Notas iniciais
Oi meus chuchuzinhos ♥ tudo bem com vocês? Espero que sim~ Trouxe pra vocês mais um capítulo quentinho, na esperança de que vocês gostem aa ♥ Boa leiturinha~ ♥ amo vocês.

— Sua mãe me ajudou a entrar. — Evan alegou calmamente, fitando-a com receio. Ela instantaneamente recuou e deu-lhe algum espaço no colchão após mordiscar os lábios e virar-se de costas, demonstrando que não tinha muita vontade de dialogar. — Eu sei que estou sendo invasivo, tá legal? Eu juro que não queria que as coisas fossem assim, mas eu não suporto te ver aqui trancada nesse quarto. Eu sinto falta do brilho que você tinha, daquela alegria de quando eu te conheci, ruivinha. — Insistiu, lutando contra si mesmo para não parecer muito agressivo ou assustá-la. Precisava conquistar sua confiança, e definitivamente não faria isso sendo imponente.

Ouviu-a grunhir em desaprovação e soltou um breve suspiro, já conformado com o fato de que não conseguiria muita proximidade emocional. Ao menos não ainda.

— Tá bom, não precisa me falar nada, mas eu vou ficar aqui e te fazer companhia. Eu sinto que você precisa muito de um amigo agora. — Deitou-se ao lado dela e colocou as mãos atrás da cabeça, prontificando-se a encarar o teto. Ela simplesmente assentiu com a cabeça e deu-lhe a opção de escolha, que obviamente foi permanecer quieto ali, sem invadir seu espaço pessoal. Tinha ciência de que já havia passado dos limites apenas por ter adentrado seu quarto sem permissão, então não abusaria da sorte.

O silêncio não tardou a dominar o cômodo, trazendo uma calmaria única sobrecarregada de paz. Depois de pouco mais de uma hora observando as paredes e apreciando a brisa serena que vinha da janela, ambos adormeceram entediados.

Pan acordou apenas no momento em que sentiu algo fazer cócegas em seu nariz, incitando sua vontade de espirrar. Era o rabo de seu gatinho, que miava baixo no intuito de acordá-la para ser alimentado, então após espreguiçar-se e sorrir cansada para ele, dirigiu-se até o pode de ração no canto do quarto e o encheu, aproveitando para trocar sua água também. Terminando de tratá-lo, voltou à cama e buscou pelo celular, percebendo que já estava tarde e havia passado das oito da noite. Ao olhar para o lado, viu que Evan seguia deitado ali, dormindo como uma criança, tão despreocupado, com os lábios semiabertos, a camiseta parcialmente levantada e uma das mãos posicionada acima da barriga. Os cabelos também estavam bagunçados; alguns fios em frente aos olhos, e apesar de não ter aceitado muito bem a presença do rapaz no início, ela agora sorria ao vê-lo tão vulnerável, diferente do menino arrogante que ele tanto se esforçava para ser no dia-a-dia.

— Evan? — Chamou manhosa, arrumando as mechas embaraçadas para retira-las de sua face. Ele respirou mais forte e repentinamente abriu os olhos, agarrando seu pulso na intenção de puxá-la até que ficasse posicionada acima dele, com suas faces à milímetros de distância. — Evan, eu... — Murmurou com uma expressão surpresa, porém fora logo interrompida pelo dedo indicador do amigo tocando seus lábios, proibindo-a de seguir falando.

— Bom dia. — A entonação dele saiu rouca e falha, como alguém que acabara de despertar. Esboçou um sorrisinho ladino e acrescentou: — decidiu finalmente falar comigo?

— E você vai me julgar por não querer falar com você antes? — Intimou-o em tom baixo, fazendo contato visual direto. — Eu sei que você é um ótimo amigo e só estava preocupado, mas...

Ele permitiu que ela se desvencilhasse e ajeitou a postura, levantando-se um pouco para sentar. Pigarreou sem graça e voltou a se comunicar:

— Não, eu não vou te julgar, só estou feliz de ouvir a sua voz. — Afirmou com ternura, fitando-a carinhosamente. — Sei que eu não tinha o direito de invadir o seu quarto e nem de agir igual um babaca ultimamente, mas tudo isso é novo pra mim. De verdade. Eu nem espero que você me perdoe, mas eu senti que deveria ficar do seu lado. — Complementou seu argumento, um tanto pesaroso.

— Não tem nada pra desculpar, porque eu não fiquei brava com você. — Acomodou-se ao lado dele, encostando a cabeça em seu ombro. — A Sarah me disse o que você falou pra ela na lanchonete, e por um lado eu concordo. Eu também fico de saco cheio de todos esses segredos às vezes. Sei que devo ter te preocupado com o meu sumiço, mas eu só precisava de um tempo sozinha. — Revelou em tom vulnerável, sentindo-se minimamente constrangida.

— Você acabou precisando de um bom tempo sozinha. — Aqui sua preocupação ficara aparente, até mais do que o necessário. — Aquele cara ter ido embora foi tão dolorido assim pra você? — Algum tipo de mágoa foi percebido em suas palavras. Era como se estivesse frustrado com algo guardado dentro de si às sete chaves.

— Você não entenderia. — Negou com a cabeça, tentando evitar o assunto.

— Então me explica. Se você não me explicar eu realmente não vou conseguir te entender, ruivinha.

— Eu criei uma certa dependência pelo Hector, e isso só aumentou depois que ele virou meu guarda-costas. — Iniciou hesitantemente, perdendo-se em seus pensamentos. — Mas o problema não é ele ter ido embora. Quer dizer, eu fiquei muito triste em não ter mais ele na minha vida, mas o problema não é ele ter ido embora.

— É, vocês dois eram bem grudados. Eu sentia às vezes que ele sabia o que você pensava só de olhar pra sua cara. — Sorriu melancólico, imaginando que jamais teria esse tipo de relação com a garota ao seu lado, ainda que quisesse muito. Uma conexão assim demandava uma convivência especial que não existia entre eles. — Mas se o problema não é ele ter ido embora, então qual é?

Pan engoliu seco e afastou-se alguns centímetros, posicionando-se à frente dele para encará-lo veemente, ponderando se deveria ou não entregar-lhe sua confiança. Assuntos relacionados à famiglia costumavam ser um tabu, entretanto, estava ciente de que os pais do amigo possuíam uma ligação com seu pai. Não deveria ser tão grave, certo?

— O maior problema foi a razão de ele ter ido. O jeito que ele foi, a briga com o papai... eu nunca tinha visto aquele lado do papai, e eu me assustei muito. — Apertou os dedos contra o colchão e cerrou o punho, amenizando seu incômodo segurar parte do tecido entre os dedos. Queria gritar, voltar a chorar, continuar miserável e sozinha naquele cômodo, encarando as paredes e sofrendo em silêncio, porém sabia que não podia continuar assim, e o primeiro passo para superar o ocorrido e sair daquela situação toda era desabafar, portanto seguiu: — Ele respeitava tanto o papai, tudo o que ele fazia era por ele, e no final um único desentendimento fez o papai apontar uma arma pra cabeça dele. Se o Hec tivesse decidido que queria ir embora por conta própria, que aqui não era mais o lugar dele e que ele seria muito mais feliz longe dessa vida, a história seria outra. Eu ficaria triste, choraria, sentiria muita saudade porque ele é uma pessoa importante pra mim, mas eu não ficaria assim, me sentindo culpada.

— Espera aí, como assim uma arma pra cabeça dele? A Sarah me disse que ele tinha ido embora por vontade própria, não foi? — Franziu o cenho em confusão, desiludindo-se das impressões criadas anteriormente. Acreditava que aquele homem havia sumido por uma decisão pessoal, mas aparentemente não era bem assim.

— Não, ele foi embora porque ia morrer se não ficasse longe de mim, e no final ele ainda tentou me fazer não guardar rancor dizendo que eu tinha entendido errado, e que ele não ia morrer, que o papai nunca ia fazer uma coisa assim. Isso é o que mais me magoa. — Respirou fundo, guardando um segundo para se recompor antes de seguir: — Eu não quero mais ser tratada como se fosse de porcelana, eu quero poder viver como alguém normal, quero ter o direito de errar, de escolher com quem eu vou namorar, quero que falem comigo e me expliquem as coisas sem esconder tudo por pensarem que eu sou muito frágil. Eu quero levar uma bronca dos meus pais por me embebedar em um festa mesmo sendo menor de idade ainda, acordar do lado de um desconhecido como nos filmes sem me preocupar se ele vai acabar morto no dia seguinte e fazer as besteiras que qualquer adolescente faz. — Analisou-o minuciosamente, perdendo-se nos olhos tão vidrados do colega, que era incapaz de desviar sua atenção para qualquer outra coisa que não fosse ela. — Eu só quero viver em paz. Será que é pedir muito?

— Não, ruivinha, você tem todo o direito de querer isso. — Evan envolveu-a em um abraço caloroso para dar-lhe algum conforto, sem segundas intenções. De certa forma, ainda que em menor intensidade, compreendia o quão era cansativo viver de acordo com as regras de pais estritos e manipuladores. Sabia que era algo frustrante, e que ela provavelmente estaria perdida no próprio turbilhão de emoções depois de ter colocado tudo para fora.

— Ele perdeu tudo quando criança, teve que passar por tanta coisa só pra sobreviver. Nós éramos a única coisa que ele ainda tinha, a única família dele, e o papai descartou ele como se ele não significasse nada. — Exprimiu aflita; os olhos começaram a marejar, e involuntariamente seus dedos se apertaram contra sua camiseta, desesperadamente buscando consolo em seu carinho. — Teve um dia que estava chovendo, e ele já tinha ido embora. Me fez lembrar de quando ele voltava de madrugada pra casa lá na Itália e se enrolava comigo e com a Sarah no cobertor pra tomar chocolate quente e contar as gotas na janela. Será que ele também lembrou disso e se sentiu sozinho? — Fungou com força, afundando ainda mais a cabeça contra o peito do colega.

— Eu não sei, mas tenho certeza de que ele pensou em você. — Sussurrou, acariciando seus cabelos na tentativa de acalmá-la e demonstrar que estaria ao seu lado quando precisasse. Ela era como um bom livro aberto, cheio de páginas rasgadas que precisavam ser reescritas para complementar as lacunas deixadas pelas feridas causadas. Uma parte de si desejava muito ser escolhido para essa função de reescrevê-las. — Você é aquele tipo de pessoa que, não importa o quanto a gente tente, não dá pra esquecer. — Rumorejou tímido, beijando aqueles fios escarlate com ternura.

— Os seus pais não vão se preocupar? Já tá tarde. — Ela mudou de assunto rapidamente, empenhando-se em arejar o clima tenso.

Evan revirou os olhos e afastou-a brevemente, limpando as lágrimas de suas bochechas. Parecia reclusa, entretanto, não tão desolada quanto antes. O fato de ter conseguido expressar seus verdadeiros sentimentos decerto a havia ajudado a retirar um enorme peso que carregava sozinha nos ombros.

— Eles estão no hospital, como sempre, e pra ser honesto, eu odeio voltar pra uma casa vazia todas as noites. — Confessou, espreguiçando-se para mascarar seu pesar.

— É, eu também odiava.

— Quer saber? Acho que já chega de continuar mofando nesse quarto, ruivinha. — Modificou o semblante com rapidez, levantando-se da cama e estendendo um das mãos em direção a ela. — Vem comigo.

— Aonde?

— Sair um pouco. Tem um lugar que eu sempre vou quando preciso colocar as ideias no lugar, e não fica longe daqui.

— Eu não sei se estou com vontade de sair. — Entrelaçou os joelhos com os braços, colocando-se cabisbaixa. — Ultimamente eu ando um pouco desanimada pra isso.

— Você acabou de me dizer que não quer mais ser vista como a menininha frágil que fica chorando pelos cantos. Ninguém nunca vai te levar a sério se você se trancar no quarto e se isolar do mundo toda vez que alguma coisa acontece. — Ofertou sua mão novamente, insistindo na companhia. Ela levantou os olhos e observou-o com receio. — Dá pra começar aos poucos, um passo de cada vez, mas você tem que mostrar pra eles que é forte e vai correr atrás da própria liberdade daqui em diante.

Hesitantemente ela deu-se por vencida, entrelaçando os dedos nos dele e acompanhando-o até a porta, curiosa com o tipo de aventura que ele parecia querer lhe fornecer. Enquanto dirigiam-se cautelosamente até as escadas evitando qualquer tipo de barulho que pudesse chamar a atenção dos outros indivíduos presentes na casa, agradeceu mentalmente por ter tomado banho poucos minutos antes de ter seu quarto invadido.

— Que gracinha, os dois pombinhos em fuga. — Uma voz muito conhecida fez com que ambos sobressaltassem com o susto, quase como se houvessem acabado de cometer um crime.

— Diego! — Pan exclamou acanhada, apertando o peito esquerdo e esfregando os braços para livrar-se da sensação de adrenalina. — Ainda não foi dormir?

— Gatinha, você sabe que eu sou o maior fã de histórias de romance proibido e tudo o mais, só que eu não posso te deixar sair desacompanhada. — Alertou decepcionado, sentindo na pele o que o amigo passava ao precisar cuidar de uma garota tão inconsequente. Estavam em meio à uma vendetta declarada, o Don estava fora da cidade e ela ainda assim pensava em sair desprotegida durante a noite? — São quase nove horas. Aonde vocês pretendem ir tão tarde assim?

— Não é longe, eu só queria levar ela pra sair um pouco. — Evan retrucou. — A ruivinha já ficou muito tempo trancada nessa casa, então acho que faria bem pra ela arejar as ideias.

Diego aceitava muito bem o fato de que a menina precisava urgentemente sair, embora achasse um péssimo horário pra isso. Queria simplesmente estar em sua cama dormindo com tranquilidade ou se divertindo em alguma festa por aí, mas não, precisava bancar o guarda-costas da filha do Don, e agora ainda por cima acompanhá-la até sabe-se lá aonde. Era sua amiga agora e simpatizava muito com sua situação, porém não pensaria duas vezes se pudesse trocar o trabalho por uma noite de diversão ao lado de alguma mulher bonita.

— Se vocês quiserem ir, eu sou obrigado a ir também, mas vou ter que levar outros homens comigo.

— Quê? Mas, por quê? — Pan inquiriu aflita, sem vontade alguma de ser rodeada de seguranças outra vez.

— Porque o padrinho me pediu pra cuidar de você e te manter segura, mas eu não sou como o fantasma que foi criado por ele desde criança pra se tornar uma máquina de... — Titubeou, pigarreando para disfarçar e não completar sua frase — enfim, eu mal sei atirar, a minha mira é horrível, e as coisas estão bem feias. Se alguém decidisse atacar vocês dois, eu não faria nada sozinho.

— Pode ser só o Matteo? Eu gosto dele.

— Pelo menos cinco homens, gatinha. — Sentenciou, vendo-a perder o brilho no olhar com a decepção. — O padrinho tá fora da cidade e com um péssimo humor, então eu é que não vou tentar a sorte.

— Três!

— Quatro. É pegar ou largar. — Ofertou ardilosamente.

— Eu estava ouvindo uma gritaria e não sabia de onde estava vindo. É pegar ou largar o quê? — Sarah interveio curiosa, apoiada no batente da porta com os cabelos jogados no ombro esquerdo, tampando parte de sua camisola branca de seda que ia até os joelhos. Seus olhos arregalaram-se assim que os colocara em Pan, encolhida ao lado de Evan com os dedos nos dele como se fossem namorados. As sobrancelhas franziram-se com a visão, porém respirou fundo e decidiu não incomodá-los. Ainda que a amiga quisesse cultivar um relacionamento amoroso com ele, não era um direito seu dizer com quem ela poderia ou não sair, embora pensasse muito mal do sujeito em questão. — Vocês vão pra algum lugar? — Perguntou chateada, modificando o semblante novamente ao mordiscar os lábios com nervosismo. Não era fácil descobrir que a pessoa mais importante em sua vida tinha finalmente saído do quarto após ficar afastada por tanto tempo e nem ao menos se incomodara em avisá-la sobre isso.

Pan assentiu e se pôs a falar em timbre baixo e cheio de remorso:

— Vem com a gente.

— Isso, vem me fazer companhia, bella mia. Eu odeio segurar vela. — Diego comentou galanteadoramente, lançando um sorrisinho provocativo à ela, que apenas revirou os olhos e sorriu de canto.

— Você sabe que ela é namorada do meu melhor amigo, né? Pode parar de dar em cima dela. — Evan ralhou.

— E daí? Ele não precisa saber, e eu não sou ciumento. — Provocou, ainda com o mesmo sorrisinho estampado em sua face. — Posso fazer o papel de amante sem problemas.

— Eu falei sério, é melhor você parar com essa porra.

— Vem, Sarah. — Pan desvencilhou-se do colega e avizinhou-se dela, pegando sua mão e acompanhando-a até a escadaria no intuito de deixá-los para trás. — Se a gente ficar esperando essa briguinha se resolver, não vamos sair nunca daqui.

— Sim, vamos deixar os cachorros latirem um pro outro, e quando eles cansarem, nos alcançam na porta. — Comentou desdenhosa, revirando os olhos. Estava cansada das atitudes deles nas últimas semanas, em especial por parte de Evan.

— Quer um conselho, cara? — Diego retornou o assunto, tomando a atenção do rapaz. — Se quiser impressionar uma mulher como a Pan, não é tentando agir igual os caras da família que você vai conseguir. Além disso, o padrinho odeia arrogância, então se não quiser continuar no lado ruim dele, é melhor começar a agir como você mesmo, e não como uma cópia extremamente malfeita e imatura do fantasma. A arrogância dele pelo menos tinha motivo. — Terminou, dando-lhe dois tapinhas no braço para alentá-lo, prontificando-se a descer apressadamente atrás das moças.

Evan suspirou cansado e ajeitou o casaco antes de juntar-se aos outros. Tinha noção do quanto a chegada de Pan e a descoberta sobre sua família havia mudado drasticamente o seu comportamento, mas não era algo que conseguia restringir; ao menos não imediatamente. Estava se esforçando para não continuar se comparando aos outros homens que a rodeavam, e não adiantava prorrogar este pensamento.

O destino final era um sobrado antigo, com as janelas frontais desgastadas e a fachada entalhada em madeira escura, rangendo à medida que pisavam no soalho. O rapaz tocou a campainha e aguardou ser atendido por um senhor idoso, vestido em seu roupão como alguém preparado para dormir. A conversa se estendeu; parecia que Evan estava tentando convencer-lhe de algo, e depois de alguns minutos, ele voltou com uma chave entre os dedos, esboçando um sorriso vitorioso enquanto a balançava animado.

— Que chave é essa? — Pan indagou curiosa, sendo prontamente interrompida ao perceber que fora abraçada por ele.

— Menos papo e mais caminhada, ruivinha. — Retrucou, arrastando-a consigo.

Confusos e com frio, todos acompanharam-no sem contestar sua loucura. No fundo do sobrado, escondia-se uma outra construção ligada ao terreno de trás, aonde ele colocou a chave que havia pegado e abriu passagem. Estava escuro, o local cheirava a couro e mofo, e a primeira reação que tiveram ao colocar os pés para dentro, fora buscar pelo interruptor.

— Que lugar é esse? — Ela insistiu.

No momento que a luz fora ligada, ela instantaneamente arregalou os olhos em surpresa. O gramado sintético abaixo de seus pés, as máquinas de arremesso, a decoração temática e os apetrechos de esporte fizeram seu coração palpitar em alegria. Ela havia visto esse tipo de coisa nos filmes e sempre tivera muita vontade de experimentar ou visitar algum ambiente do tipo, e agora que finalmente teve a chance, a excitação e o sorriso admirado não demoraram para tomar conta de seus lábios.

— É o centro de rebatidas que o nosso time usa pra treinar. — Respondeu, satisfeito ao vê-la tão alegremente explorar o lugar. — O cara idoso que me deu as chaves é o nosso treinador. Ele é o dono do lugar, aí quando eu preciso ficar sozinho, eu venho pra cá. — Acrescentou, buscando por um taco de madeira leve na intenção de entregá-lo à colega.

— Eu sempre esqueço que você faz parte do time de baseball do colégio. — Ela alegremente pegou o objeto das mãos dele, partindo ansiosa em direção à uma das gaiolas para rebater. Não parecia ser tão difícil, então o que poderia dar errado?

— Eu não só faço parte do time, eu sou o ás dele. O número um. — Alegou convencido, acompanhando-a para dentro das grades no intuito de proibi-la de fazer a besteira que fosse. Vagarosamente, avizinhou-se dela e posicionou as mãos acima das suas, obrigando-a a cessar os movimentos. — Não vou te deixar começar sem proteção, ruivinha. — Sussurrou ao pé de seu ouvido, causando um leve arrepio.

Manhosa, ela mostrou a língua para irritá-lo e aceitou que ele ao menos lhe colocasse as luvas e um capacete antes de seguir com a brincadeira.

— E agora? Cadê as bolinhas pra bater? — Segurou o taco com força, apoiando-o diretamente em seu ombro.

Evan riu e balançou a cabeça em negação, divertindo-se com a reação exageradamente contente dela com um simples treino de rebatidas.

— Você não pode encostar o taco no seu ombro assim. Se fizer isso, vai acabar se machucando na hora de rebater. — Utilizou o indicador para levantar o objeto de madeira, posicionando-o da maneira correta. — Você precisa separar um pouco as pernas. — Deslizou a mão até o cós dela, ajeitando sua postura sem parecer invasivo. — E pra não machucar o pulso, você segura assim. — Segurou os dedos dela e aproximou o rosto de seu pescoço, ficando levemente inebriado pelo cheiro de seu xampu a ponto de perder-se nos próprios pensamentos.

— Evan? Tá me ouvindo? — A garota chamou impaciente, retirando-o de seus devaneios.

— Sim, sim, tô ouvindo. — Pigarreou, afastando-se um tanto sem jeito. — Você é muito impaciente. — Soltou uma leve risadinha, saindo para ligar a máquina de arremessos. Obviamente fizera questão de ajustá-la na menor velocidade possível, sem intenções de acabar causando algum tipo de acidente.

Vinte minutos se passaram até que ela conseguisse tocar a bola pela primeira vez com o pedaço de madeira que segurava, fazendo-a radiantemente comemorar sua conquista.

— Você viu o que eu fiz? — Apontou orgulhosa para a bola caída no chão, esboçando um sorriso satisfeito.

Na realidade, em um jogo oficial sua rebatida contaria como uma falta, já que a bola se direcionara à suas costas e batera na grade após fazer contato com o taco, mas ela havia conseguido rebater algo, então era válido, certo? Evan jamais faria desfeita de sua alegria, portanto simplesmente acompanhou sua risada e falou:

— Ótima rebatida, ruivinha, parabéns.

Diego, que estava fora da grade e sentado ao lado de Sarah, não conseguiu evitar a gargalhada abafada que empenhara-se em esconder com o punho, achando graça do quanto a primogênita de seu padrinho não levava jeito algum para aquele esporte em específico. O mais hilário para ele era o modo com que o rapaz que a acompanhava exaltava suas supostas habilidades. Conseguia enxergar perfeitamente através daqueles elogios vazios e incansáveis.

— Você disse alguma coisa pra ele quando vocês ficaram sozinhos nas escadas? Ele parece menos insuportável. — Sarah fez uma observação curiosa, entretanto, ele não pôde deixar de notar que estava encolhida, com os braços cruzados e as pernas trêmulas coladas uma na outra. Logo retirou sua jaqueta e envolveu-a dentro do pedaço de couro, recebendo como resposta uma expressão desconfiada. — Diego? — Chamou, como se requeresse uma explicação.

— Eu não estou te cortejando, Sarah, só sendo um bom amigo. Você sabe que eu não consigo ser sutil com essas coisas. — Argumentou maroto.

Ela riu e concordou.

— Obrigada. — Acomodou-se dentro do casaco, amenizando a sensação gélida que sentia há pouco. O calor do corpo dele que havia sido passado para o objeto ainda estava presente, o que auxiliou muito no processo de esquentá-la. — Eu fiquei tão surpresa em ver a Pan que nem lembrei de tirar a camisola pra sair. Que vergonha.

— Não importa, porque você fica linda vestindo qualquer coisa. — Fitou-a de cima à baixo, abrindo uma curva ladina nos lábios. — Mas eu particularmente ia gostar mais se você não estivesse vestindo nada. — Piscou galanteadoramente, deixando-a com vergonha.

— Diego, limites! — Ralhou, acertando-lhe um forte golpe no braço.

— Viu? Eu falei que não conseguia ser sutil. — Atiçou, fazendo-a suspirar em exaustão. Não era possível que ele conseguia transformar qualquer coisa em algum tipo de piada insinuativa. — E, aliás... — voltou ao assunto, recapturando seu foco — respondendo a sua pergunta, eu só dei um conselho. Deixei bem claro que ele nunca vai conseguir conquistar ela se ficar agindo como uma cópia barata do fantasma.

— A Kate disse que ele era bem diferente antes de conhecer a Pan. Aparentemente ele só era um pouco fechado, mas não agressivo.

— É bem comum ficar intimidado quando a mulher que você gosta tá sempre rodeada de caras como o padrinho ou o fantasma. — Prontificou-se a olhar em direção à primogênita dos Stracci. — Acontece que isso só é uma coisa nova e muito interessante pra quem vê de fora.

— Como assim? — Arqueou as sobrancelhas intrigada.

— Eles são adolescentes. Tanto ele quanto o seu namorado devem achar incrível que vocês sejam filhas de um criminoso. Provavelmente acham que tudo é como nos filmes, que nós somos uma organização de assassinos treinados, que somos fodões e tudo o mais, só que eles não entendem que pra vocês duas isso não tem nada de interessante. — Ajeitou a postura e seguiu com a atenção fixa no mesmo lugar, perdendo-se na própria imaginação antes de seguir: — Eles se sentem intimidados pelas figuras perigosas que vocês têm ao redor e usam as referências toscas dos filmes de gângsteres que já assistiram por aí pra tentar se comportar de um jeito parecido, pra não se sentirem tão inferiores, tão deslocados, mas eles nunca pararam pra pensar que talvez vocês duas só queiram uma aventura nova, e não mais do mesmo.

Sarah fora completamente tomada pela surpresa, analisando seus batimentos descompassados. Não esperava que Diego tivesse um lado tão sensível e perceptivo; era como se conseguisse ler através de ambas.

— Confesso que não conhecia esse seu lado atencioso que repara tanto nas pessoas à sua volta. — Admitiu, usando uma entonação cheia de zombaria. — Quer dizer que o casanova consegue se importar com alguém? — Provocou.

Diego sorriu disfarçadamente e limpou a garganta, percebendo a aproximação dos outros colegas. Pareciam exaustos após pouco mais de uma hora rebatendo.

— Vocês vão na minha festa de halloween amanhã, né? — Evan iniciou conversa, abancando-se um assento próximo. — E eu não vou aceitar um não como resposta, ruivinha. — Observou-a cautelosamente, notando indícios de hesitação.

— Amanhã? Eu nem tenho uma fantasia pra usar. — Mordeu o canto da boca para aliviar o estresse, tendo péssimas recordações sobre a última festa em que esteve presente. A ressaca não fora nada agradável, e o pior de tudo era que a palavra festa em específico a fazia se lembrar de Hector e todas as coisas que ocorreram no dia em que esteve bêbada com ele no carro. Inevitavelmente apertava-lhe o coração.

— Se a sua melhor desculpa pra não aparecer é uma simples fantasia, eu mesmo providencio uma. — Acercou-se dela, tocando-lhe a espalda com intimidade. — Vou encontrar alguma roupa que combine com a minha e você fica como o meu par durante a noite. Pode ser? — Propôs esperançoso, deixando-a atordoada. Não sabia se deveria ou não aceitar sua oferta.

— É o seu primeiro halloween fora de casa, gatinha, porque não aproveitar? — Diego interveio, tentando convencê-la a aceitar. Obviamente tinha segundas intenções, pois, afinal, ninguém apreciava esse tipo de evento tanto quanto ele. Celebrações e drinques eram como sua religião. — Fora isso, não tem nada melhor pra irritar o padrinho do que ir pra uma festa de um cara que ele odeia como acompanhante dele. — Concluiu.

— É, acho que sim... — Titubeou, analisando as informações. Era um fato. Seu pai não suportava aquele jovem, e envolver-se com ele o incomodaria bastante. — O papai vai chegar de viagem amanhã, e eu não quero ver ele.

— Combinado. — Evan sorriu, retirando o capacete dela e jogando-o no chão antes de abraçá-la. — Prometo que nós dois vamos ser os mais bonitos da festa.

— Você sabe que isso é impossível, né? — Diego negou com a cabeça, arrumando sua camiseta de uma forma convencida para acrescentar: — Eu vou estar lá. Não tem como vocês serem os mais bonitos.

Todos riram e começaram a perturbá-lo em resposta, debochando de sua fala. Depois de mais alguns minutos e conversa jogada fora, passaram rapidamente em uma lanchonete e recuperaram as energias antes de voltarem para casa, aonde Pan e Sarah estavam tão cansadas que apenas escovaram os dentes e jogaram-se na cama.

Ambas sofreram com a insônia por um bom tempo, porém Sarah encontrava-se angustiada por não ter trocado nem ao menos uma única palavra com a amiga desde que chegaram. Pensava que, decerto, não fosse mais tão importante para ela, e aquilo a destruía por dentro. De um lado para o outro, mexia-se no intuito de arrumar a postura, inquieta com o turbilhão de emoções e pensamentos destrutivos que ecoavam em sua mente como uma tempestade; e que maldita tempestade.

— Me desculpa, Sarah. — A voz de Pan fez-se audível em meio ao escuro solitário de seu quarto, gelando seu sangue como uma onda fria e ansiosa. Sua primeira reação foi a de buscar pelo interruptor do abajur e acendê-lo, deparando-se com a figura da pessoa que mais amava envolta por um cobertor, apoiada no batente da porta com os cabelos presos em um rabo de cavalo frouxo enquanto esboçava uma expressão arrependida. — Eu não sabia como me aproximar depois de te excluir por tanto tempo, mas eu percebi que é melhor tarde do que nunca, né? — Acrescentou, caminhando em passos rápidos até que chegasse na cama, aonde acomodou-se para abraçá-la.

Todo aquele temporal destrutivo havia se esvaído. Sarah não ousou dizer nada, percebendo-a tão insegura e chateada. Singelamente beijou-a na bochecha e perdeu-se em seu carinho, permitindo que chorasse até caírem no sono, juntas e aliviadas.

Na noite seguinte, apressaram-se para sair de casa antes que Hans pudesse encontrá-las. Diego fizera o possível para descobrir o horário exato de sua chegada, arrastando as garotas até o carro. Pan fora obrigada a calçar os sapatos no caminho, e puderam até mesmo testemunhar seu pai estacionando segundos depois de darem partida rumo à residência de Evan.

— É o seguinte, gatinhas. — O sobrinho do conselheiro iniciou conversa em frente à entrada, observando a aglomeração de pessoas; em especial no gramado da fachada, lotado de copos de plástico e adolescentes fantasiados conversando em grupos, se embebedando aos poucos. — Eu vou respeitar a privacidade de vocês e pedir pros outros caras ficarem aqui fora, mas o primeiro problema que acontecer eles vão entrar, beleza? — Alertou, e elas assentiram. Na realidade, sabia que estava falando aquilo mais para si mesmo do que para as moças, já que não poderia contar com a ajuda do antigo parceiro para limpar a sujeira se causasse algum tipo de escândalo como da última vez.

Assim que colocaram os pés para dentro do recinto, Sarah fora rapidamente sequestrada pelo namorado, propositalmente vestido de mago para fazer par com sua fantasia de bruxa. Ele a puxou pela cintura e beijou-a com vontade em frente à Diego; quase como se quisesse lhe mostrar uma questão. Aparentemente seu melhor amigo havia aberto o bico sobre a noite anterior. Ele nem piscou, no entanto. Estava muito focado na imagem de uma bela mulher vestida de enfermeira no canto do enorme salão.

— Pode ir. — Pan ofereceu, constatando suas intenções. Ao analisar sua hesitação, direcionou o queixo em direção à bela jovem, insistindo que ele fosse até ela. — Você também precisa se divertir, e eu vou subir pra me trocar. O Evan me mandou uma mensagem dizendo que deixou a minha fantasia em cima da cama dele.

— Me dá o celular antes. — Estendeu a mão, aguardando até que seu pedido fosse atendido. Sem entender nada, ela obedeceu e fitou-o com estranheza enquanto ele mexia no aparelho. — Coloquei o meu número na discagem rápida. Se qualquer coisa acontecer, é só discar o número 1. — Devolveu-lhe o telefone com naturalidade.

Ela assentiu e pediu licença para os outros colegas, apressando-se em subir as escadas até o quarto do anfitrião. Felizmente já conhecia o lugar, graças à vez em que precisara refugiar-se da chuva com ele quando perdeu-se das amigas ao fazer compras antes da première de Isis, então não fora muito difícil encontrar o cômodo que buscava.

Era exatamente como ele havia dito. O recinto estava pacífico e deserto, dominado som da música abafada ecoando através da porta fechada. Quando viu um embrulho jogado acima do colchão, percorreu-o com os dedos e abriu a caixa de tamanho considerável, deparando-se com belas asas brancas, perfeitamente detalhadas; uma auréola e um vestido branco que parecia ter sido feito apenas para ela.

Despreocupadamente retirou suas vestes e jogou-as acima dos lençóis, colocando seu disfarce angelical que determinaria sua identidade pela noite. Dirigindo-se para a saída, deparou-se com o próprio reflexo no espelho e sorriu, admirando sua imagem. Achava que seus cabelos vermelhos contrastavam bem com o branco puro, dando àquelas roupas um toque especial e único. Fora inevitável perder alguns minutos apreciando o quanto sentia-se bonita antes de voltar à festa.

Bom, não queria deixar os amigos esperando pela eternidade, portanto retornou às escadas na intenção de procurar seu grupo, caminhando em passos lentos até a pista de dança, aonde Chris dissera que estariam. Seus olhos intimidados pelo excesso de luzes coloridas percorreram o ambiente aonde todos dançavam com alegria, buscando pela figura de algum conhecido à medida que vagava entre a multidão.

Repentinamente, identificou sua cintura sendo delicadamente tocada por mãos grandes e aconchegantes, causando-lhe um arrepio inexplicável que vinha junto das memórias do dia em que havia sido abordada da mesma forma por Hector no baile da première de Isis. Seu corpo gelou-se em um instante. A sensação nostálgica e suas emoções à flor da pele obrigaram-na a se virar desesperadamente com um brilho esperançoso no olhar, buscando pela pessoa em questão. Era um homem. Um sujeito alto e mascarado, com vestimentas pretas muito elegantes e uma cartola que escondia os cabelos negros penteados formalmente para trás de um jeito muito charmoso.

Suas faces ficaram à poucos milímetros de distância quando ele puxou-a para si, surpreendendo-a com o gesto ousado.

— Quem é você? — Inquiriu ansiosa; o sangue pulsando na ponta das orelhas e o coração acelerado. Sem resposta, estendeu uma das mãos para tocar-lhe a máscara no intuito de removê-la, porém ele imediatamente se esquivou ao acercar o rosto de seu pescoço, dando-lhe calafrios com a sensação de ter sua pele tocada pela respiração dele. — Me fala o seu nome, pelo menos. — Murmurou sem forças, engolindo seco.

— Meu nome é Luca. — Apresentou-se com frieza, destruindo todas as ilusões daquela garota. Existia uma rouquidão serena em seu tom de voz, entretanto, não era o que ela estava esperando. Não era a voz dele. — Luca Caccini.

Notas finais
Eeeeeita, o filho do Vincenzo encontrou a Pan, e agora??? O que será que vai acontecer? Eu sei que vocês pensaram que era o Hector também HUISADHASD NÃO ADIANTA ESCONDER QUE EU SEEEEI!!! Espero que tenham gostado, amorecos ♥ ~