Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
53 Passado, presente, futuro e revelações.
Notas iniciais
Pan Stracci não costumava odiar segundas-feiras, porém essa em especial não lhe animava muito. Depois de ter desmarcado todos os seus compromissos com os colegas no domingo graças à péssima ressaca que a obrigara a ficar de molho durante o dia inteiro, tudo o que não precisava era de uma manhã lotada de testes para fazer. Sua ausência durante a época de provas deveria ser compensada de alguma forma, e como a pessoa despreocupada de sempre, acabou marcando todas para o mesmo dia só para que acabassem logo. O resultado? intermináveis horas sentada em uma cadeira preenchendo todas as avaliações enquanto amaldiçoava a si mesma por tê-las agendado juntas. Bom, ao menos havia terminado tudo e agora só lhe restava guardar os papéis em seu armário para finalmente se livrar de todas as obrigações matinais.
— Bom dia. — A voz de Chris fez-se audível pelo corredor, trazendo-a de volta à realidade. Estava sonolenta com a nuca apoiada nos armários, e se não fosse por sua aproximação acompanhado de Evan, Sarah e Diego, provavelmente teria adormecido ali mesmo.
— Bom dia. — Respondeu em um timbre fraco e exausto, completamente oposto ao seu usual. Evan e Diego não aparentavam ter apreciado muito seu desânimo, portanto acercaram-se dela para fazer-lhe cócegas assim que a viram bocejar. — Chega, chega! Eu me rendo! — Exclamou ofegante, lutando para se esgueirar de ambos. Desde a festa de halloween estavam bem mais unidos, e isso era perigoso porque normalmente se juntavam para incomodá-la.
Sarah revirou os olhos e prontificou-se a afastá-los, admirada em como todos pareciam tão animados naquele dia monótono. A amiga simplesmente agradeceu com o olhar e respirou fundo, deixando escapar um suspiro aliviado.
— Foi bem nas provas, ruivinha? Posso te ajudar a se preparar para as recuperações, se quiser. — O falso namorado ofereceu, já aguardando algum tipo de falha por parte dela. Nunca a havia visto estudar a sério, afinal, e por viver matando aulas, notas baixas eram o esperado.
— Eu não vou estudar pra recuperação nenhuma. — Franziu o cenho, ainda segurando as provas que havia feito há pouco. — Por que eu estudaria pra isso?
— Olha, eu sei que a sua família é muito rica, mas é importante se preparar pro futuro. O que você vai fazer se o dinheiro acabar algum dia?
— Isso é quase impossível de acontecer, mas... — A outra garota riu, tomando a liberdade de pegar os papéis das mãos da considerada irmã e posicioná-los bem em frente ao rosto do rapaz, que instantaneamente arregalou os olhos em surpresa. Ali tinham apenas notas altíssimas, e eram raras as que não eram nota máxima. Até mesmo o presidente do grêmio ficara pasmo, fazendo questão de averiguar a veracidade dos fatos mais de uma ou duas vezes, querendo ter a certeza de que não era um delírio coletivo. — Vocês precisam parar de confundir a inocência dela com burrice.
— Você colou? Não, pera, não dava pra colar, você era a única na sala. — O músico continuou a folhear as avaliações, ainda incrédulo. — Como você fez isso sem nem prestar atenção nenhuma nas aulas?
— Já disse que eu tive muito tempo pra aprender várias coisas enquanto fiquei presa em casa. — Pan recolheu os papéis apressada e sem paciência, trancando-os em seu armário para finalmente se livrar do fardo que era carregá-los consigo por aí. — Em dez anos dá pra fazer bastante coisa, sabia?
— E diferente da gente que só estuda pra prova e esquece tudo depois, a Pan realmente se interessava em aprender tudo porque era muito curiosa. — Sarah deixou escapar uma leve risada com as memórias que lhe invadiram a mente. — Ela sempre gostou de ter uma resposta pra todos os assuntos, então de manhã, enquanto eu acordava indisposta e morrendo de preguiça, ela já tinha tomado o café e importunado o professor particular por horas.
— Espera aí, por que você é o único que não tá surpreso? — Evan perguntou diretamente à Diego, que logo curvou os lábios ladinamente. — Não acredito que me deixou passar vergonha tentando oferecer ajuda. Pensei que fôssemos amigos, cara. — Deu um leve empurrão em seu ombro, fazendo-o achar a situação ainda mais engraçada.
— Óbvio que eu sabia. Desde sempre eu tive que ouvir meu tio se gabando de como a bambina dele era inteligente. — Afagou os cabelos dela com certo orgulho, quase como se fosse sua própria filha. — E nós podemos até ser amigos agora, mas eu nunca vou perder a oportunidade de ver algum idiota passando vergonha na frente das mulheres. — Acrescentou, e logo um risinho debochado transpareceu em sua face. O colega golpeou-o novamente no ombro como resposta à sua provocação.
— Senhorita Stracci, que bom te encontrar aqui. — Uma entonação masculina e levemente nasalada interrompeu a conversa, trazendo um silêncio momentâneo ao corredor vazio. Era o diretor do colégio, e aparentava estar preocupado com algo à medida que se aproximava da moça. — Vamos conversar um instante na minha sala? — Requisitou cortês, recebendo um aceno afirmativo de cabeça após vê-la se despedindo dos amigos.
O ambiente de sua sala era escuro. A mesa principal estava lotada de papéis espalhados, bagunçados de uma maneira que apenas o próprio dono conseguiria decifrar; alguns lápis e canetas derrubados de maneira desleixada no carpete e os quadros tortos nas paredes de heróis americanos bem chamativos. Ele sentou-se na cadeira em frente à escrivaninha e sinalizou que ela se acomodasse em sua poltrona pessoal, dando-lhe todo o conforto possível e deixando claro que tinha tratamento especial ali. Apesar de não apreciar ser tratada de forma distinta dos outros, a garota percebeu as olheiras bem marcadas abaixo de seus olhos e decidiu não contestar. Estava chegando ao limite do cansaço, afinal.
— Me desculpa te chamar aqui tão de repente... — O diretor iniciou diálogo, apoiando as costelas no encosto do assento e batendo impacientemente os dedos contra a madeira enquanto afastava alguns documentos espalhados acima do teclado de seu computador. Depois de respirar fundo, pegou uma das folhas e fez uma expressão de quem finalmente encontrara o que tanto procurava, deslizando-a até sua companhia. — Mas alguns dos seus professores vieram conversar comigo. Eles estão preocupados porque você anda matando muitas aulas, e apesar de ter notas aparentemente excelentes — direcionou o olhar até o monitor para averiguar a veracidade dos fatos ditos — a senhorita não parece muito interessada no aprendizado em si.
— Como assim?
— Bom, é o seu último ano no colégio. Todos os outros já estão se preparando para os vestibulares, e mesmo assim você entregou o seu plano de futuro em branco, com apenas o seu nome escrito e o desenho de um... — aqui fez uma pausa, pegando o documento em mãos para analisar a obra feita.
— É o meu gatinho, o fantasminha. — Retrucou acanhada, desviando olhar até os pés.
— O desenho está muito bonito, mas não deveria estar nesse documento. Nós somos uma instituição séria, e como responsáveis pela sua educação, temos a obrigação de te guiar na escolha do seu futuro. Talvez esteja considerando cursar artes na faculdade?
— Não sei, eu nunca parei pra pensar no que eu queria fazer depois de me formar. — Admitiu, sem conseguir encará-lo corretamente. Por um lado, sentia que o havia desrespeitado ao ter vandalizado o papel, ainda que sem intenção. — Não sabia o que escrever, então eu fiz um desenho, me desculpa.
— Sei que seu pai é um homem muito rico e poderoso. É normal que herdeiros não levem as coisas a sério por saber que recursos não vão faltar no futuro, mas a vida não é tão fácil, mocinha. Mesmo alguém como o senhor Stracci poderia acabar perdendo tudo se não fosse tão inteligente a ponto de administrar corretamente os recursos que tem. Por que não tenta administração? É uma boa ideia pra quem vai acabar herdando uma rede de hotelaria e cassinos.
— Preciso decidir agora? Não posso ter mais um tempo pra pensar? — Pediu, no intuito de finalizar logo o assunto. Estava desconfortável em ser obrigada a imaginar seu futuro, já que não havia nem ao menos vivido o seu passado e estava apenas começando a ter um presente. Achava um tanto injusto que alguém lhe cobrasse para saber sobre seus próximos passos sendo que nem mesmo ela sabia o que lhe esperava daqui em diante. Tudo bem que ninguém era obrigado a estar ciente sobre seus dez anos encarcerada, porém ainda assim, de alguma forma era sufocante ter que se imaginar mais velha sem nem ao menos ter vivido parte de sua juventude ainda.
— Vamos fazer o seguinte. — Abriu uma das gavetas laterais da escrivaninha, retirando ali outro formulário de plano de futuro para entregá-lo à aluna. — Em breve será o feriado de ação de graças. Consegue me entregar pelo menos três opções de cursos que ache interessante até lá? Não precisa ser nada definitivo, mas se optar por algum deles no final, pelo menos nós conseguimos fazer uma carta de recomendação.
— Tá bom, eu vou tentar. — Cumprimentou-o rapidamente e apressou-se em levantar com um sorriso constrangido, fechando a porta atrás de si ao chegar no corredor. Normalmente não se importava em conversar, porém quando o assunto era a sua vida pessoal, de alguma forma sempre acabava ficando com várias perguntas na cabeça, transformando o diálogo em uma situação pessoalmente desagradável.
— A gatinha tá sozinha? — Uma voz masculina muito conhecida ecoou próxima, fazendo-a sobressaltar com o susto de ter sido tão repentinamente chamada enquanto perdida nos próprios devaneios. — Prometo que sou uma companhia muito melhor do que os seus dois outros pretendentes. — Alegou galanteador.
— Pensei que já tivesse saído com o pessoal pra assistir o jogo. — Colocou uma das mãos no peito para sentir os batimentos descompassados, respirando fundo antes de acrescentar: — Não precisava me esperar.
— Tecnicamente, meu trabalho é ficar colado em você, então... — riu, aproximando-se dela para arrumar seus cabelos ao colocá-los atrás das orelhas.
— E o que poderia acontecer em uma conversa com o diretor?
— Um adulto esquisito trancado em uma sala sozinho com uma mulher bonita? Muita coisa. Hoje em dia não dá pra confiar em ninguém.
— Diego, posso te perguntar uma coisa? — Aqui o tom dela se tornou mais sério e reflexivo, obrigando-o a fechar o semblante brincalhão. Ultimamente fazia isso com frequência; havia criado algum tipo de laço com ele que a deixava à vontade para discutir sobre absolutamente qualquer coisa, em especial por saber que nunca a trataria como uma bonequinha frágil de porcelana igual aos outros. — Como você decidiu que queria trabalhar com o tio Sandro?
— Eu nunca escolhi. Só comecei a me envolver nos negócios pra pagar uma dívida, mas é aquilo... depois que você entra, não dá pra sair. — Deu de ombros, esboçando uma expressão impassível e nostálgica.
— Que dívida?
— Minha mãe ficou doente no meu terceiro ano de faculdade, então eu precisei largar o curso pra cuidar dela. Mesmo assim, os remédios eram muito caros e ela me fez jurar que nunca pediria ajuda pro meu tio ou pro padrinho, mas eu desobedeci e pedi pra eles bancarem todos os custos do tratamento. — Engoliu seco, cerrando discretamente o punho atrás do corpo. Era provavelmente a primeira vez que ela tinha presenciado um mínimo resquício de emoção nos olhos dele, embora por pouquíssimos segundos. — No fim, ela perdeu para o câncer e o meu tio ficou com a minha guarda. Como eu não tinha para onde ir e não queria ser um peso morto, fiz o ritual de iniciação e comecei a trabalhar com a família pra pagar a dívida dos remédios.
— O certo não era o seu pai ficar com a guarda? Ele tá vivo, né?
— Ah, o meu velho era viciado em apostas e acabou fugindo depois de se afogar em dívidas em um dos cassinos do padrinho. Nem sei se ele tá vivo ou morto, e nem me importo também. — Colocou uma das mãos no ombro dela antes que pudesse começar com olhares ou discursos piedosos, curvando a boca em um sorriso indiferente para dizer-lhe que não se importava com o passado e que estava satisfeito com sua vida atual. — Mas deixando isso pra lá, de onde surgiu esse interesse todo na minha carreira profissional?
— O diretor me chamou pra falar sobre os meus planos pro futuro. Aparentemente todo mundo tem alguma coisa planejada, e acho que eu só me senti um pouco sem propósito, sabe? Por enquanto eu só quero aproveitar minha liberdade e recuperar o tempo perdido, mas fiquei pensando... e depois? — Esfregou os braços um tanto nervosa e entristecida, fitando o chão.
— Não precisa ficar pensando nisso agora. Você tem sorte de não precisar se preocupar com dinheiro ou com recomendações pra faculdade, então dá pra demorar quanto quiser pra decidir. — Puxou-a para perto de si, enlaçando um dos braços ao redor de seu pescoço. — Aliás, o seu "namorado" — aqui encenou o sinal de aspas com os dedos indicador e médio de cada mão, sorrindo maliciosamente — tá jogando e todos os seus outros amiguinhos já foram assistir. Me pediram pra te avisar.
— Ele não é meu namorado de verdade.
— Se quiser que o padrinho te leve a sério, vai ter que começar a tratar como se fosse, gatinha. Uma mentira só é boa se o próprio mentiroso acreditar nela. — Alertou, tocando sua nuca antes de sinalizar com o queixo para que seguissem até o exterior.
Ela assentiu e prontificou-se a pegar sua mão parra arrastá-lo até as arquibancadas, aonde acomodou-se ao lado de Chris e Sarah. A partida já tinha passado da metade; estava na sexta entrada, e o time para o qual estavam torcendo liderava em um placar de dois a zero. Os adversários pareciam completamente exaustos, e acima de tudo, frustrados por não conseguirem marcar nem um ponto sequer. Seus rostos e cabelos pingavam suor, as vestes estavam imundas com manchas de terra e grama, ao contrário dos jogadores da casa que não aparentavam tanto cansaço e tinham as roupas em um estado aceitável, quase impecável se não fossem pelos rebatedores que deslizaram no chão para finalizar as corridas.
— Isso daqui tá muito cheio pra um jogo comum de baseball colegial. — Sarah questionou, um pouco incomodada com o excesso de torcida ao seu redor. Imaginava que seria um ambiente tranquilo e silencioso, porém mal dava para ouvir a narração com o barulho. — Esse jogo é importante?
— Não. É só um jogo comum das eliminatórias estaduais. — Seu parceiro respondeu, vidrado no centro do campo em formato de diamante, aonde encontrava-se o melhor amigo. — A lotação é por causa do Evan. Todo mundo tá interessado em ver o melhor jogador colegial do país arremessando.
— Ele é tão bom assim? Quem diria.
— Ele é um dos poucos no país com a nossa idade que consegue arremessar a 92 mph, mas pra ser sincero, nunca tinha visto ele jogando assim tão focado. — Falou surpreso e orgulhoso, sem conseguir desviar os olhos da partida. — Normalmente ele nem sobe no monte, ou se sobe, é sem motivação nenhuma, mas hoje ele tá tão focado que parece até outra pessoa. Nenhum rebatedor do outro time conseguiu tocar na bola até agora.
Pan fitou o medidor de velocidade no instante que Evan se preparou para lançar, podendo jurar que seus olhares haviam se cruzado por um breve segundo antes disso. Parecia estar buscando por algo — ou alguém — no meio da arquibancada. Assim que a bola deixou seus dedos e tocou a luva do receptor, a tela exibiu os tão esperados 92 mph. Quase 150 km/h, que diabos? Um colegial capaz de arremessar naquela velocidade? Tudo bem que o rapaz possuía braços e ombros muito bem fortes e definidos porque se importava com seu físico, até mesmo a alimentação costumava ser impecável, mas ainda assim era impressionante. Não restavam dúvidas de que suas vagas em praticamente qualquer faculdade escolhida estavam reservadas com o seu nome logo abaixo. Os olheiros espalhados pela multidão esboçavam feições completamente satisfeitas que deixavam isso bem claro.
— Talentoso e com boa aparência, com certeza vai ser um jogador estrela na universidade. Talvez chegue em uma liga major no futuro. — Um homem sentado logo atrás começou a cochichar com o acompanhante, ambos engravatados e muito mais velhos, na casa dos quarenta e poucos.
— Ouvi dizer que ele vai seguir uma carreira na música e que não tem interesse em bolsas de esporte. — O outro retrucou, e o primeiro franziu o cenho em desaprovação.
— Quanto desperdício, um garoto com um rosto assim e um braço desses poderia ganhar o mundo mas vai perder tempo com música? Ridículo. — Comentou desdenhosamente. — Não é possível que todos os moleques promissores e novos são tão idiotas.
— Ei! — Pan repentinamente se levantou e virou-se em direção aos sujeitos em questão, surpreendendo a todos ao seu redor. Seu semblante irritado nada usual era preocupante, e sair caçando brigas por aí era uma atitude completamente adversa à sua personalidade naturalmente pacífica e descontraída. — Vocês dois vieram assistir o jogo ou ficar falando besteiras? — Ralhou, obrigando os amigos a ficarem com a guarda alta caso ela acabasse os enfurecendo muito. Estavam orgulhosos por ter defendido o colega até mesmo antes de Chris, contudo tinham medo do que suas palavras nada sutis poderiam ocasionar.
— E quem é você? Alguma tiete do arremessador? — Um deles zombou arrogantemente, com uma feição que esbanjava um falso sentimento de superioridade. — Escuta, mocinha, pra caras como ele você é só mais um rostinho bonito e sem conteúdo nenhum que ele vai levar pra cama e chutar no dia seguinte. As burrinhas assim como você são os maiores alvos desse tipo de gente, então nem perde o seu tempo. — Acrescentou, dando um leve toque no ombro do segundo para que pudessem rir juntos.
— Dois homens adultos falando esse monte de merda pra uma adolescente, quanta maturidade. — A voz de Evan fez-se audível à medida que se aproximava ao subir as escadarias da arquibancada. Estava suado, com os cabelos emaranhados e presos em um coque por fora do boné com o símbolo do colégio; sua camisa do time desabotoada deixava à mostra a blusa branca de manga longa que utilizava por baixo, enfiada dentro das calças justas e afiveladas de mesma cor. Com uma expressão nem um pouco amigável, avizinhou-se da moça para carinhosamente segurar sua cintura e trazê-la para perto de si antes que qualquer um pudesse intervir. Queria ser aquele a defendê-la pessoalmente nesse tipo de ocasião. — Quem são vocês e por que estão caçando briga com a minha namorada? — Fitou-os com as sobrancelhas pretensiosamente arqueadas, realçando sua raiva.
— Por que você tá aqui? E o seu jogo? — Indagou preocupada, apressando-se em observar o campo e percebendo que ambas as equipes já estavam arrumando suas coisas para se dirigirem ao vestiário. — O que aconteceu?
— Meu Deus, você é uma tapada mesmo. Eu me esforcei tanto pra te impressionar e você nem viu nada. — Riu, levemente empurrando a testa dela com os dedos. — Foi a regra de misericórdia, ruivinha. Na sétima entrada o arremessador deles ficou acabado e o meu time conseguiu marcar muitas corridas de diferença.
— O prodígio colegial que consegue arremessar a mais de 90 mph. — Um dos engravatados estendeu uma das mãos à ele com educação e cortesia, entregando-lhe seu cartão de visitas. — Nosso time tem muito interesse em você. Se precisar de uma carta de recomendação ou uma bolsa de estudos, pode me ligar.
Ele encarou o cartão por alguns segundos e logo o devolveu, dizendo simplesmente:
— Não, obrigado.
— O quê? — Ficou sem palavras e ligeiramente sem graça, afagando a nuca para disfarçar o nervosismo. — Pense melhor, não precisa recusar ainda. Sei que você quer uma carreira na música, mas é um desperdício de talento, não acha?
— Se eu sou tão bom assim, o que te faz pensar que eu iria pra um time fraco desses?
— É verdade que os nossos jogadores não estão em uma fase boa, mas com você no time eu tenho certeza que nós ganhamos os estaduais. Por que não reconsidera?
— Tá bom, quer saber? Eu vou considerar. — Disse, e aqui o rosto do homem se iluminou. — Se você ajoelhar e beijar os pés da minha namorada pra pedir desculpas eu considero. — Sorriu malicioso, fazendo desaparecer toda aquela luz.
— Ora, vamos, não vai fazer bem pra sua imagem ficar protegendo uma tiete. — Curvou a boca em um aspecto enojado e aproximou-se dele antes de sussurrar: — essas vadias existem em qualquer lugar. Se virar meu jogador, consigo arrumar várias dessas pra você. — Deu duas leves batidinhas em seu ombro, forçando uma intimidade que não existia.
Evan franziu a testa com ódio; uma de suas veias da testa estava saltada e bem marcada como nunca, quase prestes à explodir. O sangue fervente o obrigou a segurá-lo pelo colarinho e cerrar o punho, preparando-se para descontar toda a sua frustração ao tê-lo escutado falando aquilo sobre a garota por quem tinha sentimentos.
— Beleza, acho que isso já foi longe demais. — Chris interveio, segurando seu cotovelo antes que pudesse desferir o golpe. — Ela não ouviu o que ele falou, então pega leve. Tá todo mundo olhando pra cá. — Murmurou ao pé de seu ouvido, o retirando de seu transe odioso.
Ele afrouxou os dedos e o permitiu se afastar, não querendo causar uma cena ainda maior. Por sorte sua falsa namorada não havia se dado conta das ofensas direcionadas à ela, senão provavelmente seria incapaz de e conter. Odiava vê-la chateada.
— Desaparece daqui antes que eu mude de ideia. — Rosnou, bruscamente empurrando-o com o ombro ao passar por ele. Fez uma breve pausa nos movimentos e virou-se novamente, amassando o cartão de visitas e arremessando-o em suas costas. — E joga essa merda no lixo, porque eu nunca aceitaria um fracassado como treinador. — Terminou, saindo em direção ao interior do colégio na companhia dos amigos.
— Pensei que eu precisaria interromper quando eles levantaram, mas acho que nem aqueles dois são tão imbecis a ponto de relar em uma mulher na frente dessa plateia toda. — Diego deu de ombros, decepcionado consigo mesmo por não ter reagido mais rápido. Odiava ter que presenciar esse tipo de desrespeito, principalmente se feito com uma pessoa tão próxima e querida.
— Pena que o Chris não me deixou arrebentar os dois. Não suporto esse tipo de gente.
— Gente arrogante e egocêntrica que só sabe ficar arrumando confusão por aí? Que engraçado, eu poderia jurar que não faz muito tempo que um certo alguém estava fazendo exatamente a mesma coisa. — Sarah provocou, arrancando gargalhadas de todos; exceto do alvo da piada, que apenas revirou os olhos.
— Tá legal, eu mereci essa. — Cedeu, soltando um suspiro ao levantar os braços e encenar uma rendição. — Aliás, vocês viram a mensagem que a Alex mandou? Ela roubou as chaves do auditório pra gente poder assistir o programa. Faltam só dez minutos, então é melhor a gente ir pra lá se não quiserem perder o início.
— O quê? Porra, ela não pode fazer uma coisa dessas. Eu sou o presidente do grêmio, se o diretor me pega compactuando com isso ele me come vivo. — Chris reclamou, com medo de ser descoberto e acabar perdendo seu histórico de aluno perfeito.
— Cala a boca, senhor representante. — Evan deu-lhe dois tapinhas nas costas e um terceiro mais abaixo no intuito de irritá-lo. — Chega de tanto drama e vamos logo. — Repetiu o último gesto, recebendo como resposta um "vai se foder" em alto e bom som que arrancou risadas de todos.
Assim que adentraram o auditório, a capitã do time feminino de basquete os recebeu com um sorriso cheio de malícia, chacoalhando as chaves entre os dedos como se estivesse orgulhosa de roubá-las. Naoki encontrava-se acima do palco, finalizando os preparativos no notebook plugado ao projetor para que todos pudessem assistir ao programa juntos em uma tela grande. Parecia especialmente exausto, e acima de tudo, decepcionado consigo mesmo por ter concordado em ajudar naquele ato de vandalismo.
O músico sentou-se em uma das poltronas e colocou os pés acima da posicionada à sua frente, confortavelmente se acomodando de maneira folgada. Diego fizera questão de chutar-lhe as pernas para retirá-lo do caminho e abancar-se ao seu lado com um semblante ladino. Chris e Sarah trancaram as portas rezando que não fossem descobertos e acabassem de detenção. Ao perceberem a postura relaxada do colega, propositalmente colocaram-se entre ele e a falsa namorada, não deixando espaço para que ficassem próximos. Era uma punição para que ele pensasse duas vezes antes de voltar a sujar o tecido do assento com as solas dos sapatos.
A tela repentinamente se iluminou e a música da introdução ecoara estridentemente pelo cômodo, causando um pânico geral até que Naoki abaixasse o som.
— Por que nós estamos reunidos aqui mesmo? — O mais velho questionou intrigado.
— A Isis vai fazer uma entrevista sobre a trajetória dela como atriz e todo mundo quer apoiar ela. — Alex explicou, assentando-se ao lado de Pan enquanto buscava por algo em sua mochila. Depois de tanto procurar, retirou dali várias latas de cerveja e distribuiu-as entre os colegas. — Nem me olhem com essa cara. Eu peguei da lanchonete, não vai dar em nada.
— Você sabe que normalmente as lanchonetes têm controle de consumo e de estoque, né? Seus pais vão perceber que tem coisa faltando, sua idiota. — Evan zombou, abrindo sua bebida e apressando-se em degustá-la. — Nunca pensei que eu viraria o tipo de cara que toma cerveja quente de manhã, mas parece que as coisas mudam. — Riu.
— Será que os meus pais vão descobrir mesmo?
— Óbvio que vão descobrir. Eles são cuidadosos com essas coisas.
— E agora, o que eu faço? — Perguntou aflita.
— Não precisa se preocupar, gatinha. — Diego buscou por sua carteira nos bolsos, retirando alguns dólares dali ao testemunhar o estalo de sua lata que alertava a abertura do lacre. — Hoje é por minha conta. Inventa alguma desculpa e coloca esse dinheiro no caixa depois. — Bebericou, fazendo uma careta ao sentir o líquido descer pela garganta. — Mas da próxima vez que quiser consumir álcool me avisa que eu mesmo trago. Ninguém merece cerveja quente.
— Eu ia recusar o dinheiro por educação, mas como você é um babaca eu vou te passar a perna. — Puxou bruscamente as notas, vendo-o rir novamente e direcionar uma piscadela cheia de flerte em sua direção. Ela revirou os olhos e tascou um gole em seu drinque.
— O que foi, linda? Não vai beber? — Chris indagou à namorada, percebendo o feche de sua lata ainda intacto.
— É muito cedo, e nós temos aula depois. — Argumentou, estendendo a cerveja para seu guarda-costas. — Pode pegar. Sei que você não recusa uma dose alcoólica independente do horário. — Demonstrou um sorrisinho fraco, e ele aceitou a oferta sem pestanejar.
Naoki finalmente pôde juntar-se aos colegas após terminar seu trabalho com o projetor, acomodando-se ao lado de Alex. De alguma forma sentia que ela parecia tensa; o olhar perdido em um abismo enquanto mantinha a lata encostada nos lábios sem beber nada, apenas imersa nos próprios devaneios. Depois de alguns minutos ela suspirou alto e pôs-se a falar:
— Tá bom, eu deixei passar esses dias porque aconteceram muitas coisas e não foi fácil pra ninguém, mas não dá pra continuar assim. — Iniciou em um timbre firme, quase choroso. — Eu encontrei com a mãe do Chris quando fui buscar as bebidas e ela me contou que ele tinha sumido aquele dia porque foi acompanhar a Sarah até sei lá aonde. Isso é mentira, e vocês prometeram que me contariam tudo, então eu quero saber. Por que vocês mentiriam pra mãe dele? Não tem sentido. — Engoliu seco, um tanto desestabilizada.
— Alex... — Naoki segurou sua mão na tentativa de confortá-la, porém ela nem ao menos percebeu. Estava muito focada em se conter para não acabar brigando com os amigos, já que tinha ciência sobre sua personalidade explosiva e a incapacidade de agir racionalmente em momentos de raiva ou tristeza.
— Nós somos amigos, não somos? Eu me sinto tão excluída de tudo, vocês não sabem o quanto é horrível esse sentimento. — Respirou fundo, empenhando-se em manter a compostura. Seu punho involuntariamente se fechou e amassou minimamente o metal da lata. — Eu quero saber de tudo, e eu não vou mais fingir que tá tudo bem e não tem nada acontecendo. Sério, primeiro foi aquele negócio na première da Isis, depois a Pan some por um tempão, ai do nada o Chris some, a casa da Kate pega fogo... isso não pode ser coincidência. Ou vocês me contam ou eu vou entender que a nossa amizade não tem valor nenhum e me afastar. — Sentenciou; sua expressão cheia de lamúrias e dúvidas.
Sarah, em especial, fora atingida por uma péssima sensação de mau presságio. Não sabia como deveria abordar o assunto, principalmente depois de ter ouvido o próprio namorado — e amigo de infância da garota em questão — pedir para mantê-la desatualizada sobre tudo. Ao contrário dos outros, Alex não descobrira tudo sozinha, portanto teriam que explicar todos os detalhes sem exceção, mas como? Não era tão simples revelar o fato de que sua família se envolvia em um crime organizado e que todos os acontecimentos mórbidos e preocupantes mais recentes eram decerto culpa das relações que tinham com eles. Era impossível saber como ela reagiria àquilo, porém o veredito final fora dado, e agora a verdade, querendo ou não, viria à tona.
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