Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
37 Primeiro dia do campeonato
Notas iniciais
Finalmente era sexta-feira; o dia do tão esperado jogo do time feminino de basquete. O relógio marcava pouco mais de três horas da tarde quando os preparativos se iniciaram para a primeira partida, e as garotas do time adversário já estavam se aquecendo na quadra, com a preferência que lhes fora concedida por ser o ginásio de seu colégio.
Pan, no entanto, aguardando até que elas finalizassem e que sua equipe fosse chamada, estava deitada nas arquibancadas com os braços atrás da cabeça, encarando o teto com uma expressão pensativa. Já vestia seu uniforme e seguia ansiosa para o início do jogo, perdida nos próprios devaneios. Depois de alguns segundos, o som de um burburinho incessável a trouxera de volta à realidade, fazendo-a perceber que os olhares de todos estavam voltados em sua direção. Sem entender o motivo de ter acabado por se tornar o centro das atenções tão subitamente, ela levantou-se para averiguar, deparando-se com mais de oito homens perfeitamente alinhados em seus ternos elegantes que não combinavam em nada com o calor infernal dentro do recinto que mais poderia ser confundido com uma estufa.
— Papai, você veio! — Sorriu alegremente, correndo para cumprimentá-lo com um abraço caloroso e um beijo no rosto, sendo prontamente retribuída. — Por que não me chamou quando chegou?
— Quando te vi deitada pensei que estivesse dormindo e não quis te acordar. — Respondeu sinalizando para que ela se acomodasse ao seu lado. — De qualquer forma, acabei de chegar. — Acrescentou.
— E o Hec? Ele não veio? — Indagou esperançosa enquanto buscava-o com o olhar. Depois da conversa que tiveram na noite em que o vira chegar ensanguentado, mais e mais dúvidas surgiram em sua cabeça, e embora soubesse que não haviam realmente discutido, ela sentia como se a distância entre eles tivesse aumentado ainda mais; o que a assustava muito.
— O garoto? — Franziu o cenho, questionando-se em pensamento o motivo de sua filha estar tão íntima de um de seus homens, até mesmo dando-lhe apelidos. — Ele veio. Não sei aonde se enfiou, mas veio. — Deu de ombros, torcendo para que essa proximidade não fosse mais uma de suas peripécias. Aquela garota realmente era um imã para problemas, e em um momento tão crítico aonde ele ainda precisaria se recuperar do prejuízo causado por Vincenzo, não tinha vontade alguma de ser obrigado a lidar com o que ela estivesse tramando.
— Ele ficou lá fora pra fumar. — Diego interveio, sentando-se ao lado da moça com seu mesmo sorriso galanteador de sempre. — Pensei que ele tinha parado, mas ultimamente ele anda voltando bastante. Quer que eu te leve até ele? — Ofereceu, direcionando-lhe uma piscadela.
— Diego! — Sandro o repreendeu, puxando-o pelo colarinho da jaqueta com o intuito de afastá-lo de sua protegida. Conhecia muito bem a fama de seu sobrinho, e não queria de maneira nenhuma permitir que ele acabasse brincando com a garota que enxergava como sua própria filha.
— Não precisa, eu posso ir sozinha. — Negou com firmeza, mordendo os lábios e desviando o olhar para que ninguém percebesse suas intenções. Na realidade, tinha como plano ter uma conversa à sós com ele, e caso alguém decidisse acompanhá-la, seria um estorvo. Não queria que ninguém participasse do diálogo.
— E posso saber o motivo de você querer tanto assim falar com o meu braço direito? — Hans questionou curioso, fitando-a com estranheza. — Pensei que não se dessem bem. — Completou, franzindo novamente o sobrolho de maneira desconfiada. Sabia muito bem que sua filha não suportava o fato de ser vigiada o dia todo por aquele homem, e que viviam brigando como gato e rato. Não era comum que fosse ela que o procurasse, com vontade de vê-lo tão ansiosamente.
— Oi tio, você veio! — Alex os interrompeu antes mesmo que Pan fosse obrigada a respondê-lo, aproximando-se de Hans para beijá-lo na bochecha como cumprimento.
Os outros homens que o acompanhavam não puderam evitar achar graça da situação, embora ele não parecesse se importar muito com o excesso de intimidade que a amiga de sua primogênita forçava. De uns tempos para cá passara a apreciar essa personalidade tão despreocupada que ela tinha, e diferente dos outros colegas de suas protegidas, Alex era invasiva de um jeito carinhoso e respeitoso, o que a tornava divertida aos seus olhos.
— O quê? Tio? — Diego repetiu em tom de zombaria, colocando uma das mãos em frente ao rosto para tentar abafar a risada que ali se formava. Obviamente ele não deixaria passar a oportunidade de caçoar sobre algo assim.
O chefe virou-se para trás com um semblante impassível e mortífero estampado em sua face, obrigando seu conselheiro a instantaneamente desculpar-se com um movimento de cabeça e tomar a dianteira, saindo dali arrastando o sobrinho pelas vestes com o intuito de ensinar-lhe boas maneiras. Pan percebeu que todos estavam distraídos e aproveitou a oportunidade para sair atrás da pessoa por quem tanto buscava, deixando para Alex a missão de entreter seu pai até o início dos jogos.
Ela rapidamente retirou-se da quadra e respirou uma brisa de ar fresco no pátio, aliviada por sair daquele lugar abafado. Não demorou muito até que o encontrasse, fazendo exatamente como lhe haviam dito. Hector estava de pé, próximo à uma árvore, com uma das mãos nos bolsos do paletó enquanto tragava um cigarro como quem não quer nada. O vento comandava a direção das folhagens ao redor, assim como a da fumaça também, obrigando-a a se voltar contra ele, embora apreciasse aquele frescor. Sua testa naquele momento continha linhas de expressão bem marcadas, e ele parecia perdido nas próprias ideias, deixando claro que algo o vinha incomodando há algum tempo, e embora ela não pudesse dizer o quê, tinha o pressentimento de estar relacionada à isso. Talvez fosse apenas arrogância de sua parte imaginar que todos os problemas da vida daquele homem fossem sua culpa, porém não podia evitar. Quando estava encarcerada ele era aparentemente menos ansioso; mais frio e distante também.
— Um passarinho azul me contou que você voltou a fumar. — Ela ousou acercar-se, mesmo sem tolerar o odor de nicotina que pairava no ar. Era incômodo, portanto decidiu tampar o nariz com as mãos.
— Pan? — Surpreendeu-se, prontamente jogando o tabaco no chão e pisoteando-o para apagar o fogo antes de recolhê-lo e jogá-lo no lixo ao lado. Tinha ciência de que sua companhia não apreciaria tornar-se uma fumante passiva. Observou-a com curiosidade e limpou a garganta antes de desviar os olhos e respondê-la corretamente: — Eu não voltei como antes, mas sim. Confesso que recentemente eu ando fumando mais do que deveria.
— E por quê? — Perguntou manhosa, demonstrando certa preocupação.
— Eu não sei. — Mentiu. Na realidade sabia muito bem o motivo, porém como poderia dizer à pessoa em questão que havia voltado a fumar para tentar manter alguma distância dela? Ou pior, que utilizava o álcool e a nicotina como rotas de fuga para os malditos sentimentos aglomerados dentro de si que pareciam querer explodir ultimamente? Estava fora de questão, definitivamente. — Mas eu sei que você não veio aqui só pra discutir sobre o meu hábito com o cigarro, não é?
— Você viu hoje nas notícias que um senador foi encontrado morto em casa? — Deu mais dois passos em direção à ele, diminuindo o tom de sua voz ao recordar-se de que estavam em um local público. Por enquanto ainda estavam sozinhos, porém sempre existia a possibilidade de que fossem surpreendidos. — Aparentemente ele morreu engasgado comendo bolo, mas não é curioso que tenha sido no mesmo dia que você chegou em casa naquele estado? — Encarou-o diretamente nos olhos, percebendo-o suspirar e deixar cair os ombros em desanimação.
— Não faz isso, Pan. — Disse em tom firme, cruzando os braços e desafiando-a da mesma maneira que ela fazia naquele momento; ambos com os olhos fixos um no outro.
— Fazer o quê? — Disfarçou, dando mais um passo para frente. Se não tivessem uma diferença considerável de altura, seus rostos estariam muito próximos.
— Tentar se envolver em coisas que não te dizem respeito.
— Eu só quero saber se foi você. — Pediu em tom terno e baixo, fazendo-o suspirar outra vez.
— Que matou ele? Não. — Cruzou os braços. — Mas eu não vou mentir pra você e dizer que não estava envolvido.
— Obrigada. — Olhou para todos os lados, averiguando se ainda estavam sozinhos. Quando confirmou o que precisava, voltou sua atenção à ele novamente e decidiu indagar: — Ele... pelo menos teve uma morte tranquila?
— Eu não consigo te entender, Pan, sinceramente. — Exprimiu frustrado; as linhas de expressão bem marcadas em sua testa voltaram a aparecer. — Por que você começou a querer tanto se envolver com isso nos últimos tempos?
— Sou eu quem não consigo te entender, e é exatamente por isso que eu estou te perguntando. — Murmurou, prontificando-se a entrelaçar os dedos nos dele. — Eu quero saber mais sobre você, quero entender o seu trabalho, quero entender o motivo de você fazer as coisas que faz.
— Não. — Desvencilhou-se com certo receio, lutando desesperadamente contra os próprios desejos de puxá-la para um abraço. Ouvir que sua amada havia começado a tentar entender coisas que ela antigamente repudiava apenas por sua causa o fazia sentir coisas que nem ao menos conseguia expressar em palavras, porém não podia permitir-se cair em tentação. — Vamos encerrar esse assunto aqui.
— Por quê?
— Era só isso que você queria me falar? Me questionar sobre o meu trabalho? Se for só isso, então eu vou me encontrar com o seu pai. — Afastou-se dela para atestar que era o fim daquela conversa, porém no instante que começou a caminhar, sentiu-a segurar seu terno e puxá-lo de volta.
— Espera, tem outra coisa. Na verdade eu queria conversar com você sobre isso, mas eu não sei... — Comentou um tanto insegura, soltando-o assim que o viu direcionar o corpo até ela novamente.
— Não sabe?
— Você parece de mal humor depois do que eu falei, e agora tem mais gente aqui...
— Eu sempre pareço de mal humor pra você. — Revirou os olhos. — E desde que você não volte a mencionar o meu trabalho, qual o problema de ter muita gente? Você nunca se importou em sair falando sobre qualquer coisa aos sete ventos. — Argumentou, curvando os lábios em um sorrisinho ladino.
— É que eu não quero que o papai saiba. — Retrucou acanhada, esfregando os braços para amenizar seu nervosismo.
Hector franziu o cenho em confusão. Como assim ela queria dizer-lhe algo que seu pai não poderia saber? Ele era seu braço direito, então deveria ter a ciência de que, caso fosse algo perigoso que a envolvesse, provavelmente contaria à Hans logo depois. Não fazia sentido algum, a não ser que...
— Vem aqui. — Deu de ombros internamente e segurou-a pelo pulso, com o intuito de arrastá-la consigo até o cômodo mais próximo. Obviamente precisava ser o vestiário masculino, não é? As coisas já não eram estranhas e complicadas o suficiente, então o destino definitivamente precisava fazê-los ter mais um motivo para que fossem interpretados de maneira errônea. Bom, de qualquer forma ele imaginava que não demoraria muito, e já estava sem paciência para procurar algum outro lugar que estivesse realmente deserto, portanto ali serviria. Não é como se fosse ser fácil ficar à sós com ela em um colégio lotado. — O que você queria falar? — Soltou-a prontamente, fitando-a com curiosidade.
Ela mordeu os lábios e direcionou o olhar até os próprios pés, sem saber por onde começar. Conseguia sentir o sangue pulsar nas pontas de suas orelhas, tornando possível que ouvisse os próprios batimentos; suas mãos suavam frio, e ela começava a estranhar aquela sensação tão diferente. Nunca havia ficado assim tão nervosa enquanto sozinha com aquele homem, então o que estava acontecendo consigo? Por que sentia como se estivesse prestes à desmaiar de febre quando estava tão saudável?
— Você vai ficar bravo comigo? — Inquiriu ainda cabisbaixa; sua voz havia falhado um tanto, estava trêmula.
— Isso vai te colocar em perigo? É alguma estupidez que vai acabar com você sequestrada ou chateada depois? Se não for, então não. — Falou estoicamente.
— Eu acho que não.
— Você acha que não? — Corrugou o sobrolho outra vez.
— É, eu acho que não. — Assentiu.
— Vamos ver, então. — Murmurou, cruzando os braços. Ela respirou fundo como se juntasse toda a coragem de seu ser, já ciente de que acabaria por ser repreendida outra vez; o conhecia muito bem e sabia que ficaria irritado com seu pedido. — Pra que tanto mistério, Pan?
— Não é mistério, eu só... não quero que você fique bravo comigo.
— Eu já disse que não vou.
— Nem se eu te pedir pra me beijar outra vez? — Exprimiu em tom baixo e inibido, arriscando fitá-lo com aqueles olhos brilhantes e cheios de inseguranças. Era um pedido incomum, e ela sabia perfeitamente disso, porém existia algo dentro de si que precisava muito constatar, e sentia que talvez aquela fosse a única maneira.
— O quê? — Ele tossiu falsamente para disfarçar sua surpresa, desviando o olhar.
— Você não ouviu? Eu posso repetir se quiser, é só... — Ele colocou uma das mãos em frente à sua face como se lhe pedisse para parar de falar. Se mais alguém acabasse por ouvir aquilo, decerto se tornaria um cadáver ali mesmo.
— Não, eu ouvi. — Inspirou o ar profundamente, tentando com todas as forças não acabar agindo imprudentemente a ponto de fazer algo que lhe causaria um arrependimento profundo em breve. Como aquela garota, depois de tantos anos, havia escolhido o pior momento possível para proferir palavras tão perigosas que o fizessem duvidar da própria sanidade mental? — Por que você quer isso, Pan? — Inquiriu sem modificar o tom de voz, gabando-se em pensamento por sua fenomenal capacidade de manter a calma exterior mesmo em momentos assim.
— Porque desde o jogo de verdade ou desafio eu fico sentindo umas coisas estranhas quando te vejo, e eu quero descobrir se sinto algo por... — Antes que pudesse finalizar sua frase, um estrondo nada discreto fez-se audível no recinto, fazendo-a sobressaltar com o susto; seu coração estava ainda mais acelerado. Ela colocou uma das mãos acima do peito e empenhou-se em não perder o fôlego por completo.
— Você o quê? — Hector ignorou absolutamente o barulho que considerara desgraçado naquele instante, por tê-la interrompido. Queria muito que ela continuasse aquela frase; na realidade, ansiava por isso há anos, mas era óbvio que as coisas para ele não seriam tão fáceis. Nada nunca era fácil se sua relação com a filha do Don estivesse envolvida.
— Fantasminha? Me mandaram buscar os pombinhos, ordens do chefe. — A voz de Diego ecoou pelo vestiário vazio; sendo classificada como uma marcha fúnebre na visão de Hector. Ele só não conseguia saber se era pelo próprio funeral ou do imbecil que ousara interromper a provável confissão de sua amada. Agora ele sabia muito bem quem havia sido o responsável por aquela merda de ruído infeliz. — Não adianta me ignorar, eu te vi entrando aqui, seu babaca. — Insistiu em seu usual tom brincalhão, adentrando o cômodo sem importar-se com o que pudesse estar acontecendo ali dentro.
As únicas coisas que vinham à cabeça de Hector naquele momento eram insultos, em especial "filho da puta miserável". Cerrou o punho para manter a calma e suspirou desanimado, dado por vencido. Alinhou o paletó e desistiu de qualquer possibilidade de continuar com aquela conversa. Aquele moleque definitivamente tinha a habilidade de sempre aparecer nos momentos mais inoportunos para irritá-lo.
— Quem é fantasminha? — Pan questionou interessada, já com segundas intenções para aquele apelido. Havia escutado outras pessoas chamarem-no de "Fantasma", mas Diego parecia apenas querer provocá-lo ao usar seu codinome no diminutivo.
— Ninguém. — Respondeu seco.
— Como assim ninguém? Se você desprezar o apelido carinhoso que eu te dei, vou ficar triste. — Diego exprimiu em um timbre cheio de escárnio, embora soubesse que, pela expressão nada amigável estampada no rosto daquele homem, talvez estivesse brincando com fogo. — Aliás, o que você tá fazendo sozinho aqui com a filha do padrinho? Se eu não posso, você também não pode. — Sorriu ladino, com o desejo de ver até onde ele aguentaria sem se irritar.
— Vai se foder, não estou com paciência pra lidar com você hoje. — Ralhou friamente, afastando-se dele.
— Você sempre fala isso, não é novidade. — Seguiu com sua atitude marota.
— É porque eu nunca tenho paciência suficiente pra lidar com você. — Fitou-o com algum desdém e logo deu de ombros. — Ninguém tem, na verdade.
— Que maldade, fantasminha, pensei que fosse o amor da sua vida. — Fez biquinho, encenando uma tristeza que, na realidade, não existia.
— Você é patético. — Ele revirou os olhos. — E, aliás, da próxima vez que me chamar assim eu juro que te mato. — Ameaçou.
— Por quê? Eu achei um apelido bonitinho. — Pan interrompeu; esboçava um sorrisinho malicioso nos lábios. Vez ou outra ela apreciava os raros momentos em que tinha a oportunidade de implicar com ele sem ser a única a receber doses de sua frustração.
Hector a fitou com certo remorso, quase obrigando-a a voltar alguns minutos no passado e completar aquela maldita frase que obviamente alguém fizera questão de interromper. Uma única palavra, inferno. Apenas uma única palavra o separou da possibilidade de ter Pan Stracci para si sem que precisasse sentir-se culpado por isso. Quer dizer, ainda sentiria algum arrependimento por ter desobedecido Hans, porém se ela assim quisesse, nem mesmo sua honra e lealdade poderiam segurá-lo mais. Mesmo que utilizasse de toda sua racionalidade, no instante que ela abrisse os lábios para declarar-se outra vez ele decerto não conseguiria se conter. Definitivamente, seria completa e absolutamente impossível continuar se restringindo daquela forma. Já havia se segurado por muito tempo, afinal, e cada vez que algo entre eles acontecia; cada vez que o destino pregava-lhe peças e o obrigava se aproximar ainda mais daquela garota, uma das fechaduras de sua caixa de pandora há tanto tempo trancafiada fazia questão de se abrir. Talvez se tivesse ouvido aquela frase até o final ela se abriria por completo.
Sem ânimo para continuar discutindo com aqueles dois, que aparentemente agora haviam se juntado para incomodá-lo, ignorou suas provocações e saiu do vestiário, ciente de que seria seguido em breve. Para que não precisasse continuar a aturar o sobrinho extrovertido e irritante de Sandro, ele fez questão de acomodar-se ao lado de Hans, o único lugar que o faria agir de um jeito minimamente comportado.
Pan, no entanto, correu para encontrar-se com Alex, recebendo um bom sermão por não ter chegado no início do aquecimento. Apesar de sua irresponsabilidade, a capitã permitiu que ela jogasse, com o aviso de que, da próxima vez, não teria a mesma piedade. Outras jogadoras mais comprometidas e experientes estavam no banco para que ela pudesse ter sua estreia, e o mínimo de respeito exigido era que ela chegasse no horário, já que estava ocupando a vaga de uma delas mesmo sendo tão nova na equipe.
Não tão longe dali, no vestiário feminino, Sarah estava terminando de arrumar o maldito fecho de seu sutiã que havia escolhido o pior momento possível para afrouxar e abrir. Odiava quando esse tipo de coisa acontecia, em especial quando estava em público, mas felizmente ninguém havia percebido. Assim que terminou, observou a si mesma no espelho e pensou que estava um pouco pálida, prontificando-se a dar um pouco de cor aos lábios secos. Normalmente não se incomodaria com isso, porém nos últimos tempos sua imaginação parecia estar em outro lugar; ou em outro alguém. Negou com a cabeça para si mesma como se estivesse tentando se livrar da própria mente e recolocou sua camisa dentro da saia rodada, antes de sair em direção à quadra.
— Oi. — A voz de Chris fez-se audível, e ela deu um leve salto involuntário com o susto de ter sido tão bruscamente retirada de seus devaneios. — Desculpa, foi mal, não queria te assustar. A Kate me disse que você estava aqui.
— Meu Deus, Chris. — Colocou uma das mãos no peito para ouvir os batimentos e demonstrou um sorriso cansado. — Não tem problema, mas... você ficou me esperando do lado de fora do banheiro? — Arqueou as sobrancelhas em admiração. Achava isso um pouco estranho, afinal.
— Ok, falando assim parece bem esquisito, foi mal. — Afagou os cabelos em um gesto nervoso, chamando-se de imbecil inúmeras vezes em sua cabeça. Sentia como se a estivesse perseguindo como um assediador, e não era esse tipo de imagem que gostaria de passar. — Eu juro que não pensei direito, mas eu não tinha nenhuma segunda intenção nem nada, eu só queria conversar, de verdade. — Justificou-se, fazendo-a rir.
— Não tem problema, eu sei que você não é esse tipo de cara. — Cruzou os braços e avizinhou-se dele com um semblante neutro, empenhando-se em não demonstrar suas verdadeiras emoções. — Vamos conversar, então. Eu tive bastante tempo pra pensar.
— Eu também. — Murmurou de maneira terna e sensível, pegando a mão dela e acariciando seu topo com o polegar enquanto a fitava com doçura. — Pensei em conversar com a Alex depois do jogo e contar que vou te chamar pra sair.
O coração dela falhara uma batida ao ouvi-lo. Queria muito abraçá-lo agora mesmo e aceitar aquele futuro convite que lhe parecia extremamente interessante e tentador, mas depois de muito raciocinar e ponderar todos os prós e contras, havia tomado uma decisão. Optou por dar prioridade aos sentimentos da amiga, e mesmo que acabasse magoada no fim, não podia mais voltar atrás. Sim, Chris lhe instigava, a fazia sentir-se bem e acima de tudo era muito atraente e gentil, mas não conseguiria se perdoar caso decidisse ser egoísta a ponto de namorar um rapaz por quem uma de suas colegas tinha sentimentos. Não era algo muito honrado de se fazer, em sua concepção, e ela jamais colocaria uma amizade em cheque por um romance.
— Não, olha, Chris... — Desvencilhou-se de seu carinho com muita dificuldade e dor no peito, querendo apreciá-lo um pouco mais. — Eu acho que você deveria convidar a Alex pra sair. — Completou, lutando com todas as forças para parecer convincente.
O brilho que ele antes tinha nos olhos se perdera em um vazio confuso e profundo, cheio de perguntas e desilusões; quase o mesmo olhar de uma criança ao receber a primeira negativa dos pais. Estava certo de que ela sentia o mesmo, então por que ela o afastava dessa maneira? Talvez houvesse interpretado algo errado e era um sentimento platônico de sua parte? Não, não podia ser, aqueles momentos que compartilharam juntos e a faíscas existentes no ambiente todas as vezes que se encontravam não poderiam ser forjados nem pela melhor das atrizes, então ele simplesmente não conseguia compreender. Até que uma coisa passou-lhe pela imaginação e parecia ter clareado suas ideias, colocando algum sentido à todo aquele teatro.
— Foi aquela conversa que você teve com ela, né? Nas velhas arquibancadas. — Bufou desapontado. Quando a viu morder os lábios e se recusar a dizer qualquer coisa, respirou fundo para manter a calma e não acabar dizendo alguma besteira sobre Alex. Não podia acreditar que ela havia tentado sabotar a felicidade da própria amiga. — O que foi que ela te falou?
— Desculpa, Chris. — Negou com a cabeça como se lhe dissesse que não contaria nada e afastou-se em passos rápidos, até que sua silhueta desaparecesse pelo corredor.
No instante que chegara à quadra, percebeu que a atenção de todos os espectadores estava voltada para um único lugar, intrigando-a a ponto de fazê-la buscar com o olhar o que era aquilo que tanto os interessava. Deparou-se com, talvez, a cena mais cômica e triste possível; já começava a sentir dó de alguns dos que provavelmente foram submetidos à isso. Não fazia ideia de como haviam conseguido esse tipo de coisa, porém Sandro e Diego estavam com enormes dedões de espuma, e vários dos outros homens da família utilizavam bonés com o logo do colégio que ela frequentava. Até mesmo Hans havia sido envolvido, demonstrando sua usual expressão de poucos amigos enquanto segurava uma bandeirinha em uma das mãos, com o intuito de torcer por sua filha; também possuía um saco de pipocas exageradamente grande do outro lado, rodeado por vários copos de refrigerante.
Hector estava miserável, parecia estar xingando até mesmo a décima geração de filhos da pessoa que o havia feito participar dessa idiotice, cabisbaixo com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos na testa, escondendo o boné que com certeza tinha sido obrigado a usar. A barriga de Sarah até mesmo começava a doer devido às gargalhadas que aquela cena lhe proporcionara. Vê-lo tão irritado era raro, porém presenciá-lo tão frustrado e ainda por cima envergonhado era ainda mais, e essa oportunidade ela não poderia desperdiçar. Sentou-se ao lado dele e tentou bravamente segurar a risada presa em seus lábios, embora não tenham se passado mais de dois segundos até que ela sucumbisse.
— Vai gatinha! — Diego gritou alto o bastante para que sua voz ecoasse por toda a quadra, chamando ainda mais atenção para eles; se é que isso era possível.
Sandro deu-lhe um leve tapa no ombro assim que percebeu os olhares desgostosos de seu chefe ao ouvi-lo dirigir-se à sua filha daquela maneira tão íntima. Não conseguia acreditar que o sobrinho era sem noção àquele ponto.
— Eu estou no inferno, não é possível. — Hector rosnou, ainda mais irritado do que antes. Não conseguia deixar de repetir para si mesmo em pensamento que cinco dias seguidos de tortura com Alice eram menos dolorosos do que ter sido arrastado para isso. — Eu sabia que um dia teria que pagar pelos meus pecados, mas eu esperava que fosse depois da minha morte.
— O que aconteceu aqui? — Sarah indagou, ainda sem conseguir conter o riso.
— O imbecil do Diego aconteceu aqui. — Reclamou em tom seco e letal, fitando-o com desdém. Se existisse a possibilidade de matar alguém com o olhar, o rapaz já estaria sete palmos abaixo da terra. — Ele passou pelo menos quarenta minutos convencendo o Don de que a Pan ficaria chateada se a família não fosse capaz de "torcer da maneira certa". — Bateu levemente com a mão em sua testa, negando com a cabeça como se implorasse para que o dia acabasse logo.
— Vocês dois nunca se deram bem, mas no fundo eu acho que vocês têm uma amizade forte.
— Digamos que eu tolero ele, mas depois disso... — apontou para os apetrechos coloridos, que não combinavam em nada com suas roupas sociais caríssimas. — ele está morto. Eu juro que se ele não fosse afilhado legítimo do Don e sobrinho do conselheiro eu já teria me livrado do cadáver duas horas atrás.
— Duas horas atrás? Que específico. — Ela riu outra vez. Era insuportavelmente engraçado olhar para eles. Outros estudantes já haviam lotado os grupos e fóruns do colégio com fotos. — Parece que alguém está tendo um dia difícil. — Tentou consolá-lo.
— Poderia ter sido um ótimo dia se esse desgraçado não estivesse aqui. — Comentou entre dentes, referindo-se ao acontecimento com sua amada no vestiário que ele fizera questão de interromper.
— O que ele fez? Quer dizer, fora ter transformado vocês em uma torcida organizada muito bonitinha. — Provocou, vendo-o sussurrar alguns insultos.
— Interrompeu uma conversa importante. — Direcionou seu olhar à Pan, que estava do outro lado do ginásio. — Muito importante.
— Eu nunca vi um relacionamento mais complicado do que o de vocês dois.
— Muito engraçado, mas aparentemente eu não sou o único com problemas amorosos aqui, Santoro.
— Como assim? — Arqueou as sobrancelhas um tanto confusa com sua alegação.
— De verdade? Você ainda não percebeu que o seu príncipe encantado não para de olhar pra cá? — Respondeu em tom de zombaria, sinalizando com o queixo a direção em que se encontrava Chris, aparentemente mantendo uma conversa com Alex, embora estivesse com dificuldades para concentrar-se no diálogo por não ser capaz de retirar os olhos de Sarah.
— Chris? Tá me ouvindo? — Alex movimentou as mãos em frente ao seu rosto para chamar-lhe a atenção, dando-lhe um golpe no braço para trazê-lo de volta à realidade. Não estava satisfeita ao vê-lo tão vidrado em outra garota.
— Não, desculpa, eu tava pensando em outra coisa. — Admitiu, esfregando o local em que havia sido acertado para que a dor passasse mais rápido. — O que você disse? — Inquiriu, agora fitando-a corretamente.
— Eu falei que, se eu ganhar o jogo de hoje você vai ter que me levar em um encontro. — Sentenciou, levemente acanhada mas sem perder sua aura de confiança. — Um encontro de verdade, sem essa de encontro de amigos, pode ser?
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