mãos. — Ei! — Reclamaram em uníssono.

— Depois do jantar vocês podem comer.

— Tá bom, "mamãe". — Pan ironizou, fazendo-as rir.

Assim que pronta a refeição, Hector retirou-se, sentando-se próximo ao portão da casa e deixando as garotas à vontade, sem que sua presença as incomodasse. Puxou um maço de cigarros do bolso e levou um aos lábios, acendendo-o e tragando a fumaça, permitindo que ela tremeluzisse na penumbra da noite assim que saíra de seus pulmões.

Pensei que havia prometido nunca mais fumar.

Tive a impressão de que você viria até aqui para me confrontar, Santoro. — Ele sorriu de canto. — Eu estou de luto. É um motivo válido.

Tem certeza disso? — Sarah perguntou, acomodando-se ao lado daquele homem solitário.

Eu sou um assassino que trabalha para o pai dela. — Retrucou, quase engolindo aquelas palavras que lhe saíram pela garganta como uma lâmina afiada. Dizê-las em voz alta era mais doloroso do que pensava. — Não somos compatíveis. — Completou, apagando o cigarro naquele cimento frio da calçada. Restara apenas o silêncio da noite e o cheiro de nicotina enquanto as memórias do dia em que conheceu Pan lhe invadiam a mente.

Naquele dia nublado, Hans trazia consigo um garoto acabado, com as roupas desgrenhadas que continham o cheiro do sangue de seus falecidos pais, mortos em sua frente por um assassino de aluguel que os Stracci há tempos perseguiam. Quando chegaram, já era muito tarde, mas o chefe da famiglia Stracci decidiu tomar as responsabilidades para si, acolhendo a criança na intenção de torná-la seu braço direito no futuro.

Aquele jovem sem perspectiva e com um olhar desolado fora apresentado à sua filha como seu futuro guarda-costas e protetor. A visão daquela garotinha de cabelos acobreados e um vestido branco sentada em meio à grama do quintal fora a coisa mais bonita em que já havia colocado os olhos. Bela o suficiente para lhe confortar após a horrenda cena em que via seus pais ensanguentados aos seus pés, aguardando para ser o próximo.

— Se apresente à ela, garoto. Hans ordenava, empurrando-o em sua direção.

Talvez ele quisesse ficar só, ao mesmo tempo que gostaria de aproximar-se também. Estava confuso; inquieto; inseguro; assustado. Suas mãos tremiam todas as vezes que aquelas lembranças lhe vinha à mente. E não eram poucas.

— Você tá tão sujo. Aquela doce voz limpara todas as tormentas que lhe incomodavam. O toque daquela pequena criança o fez voltar à realidade por um segundo, enquanto tentava admitir para si mesmo que tudo ficaria bem. Qual o seu nome? — Perguntou curiosa, com aquele sorriso despreocupado de quem nunca havia sofrido por um segundo sequer em toda a sua existência. Era tão pura, e ao mesmo tempo tão irritante.

— Meu nome? Ele encarou as próprias mãos, sujas com aquela cor vermelha que agora tanto lhe trazia ódio. Teve, por um momento, vontade de gritar. O sentimento de perda era tão insuportável que já não cabia dentro de si.

Repentinamente, sentiu-se ser envolto por ela em um abraço caloroso. Sem importar-se com suas vestimentas imundas ou com suas origens, simplesmente o confortou em silêncio, sem questioná-lo ao sentir suas lágrimas escorrendo por seus ombros, manchando aquele belo vestido de cor nevada. Era realmente irritante.

— Eu também me sinto sozinha. O papai quase nunca volta pra casa, e a mamãe fica o tempo todo com ele. Você vai me fazer companhia?

Ele apenas assentiu, apertando-a com força para encontrar conforto em seu carinho. Era tudo o que ele precisava, embora Hans os tivesse separado momentos depois.

Encontraram-se novamente no dia seguinte, e dessa vez, era Hector quem estava sentado naquele gramado, pensativo. Pan chegara por trás, surpreendendo-o ao colocar as mãos na frente de seus olhos.

— Quem é? Tenta adivinhar. Ela ria.

— Aquela menina irritante.

— Errou, é a Pan! Mostrou-lhe a língua para provocá-lo, sentando-se ao seu lado. Você não pode mais errar o meu nome, já que somos amigos agora.

— Eu não sou seu amigo.

— É sim! — Ela reclamou.— Como você chama, amigo?

— Hector.

— Qual sua cor preferida, Hector?

— Eu não tenho uma cor preferida.

— Chaaaato! Ela bufou, deitando-se no gramado. Qual a cor que você acha mais feia, então?

— Feia? Hector murmurou, imerso em seus pensamentos, que lhe causaram mais uma vez aquela falta de ar insuportável. Vermelho.

— Como, como? É a melhor cor. Pan levantou-se novamente, brincalhona. Agora você precisa falar.

— É a cor do sangue. Sussurrou, engolindo seco.

— Mas você não pode ter medo de sangue se for trabalhar para mim, garoto. Hans interveio. Já estou de saída, continuem a conversar, crianças. Ordenou, percebendo que ambos se levantavam para recebê-lo.

— Você não pode ficar hoje, papai?

— Hoje não, bambina. Retrucou, caminhando em direção à saída.

— Se trabalhar com o papai vai ficar malvado igual ele. Pan reclamou.

— Mas ele tá certo. Se eu for fazer... "aquilo", não posso ter medo.

— O que é "aquilo"?

— Nada que uma pirralha deva saber.

— Viu? Já é malvado. E além disso, você é um pirralho também. Incomodou-se novamente, cruzando os braços enquanto fazia biquinho.

— Eu sou mais velho.

— Não é não.

— Eu sou seis anos mais velho!

Ah, tive uma ideia! Exclamou, levantando-se rapidamente e ignorando-o.

— Ideia?

— Você gosta de mim?

— Não, você é muito chata.

— O quê? Tá decidido, então. Eu vou fazer você gostar de mim, e de vermelho também. Volta aqui amanhã, tá bom? Não esquece. Ela tagarelava enquanto corria para longe, até desaparecer entre as paredes da casa.

Intrigado, no dia seguinte ele fez como deveria, voltando àquele mesmo lugar de sempre, sem saber o que lhe aguardava. Segundos depois, Pan lhe surpreendera uma vez mais, colocando as mãos em seus olhos como havia feito no dia anterior.

— É a Pan. Sorriu de canto, satisfeito por ter se recordado de seu nome.

— Acertou! Ela retirou as mãos revelando o seu rosto.

Quando a viu, seus olhos rapidamente se arregalaram com a surpresa. Ela havia tingido seus cabelos daquela cor que ele tanto odiava; aquele escarlate vivo. Hector levantou-se para encará-la melhor, aproximando-se vagarosamente. Enquanto o sol reluzia aqueles fios tão finos e vivos, ele sentia uma paz interior que jamais sentira antes. Pensou consigo mesmo que, talvez, ele poderia aprender a amar aquela cor que tanto lhe trazia dor, assim como começava a criar sentimentos pela dona daqueles fios tão vívidos. Com todo o seu jeito irritante, ela realmente havia conseguido forçar uma entrada em seu coração, despertando-lhe um sentimento que nunca havia vivenciado.

Ela ainda mantinha aquela promessa mesmo após tantos anos, fazendo-o recordar-se do exato momento em que havia se apaixonado à contragosto. Pensava que, talvez, aquela fosse a sua punição por ser tão ganancioso, pois afinal, como poderia um demônio pecador desejar para si o anjo mais puro que havia tido a oportunidade de conhecer?

Notas finais
Espero que tenham gostado ♥ obrigadinha por ler~