Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
33 O despertar do chefe
Notas iniciais
Chris sentiu que alguns pontos haviam começado a se ligar em sua cabeça, em especial após a declaração de Alex há algumas semanas. Havia pensado que era apenas outra de suas traquinagens e simplesmente ignorou, ciente de que ela gostava de provocá-lo com aquele tipo de coisa desde que eram mais novos. Abismado e um pouco confuso, levantou-se da cadeira para começar a dar voltas pelo cômodo, na tentativa de acalmar seu coração angustiado.
— A Alex... isso é tão fodido. — Sussurrou entre dentes, afagando os cabelos em um gesto de nervosismo enquanto tentava imaginar o que deveria fazer. — Ela é quase minha irmã, pelo amor de deus.
— Eu não devia ter contado isso. — Sarah comentou arrependida, extremamente chateada por ter revelado os sentimentos da colega e não dar-lhe a chance de fazê-lo pessoalmente. — Não quero deixar as coisas estranhas entre vocês dois.
— É verdade que você acabou complicando muito as coisas pra mim... — Aproximou-se dela em passos lentos, para afagar carinhosamente seu ombro com o polegar — porque depois de te ver deixando de lado a sua própria felicidade pela da sua amiga só me fez gostar mais ainda de você. Como você vai se responsabilizar por isso, senhorita? — Deslizou a mão até os cabelos dela, colocando alguns fios atrás de sua orelha em um gesto carinhoso e fitando-a diretamente nos olhos, morrendo de vontade de beijá-la outra vez.
— E-eu... — Ela gaguejou acanhada, sem conseguir encontrar as palavras corretas para respondê-lo. Era como se o tempo tivesse parado ali, naquele momento eterno, e estava chocada com o fato de ele conseguir dizer aquelas coisas de maneira tão desinibida com uma curva maliciosa nos lábios.
— Chris? — Uma voz familiar ecoou abafada por trás da porta, obrigando-os a se afastarem bruscamente. — Tá tendo alguma reunião ai? Por que a porta tá trancada? — Insistiu, girando a maçaneta para tentar entrar, embora sem sucesso.
Os dois trocaram um olhar cúmplice cheio de dúvidas e remorso, antes do representante se apressar em destrancar a fechadura. Ele pigarreou e recebeu a amiga, empenhando-se em demonstrar indiferença para que ela não desconfiasse de nada e acabasse se magoando por isso.
— Alex, oi, a gente tava... — Ele titubeou aflito, buscando por alguma explicação plausível para que estivessem trancados e sozinhos naquela sala.
— Eu vim entregar as inscrições pro campeonato. — Deu de ombros, ignorando-o completamente, sem vontade alguma de ouvir suas desculpas.
— Bom, eu vou deixar vocês dois conversarem sobre isso, então. Bom dia. — Sarah buscou esgueirar-se para evitar mais constrangimento, despedindo-se de ambos e saindo em direção aos corredores.
— Sarah, espera aí! — Alex jogou os papéis nas mãos do amigo e correu até ela, fitando-a com alguma hesitação. — Será que a gente pode conversar? — Pediu em um sussurro, evitando que o colega a ouvisse. Um pouco sem graça, Sarah assentiu afirmativamente e acompanhou-a até um local mais privado.
Em um hotel não muito longe dali, Hector observava a paisagem da cidade, tragando um charuto enquanto descansava os braços na sacada após ter levantado de ressaca e extremamente mal humorado. Ainda sem camisa, permitiu-se aproveitar a brisa fresca da manhã e a tímida luz do sol que fazia sua presença por trás das nuvens que enchiam o céu, deixando tremeluzir a fumaça que saíra de seus pulmões no ambiente claro ao mesmo tempo que era consumido por seus pensamentos destrutivos e altamente perigosos. Cada um deles envolvia a filha irresponsável de seu chefe.
— Bom dia. — A voz de sua companheira fez-se audível de maneira estridente e incômoda. Não havia dito em um tom alto, porém sua presença naquele momento em específico o irritava profundamente. Ela entrelaçou os braços ao redor de sua cintura e depositou alguns beijos em seu pescoço. — Conseguiu colocar as ideias no lugar?
— Não. — Retrucou ríspido, desvencilhando-se dela bruscamente e apagando o tabaco na mureta de cimento em que estava encostado. Aquela dor de cabeça infernal o estava consumindo de dentro para fora, e somado às suas próprias dores emocionais, seu humor piorava gradativamente.
— Eu não consigo acreditar que um cara como você fica sofrendo pelos cantos por causa de uma menina mimada. — Pietra revirou os olhos ao vê-lo tão desamparado e esguio. Estava perfeitamente ciente de que o relacionamento entre eles nunca seria mais do que sexo casual, porém ainda tinha a esperança de que algum dia ele pudesse mudar de ideia. — Já passou da hora de você desistir dessa idiota e procurar uma mulher de verdade.
Ele arqueou as sobrancelhas e direcionou um olhar gélido em direção à ela.
— Mais respeito quando estiver falando sobre a filha do Don. — Repreendeu, cruzando os braços antes de seguir: — E além disso, "uma mulher de verdade"? — Aqui havia uma leve pontada de irritação em seu timbre.
— Você sabe... — sentou-se ao lado dele, apoiando sua cabeça no ombro do rapaz de modo que esbanjasse flerte — alguém como eu. Você sabe muito bem que eu e ela somos completamente diferentes. — Sorriu maliciosamente.
— Tem razão. — Concordou seco, afastando-a para vestir sua camisa, sem importar-se em olhar para ela enquanto falava, embora soubesse que provavelmente estava sorrindo satisfeita ao tê-lo ouvido acatar sua opinião. — Você não chega nem aos pés dela, e eu percebi que não importam quantas vezes eu te use pra tentar esquecê-la nunca vai ser o suficiente, então... — aqui o sorriso dela já havia sumido de sua face, dando espaço à uma expressão irritada — seja lá o que for isso entre nós, acaba aqui, Pietra. Você não se compara. — Completou, fechando o último botão de suas vestes.
— Você só pode estar de brincadeira. — Bufou entre dentes. — Eu ouvi dizer que ela é bem idiota. Não me surpreenderia se qualquer dia desses o corpo dela aparecesse jogado em alguma sarjeta qualquer. — Acrescentou ironicamente, quase como se estivesse fazendo uma ameaça.
Hector observou-a pelo canto dos olhos e se pôs a falar friamente:
— Não precisa se preocupar com o bem-estar da Pan. Esse trabalho é meu.
— Engraçado, isso vindo do cara que provavelmente vai ser morto pelo chefe depois de ter colocado as mãos sujas de sangue na filhinha dele. — Rosnou cheia de zombaria. — Acho que agora que vai perder o posto de braço direito você não dá mais tanto medo assim.
Com um olhar ameaçador ele levantou-se, prendendo-a entre seu corpo e a parede ao colocar o braço acima de sua cabeça, encarando-a com alguma fúria e sede de sangue insaciável. Por viver em meio às mais perigosas situações no submundo, Pietra já não temia a morte com tanta facilidade, porém naquele instante ela sentia-se como um mamífero indefeso sendo encurralado por seu predador. Seus batimentos acelerados, o fôlego descompassado e o suor frio que dominava suas mãos à medida que sentia a respiração daquele homem tão próxima deixavam claro o quanto aqueles olhos acinzentados e vazios a apavoravam.
— Pietra — ele sorriu sadicamente, sussurrando próximo ao seu ouvido — é por isso mesmo que você deveria ter medo. — Afastou-se para fitá-la diretamente nos olhos outra vez, percebendo-a extremamente agoniada. — O que é um pecado a mais para um homem que já está com os dois pés no inferno? — Terminou, esboçando aquele mesmo semblante sem vida de sempre. Paralisada pelo medo após ter sido tão abertamente ameaçada de morte por aquele sujeito tão sanguinário ela não conseguira mover um músculo, deixando que seu corpo deslizasse até o chão com as costas apoiadas na parede enquanto o via ir embora, arrependendo-se amargamente de tê-lo provocado. Talvez se o houvesse irritado ao citar qualquer outro assunto ele não se importaria tanto, mas tocar no nome de Pan Stracci de jeito tão desdenhoso e sugestivo em sua presença decerto havia sido o maior erro de sua vida.
No colégio, Sarah e Alex estavam sentadas nas velhas arquibancadas atrás da antiga quadra de futebol. Esta última havia requisitado à amiga que conversassem, porém um silêncio constrangedor tinha tomado conta do ambiente, em especial por estarem tão desconfortáveis sobre o assunto. Depois de mais alguns minutos, Alex respirou fundo e decidiu tomar coragem para iniciar conversa:
— Eu sei sobre o beijo entre você e o Chris. — Comentou cabisbaixa. A amiga prontamente se admirou, deixando estampado em seu rosto que sentia-se culpada de alguma forma.
— Me desculpa. — Murmurou chateada, esfregando os polegares um no outro sem saber como reagir.
— Uma das representantes de sala é minha amiga, e ela me contou que aquele dia, quando eu fiquei esperando vocês na lanchonete, ela foi buscar alguns papéis no grêmio e te viu sair correndo de lá. O Chris saiu logo depois com uma marca de batom nos lábios, e parecia bem preocupado.
— Eu não sabia que isso aconteceria, de verdade, a gente conversou um pouco e aí... bom, aí isso aconteceu.
— Sarah, não tem problema, de verdade. — A capitã do time de basquete forçou um sorriso, prontificando-se a pegar a mão da colega para que a fizesse encará-la decentemente. — Eu queria te pedir um favor. — Admitiu.
— Um favor? — Ela arqueou as sobrancelhas, um tanto confusa.
— Você poderia dizer pra ele sair comigo? Por favor, só uma vez. Ele te respeita bastante, então eu sei que se você disser pra ele sair comigo, ele com certeza vai te escutar. — Pediu com olhos enormes e brilhantes; quase em tom de desespero.
— Alex, eu não sei, eu... — Hesitou, sentindo o coração apertar. Estava sem palavras; sem reação diante daquele pedido tão indiscreto e angustiado.
— Sarah! — A voz de Pan soprou por seus ouvidos como uma brisa fresca em meio ao deserto, salvando-a daquela situação embaraçosa. Quando virou-se para recebê-la corretamente, percebeu que trazia consigo Evan e Chris, e assim que seu olhar se cruzou com o do representante, seu coração palpitou ansioso. Talvez fosse o sentimento ruim que a consumia de dentro para fora depois de ter aquele diálogo com a amiga, ou então talvez fosse apenas sua vontade egoísta de vê-lo mais uma vez após o momento terno que compartilharam mais cedo. Ela não sabia ao certo, porém definitivamente sentia borboletas no estômago ao vê-lo.
— Eu podia jurar que não existia combinação de amigos mais esquisita do que eu e o representante aqui, mas vocês duas provaram o contrário. — Evan as provocou, referindo-se ao fato de terem personalidades completamente opostas. — O que vocês estão fazendo escondidas aqui, senhorita certinha e senhorita esportista popular? — Seguiu em tom de zombaria.
Sarah revirou os olhos e se obrigou a ignorá-lo. Já estava abalada com todos os acontecimentos do dia, e ter que encará-lo após saber sobre o beijo que dividira com sua melhor amiga não melhorava em nada seu humor. Estava certa de que ele apenas brincaria com seus sentimentos e a descartaria como sempre fizera com as outras, portanto não conseguia deixar de repudiá-lo ainda mais.
— Fumando, não tá vendo? — Alex ironizou, recebendo um leve empurrão no braço como resposta.
— Você é ridícula. — Ele riu.
— Uma resposta ridícula pra uma pergunta ridícula, ué. — Esboçou um sorrisinho vitorioso. — Aliás, a gente deveria criar um grupo pra evitar que eu veja a cara feia do Evan toda hora. É muito melhor mandar mensagem.
— Eu concordo com isso. — Isis acercara-se por trás deles, acompanhada de Kate e Naoki, que as havia encontrado no corredor e fora arrastado até ali. — O que vocês estão fazendo nesse lugar?
— A verdadeira pergunta é: como vocês sabiam que eu e a Sarah estávamos aqui?
— Literalmente todo mundo vem aqui pra matar aula. Quer dizer, matar aula e fazer outras coisas também. Eu acho que essa arquibancada já virou uma horta de camisinhas. — A atriz exprimiu enojada, retirando um lenço de sua bolsa para colocar no local em que se sentaria. Todos os outros colegas também olharam ao redor com receio.
— Que outras coisas? — Pan indagou confusa, fazendo com que seus amigos caíssem na gargalhada.
— Não é nada, deixa pra lá. — Naoki rapidamente retrucou, antes que Isis, Alex ou Evan pudessem abrir o bico. Nenhum dos três ousou voltar ao assunto após sua intromissão. — Aliás, vocês já almoçaram? O nosso intervalo acaba em uma hora.
— Já começou o intervalo do almoço? Eu pensei que ainda fosse o horário de aula do Sr.Foster. — Chris espantou-se, olhando para o relógio de pulso do colega.
— E por acaso você deveria estar matando aula, senhor presidente do grêmio? — Sua amiga de infância perguntou em timbre irônico e pejorativo. Todos os outros colegas concordaram e começaram a incomodá-lo por isso, causando um grande tumulto.
Em meio à toda aquela bagunça, Pan sentiu o celular vibrar em sua mão. Assim que colocou os olhos na tela, percebeu que ali sinalizava o nome de Hector, fazendo com que seu coração falhasse uma batida ao recordar-se do que havia acontecido no dia anterior. Incerta e atordoada, ela afastou-se do grupo para atendê-lo em silêncio, já aguardando pelo provável sermão que precisaria ouvir.
— Aonde você está? — Ele soou impaciente; decerto até mesmo afobado.
— Hec? O que foi? Eu estou indo pra lanchonete almoçar, por quê? — Questionou preocupada. Não era do feitio daquele homem agir assim, tão impaciente.
— Eu preciso que você venha diretamente até a entrada do colégio. — Fez uma breve pausa, como se precisasse de fôlego antes de seguir. — O seu pai acabou de acordar.
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