Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
17 A última vez
Notas iniciais
Assim que chegaram à casa da amiga, Pan saltara do veículo antes que fosse detida outra vez por seu próprio corpo amedrontado, não aguardando nem ao menos que Sandro o estacionasse. Ethan desferia golpes contra o portão da casa na intenção de abri-lo, porém quando deparou-se com ela, logo aproximou-se para segurar seus pulsos em um gesto violento, querendo descontar as próprias frustrações na garota que, até então, ele acreditava ser a responsável por toda sua miséria.
— É tudo culpa sua, vagabunda! — Vociferava, fazendo questão de apertar cada vez mais a pele da garota, deixando a marca de suas mãos. — Se você não tivesse aparecido ela ainda seria minha.
— Isso dói, Ethan. Me solta, por favor. — Suplicou, tentando escapar.
— "Isso dói"? — Repetiu, sorrindo de um jeito sádico. Apreciava vê-la tão amedrontada. — Que se foda.
Quando levantou sua mão visando acertá-la, Sandro segurou seu braço e deu-lhe um forte chute no tronco, empurrando-o diretamente para o chão. Com uma expressão fria e completamente despreocupada, sacou seu revólver do bolso e mirou bem no meio dos olhos do garoto, deixando-o paralisado pelo medo.
— Por favor, não! — A garota interveio, entrando em meio ao fogo cruzado. — Eu imploro, por favor, não mata ele.
— Eu adoraria saber por quê qualquer pessoa no universo defenderia um lixo desses. Particularmente, eu acho que o mundo seria um lugar melhor se eu me livrasse dele aqui e agora. — Comentou, guardando sua arma e agarrando os pulsos de Ethan, assim como fizera com sua protegida. — Você tem muita sorte, moleque. — Dobrou com força para trás aquelas mãos que haviam pecado ao tocá-la, na intenção de quebrar seus pulsos. Ouviu-o grunhir com a dor enquanto respirava forte, já quase sem ar. Era uma sensação insuportável.
— Sandro! — Sarah o repreendeu pelo gesto bruto, direcionando imediatamente sua atenção para a amiga, no intuito de averiguar seu estado mental naquele momento. Não queria que presenciasse uma cena como aquela.
— Esse disgraziato tem mais é que agradecer por eu não ter estourado os miolos dele. Considere uma cortesia da bambina.
Ela segurava com força as mãos trêmulas de Pan, tentando acalmá-la. Por um segundo, pensou que a culpa fosse de Sandro por tê-la assustado, porém logo percebeu que não era bem assim. Sua alma parecia não ter paz quando olhava para Ethan, e não demorou muito para que ela ligasse os pontos e compreendesse o quanto ele a havia machucado.
— Meninas? São vocês? — A voz de Kate ecoou em um timbre baixo, demonstrando toda a tristeza que continha dentro de si. Assim que teve a certeza de quem eram, correu até os braços de Pan, abraçando-a com força enquanto se deixava desabar ali mesmo. Estava aterrorizada. — Obrigada por vir. Obrigada. — Murmurou com dificuldade, devido à garganta fechada após tanto tempo chorando.
— Nós somos amigas, não somos? — Afagou com delicadeza os cabelos da colega, vendo-a chorar no conforto de seu carinho.
— Vocês querem entrar?
— Não, elas não querem, mocinha. — Sandro interveio, abrindo a porta do carro com certa fúria em seu semblante. — Você, sim. Entra no carro, não posso permitir que elas continuem correndo perigo por sua causa.
— Você está exagerando. — Sarah retrucou de braços cruzados, defendendo-a, entretanto recebeu um olhar irado que a fez encolher os ombros e ceder. Não era sábio discutir com aquele homem, principalmente após a cena violenta de Ethan para com sua protegida. — Ok, vamos pro carro antes que alguém morra.
— Morra? — Kate indagou surpresa, escondendo-se entre as amigas.
— É só um modo de falar. — Olhou novamente para Sandro, na tentativa de fazê-lo relaxar o semblante para que não a assustasse tanto. Sem sucesso, no entanto. — Ou talvez não. — Sussurrou para si mesma, aconchegando-se no banco traseiro. Ainda que insegura, Kate cedeu, buscando algumas roupas em sua casa e trancando-a antes de sentar-se ao lado das amigas e partir.
— Ele já foi? — Perguntou, referindo-se à Ethan. Não queria que ele continuasse a incomodar toda a vizinhança.
— Deve ter fugido com o rabo entre as pernas. — Sarah ironizou.
Poucas palavras foram trocadas até que chegassem. Kate ficara desconfortável na presença de Sandro, o que era compreensível, já que não o conhecia bem e nem sabia o motivo por trás daquela atitude tão violenta e grosseira. No entanto, desde a partida de Isis, era a primeira vez que sentia-se tão acolhida e protegida. Em meio às amigas, a única coisa em que conseguia pensar era no quanto sua afeição por ambas crescia cada vez mais, e estava muito grata por tê-las conhecido.
— Será que eu poderia usar o banheiro? — A convidada sussurrou enquanto subiam as escadas. A casa estava deserta por dentro, como sempre.
— Sim, você já sabe o caminho, né? — Sarah perguntou, recebendo um aceno afirmativo em resposta.
— Pode ir também. Vou pegar alguma coisa pra comer e já alcanço vocês duas. — A anfitriã respondeu, descendo rapidamente até a cozinha. Ela apenas assentiu e completou o trajeto, deitando-se em sua cama enquanto aguardava por Kate.
Pan logo pegou três colheres e um pote de sorvete para que todas pudessem comer. Sabendo que não era muito cuidadosa e que provavelmente acabaria sujando a cama ou o sofá, começou a revirar todos os armários e gavetas em busca de guardanapos, sem importar-se com o estrondo que fazia ao bagunçar as coisas.
— Se não fossem por esses cabelos vermelhos que eu conheço tão bem, pensaria que alguém tinha conseguido invadir a casa. — Hector aproximou-se por trás de seu corpo, fazendo-a derrubar todas as coisas que segurava devido ao susto. — O que está procurando? — Perguntou, recolhendo os objetos do chão.
— Guardanapos.
— Não temos guardanapos, quer que eu saia pra comprar?
— Não precisa. — Sussurrou, encarando os próprios pés. — Você tá muito esquisito. Pensei que ainda estivesse irritado comigo.
— Vem aqui. — Retrucou, puxando-a consigo até o sofá e sentando-se ao seu lado.
— O que foi?
— Preciso recarregar as energias. Tive um dia cheio hoje. — Murmurou, abraçando-a por trás. Aquele perfume tão natural que apenas ela possuía o inebriava completamente. Vez ou outra, quando se deixava aproximar, encontrava-se perdido nos próprios pensamentos enquanto tentava lutar contra os mais profundos desejos de tê-la para si. A chama que se acendia todas as vezes que a tocava era inegável, porém também proibida e profana. — Me deixa ficar assim só por alguns segundos. — Pediu próximo à sua orelha, causando-lhe um arrepio instantâneo.
— Tá. — Assentiu, um pouco sem jeito.
— Eu deveria perguntar sobre esses pulsos marcados? — Indagou com certa raiva, porém sem aumentar o tom de voz. Com o queixo apoiado no ombro da moça, passou suavemente os polegares naqueles pulsos vermelhos.
— O Sandro já vai te contar de qualquer forma. — Resmungou, acomodando-se em suas pernas e retirando o lacre da embalagem de seu sorvete, para enfiar uma colher cheia na boca. — Eu não quero ter medo, Hec. — Disse encarando-o nos olhos, de cima para baixo.
— Medo? De quê?
— Medo de que você possa acabar matando alguém por minha causa. — Desabafou em tom baixo, um pouco dominada por seu nervosismo. Não era de seu feitio tocar em assuntos como aquele, portanto a surpresa foi inevitável.
Após uma breve pausa e um suspiro, Hector compreendeu e puxou-a novamente para si, sem respondê-la enquanto a apertava em um abraço afobado, tentando reprimir os próprios sentimentos. Não queria chateá-la, porém pensar que alguém a estava atormentando e encostando as mãos sujas naquele pequeno e frágil corpo o deixava à beira da loucura. Ao contrário de Sandro, ele talvez poderia falhar em se conter. Era impossível prometer-lhe qualquer coisa.
— Suas amigas estão vendo tudo. — Sussurrou, depositando um leve beijo naqueles cabelos que tanto amava.
— Sarah, Kate, ele já entregou vocês! — Ela provocou, fazendo-as saírem de seu esconderijo, no topo da escadaria.
— Era uma cena tão rara, não queríamos atrapalhar. — Sarah sorriu com certa malícia.
— Sim, foi a última vez. — Ele levantou-se suavemente, para não incomodar a garota que estava apoiada em suas pernas. — Vou cozinhar alguma coisa, vocês devem estar com fome.
— Como assim "a última vez"? — Pan indagou confusa, sem obter resposta alguma.
Hector havia prometido à si mesmo que aquela seria a última vez permitindo-se agir conforme os próprios sentimentos por ela. Era imprescindível que continuasse a viver com aquela fraqueza. Apaixonar-se por ela dia após dia era como uma faca de dois gumes; Em alguns momentos trazia-lhe uma alegria incomparável, e em outros, o fazia enlouquecer à ponto de quase perder o controle. Por sua sanidade mental, não podia continuar assim. Sarah também compreendera a intenção oculta por trás daquelas palavras, porém embora muito quisesse, não poderia dizer nada à sua melhor amiga.
— Isso é sorvete? — Kate aconchegou-se no sofá e pegou uma colher, contudo fora logo interrompida pela única amiga responsável, que retirou o pote de suas mãos. — Ei! — Reclamaram em uníssono.
— Depois do jantar vocês podem comer.
— Tá bom, "mamãe". — Pan ironizou, fazendo-as rir.
Assim que pronta a refeição, Hector retirou-se, sentando-se próximo ao portão da casa e deixando as garotas à vontade, sem que sua presença as incomodasse. Puxou um maço de cigarros do bolso e levou um aos lábios, acendendo-o e tragando a fumaça, permitindo que ela tremeluzisse na penumbra da noite assim que saíra de seus pulmões.
— Pensei que havia prometido nunca mais fumar.
— Tive a impressão de que você viria até aqui para me confrontar, Santoro. — Ele sorriu de canto. — Eu estou de luto. É um motivo válido.
— Tem certeza disso? — Sarah perguntou, acomodando-se ao lado daquele homem solitário.
— Eu sou um assassino que trabalha para o pai dela. — Retrucou, quase engolindo aquelas palavras que lhe saíram pela garganta como uma lâmina afiada. Dizê-las em voz alta era mais doloroso do que pensava. — Não somos compatíveis. — Completou, apagando o cigarro naquele cimento frio da calçada. Restara apenas o silêncio da noite e o cheiro de nicotina enquanto as memórias do dia em que conheceu Pan lhe invadiam a mente.
Naquele dia nublado, Hans trazia consigo um garoto acabado, com as roupas desgrenhadas que continham o cheiro do sangue de seus falecidos pais, mortos em sua frente por um assassino de aluguel que os Stracci há tempos perseguiam. Quando chegaram, já era muito tarde, mas o chefe da famiglia Stracci decidiu tomar as responsabilidades para si, acolhendo a criança na intenção de torná-la seu braço direito no futuro.
Aquele jovem sem perspectiva e com um olhar desolado fora apresentado à sua filha como seu futuro guarda-costas e protetor. A visão daquela garotinha de cabelos acobreados e um vestido branco sentada em meio à grama do quintal fora a coisa mais bonita em que já havia colocado os olhos. Bela o suficiente para lhe confortar após a horrenda cena em que via seus pais ensanguentados aos seus pés, aguardando para ser o próximo.
— Se apresente à ela, garoto. —Hans ordenava, empurrando-o em sua direção.
Talvez ele quisesse ficar só, ao mesmo tempo que gostaria de aproximar-se também. Estava confuso; inquieto; inseguro; assustado. Suas mãos tremiam todas as vezes que aquelas lembranças lhe vinha à mente. E não eram poucas.
— Você tá tão sujo. — Aquela doce voz limpara todas as tormentas que lhe incomodavam. O toque daquela pequena criança o fez voltar à realidade por um segundo, enquanto tentava admitir para si mesmo que tudo ficaria bem. — Qual o seu nome? — Perguntou curiosa, com aquele sorriso despreocupado de quem nunca havia sofrido por um segundo sequer em toda a sua existência. Era tão pura, e ao mesmo tempo tão irritante.
— Meu nome? — Ele encarou as próprias mãos, sujas com aquela cor vermelha que agora tanto lhe trazia ódio. Teve, por um momento, vontade de gritar. O sentimento de perda era tão insuportável que já não cabia dentro de si.
Repentinamente, sentiu-se ser envolto por ela em um abraço caloroso. Sem importar-se com suas vestimentas imundas ou com suas origens, simplesmente o confortou em silêncio, sem questioná-lo ao sentir suas lágrimas escorrendo por seus ombros, manchando aquele belo vestido de cor nevada. Era realmente irritante.
— Eu também me sinto sozinha. O papai quase nunca volta pra casa, e a mamãe fica o tempo todo com ele. Você vai me fazer companhia?
Ele apenas assentiu, apertando-a com força para encontrar conforto em seu carinho. Era tudo o que ele precisava, embora Hans os tivesse separado momentos depois.
Encontraram-se novamente no dia seguinte, e dessa vez, era Hector quem estava sentado naquele gramado, pensativo. Pan chegara por trás, surpreendendo-o ao colocar as mãos na frente de seus olhos.
— Quem é? Tenta adivinhar. — Ela ria.
— Aquela menina irritante.
— Errou, é a Pan! — Mostrou-lhe a língua para provocá-lo, sentando-se ao seu lado. — Você não pode mais errar o meu nome, já que somos amigos agora.
— Eu não sou seu amigo.
— É sim! — Ela reclamou.— Como você chama, amigo?
— Hector.
— Qual sua cor preferida, Hector?
— Eu não tenho uma cor preferida.
— Chaaaato! — Ela bufou, deitando-se no gramado. — Qual a cor que você acha mais feia, então?
— Feia? — Hector murmurou, imerso em seus pensamentos, que lhe causaram mais uma vez aquela falta de ar insuportável. — Vermelho.
— Como, como? É a melhor cor. — Pan levantou-se novamente, brincalhona. — Agora você precisa falar.
— É a cor do sangue. — Sussurrou, engolindo seco.
— Mas você não pode ter medo de sangue se for trabalhar para mim, garoto. — Hans interveio. — Já estou de saída, continuem a conversar, crianças. — Ordenou, percebendo que ambos se levantavam para recebê-lo.
— Você não pode ficar hoje, papai?
— Hoje não, bambina. — Retrucou, caminhando em direção à saída.
— Se trabalhar com o papai vai ficar malvado igual ele. — Pan reclamou.
— Mas ele tá certo. Se eu for fazer... "aquilo", não posso ter medo.
— O que é "aquilo"?
— Nada que uma pirralha deva saber.
— Viu? Já é malvado. E além disso, você é um pirralho também. — Incomodou-se novamente, cruzando os braços enquanto fazia biquinho.
— Eu sou mais velho.
— Não é não.
— Eu sou seis anos mais velho!
— Ah, tive uma ideia! — Exclamou, levantando-se rapidamente e ignorando-o.
— Ideia?
— Você gosta de mim?
— Não, você é muito chata.
— O quê? Tá decidido, então. Eu vou fazer você gostar de mim, e de vermelho também. Volta aqui amanhã, tá bom? Não esquece. — Ela tagarelava enquanto corria para longe, até desaparecer entre as paredes da casa.
Intrigado, no dia seguinte ele fez como deveria, voltando àquele mesmo lugar de sempre, sem saber o que lhe aguardava. Segundos depois, Pan lhe surpreendera uma vez mais, colocando as mãos em seus olhos como havia feito no dia anterior.
— É a Pan. — Sorriu de canto, satisfeito por ter se recordado de seu nome.
— Acertou! —Ela retirou as mãos revelando o seu rosto.
Quando a viu, seus olhos rapidamente se arregalaram com a surpresa. Ela havia tingido seus cabelos daquela cor que ele tanto odiava; aquele escarlate vivo. Hector levantou-se para encará-la melhor, aproximando-se vagarosamente. Enquanto o sol reluzia aqueles fios tão finos e vivos, ele sentia uma paz interior que jamais sentira antes. Pensou consigo mesmo que, talvez, ele poderia aprender a amar aquela cor que tanto lhe trazia dor, assim como começava a criar sentimentos pela dona daqueles fios tão vívidos. Com todo o seu jeito irritante, ela realmente havia conseguido forçar uma entrada em seu coração, despertando-lhe um sentimento que nunca havia vivenciado.
Ela ainda mantinha aquela promessa mesmo após tantos anos, fazendo-o recordar-se do exato momento em que havia se apaixonado à contragosto. Pensava que, talvez, aquela fosse a sua punição por ser tão ganancioso, pois afinal, como poderia um demônio pecador desejar para si o anjo mais puro que havia tido a oportunidade de conhecer?
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