Notas iniciais
Oi meus amoressssssss ♥ ♥ voltei, estive meio enrolada, cheia de coisa pra fazer, participei de uma peneira que me ocupou um BOM tempo do foco, mas agora to mais tranquila e consigo voltar a escrever outra vez~ trouxe mais um capítulo quentinho pra vocês, e espero que gostem aa ♥ ♥

O clima instantaneamente pesou no auditório. Dava para cortar a tensão com uma faca, e ninguém ousava iniciar conversa; principalmente os garotos que não sentiam-se no direito de contar um segredo que não lhes pertencia. Pan então ingeriu uma bela dose de seu drinque e respirou fundo antes de quebrar o silêncio:

— Promete que vai continuar sendo minha amiga mesmo depois de tudo?

— Você tá me assustando. O que tá acontecendo, Pan? — Alex mordeu o interior das bochechas, empenhando-se em amenizar a ansiedade. — Eu não vou prometer nada enquanto você não me contar.

A Stracci suspirou e deu-se por vencida, ainda que amedrontada de acabar perdendo uma amizade considerada preciosa. Tomou coragem e começou a falar cada detalhe dos últimos acontecimentos, desde a época da première quando foi sequestrada por Vincenzo até o resgate de Chris, que até pouco tempo sua amiga de infância não sabia sobre, e nem ao menos imaginava ter sido algo tão grave. A expressão dela mudava a cada nova descoberta. Angústia, medo, frustração, um sentimento insuportável de traição e uma mágoa profunda por ter sido excluída de um assunto tão importante e perigoso. Simplesmente não conseguia entender. Por quê? Por que seus amigos esconderiam algo assim dela, e apenas dela?

Sua única reação após ter passado pelo menos quinze minutos ouvindo à todas as explicações foi a de permitir que as lágrimas rolassem desenfreadamente por seu rosto, sentindo-se completamente miserável. Perceber que havia se envolvido com criminosos e que agora possuía um alvo em suas costas a fez temer pela própria vida, contudo nada a assustava mais do que tomar ciência sobre a realidade do ocorrido com Chris. Se a situação tivesse sido diferente, poderia tê-lo perdido e nem ao menos se daria conta disso, porque acabariam encobrindo tudo. Mesmo que agora suas emoções românticas sobre ele já não fossem tão fortes, ele ainda era como família; como um irmão mais velho, e seu vizinho desde que se conhecia por gente. Como poderia sequer imaginar vê-lo morto? Aliás, como ele poderia ter sido capaz de esconder algo assim dela? Sua amizade de mais de uma década não valia de nada, então? Simplesmente não sabia mais o que pensar ou falar; um vazio enorme se criara em seu interior, dando aos olhos um aspecto morto enquanto tudo o que conseguia ouvir era um leve zunido bem baixo no fundo de sua mente, quase como se o universo tivesse parado para ajudá-la a assimilar tudo o que acabara de escutar.

A respiração descompassada ecoou pelo silêncio, e em instantes, Alex prontificou-se a recolher os próprios pertences, enfiando-os na mochila o mais rápido que conseguia. Sua única vontade era de desaparecer, esquecer que todos os colegas existiam para pensar apropriadamente e com calma antes de acabar soltando algo que a faria se arrepender depois. Uma coisa era esconder um segredo estúpido como algum namoro secreto, mas ocultar sequestros, homicídios, ameaças, lavagem de dinheiro, negociações milionárias e a relação de suas melhores amigas com um dos maiores chefões do crime organizado ítalo-americano era muito para processar em tão pouco tempo.

— Eu preciso... sair daqui. — Soou ofegante, percebendo as mãos suando frio.

— Alex, eu juro que nunca quis esconder nada de você! — Pan exclamou apreensiva, preocupada com sua reação. Não parecia a mesma garota bruta e sorridente de sempre. — Por favor, confia em mim. — Insistiu manhosa.

— É verdade, ela foi a única contra esconder isso. Não fica brava com os outros, fui eu quem pedi pra não te contarem. — O presidente do grêmio interveio, juntando as sobrancelhas em um arco melancólico. Culpava-se por todo o drama criado.

— Ser contra uma coisa e não falar do mesmo jeito adiantou de quê? Ela guardou segredo igual todos vocês, então é tão culpada quanto. Vocês sabiam o quanto isso era perigoso pra mim, pra minha família... — prontificou-se a fitar o amigo de infância, franzindo o cenho com raiva para acrescentar entre dentes: — principalmente você, Chris. Você sabia das coisas que aconteceram com o meu pai e mesmo assim não me disse nada. — apertou os olhos, lutando para segurar o choro à medida que caminhava até a porta apressadamente. — Desculpa, mas eu quero ficar sozinha agora. — Completou, atestando sua saída com o estrondo da porta ao deixá-la se fechar com o vento.

— Alex! — Pan chamou aflita, levantando-se bruscamente na intenção de alcançá-la. Antes de seguir caminho, sentiu o guarda-costas envolvendo sua cintura para proibi-la de continuar. — O que foi, Diego? Me solta! — Protestou, tentando se desvencilhar.

Ele negou com a cabeça e apertou o gesto, demonstrando sua falta de vontade para recuar.

— Se você for atrás dela vai falar o quê? Vai conseguir fazer ela mudar de ideia e aceitar tudo isso em segundos com um sorriso no rosto? — Disse com firmeza, obrigando-a a tomar consciência das atitudes mimadas e pensar melhor. Quando percebeu-a cessar os movimentos, afastou-se para continuar: — Ir atrás dela agora só vai piorar as coisas e pode acabar arruinando a amizade de vocês duas. Espera ela esfriar a cabeça primeiro, porque agora, vocês podem acabar falando algo que vai trazer arrependimento mais tarde. Conversar de cabeça quente nunca é uma boa opção.

— Nunca sei se esse cara é extremamente inteligente ou se é um idiota. — Evan comentou em tom de provocação, tomando um gole de sua cerveja. O sobrinho do conselheiro sorriu de canto e ajeitou a jaqueta de maneira convencida. — A ruivinha faz sentido não ir atrás dela, mas você tem certeza de que vai ficar aqui? — Perguntou diretamente à Naoki, vendo-o suspirar e negar com a cabeça.

— Eu sou o que ela deve odiar mais no momento, porque mesmo sendo a pessoa que mais ficou do lado dela nos últimos dias, também não falei nada. — Respondeu chateado, considerando-se um grande imbecil.

— É, faz sentido. — Tocou-lhe o ombro em uma tentativa de confortá-lo. — Mas fica tranquilo que eu já fiz coisa bem pior e ela me perdoou. — Terminou, voltando sua atenção ao projetor ao percebê-lo forçar um sorriso fraco.

Honestamente, todos sentiam-se péssimos e não tinham vontade alguma de iniciar qualquer assunto que fosse após a discussão. Ficaram em silêncio, assistindo ao programa envoltos em uma aura desagradável, porém Evan vez ou outra esgueirava-se entre os colegas para averiguar o estado mental de sua falsa namorada que aparentava estar em um dilema. Parte de si queria ficar contente pela amiga na televisão que conversava com a repórter dita como sua heroína de infância, mas a outra parte, a menos otimista e ultimamente amadurecida, estava decepcionada consigo mesma por ter magoado outra pessoa considerada importante.

Ao final do evento, o presidente do grêmio ficara com a obrigação de devolver as chaves do auditório sem que fosse pego enquanto todos os outros voltavam para as duas últimas aulas, responsabilizando-se pela traquinagem de Alex.

— Chris? — A voz de Pan o surpreendeu, fazendo-o derrubar as chaves diante a porta que havia acabado de fechar. — Desculpa, não queria te assustar. — Pegou o objeto no chão, devolvendo-o à ele.

— Eu que me assustei à toa, não se preocupa. — Curvou os lábios serenamente, sinalizando com a cabeça para que ela o acompanhasse até a sala do conselho estudantil. — O que foi? Não vai pra sala?

— Vim te perguntar uma coisa. — Indagou, demonstrando sinais de nervosismo; decerto até mesmo timidez. Não conseguia nem ao menos manter contato visual. Ele arqueou as sobrancelhas em admiração, imaginando o que poderia deixá-la tão aflita. — Será que dá tempo de entrar em outro clube e sair do time de basquete?

— Isso é por causa da briga? Olha, eu conheço ela já faz um tempão, não precisa sair do time por isso. Ela vai te perdoar logo.

— Não! — Retrucou impulsivamente em tom alto e animado, aturdindo-o novamente. Quando se deu conta da atitude espalhafatosa, limpou a garganta e corrigiu sua fala, agora calmamente: — Não é por isso, é que eu conversei com o diretor sobre o meu futuro e ele me fez lembrar de uma coisa que eu sempre gostei bastante de fazer. O basquete com as meninas é divertido, mas...

— Mas não te faz se sentir viva, né? — Ele completou a frase, fazendo-a assentir hesitantemente ao encará-lo com admiração. Era como se a compreendesse perfeitamente; como se houvesse vivenciado algo parecido no passado. — Não precisa me olhar assim. — Sorriu. — Todo adolescente passa por isso, é bem normal.

— Até o capitão do time de futebol, presidente do grêmio, o cara mais popular e perfeitinho do colégio passou por isso? Meu Deus! — Forçou uma expressão abismada no intuito de provocá-lo, fazendo questão de adicionar uma boa pitada de deboche à sua fala.

— Engraçadinha. — Voltou a rir, empurrando a testa dela como punição antes de seguir: — Acredita que eu já fui do clube de debates?

— Sério? Com o Naoki? Mas vocês nem se conheciam até pouco tempo.

— Quando eu entrei, ele ainda não fazia parte da equipe. Acho que só foi se interessar pelo clube um ano depois. É divertido competir no palco, e combina bem com ele.

— Se é tão divertido por que saiu?

— Pelo mesmo motivo que você. — Fez uma pausa, adentrando a sala do conselho estudantil junto à colega. — Era divertido, e isso. Eu precisava de um clube pra manter minha bolsa, porque meus pais nunca conseguiriam pagar minha matrícula em um lugar desses, então eu imaginei que pra entrar em uma universidade decente, a aptidão em debates ficaria bem no meu currículo.

— Verdade que tem isso de currículo, né? — Suspirou chateada, ciente de que não havia tido muitas experiências de vida para acrescentar no documento em questão.

— Não precisa fazer um milhão de coisas pra se dar bem. Se fizer uma só que você ame e se destacar nela, tenho certeza de que qualquer faculdade vai te querer. É só olhar o Evan, por exemplo.

— Ele fica tão diferente quando tá no palco ou no campo. Nem parece a mesma pessoa.

— O Evan é um babaca na maior parte do tempo, mas quando ele realmente é apaixonado por alguma coisa a gente acaba se atraindo por ele sem querer. — Esboçou uma expressão nostálgica, orgulhoso pelo colega e seus feitos desde a época em que se conheceram. — Não é à toa que todo mundo gosta tanto dele mesmo com alguns comportamentos bem duvidosos.

— Ele até que é bem legal, né? — Curvou satisfeita os lábios, lembrando-se de como o rapaz em questão não fora muito amigável em seu primeiro encontro, e agora, haviam se tornado bem próximos. — Mas então... acha que o clube de artes me aceitaria agora? — Perguntou esperançosa, fitando-o com olhos brilhantes e pidões.

Chris riu e ajeitou a jaqueta, aproximando-se dela após assegurar-se de que estavam sozinhos e ninguém os ouviria.

— Felizmente pra você, mocinha, eu conheço o presidente do conselho estudantil e ele pode mexer alguns pauzinhos pra fazer isso acontecer mesmo já tendo passado o limite de tempo para as inscrições. — Diminuiu ainda mais a distância e acrescentou ao cochichar em seu ouvido: — Nós dois somos bem próximos e ele é um cara muito legal. — Recuou, voltando a sorrir marotamente enquanto a acompanhava até o lado de fora da sala, trancando-a ao sair.

Agradecida, ela silenciosamente o abraçou, sendo prontamente retribuída. Ficava realmente aliviada por saber que a considerada irmã estava em boas mãos.

— Que coisa mais bonita, o representante matando aula outra vez! — A voz de Evan fez-se audível pela extensão do corredor vazio, juntamente às suas palmas que foram instantaneamente cessadas pelo melhor amigo, amedrontado por ser pego fora da classe e acabar perdendo seu histórico impecável. — Ainda por cima fazendo contato excessivo com a minha namorada em público e plena luz do dia... não tinha um amante melhor não, ruivinha? — Encenou estar ofendido, recebendo um leve chute na canela no intuito de calá-lo.

— Sabe que eu te odeio, né? — O outro franziu o cenho decepcionado, negando com a cabeça de forma incrédula.

— Você me ama. Se eu fosse mulher, com certeza nenhuma outra teria chance nesse seu coraçãozinho. — Tocou-lhe o ombro, demonstrando um semblante ladino ao vê-lo rir. — Mesmo assim, eu sinto muito, cara... — voltou sua atenção para a garota ali parada, diminuindo a distância entre seus corpos para entrelaçar seus dedos nos dela — o meu já tem dona.

— Só é uma pena que a sua "dona" não tenha te adestrado direito. — Diego juntou-se aos jovens na companhia de Sarah, propositalmente lançando insinuações à Evan. — Se não aprender a se comportar ela vai te abandonar. — Seguiu provocando-o, na intenção de começar uma briga. Conhecia seu pavio curto, e a mais recente amizade entre eles não o proibiria de incitar um conflito.

— Como você é engraçado, hein? Tô morrendo de rir. — Revirou os olhos, estranhamente mantendo a calma. Logo retornou o foco para a menina dos cabelos escarlate e falou: — Aliás, ruivinha, como eu faço pra sair vivo da sua casa no jantar de hoje?

— O padrinho não vai te matar agora que você aceitou a amizade dele. — O mais velho interveio, colocando-se entre os dois para separá-los, arrancando um grunhido insatisfeito de Evan. — Não com as próprias mãos, pelo menos. — Completou travessamente, de maneira a deixar claro o quanto queria aterrorizá-lo.

— É, eu tô ligado que você basicamente me fez vender a alma pro diabo quando me aconselhou a beijar as mãos dele e chamar ele de padrinho, seu desgraçado. — Rosnou entre dentes, segurando sua extrema vontade de batê-lo quando viu o sorrisinho ladino se formando em sua face. Com certeza o achava um cretino, mas não eram muito diferentes nesse quesito, então como poderia julgá-lo? — Pesquisei na internet o que significa essa relação de "aceitar a amizade" de um cara como ele, mas quer saber? Se eu sou supostamente o namorado da filha dele e os meus pais trabalham pra ele, em algum momento eu ia ter que me envolver nessas coisas, querendo ou não.

— É melhor eu começar a chamar ele assim também? — Chris perguntou um tanto sem graça, ponderando sobre sua relação com a namorada e sua família. Se tinha o intuito de seguir com ela daqui pra frente, imaginava ser necessário agradar ao seu pai independente de seu trabalho ilícito, certo? E realmente gostaria de passar muito tempo com ela se possível.

— Não precisa pensar tanto nisso. — Sarah carinhosamente segurou sua mão, demonstrando-lhe uma expressão reconfortante. — É só agir normalmente como um rapaz que vai conhecer a família da namorada em um jantar. Não é tão complicado, prometo. — Alertou, acalmando-o um pouco. Sabia o quanto todos estavam preocupados com o convite de Hans, portanto o mínimo que poderia fazer era permanecer ao seu lado e ajudá-lo a passar por isso sem acabar enlouquecendo pelo estresse.

— Posso chegar nele, chamar de sogrão e convidar pra um churrasco no domingo? — Evan brincou, causando uma onda de gargalhadas coletiva. Absolutamente ninguém conseguia imaginar o Don em suas bermudas de estampa tropical assando carnes no quintal segurando uma lata de cerveja.

— Acho que aí já é um exagero. — Diego negou com a cabeça, curvou a boca maliciosamente e seguiu: — mas eu adoraria te ver tentar.

— Sai daqui. — Retrucou-o com um tapinha na bunda, diminuindo ainda mais a tensão presente no grupo. Todos já estavam descontraídos, apesar dos acontecimentos mais recentes e desagradáveis.

Em alguns minutos, o soar da sirene por toda a extensão do recinto indicou o fim das aulas no colégio, dando brecha para que todos se despedissem antes de partirem para finalizarem suas obrigações pessoais antes do jantar.

Quando já eram pouco mais de sete horas da noite, Pan desceu de seu quarto trajada com seu vestido rosa preferido de seda e os pés descalços, deixando um rastro de perfume por onde passava. Como um furacão, invadiu o escritório de seu pai para surpreendê-lo e se deparou com uma cena que lhe aqueceu o coração; ele segurava o fantasminha com ternura, acariciando-o cuidadosamente enquanto tinha o olhar perdido em alguns papéis.

— Boa noite, papai. — Cumprimentou-o alegremente, fechando a porta atrás de si quando o percebeu subir minimamente o olhar e encará-la, afastando a papelada ao permitir que o felino descesse ao chão antes de começar a retirar os pelos de suas vestes.

Buona notte. — Soou desconfiado, contudo prontificou-se a levantar para recebê-la adequadamente, com um breve abraço e um beijo em cada bochecha. — Recebi uma trégua do seu tratamento de silêncio?

— Eu continuo chateada, mas não quero ficar brigando.

Bambina, você precisa entender... — afastou-se e voltou a sentar, ajeitando a postura ao seguir: — como um Don, às vezes eu preciso tomar uma decisão que nem sempre vai agradar a todos.

— Não é meio injusto me pedir pra te entender depois de ter passado a vida toda me afastando e escondendo mil segredos de mim? — Apoiou as duas mãos na escrivaninha e colocou-se de frente para ele, observando-o com uma expressão melancólica. — Você criou entre a gente uma parede que eu não consigo quebrar, papai. Eu não conseguiria nem escolher um presente de aniversário porque não sei absolutamente nada sobre você, então como eu poderia te entender?

Hans grunhiu cansado e serviu-se um copo de uísque a fim de aguentar aquela conversa problemática. Sabia que esse dia chegaria em algum momento porque o amadurecimento de sua garotinha era perceptível, mas não havia chegado a se preparar. Ela não acreditaria em qualquer mentira que saísse de sua boca, portanto deveria finalmente tratá-la como uma adulta e abrir o jogo.

— Eu nem saberia por onde começar. — Permitiu que os dedos corressem pela mesa, de encontro à uma pasta de couro preto que puxou para si no intuito de buscar alguma coisa nela contida. Assim que encontrou o papel requerido, retirou-o dali e estendeu-o até sua filha que esboçou um semblante confuso ao pegá-lo. — É a ficha do garoto. — Explicou. — Não é sobre isso que você quer saber? A função dele na famiglia, os trabalhos que ele fez, o motivo de ter sido expulso...

— Não. — Balançou negativamente a cabeça, devolvendo instantaneamente o documento virado para baixo.

O Don fitou-a com estranheza.

— Não?

— Eu não quero invadir a privacidade dele assim. Se ele não me contou nada é porque ele teve algum motivo, e se algum dia ele se sentir confortável pra isso, então ele vai me contar pessoalmente.

— Pensei que a mensagem estivesse bem clara depois do assassinato no seu colégio. — Guardou novamente o papel em questão, suspirando decepcionado. — Ele já te provou que não é um bom sujeito e que você deve manter distância. O que mais você quer pra cortar seus laços com ele?

— Se ele quisesse mesmo me fazer ter ódio dele e me afastar, ele teria matado alguém que importa pra mim. Se ele queria tanto mudar a imagem que eu tenho sobre ele como pessoa, então era só ter feito qualquer coisa que machucasse alguém com quem eu me importo, não com o Ethan que era alguém que eu provavelmente odiava. — Mordeu os lábios, apertando as mãos uma contra a outra como se culpasse a si mesma pelo que acabara de dizer. Mas ainda assim, compreendia que era uma verdade incontestável. — Demorei muito pra admitir isso, mas eu acho que tentei tanto perdoar ele pelas coisas que fez comigo e com a Kate, que no fim eu só acabei me magoando mais ainda. Eu odiei tanto ele, mas tanto... — fincou as unhas na própria pele, amaldiçoando a si mesma por ter se recordado de todas as noites mal dormidas que os pesadelos com aquela cena aterrorizante lhe causaram. Fechar os olhos e sentir o toque daquele sujeito por todo o seu corpo a fizera acordar chorando mais vezes do que poderia contar, e após sua morte, era como se o espírito dele houvesse retornado em sua mente apenas para atormentá-la.

Bambina... — franziu o cenho irritado, sem conseguir acreditar em como permitira que alguém traumatizasse sua protegida a esse ponto — você deveria ter vindo até mim. — Segurou com leveza o pulso dela, dando-lhe um leve aperto na intenção de passar alguma segurança. — Se um desgraçado desses coloca as mãos em você, então você vem até mim.

— Não é assim, papai. Você me prendeu por tantos anos e viveu me dizendo que não me queria envolvida nas suas coisas, que não queria me ver entrando nesse mundo... como acha que eu ia aguentar o fardo de carregar a morte de alguém comigo? Isso pode ser fácil pra você, mas não é pra mim. Eu nunca aguentaria isso. — Voltou a observá-lo com os olhos marejados; um olhar que indicava a serenidade antecessora à tempestade fria. — Não naquela época pelo menos. — Terminou em um murmúrio, sentindo-se completamente vazia por dentro.

Hans compreendeu perfeitamente o motivo do silêncio dominante que pairou no ar. Naquele instante, depois de ter balbuciado tão fervorosamente sobre carregar o fardo de uma morte, ela finalmente percebera que, se o ocorrido com Ethan houvesse sido algo mais recente, decerto não se importaria de matá-lo, e talvez o fizesse com as próprias mãos se assim a ocasião exigisse. Seu ódio iminente pelo rapaz era muito mais forte do que qualquer princípio existente.

Isso a aterrorizava; fazia sua respiração pesar, mas acima de tudo, tornava seus pensamentos turvos. Quem estivesse dentro de sua cabeça decerto pudesse pensar que tudo não passava de um drama, pois afinal, quem nunca vivenciou a sensação tão odiosa e fria em um momento de discussão acalorada e teve vontade de matar a outra pessoa? Praticamente o universo inteiro já desejara a morte de alguém ao menos uma vez em sua existência, ainda que em um surto de raiva momentâneo, porém existe uma breve diferença entre uma pessoa comum e Pan Stracci.

Ela nunca precisaria temer uma punição. Não existiam "correntes" que a amedrontassem e servissem como um freio para sua loucura, caso algum dia ela chegasse a ser dominada por sentimentos ruins.

— Que merda de pai eu sou, fazendo a minha própria filha sentir que não pode contar comigo? — Rosnou frustrado, balançando a cabeça em desaprovação. Era incapaz de acreditar que, em todos esses anos, cometera tantos erros estúpidos e acabara fazendo a pessoa que mais amava não confiar nele. Imaginava-se como um incompetente. — Vem aqui. — Sinalizou para que ela se sentasse em sua coxa direita, afastando o assento da mesa para criar espaço.

— Eu não tenho mais oito anos, papai. Posso acabar te machucando. — Comentou preocupada, titubeando em acomodar-se ali com medo de feri-lo. Não era mais tão jovem, e aquele homem muito menos.

— Não me ofenda, eu não estou tão velho assim. — Reafirmou suas intenções ao dar dois leves tapinhas no joelho. — Um pai sempre vai ter forças para segurar sua menininha no colo.

— Tudo bem, senhor "Don Stracci", não vou desobedecer suas ordens. — Zombou, esboçando um sorrisinho antes de ceder aos caprichos de seu pai e abancar-se hesitantemente em seu colo.

— Eu não sou seu Don. — Repreendeu-a em um timbre sério e firme. — Você é a única pessoa que eu nunca quis ouvir me chamando assim. Eu sou seu pai, bambina. Sempre vou ser, e a partir de agora eu prometo que não vou fazer nada que te envolva sem o seu consentimento. — Ajeitou-a em suas pernas de forma a deixá-la mais confortável. — Não quero mais que tenha medo de me dizer quando alguém te machucar, e não quero que tenha receio de vir até mim se precisar de apoio.

— De verdade? — Tentou assegurar-se do que ouvira, ainda cheia de inseguranças e dúvidas. Gostaria muito de acreditar em suas palavras, contudo as experiências passadas a obrigavam a manter um pé atrás. — Não vai mais sair mandando matar as pessoas só por terem colocado um dedo em mim?

— Nós somos homens de negócios e não assassinos, independente do que digam por aí. — Alegou entristecido, indignado com o fato de que sua garotinha o via daquela maneira. Bom, não poderia culpá-la por isso, mas ainda assim sentia-se chateado ao saber que até mesmo quem mais amava no mundo o via como um desgraçado miserável. — Você está perto de fazer dezoito anos, já é quase uma adulta. Não tenho direito de continuar tomando decisões no seu lugar.

— E se eu quiser trazer o Hec de volta? — Testou o limite das promessas de seu pai, apostando alto contra uma chance muito pequena de vitória.

Ele enrugou o sobrolho e bufou.

— Você me pede o impossível, bambina. — Massageou as têmporas, empenhando-se em não voltar a agir como um tirano. — Isso eu não posso fazer.

— Por quê?

— Porque um Don não pode ter favoritos dentro da própria famiglia. Quem seria leal à um líder injusto? — Explicou sereno, vendo-a encolher os ombros desanimada. Dado por vencido, fez um som estalando a língua e acrescentou: — Nós podemos conversar sobre um reencontro no futuro, mas não hoje.

Os olhos dela se encheram de luz, e em instantes, ela abraçou-o com força, quase derrubando o assento em que se encontravam.

— Eu já disse o quanto te amo hoje, papai? — Beijou-o na bochecha, demonstrando um sorriso irradiante.

— Sei, sei. — Tocou-lhe os cabelos, calmamente requisitando que acalmasse os ânimos para não se machucar.

— Papai, eu... — arrumou-se em um pequeno salto, timidamente passando os dedos entre algumas folhas acima da mesa para disfarçar o nervosismo. O Don arqueou as sobrancelhas curioso, aguardando-a terminar sua frase. Parte de si não queria contá-lo tudo pois ainda não sabia até aonde ia sua sinceridade, porém a outra parte, aquela que ainda o amava com todo o seu coração e lutava para crer cegamente em qualquer coisa saída de seus lábios; essa parte falava mais alto no momento. — tenho uma coisa pra te falar. — Concluiu, levantando-se no intuito de alcançar seu celular.

Pretendia contar-lhe sobre o encontro esquisito com o sujeito mascarado na festa de Evan e mostrar o papel com o endereço que tanto escondia consigo às sete chaves, mas era como se o destino a proibisse de fazê-lo, porque o soar da campainha interrompeu a conversa antes que pudesse revelar os temores guardados em seu peito. Se quando finalmente havia conseguido a coragem necessária para revelar tudo, algo decidira intervir, então decerto o segredo deveria continuar sendo um segredo, não é?

— O que você precisa me dizer, bambina? — Hans insistiu, segurando suavemente o ombro da primogênita para chamar-lhe atenção antes de afastar-se muito em direção à porta.

— Depois eu te digo, prometo. — Alegou marota, correndo para receber as tão aguardadas visitas.

Sarah já tinha se prontificado a atendê-los, elegantemente caminhando acima de sapatilhas brancas que contrastavam perfeitamente com o vestido de comprimento médio e tom pastel. Trajou-se adequadamente para uma ocasião importante, pois afinal, não era sempre que apresentava formalmente um rapaz como seu namorado em um jantar com os pais. Sim, tanto Hans quanto Alice já estavam cientes sobre seu relacionamento com um dos colegas feitos no colégio, mas ainda assim, as circunstâncias em que foram apresentados e todos os problemas passados não auxiliavam muito na imagem passada em ambos os lados. Seu considerado pai seguia receoso com os garotos por terem-no incomodado no hospital de forma grosseira há algum tempo, e seu parceiro fora sequestrado por culpa de sua família, portanto nada melhor do que um jantar para melhorar a situação e decentemente criar um vínculo não relacionado à tragédias ou inconveniências, certo?

Seus lábios se curvaram satisfatoriamente ao cruzar olhares com Chris, vestindo assim como o amigo ao lado, uma roupa social muito elegante enquanto trazia um buquê de rosas brancas consigo que foram rapidamente entregues à mulher que acreditava veemente ser a mais bonita do universo.

— Então vocês sabem fazer algum esforço para não se vestirem como delinquentes. — A voz rouca do anfitrião os surpreendeu ao juntar-se às filhas, que riram em uníssono com sua colocação. — Eu disse algo engraçado? — Perguntou intrigado, sem entender o motivo da reação exagerada.

A realidade era que ambas haviam se recordado do dia em que Hector dissera algo parecido no passado, quando tentaram obrigá-lo a retirar o terno para comparecer à praia. Achavam divertido a forma como eram antiquados em relação às vestimentas.

— O senhor gostou? — Chris indagou esperançoso, permitindo que um sorrisinho transparecesse.

— Não posso negar que estão decentes. — Deu de ombros.

— A gente queria te impressionar, padrinho. — Evan interveio.

— Me impressionar? — Franziu o cenho em desaprovação, fitando-os de cima à baixo. — O acompanhante de vocês por acaso sou eu? — Soou seco, causando-lhes um leve desconforto.

Hans não gostara nada daquela atitude. Não os achava dignos de suas filhas, em especial se estavam tão desesperadamente tentando agradá-lo enquanto esqueciam que, na realidade, deveriam se empenhar em impressionar as próprias parceiras. Eram suas queridinhas, afinal, e qualquer homem que se importasse mais com a opinião dele do que com a de suas garotinhas não era merecedor de um lugar ao lado delas.

— Papai! — Pan segurou-lhe um dos braços e o apertou, pedindo-lhe para pegar leve nos sermões, ao menos por enquanto.

À contragosto, o Don suspirou e assentiu, dando espaço para receber os garotos em sua residência.

— Preciso fazer uma ligação, mas fiquem à vontade. — Alegou, antes de afastar-se e deixá-los sozinhos nos sofás da sala principal.

— Tudo aqui é de couro, né? — Chris sentou-se ao lado dos amigos, olhando ao redor para constatar que até as poltronas eram feitas do mesmo tecido. — Tem algum motivo pra isso?

— É porque é muito mais fácil limpar sangue do couro. — Alice retrucou-o em alto e bom som ao descer as escadas com uma taça de vinho entre os dedos. Suas palavras somadas à expressão sádica em sua face causaram um arrepio inexplicável nos rapazes, que ficaram boquiabertos por um segundo até engolirem seco no intuito de disfarçar o descômodo. — De verdade vocês acreditam nessas besteiras? As crianças de hoje em dia têm uma imaginação... — revirou os olhos, demonstrando que aquilo não passara de uma provocação inofensiva. Achava divertido aterrorizá-los utilizando a visão errada sobre seu trabalho.

— Até você, mamãe? — A primogênita reclamou. Não compreendia o motivo de sua família importunar excessivamente os colegas.

— Perdão, querida, mas eu não consegui evitar. — Misturou o líquido de sua taça ao balançá-la em movimentos circulares, cheirando-o profundamente antes de perguntar: — Você não disse que viriam algumas meninas também?

— A Alex não vai poder vir hoje, mas as outras já devem estar chegando. — Disse chateada, recordando-se do acontecido com sua antiga companheira do clube de basquete. Gostaria muito de tê-la ali presente por ser alguém muito importante em sua vida, contudo entendia que ela precisava de tempo para assimilar suas descobertas mais recentes.

— Não sei se elas vão vir depois disso, ruivinha. — Evan comentou em uma entonação frustrada, arregalando minimamente os olhos em surpresa ao observar as últimas mensagens recebidas em seu telefone.

— Como assim? — Inquiriu preocupada, aproximando-se dele no intuito de descobrir o motivo de seu espanto. Não tardou muito até que tivesse a mesma reação, puxando o aparelho de suas mãos como se não pudesse acreditar no que estava lendo. — Isso é mentira! — Gritou, apertando o celular contra seus dedos.

Ali continham inúmeras notícias desdenhosas sobre Isis, muitas completamente destrutivas que poderiam facilmente destruir sua carreira, ou pior, a sua vida. Aparentemente todas haviam surgido após uma entrevista feita durante à tarde, pelo ator que contracenou o papel de seu par romântico no filme. Ele alegava ter sido traído por ela; uma absurda mentira, pois seu namoro nunca nem ao menos fora real. Era uma simples fachada criada pela equipe de marketing para a promoção da obra.

— Espera, isso fica ainda pior... — Sarah murmurou aflita, com as mãos trêmulas. — Vocês viram a declaração do assessor dela?

Os amigos prontamente direcionaram o foco até a notícia em questão, deparando-se com algo que definitivamente poderia ter devastado a atriz. Não como uma profissional, mas sim como uma garota jovem que não deveria ter que passar por isso em circunstância alguma; um relato sério que poderia trazer-lhe graves consequências.

Pan impulsivamente fora dominada pela raiva e arremessou o celular de Evan contra o sofá, cerrando o punho ao terminar de ler a acusação absurda feita pelo próprio assistente pessoal da amiga, que supostamente deveria ajudá-la:

" Para conseguir o papel principal, Isis Gandhi aproveitou de sua boa aparência para seduzir o diretor e dormiu com pelo menos cinco homens responsáveis pela produção do filme. Esse seu relacionamento com uma garota não passa de uma simples atuação para esconder a grande vadia que ela no fundo sempre foi. "

Notas finais
Tadinha da Isis, gente. Não é fácil ser famoso mesmo, né? Vamos torcer pra ela conseguir sair dessa :( Espero que tenham gostado, meus chuchus, beijinhosss~ ♥ ♥