Notas iniciais
Ao conseguir pular mais alto, Pan tomou para si a posse da bola, passando-a para uma de suas colegas de equipe que a devolveu rapidamente. Ao recebê-la, bateu-a três vezes no chão e sinalizou com o corpo que avançaria para o lado direito, enganando Alex ao fazer uma finta e ultrapassá-la pelo lado esquerdo, livrando-se de sua marcação. A oportunidade que fora criada lhe deu a chance de tentar um arremesso, e apesar de não ter conseguido marcar, a adrenalina de ter sido enganada daquela forma mesmo sendo mais experiente fez com que Alex suasse frio.
— Rebote! — Alex gritou, clamando por suas companheiras que ficaram responsáveis por essa função enquanto corria rapidamente até a cesta adversária, aguardando pela bola. Ao recebê-la, quicou-a duas vezes no chão e passou-a entre as pernas de Lindsay que tentava marcá-la, adentrando o garrafão e marcando dois pontos com um arremesso certeiro, demonstrando o porquê de ser considerada a ás do time. Era rápida e esforçada até mesmo em um amistoso, não se permitindo relaxar nem por um segundo.
— Boa, capitã. — Uma de suas companheiras lhe cumprimentou com dois leves tapinhas nas costas. Alex retrucou o gesto e voltou sua atenção para a quadra, focando completamente no que deveria fazer a partir de agora para ganhar.
Emily posicionou-se fora da quadra, atrás da linha lateral, para que pudesse recomeçar o jogo após o ponto marcado pelo time adversário. Passou a bola para Lindsay que foi rapidamente detida por Alex. Olhou para ambos os lados e encontrou uma brecha na defesa, passando a bola para Pan que correu pela quadra até ser interceptada por Annie, recebendo uma falta em seu favor após ter sido derrubada bruscamente. Cobrou a falta na linha lateral mais próxima, passando para uma das garotas de seu time que logo perdeu a posse para Alex, que passou para Melody, dando assistência para uma cesta de três pontos que foi marcada assim que esta última arremessara do meio da quadra, de modo certeiro.
— Valeu, garota. — Alex bagunçou os cabelos de sua colega em uma provocação amistosa.
Lindsay recomeçou o jogo, dessa vez passando a bola para Emily que estava sendo marcada por duas garotas. Sem saída, ela devolveu a bola e Lindsay aproveitou a brecha para correr até a cesta adversária, marcando dois pontos. Satisfeita, passou ao lado de Pan, piscando em sua direção enquanto sorria marotamente.
Alex correu para a linha lateral uma vez mais, colocando a bola em jogo ao passá-la para uma de suas colegas. Assim que pensou estar livre, pediu para que passassem para ela, embora não esperasse ser marcada por Lindsay quase que instantaneamente.
— Desculpe, mas vou ter que passar daqui. — Alex provocou, realizando com sucesso uma finta para a esquerda. Quando preparou-se pra saltar, Lindsay aproximou-se para roubar a bola, fazendo-a perder o equilíbrio.
— Eu não gosto de perder, Alex. — Anunciou, pulando para tentar alcançá-la.
Sem conseguir apoiar-se corretamente, Alex colidiu-se com Lindsay, caindo severamente no duro chão de madeira, logo acima dela. O treinador rapidamente apitou uma pausa no jogo e todos correram até o local para verificar a gravidade da situação.
— Vocês estão bem? — Emily perguntou preocupada, estendendo a mão para que Lindsay saísse de cima de Alex.
Ao livrar-se do peso acima de seu corpo, Alex sentiu seu tornozelo formigar, e ao observá-lo com cautela percebeu que essa parte de seu corpo inchava-se gradativamente, trazendo consigo uma dor incômoda. Seu coração logo falhara uma batida e um calor tomava conta de seu interior à medida que preocupava-se com o ocorrido.
— O... O campeonato... — Gaguejou trêmula, verificando a vermelhidão de seu tornozelo.
— Alex, eu não queria... — Lindsay esclareceu sem jeito, tentando aproximar-se.
— Não queria? — A capitã vociferou com os olhos marejados, sem saber se era pela dor ou pela frustração que sentia. — As garotas me disseram o que você pretendia fazer, mas não pensei que fosse tão baixa assim.
— Você realmente acha que eu seria capaz de algo assim? — Ela encolheu os ombros e abaixou o tom de voz, sentindo seu peito apertar.
— Não apenas seria como foi. — Retrucou irritada, incapaz de continuar mantendo contato visual.
O treinador acompanhou Lindsay até a diretoria para discutirem sobre a sua punição, ainda que já estivesse decidida a sua suspensão do time até segunda ordem.
— Cadê o Chris quando precisamos dele? — Uma das garotas perguntou aflita. — Alguém precisa te levar até a enfermaria.
— Ele saiu com aquele outro cara já faz um tempo. Não tem problema, consigo ir até lá sozinha. — Retrucou, apoiando-se no ombro de Annie para manter-se em pé.
— Sobe aqui. — Pan virou-se de costas, sinalizando para que Alex subisse. Desconfiada, ela a encarou de cima à baixo até que Annie a empurrasse para que fosse obrigada a apoiar-se em Pan, mesmo que à contragosto.
— Ela passou no teste, gata, então é melhor já ir se acostumando com a presença dela. — A colega justificou sua ação, com uma piscadela sugestiva.
Insegura, Alex acatou a sugestão da amiga, permitindo-se abaixar a guarda. Entrelaçou os braços ao redor do pescoço de Pan e saltou levemente com sua perna não ferida, permitindo-a segurar suas pernas.
— Está doendo em algum lugar? — Pan questionou inquieta, tentando mantê-la confortável enquanto caminhavam.
— Fisicamente só tenho uma ardência chata no tornozelo. — Murmurou, apoiando sua cabeça no ombro esquerdo da garota. — Deve estar sendo ainda pior para você ter que me carregar. Suas pernas estão tremendo um pouco, sabia?
— Não tem problema. — Ela riu, arrumando a colega em suas costas em um pequeno pulo, arqueando ainda mais as costas para frente.
— Eu não quero acreditar que ela faria isso, mas ela complica as coisas pra mim. — Desabafou com a voz instável, tentando segurar o choro que estava por vir. — Nós nos conhecemos há tanto tempo, é complicado.
— Mas talvez tenha sido um acidente mesmo. — Arrumou-a novamente. — Eu estava no vestiário enquanto elas conversavam e ela não me pareceu querer te fazer mal.
— Eu talvez não possa jogar o campeonato, dependendo da gravidade desse “acidente”, você entende isso? — O choro que ela tanto lutava para conter agora estava tomando conta de sua face. Pan até mesmo conseguia sentir o calor das lágrimas molhando a parte de trás de sua camiseta. Repentinamente ela cessou os passos, permanecendo cabisbaixa por alguns segundos. — Eu não preciso da sua piedade, continua andando, por favor.
— Então... — Pan hesitou, um pouco sem jeito. — Eu acabo de perceber que não sei aonde fica a enfermaria.
Surpresa com a reação daquela garota, Alex não conseguiu segurar o riso abafado que surgira em seu rosto, permitindo-se achar graça de sua falta de seriedade, mesmo em momentos como este.
— Caramba, você é muito estranha.
— Estranha? Por quê?
— É um estranho bom. — Completou, com um sorriso em seu rosto abatido. — É só virar pra direita e seguir até o final do corredor que chegamos na enfermaria.
Pan assentiu e completou o trajeto em silêncio, permitindo que Alex ficasse imersa em seus próprios pensamentos por um tempo, sem incomodá-la. Quando chegaram o local estava vazio, portanto ela decidiu apenas aconchegar a colega em uma das camas e sentar-se ao seu lado, esticando sua coluna que já estava dolorida após tanto esforço.
— Não precisa ficar aqui comigo esperando, sabe...
— É claro que preciso. Meu pai sempre me disse que um ferido em meio à guerra pode ser um estorvo ou um incentivo.
— O quê? Como assim? Isso não tem nada a ver.
— Eu sei, mas é uma frase legal.
Ambas se encararam e sorriram. Alex começava a admirar cada vez mais aquela personalidade descontraída, e sem perceber, a garota que anteriormente considerava como uma rival agora tornava-se sua amiga.
— Eu posso te perguntar uma coisa? — Indagou tímida. Pan assentiu com a cabeça. — Você... o que você acha do Chris?
— O Chris? Ele é legal, e foi muito gentil comigo e com a Sarah.
— Você, tipo, sente alguma coisa por ele?
— Sentir alguma coisa? — Murmurou pensativa, tentando compreender aquela frase. — Sim, acho que sim.
— O quê? De verdade? — Ela assustou-se, experienciando até mesmo um leve arrepio gelado em seu interior, seguido de uma pontada de ciúmes.
— Sim, eu acho que senti cansaço quando ele disse que era presidente do grêmio e capitão do time de futebol. — Pan retrucou com toda a naturalidade possível. Alex suspirou aliviada e logo conseguiu rir daquela cena.
— Olá, garotas. Esperaram muito? — A enfermeira do colégio adentrou o quarto, aproximando-se das garotas. — O que você aprontou dessa vez?
— Eu...
— Ah, você pode ir, mocinha. Eu tomo conta dessa delinquente. — Brincou, liberando Pan de suas obrigações.
Compreendendo o recado, decidiu retirar-se, percebendo que Sarah a aguardava ansiosamente do lado de fora.
— Ei! — Alex chamou-lhe a atenção, fazendo-a olhar para trás uma vez mais antes de sair. — Já te disseram que seu sotaque é fofo? — Provocou-a. Pan apenas sorriu e a agradeceu, fechando a porta atrás de si.
— Você está bem? — Sarah abraçou-a como se não se vissem há tempos.
— Sim, mas você parece ansiosa. — Pan retrucou o abraço passando a mão suavemente no cabelo da amiga. — Aconteceu alguma coisa?
— Hector recebeu uma ligação do seu pai e pegou uma autorização com o Chris.
— Autorização de quê?
— Para deixar o colégio antes do horário sem receber detenção.
— Ele precisa de autorização? — Indagou desconfiada, franzindo o cenho. — Desde quando?
— Eu também achei estranho, então fui perguntar para o Chris, e ele me disse que as autorizações eram pra nós duas.
— Como assim?
— O Hector precisou ir na frente. O seu pai está internado, Pan. — Respondeu em um tom de inquietude, segurando fortemente a mão da amiga para consolá-la.
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