Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
9 Uma noite calorosa
Notas iniciais
Ao final daquela interminável sessão de silêncio todos saíram exaustos da pequena sala na qual ficaram trancafiados pela tarde. Kate continuava com aquela expressão amedrontada, porém suas mãos já não tremiam e parecia sentir-se segura ao redor daqueles que a ajudaram anteriormente.
— Isso foi pior do que ficar ouvindo o papai me dar sermão por um dia inteiro. — Pan reclamou. Para ela, era quase uma tortura ficar tanto tempo sem interagir com outras pessoas.
— Da próxima vez tente não ficar de detenção, já que odeia tanto. — Hector a provocou.
— Ei, vocês ainda estão aqui? — Alex os interrompeu antes que Pan pudesse dar uma resposta à altura.
— Alex? O que está fazendo aqui? — Perguntou intrigada.
— Já esqueceu que eu sou a capitã do time? Eu tava no treino, óbvio. — Naquele momento, ela percebeu os olhares de todos direcionados à seu tornozelo enfaixado. — Ei, eu só estava supervisionando os treinos, não sou tão idiota à ponto de tentar jogar nessas condições. — Respondeu com um sorriso.
— E você vai melhorar até o campeonato? — Pan ousou perguntar, mesmo ciente de que, caso a resposta fosse negativa, Alex provavelmente ficaria desapontada.
— Felizmente foi apenas uma torção leve, então talvez eu consiga. — Disse esperançosa. — De qualquer forma, quem é a nova colega de vocês? — As questionou enquanto olhava para Kate de cima à baixo.
— O nome dela é Kate.
— Esse nome não me é estranho. — Ela pensou por alguns segundos, até finalmente recordar-se de onde a conhecia. — Ah, você é a menina que ficava colada na Isis, não é?
— Eu não diria colada... — Kate murmurou, um pouco sem jeito.
— Foi mal, eu não quis te ofender nem nada.
— Não se preocupe, costumo ouvir muito isso. — Esclareceu, esboçando um sorriso fraco.
— Agora que estamos indo para casa, não tem o risco daquele cara voltar a perseguir a Kate? — Sarah indagou preocupada.
— Cara? Que cara? — Alex parecia curiosa.
— Não precisam se preocupar comigo. Agradeço pela ajuda até o momento... — Ela apertou as mãos, deixando claro o seu nervosismo e medo de ficar sozinha.
Pan aproximou-se dela após pensar por alguns segundos, segurando suas mãos trêmulas para ajudá-la a livrar-se de seu nervosismo em uma troca serena de olhares.
— Meus pais não estão em casa hoje, então você pode dormir comigo se quiser. — Sugeriu, surpreendendo-a com aquele modo estranho de fazer um convite.
Alex a encarou com as bochechas quentes, tentando compreender o significado daquela frase que mais parecia um convite erótico. Hector e Sarah apenas suspiraram desapontados, sem vontade alguma de se envolverem com tudo aquilo.
— Olá, meus colegas detentos! Ainda estão aqui? — Chris quebrou a tensão com sua risada.
— Ao menos para algo ele é útil. — Hector sussurrou, retirando um riso abafado de Sarah que foi a única a ouvi-lo.
— Chris! Eu queria mesmo te ver. Conseguiu os ingressos? — Alex aproximou-se, apoiando o braço no ombro do amigo.
— Eu sei que vai ficar desapontada comigo, mas não consegui. Você sabe que esses shows sempre lotam rápido.
Chateada, Alex bagunçou os cabelos de Chris para puni-lo de modo amigável, como sempre fizeram desde a infância.
— Eu realmente queria ir. — Reclamou.
— Ir aonde? — Pan perguntou interessada.
— Vai ter um show de uma banda local que ficou bem famosa recentemente, e eu curto muito a música deles.
— Eu posso conseguir os ingressos pra todo mundo aqui. — Kate afirmou. — Eu conheço alguém envolvido com a banda.
— Sério? Kate, eu te amo. — Alex a abraçou eufórica.
— Cuidado com o tornozelo. — Chris alertou, ajudando-a a manter o equilíbrio.
Após algum tempo jogando papo fora, Alex e Chris foram juntos para casa, enquanto todos os outros acompanharam Pan. Observando a paisagem através da janela do carro ela pegou-se pensando em como faria para conseguir ajudar sua nova amiga a livrar-se de Ethan. Seus pais voltariam em breve do hospital, e eles com certeza não apreciariam visitas sem aviso prévio. Entrelaçando seus dedos com os de Sarah ela encostou suavemente a cabeça em seu ombro, suspirando preocupada e voltando sua atenção para as mãos de Hector no volante. Sua mão esquerda possuía uma cicatriz que a fazia recordar-se de quando se conheceram, no tempo em que ele ainda a permitia acariciar suas mãos ásperas e ela havia encontrado a marca pela primeira vez.
— Se continuar me encarando assim vai me desconcentrar. — Hector a provocou, retirando-a de seu transe.
— Maldito retrovisor. — Bufou, fazendo suas amigas rirem.
— Já chegamos, vocês podem descer.
Assim que desceram, Sarah acompanhou Kate até o quarto de Pan para acomodá-la, enquanto a anfitriã permaneceu ao lado de Hector para ajudá-lo a fazer o jantar.
— Não sei se me agrada ter alguém tão desastrada andando com uma faca por aí. — Ironizou, sem desviar a atenção dos legumes que estava fatiando.
— Você tem medo que eu acabe te cortando? — Ela riu.
Hector cessou suas ações e colocou os legumes na tábua, aproximando-se de Pan com passos lentos enquanto ela recuava até que não sobrasse mais espaço entre ela e o mármore da bancada de sua cozinha. Lentamente ele abaixou o tronco até que suas faces estivessem realmente próximas, o suficiente para que pudessem sentir a respiração um do outro.
— Não. — Ele sussurrou, passando suavemente a mão pelo braço de Pan até que chegasse à sua. — Mas confesso que não gostaria de te ver arrancando um dedo fora enquanto tenta cortar alguns legumes. — Completou, tomando a posse da faca para si.
— Tanto faz, seu sem graça. Já que não quer a minha companhia, vou tomar banho também. — Pan fez biquinho e mostrou-lhe a língua, subindo rapidamente as escadas enquanto resmungava.
Ao buscar algumas roupas em seu quarto, percebeu que Kate estava utilizando seu banheiro, portanto decidiu ir até o quarto de Sarah, que também estava ocupado. O quarto de seus pais, como sempre, estava trancado, não sendo uma opção. Pensou por alguns segundos que, talvez, devesse aguardar até que elas saíssem, porém logo recordou-se do quarto de Hector, que por estar cozinhando, provavelmente não subiria tão cedo.
— Hector, vou usar o seu chuveiro! — Anunciou.
Sem resposta, ela apenas deu de ombros e dirigiu-se até o local, tentando não mexer em nada para não irritá-lo. Após colocar suas roupas na bancada da pia, adentrou o chuveiro, percebendo como era agradável ouvir apenas o som da água corrente. Tudo no quarto daquele homem era à prova de som, inclusive os vidros de seu chuveiro. Alguns minutos se passaram até que ela decidisse parar de apenas deixar a água correr pelo seu corpo e fosse procurar pelo xampu, que havia esquecido ao lado de suas roupas. Passou a mão em seu rosto para retirar o excesso de água dos olhos e jogou o cabelo molhado para trás. Ao abrir a porta de vidro, deparou-se com uma silhueta familiar, um pouco diferente da que estava habituada a ver.
— O que você está fazendo aqui, Pan? — Hector esbravejou, virando-se de costas após vê-la completamente nua.
— Eu avisei que ia usar o seu banheiro! — Explicou, um pouco sem jeito e com a voz trêmula. Ela nem ao menos sabia o que estava acontecendo com seu corpo, porém sentia como se seu interior estivesse aumentando a temperatura gradativamente, principalmente suas bochechas que rapidamente ruboresceram ao contemplar, pela primeira vez em sua vida, um homem nu, e à milímetros de distância de seu corpo.
— Você realmente acha que eu teria entrado aqui se tivesse me avisado? — A repreendeu, amarrando uma toalha em sua cintura, ainda sem olhá-la.
— Eu avisei, eu juro! Eu gritei daqui de cima. Você não me respondeu, mas... — Ela rapidamente parou de falar, se dando conta da besteira que havia feito. Era senso comum aguardar por uma resposta da outra parte para garantir que algo assim não acontecesse. — Desculpa, eu não confirmei se você tinha ouvido. — Confessou.
— Só termine logo, vou esperar do lado de fora. — Resmungou, batendo a porta ao sair.
Aquela voz fria que ele utilizava apenas quando estava muito irritado arrepiava até mesmo o último fio de cabelo do corpo de Pan. Era raro vê-lo tão incomodado, portanto ela logo sabia quando havia feito algo grave. Sem ânimo, ela terminou rapidamente o que precisava fazer, saindo apressada do quarto sem nem ao menos olhar para Hector, envergonhada do mal entendido que havia causado. O clima estranho entre eles continuou até mesmo na mesa de jantar, embora Kate e Sarah não tenham percebido.
— Obrigada por me deixar dormir com vocês, Pan. Eu sei que vocês devem achar esquisito sair convidando estranhos pra passar a noite na sua casa, mas...
— Ela não acha, pode ter certeza. — Sarah retrucou, ciente do quão sem noção era sua amiga. — Me surpreende também que você tenha aceitado dormir na casa de uma estranha.
— Eu não consegui ver vocês como ameaça. — Ela sorriu. — E além disso, é muito mais assustador ficar sozinha em casa ouvindo o Ethan bater na minha janela.
— Sinto muito que você precise passar por isso.
— Agora você não vai ter que enfrentar ele sozinha — Pan a abraçou com força. Naquele momento, mais do que nunca, ela não queria consolar apenas a sua amiga, mas também à si mesma. Apesar de normalmente não se importar com as atitudes exageradas de Hector, dessa vez ela estava ciente da besteira que havia feito, e não tinha a mínima ideia de como consertar as coisas. — Você é nossa amiga agora. — Afirmou, afastando-se para deixá-la ir.
— Vocês duas me lembram de uma velha amiga. — Sorriu, com um ar de nostalgia estampado em seu rosto, embora não parecesse querer se aprofundar mais no assunto. — Obrigada por me emprestar uma roupa também, Sarah. — Acrescentou, rodopiando com a camisola de seda que havia pegado emprestada.
— Ficou muito melhor em você. — Ela respondeu com ternura, voltando sua atenção para a cama de Pan, um pouco cansada.
— Ei, tem espaço para nós três. Não precisa ficar com ciúme. — Pan brincou, percebendo o quanto a amiga estava imersa nos próprios pensamentos.
— Quem disse que estou com ciúme? — Retrucou, tentando manter a compostura. Ela não conseguia negar, no entanto, que realmente estava pensando se todas conseguiriam dividir a cama.
Ao vê-las tão brincalhonas e íntimas entre si, Kate não conseguia evitar de pensar em Isis, que havia saído do pais à trabalho, e voltaria apenas quando terminasse suas obrigações. Ela estava ciente de que, independente de sua saudade, não poderia privá-la de seu sucesso, e ficava contente apenas por conseguir acompanhar suas conquistas. Apesar de tudo, as três não tardaram a dormir, todas abraçadas e amontoadas, sem um pingo de remorso por todo aquele desconforto. A cama era grande o suficiente para as três, porém elas sabiam que, em meio à noite fria, apenas uma companhia amiga poderia trazer-lhes paz, e naquele momento, elas estavam mais unidas que nunca.
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