Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
45 Choque de realidade
Notas iniciais
Hector ainda não havia saído da cidade, mesmo ciente de que acabaria morto caso fosse avistado por alguém da famiglia. Por mais que fosse arriscado, se hospedara em um hotel muito longe de sua antiga moradia apenas por aquela noite, pois sentia que ainda tinha negócios pendentes ali. Planejava cumprir a última ordem passada por seu chefe que não teve a coragem de completar, e pensou que, talvez, agora fosse um bom momento, como agradecimento por tudo o que Hans lhe havia feito e também como um presente de despedidas para a garota que amava. Terminar com aquilo finalmente a faria perceber que ele não era a pessoa que imaginava, e provavelmente acabaria por aumentar ainda mais a distância emocional entre eles. Era o melhor a se fazer, pois afinal, era um criminoso do mais baixo nível e nunca poderia ser o príncipe montado em um cavalo branco dos contos de fada que ela tanto merecia.
Estava cedo ainda. Tudo bem que tinha pressa para completar o serviço e sumir de uma vez por todas, mas não adiantava se afobar. Sentou-se na beirada da cama e acendeu um cigarro entre os lábios, deixando sair a fumaça de seus pulmões enquanto apreciava aquela solidão tão pacífica e tão melancólica, permitindo-se lembrar do sorriso que Pan esboçava todas as manhãs quando o assistia preparar o café ou trazer-lhe croissants daquela padaria que ela tanto gostava. Seu coração deu um leve aperto, obrigando-o a tragar com mais vontade o tabaco, tentando livrar-se daqueles pensamentos inúteis que não lhe trariam nada de bom. Ele já havia se declarado e sabia perfeitamente que a garota não sentia o mesmo; ao menos não em mesma intensidade, então de que adiantaria ficar se lamentando pelos cantos e se deixar influenciar por memórias desnecessárias? Pan Stracci estava fora dos limites, e depois do que ele faria em breve, provavelmente acabaria com toda e qualquer mísera chance de ficarem juntos. Bom, era assim que deveria ser. Era assim que as coisas precisavam ser. Era necessário fazê-la entender que não era uma boa pessoa, que não era um homem decente ou digno de sua empatia, e a melhor forma de fazer isso era simplesmente terminar o que já deveria ter feito há tempos.
No instante em que finalizou os preparativos já era hora de sair. Apagou o cigarro na pia do banheiro e livrou-se dele em um lixo à frente do hotel, fazendo questão de não deixar rastros sobre a sua estadia naquele quarto. Já era problemático o suficiente conseguir agir com liberdade sem o nome dos Stracci em suas costas para protegê-lo, portanto não seria prudente de sua parte permitir-se ser rastreado. Sua passagem ali deveria ser inexistente.
Ao entrar no táxi evitou ao máximo fazer contato visual com o motorista, escondendo parte da face com o casaco e um chapéu, tornando audível sua voz apenas quando precisou acertar as contas da corrida, descendo apressado em seu destino que, por sinal, era o colégio em que se encontrava sua protegida.
No portão encontravam-se os usuais seguranças da garota, como sempre. Eram seus antigos colegas de trabalho que o conheciam perfeitamente, então compreendia que seria impossível passar por ali sem que fosse reconhecido e acabasse por causar algum tumulto. Matá-los estava fora de cogitação, e nocauteá-los também não parecia uma boa ideia, já que não queria deixar sua amada desprotegida pela tarde. As regalias que tinha ao fazer parte da família Stracci já começavam a lhe fazer alguma falta, droga, se ainda trabalhasse para Hans poderia apenas passar diretamente por aquela porta e completar o serviço sem mais preocupações. Não tinha vontade alguma de esgueirar-se por cima dos muros como um marginal.
— Eu sabia que você tinha alguns parafusos a menos, mas isso aqui ultrapassa os limites da loucura. — Uma voz cheia de escárnio seguida de uma risada abafada chamou-lhe a atenção, fazendo com que sacasse rapidamente sua arma e apontasse ao indivíduo que havia se aproximado. — Opa, vamos com calma, fantasminha, eu sou seu aliado. — Levantou as duas mãos para demonstrar que se rendia, e Hector não pôde ter outra reação senão a de suspirar desapontado e permitir-se abaixar a guarda, ciente de que aquele sujeito não o entregaria. Tinha um débito para com ele, afinal. Diego tinha vários defeitos, mas não era um rapaz desonrado.
— É você. — Rosnou em desdém, revirando os olhos. Não esperava que fosse ser descoberto tão cedo, ainda mais por ele, mas ainda assim reconhecia as habilidades que tinha apesar de ser tão irresponsável e inconsequente. Aquele jovem era bom em rastrear coisas e apagar rastros de dados ilegais sobre os negócios, e era por esse motivo que ainda tinha alguma relevância na família apesar de tudo. Bom, por isso e também por ser o sobrinho do conselheiro e único afilhado de Hans; a relação entre padrinho e afilhado era sagrada para eles. — Eu já te disse para não me chamar assim, imbecil.
— Que recepção mais calorosa, com tanto amor assim eu vou ficar comovido e chorar. — Riu em provocação. — Não consigo acreditar que você decidiu voltar pra esse inferno na Terra depois de quase ser morto pelo padrinho. Pra piorar você nem tá fazendo questão de se esconder, você é mesmo sem noção. — Concluiu, estranhando a falta de cuidado daquele indivíduo que era sempre tão discreto e esguio. Não era à toa que havia conquistado um apelido no submundo que remetia a isso, porém o fato de estar ali demonstrava que não estava fazendo questão de se esconder ou manter-se vivo.
— Diferente de você eu sei me cuidar muito bem, então não precisa se preocupar comigo. — Retrucou desinteressado. — Vou terminar o que tenho pra fazer e sumir daqui.
— Eu sei que você sabe se cuidar, mas... — apoiou uma das mãos no ombro do colega como se lhe pedisse para deixar a euforia de lado e o desse uma chance, obrigando-o a fitá-lo diretamente. — Não custa nada me deixar te ajudar. Você já me ajudou tantas vezes, eu te considero meu amigo.
— Amigo é uma palavra muito forte. — Hector retirou a mão dele de seu ombro e esboçou um sorrisinho convencido, para murmurar: — Sabe que se for pego me ajudando vai acabar morto também, não sabe?
— Como assim "te ajudando"? Que eu saiba você acabou de apontar uma arma na minha cabeça pra me obrigar a fazer isso. — Esboçou um sorrisinho ladino, surpreendentemente fazendo com que Hector sorrisse também e aceitasse a sua proposta. Normalmente jamais aceitaria a ajuda de alguém, mas já não se importava mais com o que acabaria acontecendo consigo, portanto se algo desse errado não era tão grave; sua vida agora não tinha muito valor.
Diego foi capaz de infiltrá-lo no colégio através de uma passagem pelos fundos que absolutamente ninguém conhecia. Nem mesmo o próprio diretor estava ciente sobre aquele lugar, então como diabos ele sabia daquilo? Hector ficara internamente impressionado, porém não demonstrara; apenas deu de ombros e seguiu com seus planos, seguindo com o trajeto que tinha em mente se quisesse encontrar-se com sua vítima.
Quando passaram próximos das quadras, perceberam que um jogo de futebol estava em andamento. Hector cessou os passos e se permitiu divagar por um instante pela arquibancada, vidrado naqueles cabelos escarlate tão chamativos em meio à multidão. Era ela. Definitivamente era a sua amada, e embora seu coração gritasse para que corresse até a garota e a abraçasse com força, não podia ceder. Chacoalhou a cabeça e respirou fundo para reorganizar os pensamentos, dirigindo-se até o interior da instituição. Suas fontes haviam lhe passado a informação de que a pessoa por quem buscava sairia da aula em alguns minutos, logo tudo o que lhe restava era aguardar.
— Filho da puta. — O assassino resmungou em sua língua nativa ao ver sua vítima caminhar pelos corredores e dirigir-se até o banheiro. — Eu preciso que você não deixe ninguém entrar ali por pelo menos vinte minutos, você é capaz disso? — Inquiriu à Diego, duvidando que ele pudesse cumprir sua tarefa sem causar problemas, mas que outra opção tinha? Era isso ou nada, e estava fora de cogitação sair da cidade de mãos vazias.
Felizmente havia frequentado aquele local por tempo o suficiente para saber que era possível fazer com que nenhum outro aluno o incomodasse caso espalhasse algum tipo de boato patético de que algum casal estaria ocupado ali, então não parecia um trabalho impossível. Adolescentes lhe faziam revirar os olhos.
— Pra que tanto tempo? — Ele curvou os lábios em um sorrisinho sarcástico, antes de perguntar em um tom de zombaria: — Você vai torturar ele?
— O que você acha? — Hector soou impassível, fitando-o com firmeza.
Diego arregalou minimamente os olhos em surpresa, entreabrindo os lábios involuntariamente. Com certeza não esperava ouvir aquilo. Não era do feitio daquele homem sucumbir à violência pesada. Suas preferências envolviam cortes rápidos, tiros certeiros e sumiços instantâneos de cadáveres para que não tivesse problemas, porém tortura? Não, tortura não costumava estar nos seus planos, não era algo que o agradava e sua reputação de ter pouca paciência para o ato não era à toa. Decerto fosse até mesmo uma das primeiras vezes que se submetia a isso.
— Sério? — Buscou reafirmar o que ouvira, vendo-o novamente concordar. — Esse cara deve ter te irritado muito. — Murmurou preocupado.
— Ele colocou as mãos sujas em cima dela. — Explicou receoso, fazendo com que o garoto rapidamente franzisse o cenho em repulsa; seus punhos cerraram-se em uma tentativa de conter a raiva dentro de si. Existiam poucas as coisas capazes de tirá-lo do sério, mas essa com certeza estava em um dos primeiros lugares da lista. Não era necessário dizer mais nada. — Aliás — retomou o assunto, antes de seguir em frente — eu quero que encontrem o corpo depois. — Concluiu.
— O quê? — Soou abismado; a tensão tomou conta de seus ombros com tamanha irresponsabilidade. Não parecia o mesmo sujeito tão cuidadoso e impecável que costumava conhecer. — Você quer que encontrem... — hesitou, diminuindo o tom de voz — você tem planos de ir pra cadeia?
— Eu não vou deixar rastros, imbecil. — Suspirou cansado. — Só preciso que esse moleque esteja nas notícias durante o jantar hoje à noite, e eu preciso que ela saiba que fui eu quem o matei. — Murmurou, abrindo os horizontes de sua mente com a explicação. Ele finalmente havia compreendido as intenções por trás daquela loucura toda.
Diego deu de ombros, encarando-o pelo canto dos olhos ainda escondido enquanto aguardava a multidão de alunos diminuir. Eram visíveis os planos do colega, e se era assim que ele queria, não adiantava contestar.
— Eu vou estar na casa do padrinho na hora do noticiário. Posso fazer isso pra você. — Ofereceu, e ele somente assentiu ao mesmo tempo que vestia suas usuais luvas de couro.
— Vou precisar disso. — Hector roubou um maço de cigarros do bolso do amigo, além do isqueiro que lhe pareceu muito útil.
— Sério? Essa marca é a minha preferida. Eles são difíceis de conseguir. — Reclamou.
— Sei que vou me arrepender, mas estou confiando em você. — O mais velho sussurrou, prontificando-se a dar dois tapinhas em seu ombro antes de adentrar o local em que se encontrava a vítima. Como esperado, estava sozinho entupindo-se de álcool em uma das cabines. Bom, isso só tornaria as coisas mais fáceis.
Queria evitar ao máximo os ruídos chamativos e estrondosos, porém estava com pressa e não tinha outra opção a não ser arrancá-lo dali a força se não quisesse passar um bom tempo esperando até que ele resolvesse sair. Destrancou a porta da cabine e o viu reclamar sobre o fato de ter sua privacidade invadida, esboçando um sorrisinho cheio de escárnio ao ouvi-lo se frustrar tanto por isso; era patético que alguém como ele, que desrespeitava outras garotas e as perseguia por aí, se incomodasse tanto com a violação de seu espaço. Chegava a ser irônico.
Hector grunhiu com nojo, pegando-o pelo colarinho da jaqueta para arremessá-lo até o chão, posicionando o pé contra o seu peito enquanto apreciava vê-lo desesperadamente tentar afastar a sola de seu sapato com as mãos. Sua agonia o deleitava, então não demorou muito até que subisse o pé e o forçasse em seu pescoço, causando-lhe ainda mais desespero; estava se debatendo exasperadamente, lutando para que pudesse voltar a respirar. Quando percebeu que estava quase sem fôlego, afastou-se para chutá-lo no estômago com todas as forças. Vê-lo vomitar tão miseravelmente o álcool que consumira lhe trazia uma sensação de amargor na boca; um asco inexplicável, não apenas pelo ato, mas por lembrar-se de que alguém tão patético havia ousado tocar sua amada com tais mãos sujas.
— Seu merda, que porra você tá fazendo? — Ethan balbuciou com dificuldade, esforçando-se para levantar e revidar.
O assassino não deu-lhe chances de se recompor e rapidamente chutou seu rosto, quase fazendo-o perder a consciência. Obviamente não podia deixá-lo desacordado, pois qual seria a graça de torturar alguém que não implorasse por piedade com o olhar?
— Engraçado você reclamar. — Abaixou o rosto até que ficasse próximo ao ouvido dele, antes de acrescentar em um sussurro: — Até aonde eu sei, é você quem gosta de ficar brincando de gato e rato com mulheres indefesas. Não é tão divertido quando você quem é a vítima, né?
— Vai se foder. — Retrucou em meio ao seu arfar, um tanto irritado. — Tudo isso por causa daquela puta barata de cabelo ruivo? — Completou com dificuldade, utilizando de seus últimos resquícios de força para arremessar em sua direção a garrafa de vidro cheia de álcool que tinha nas mãos.
Por muito pouco não conseguira acertá-lo, porém o olhar dele tornou-se ainda mais frio e sádico no instante que o ouviu referir-se à sua protegida com aquelas palavras.
— Se aproveitar dos mais fracos só pra satisfazer o seu ego e tentar compensar a sua baixa autoestima não passa de uma atitude patética. — Sorriu ao ouvi-lo grunhir de dor no instante que voltou a apertá-lo com a sola de seu sapato, agora no meio de suas pernas, acendendo um cigarro entre os dedos ao mesmo tempo que o observava. Deixou tremeluzir a fumaça naquele cômodo deserto antes de terminar em timbre baixo e sereno: — De onde eu venho, esse comportamento não é muito bem visto.
Deu uma leve e última baforada em seu tabaco antes de retirá-lo dos lábios e utilizar sua ponta acesa para tocá-la diretamente na pele da bochecha de Ethan, que perdera instantaneamente o fôlego com a dor infernal da queimadura. Gritou tão alto que Hector sentiu-se obrigado a retirar sua faca do bolso e cortar fora parte da camisa do menino para enfiar os retalhos em sua boca e calá-lo. Quando o percebeu cuspir o tecido, irritou-se ainda mais, prontificando-se a fincar a lâmina na garganta do sujeito e silenciá-lo pela eternidade.
Por alguns segundos, Hector segurou o rosto de Ethan pelas bochechas com o intuito de amenizar o quanto seu corpo se debatia após soltar um grito mudo banhado em desespero. Os olhos começavam a se embaçar à medida que o vermelho se espumava pelos cantos da boca, com aquela sensação insuportável de engasgar-se com o próprio sangue e morrer lentamente pela junção da hemorragia e da falta de ar. Não era agradável, e tampouco uma cena bonita de se ver. Embora tivesse planos para arrancar-lhe os dedos um por um, ou decerto até mesmo queimar lentamente com o cigarro mais partes de seu corpo, sabia que não teria paciência para isso; era essa a razão pela qual nunca torturava alguém, afinal. Quando a vítima o irritava ou as coisas começavam a tomar um andamento tedioso, simplesmente cometeria o assassinato e seguiria em frente. Não tinha a calma ou a empatia necessária para aguentar todo aquele drama nesse tipo de situação.
— Você devia ter ficado quieto. Eu queria te ver sofrer por mais alguns minutos. — Falou de maneira impassível, no segundo que o viu finalmente perder o último resquício de luz nos olhos. — O seu maior erro foi ter colocado essas mãos imundas na filha de Don Stracci. Algumas idiotices não têm perdão. — Terminou em tom baixo e mórbido, apagando o tabaco na língua do cadáver antes que o corpo começasse a esfriar.
O assassino levantou-se e não fez questão alguma de sumir com a arma branca que havia utilizado para o homicídio. Por motivos pessoais, queria deixá-la ali como uma assinatura para aqueles que o conheciam. O objeto era novo e nunca o havia tocado com as mãos nuas, portanto não seria útil em uma investigação que o incriminasse, já que suas digitais não estavam cravadas ali ou em qualquer outro lugar daquele maldito banheiro. A única coisa da qual precisava era que Pan Stracci ficasse ciente sobre o ato, e que compreendesse que não era uma boa pessoa, mas sim um indivíduo desprezível. Apagar desse mundo a existência do garoto que tentou violá-la seria o seu presente de despedida.
Sentir o coração apertar ao fitar aquele corpo inanimado fora inevitável. Não por piedade ao rapaz, mas sim por imaginar a expressão decepcionada de sua amada ao ver o que ele era capaz de fazer. Obviamente a garota tinha ciência de seu trabalho e das coisas que fazia, já o havia visto chegar em casa com as vestes ensanguentadas inúmeras vezes, porém ouvir sobre algo não é tão surpreendente quanto constatá-la com os próprios olhos. Bom, agora o serviço estava feito e não tinha como voltar atrás. Amar alguém como ela naquelas condições necessitava de alguns sacrifícios, e era exatamente isso que faria por ela; o sacrifício de mostrar-lhe o monstro que era, para que não sofresse com sua partida e pudesse finalmente seguir em frente sem remorso. Como ela parecia não querer entender que eram incompatíveis, então Hector teria que mostrá-la, obrigando-a a descobrir da pior maneira possível.
Após recolher seus pertences deu duas leves batidas na porta, sinalizando ao seu parceiro que estava livre de sua função e que agora só lhe restava a tarefa de chamar a polícia e contar à Pan sobre o responsável pelo feito. Quando Diego abriu a porta do local, percebeu que o amigo já havia sumido, provavelmente pela janela, soltando um suspiro desgostoso ao bater os olhos naquele corpo ensanguentado e brutalmente assassinado. O pescoço banhado pelo vermelho vívido, as vestes cortadas e o rosto inchado pelos golpes que levara não eram nada agradáveis de se ver. Admitia que, apesar de ter convivido já por um bom tempo naquele meio ao lado de seu tio, jamais se acostumaria com tais coisas. Matar alguém não era mais tão impressionante, porém tortura e esquartejamento definitivamente não lhe caiam bem. Seu estômago revirava cada vez que precisava lidar com esse tipo de imagem em sua mente.
— Que bagunça. — Suspirou desanimado, desviando o olhar. — Ele não se segurou mesmo. — Coçou a nuca um tanto nervoso, respirando fundo para se recompor antes de fechar a porta novamente, abandonando ali todas as provas como o amigo havia requisitado. Sabia que precisaria aguardar por pelo menos quinze minutos até que fosse seguro ligar ao seu tio para contar sobre o ocorrido, pois esse era o tempo que o colega precisava para enfiar-se em um trem, um táxi ou um avião e sumir dali antes que fosse encontrado por alguém da famiglia.
Não tão longe da cena do crime, em frente ao vestiário masculino próximo ao campo de futebol, as coisas estavam menos fúnebres. Chris havia pedido que sua namorada o encontrasse ali após o final da partida para que pudessem passar um tempo juntos, e apesar de envergonhada, ela concordou, precisando aguentar as provocações das amigas que a acompanharam durante todo o trajeto, graças ao belo show que fizera com o rapaz em meio à arquibancada mais cedo. Estavam muito felizes por ela, porém não perderiam a oportunidade de deixá-la ainda mais desconfortável com tudo aquilo, já que era tão reservada e não gostava de ser o centro das atenções.
— Abram alas, a princesinha do capitão chegou. — Um dos garotos que haviam acabado de sair do vestiário gritou ao lado da porta, vestido com nada além de sua cueca e uma toalha ao redor do pescoço. Sarah e Kate instantaneamente colocaram as mãos em frente aos olhos, dominadas pela vergonha. Pan e Isis, no entanto, estavam indiferentes quanto à isso. — O que foi? Não gostaram dos músculos? — Fez questão de provocá-las, esboçando um sorrisinho ladino ao achar graça de toda aquela timidez.
— Você é um babaca, Peter. — Chris retrucou em tom irônico e alegre, dando um leve empurrão nas nádegas do colega e sendo prontamente retribuído com o mesmo gesto após sorrirem um para o outro. — Pode abrir os olhos, minha linda, ele já colocou uma calça pelo menos. — Sussurrou à Sarah, puxando suas mãos para si e depositando ali singelos beijinhos, fazendo-a ruborescer.
— Se esse cara não cuidar direito de você, pode me falar. Não vou hesitar em te roubar desse idiota. — Peter zombou, arrancando da moça algumas gargalhadas que fora obrigada a esconder com o pulso.
— Sai fora. — O namorado esbravejou, abraçando-a como se fosse a coisa mais preciosa do mundo e beijando-a na testa antes de prosseguir: — Foi muito difícil de convencer ela a ter piedade e me dar uma chance, então eu é que não vou desperdiçar. — Completou, carinhosamente apertando-a ainda mais.
— Vocês são muito lindos juntos. — Kate comentou satisfeita, recebendo comentários afirmativos das outras amigas; em especial Pan, que estava muito contente por ver uma das pessoas mais importantes de sua vida com um enorme sorriso estampado no rosto. — Vão sair em um encontro agora? — Questionou curiosa.
— Eu juro que tentei, mas ela negou pelo menos umas mil vezes, dizendo que precisava estudar para as provas que estão chegando. — Comentou desanimado, permitindo que os ombros caíssem um pouco, ainda sem soltá-la. — O presidente do grêmio sou eu, mas ela é cinco vezes mais estudiosa.
— Todo mundo pode se reunir e estudar lá em casa. — Pan ofereceu, iluminando novamente aquele semblante entristecido do rapaz. Estudar e ainda por cima ter a oportunidade de passar tempo ao lado da garota que gostava? Definitivamente lhe parecia uma ótima ideia, portanto não demorou muito até que assentisse em concordância. As amigas também ficaram animadas com a sugestão, portanto tudo o que restava era convidar os colegas que não estavam presentes através de mensagens de texto. — O Evan vai, mas a Alex disse que não pode porque vai estudar sozinha com o Naoki. — Exprimiu chateada; queria muito que todos estivessem presentes.
— Quê? Mas eles dois podem vir, eu vou ligar pra ela. — Chris argumentou, buscando pelo celular em seu bolso. Não demorou muito até que fosse interrompido por Isis, que fitou-o seriamente e negou com a cabeça, sinalizando para que a deixasse em paz. — O que foi? — Inquiriu confuso, não compreendendo o gesto repentino da amiga.
— Deixa ela quieta. Você não é tão burro pra realmente não saber o motivo de ela querer ficar afastada um tempo.
Ele rapidamente se desanimou outra vez, embora compreendesse que a amiga de infância precisaria de um tempo para se acostumar com as novidades. Ficar perto dele depois do ocorrido não seria tão confortável, especialmente se acompanhado de Sarah.
— Boa tarde, gatinhas. — A voz de Diego fez-se audível de maneira estridente e galanteadora à medida que se aproximava. Como sempre, cumprimentou as meninas com toda a intimidade que poderia forçar, abraçando-as uma por uma. Quando colocou os olhos em Chris, seu sorriso fechou-se ao perceber que ele pretendia abraçá-lo também, obrigando-o a dar um passo para trás e manter certa distância. — Não vai rolar, cara. — Deu de ombros, ignorando-o completamente.
— Aonde você esteve todo esse tempo? — Sarah o confrontou, estranhando seu sumiço repentino. Assim como era a função de Hector anteriormente, agora deveria ficar todo o tempo ao lado delas, acompanhando-as para aonde fossem, então era esquisito que as tivesse deixado sozinhas por tanto tempo.
— Sentiu saudades, bella mia? — Disfarçou ao cortejá-la, fazendo com que ela simplesmente revirasse os olhos e esquecesse sobre o assunto. Não tinha sentido em tentar dialogar corretamente com ele.
Chris, no entanto, não parecia ter apreciado muito a brincadeira. Ver outro homem dar em cima de sua namorada não era nada divertido, porém como o menino gentil que sempre fora, apenas trouxe-a para mais perto de si e entrelaçou os dedos nos dela, sem deixar transparecer seu incômodo.
— Diego! — Sandro apareceu por aquele corredor caminhando em passos pesados. Somente a entonação firme e nada gentil de seu timbre causara alguns arrepios em seu sobrinho; até mesmo suas protegidas pareciam surpresas com a visita inesperada.
— Tio... — Rumorejou amedrontado, encolhendo-se um pouco. Já aguardava pela chegada daquele sujeito, pois o havia telefonado pessoalmente para contar-lhe sobre a breve passagem do antigo colega de trabalho por ali, mas não sabia que apareceria tão cedo. Naquele instante agradeceu por não ter ousado tocar seu telefone nem ao menos um segundo antes, caso contrário Hector não teria tempo o suficiente para escapar da cidade.
— Boa tarde, crianças. — Ele as cumprimentou cortesmente, e então apressou-se em pegar com força o colarinho da jaqueta de couro do jovem que o havia chamado. — Nos deem licença, sim? Preciso conversar com esse incompetente. — Disse com frieza, arrastando-o pelo local até que ganhassem distância o suficiente para obter privacidade.
— Eles estão brigando? — Kate soou preocupada, vendo-os conversando tão seriamente ao final do corredor. Se fosse possível ser morto com o olhar, Diego provavelmente já estaria enterrado a sete palmos abaixo do chão.
— Eu não sei. O tio Sandro e o Diego vivem brigando, então acho que sim. — Pan expôs com um certo gosto de amargor em sua boca. Já estava acostumada com as discussões daqueles dois e sabia que não era direito seu intervir nos assuntos da família, no entanto sentia-se péssima ao vê-los daquela forma.
Ambos voltaram depois de alguns minutos, com expressões indecifráveis e uma aura nada acolhedora. Sandro despediu-se após tomar para si a obrigação de avisar ao seu chefe sobre a visita dos colegas de sua filha à casa. Sabia que aquele homem não chegaria antes do jantar, porém ainda assim não ficaria muito satisfeito em ser surpreendido por visitantes inesperados. Seria prudente de sua parte deixá-lo ciente sobre aquilo para que não houvessem surpresas. Hans detestava surpresas, em especial se elas envolviam desconhecidos não anunciados em sua residência.
Diego, no entanto, permaneceu ao lado das meninas até que decidissem que era a hora de partir. Deveria escoltá-las em segurança, e após a conversa nada agradável que tivera com o conselheiro da família, não existiam brechas para falhas ali.
Isis estava com o próprio carro, por isto o grupo acabou se separando até que chegassem à casa dos Stracci. Evan havia saído antes do colégio e aguardara pela chegada dos amigos em frente ao destino, aproveitando a deixa para carinhosamente abraçar Pan no instante que a viu descer do veículo. Também felicitou o melhor amigo pelo início de seu relacionamento com Sarah, expressando todo o seu contentamento ao vê-lo tão alegre ao lado da garota por quem nutrira sentimentos nos últimos tempos. Apenas Alex e Naoki não estavam presentes, mas todos sabiam o motivo e não os obrigariam a aparecer se ainda não sentiam-se confortáveis; também é obrigação de um amigo compreender e dar espaço quando necessário.
— Tem certeza de que o pai de vocês não vai se irritar com a gente? — Chris perguntou inseguro, sem saber o que o aguardava agora que estava compromissado com uma das filhas de Hans. Era amedrontador pensar que poderia acabar na sua mira ao fim do dia.
— Eu briguei com o papai, então não tenho certeza, mas pelo menos com vocês aqui eu não preciso ficar conversando com ele. — Pan cruzou os braços com um ar desapontado, recordando-se do acontecimento com Hector. Havia sido convencida de que seu pai não tinha intenções de matá-lo, mas ainda assim continuava chateada com a cena, e principalmente com toda aquela discussão dramática que surgira logo após.
— Se o meu tio autorizou, então vocês vão ficar bem. — Diego informou, amenizando a preocupação dos jovens. — Vou ficar no antigo quarto do fantasminha, se precisarem de alguma coisa podem bater na porta. — Concluiu.
— Ele não vai ficar bravo se você usar o quarto dele? — Pan inquiriu com inocência, ainda fissurada na ideia de que em algum momento aquele indivíduo retornaria.
— O quê? Como assim? — Ele arqueou as sobrancelhas em confusão. Seu amigo já havia se despedido dela, certo? Então que diabos de pergunta era aquela?
— É o quarto do Hec, e ele não gosta que ninguém entre lá quando ele não está. — Explicou tranquila; não parecia ser algum tipo de brincadeira ou encenação, o que era ainda mais surpreendente. Mesmo depois de tudo ela ainda não tinha realmente compreendido que o adeus era definitivo. — Ele vai brigar com você se descobrir. — Insistiu.
Antes que pudesse retrucá-la, Sarah deu um passo para frente e fitou-o como se lhe pedisse que aceitasse sua loucura e não tentasse convencê-la do contrário. Era perceptível todo o sofrimento que aquela situação lhe causava, já que se recusava a aceitar a realidade e seguia vivendo na própria fantasia criada em sua cabeça. Diego pôde apenas suspirar e concordar à contragosto.
— Eu já me acostumei a brigar com ele, então não precisa se preocupar com isso, gatinha. — Aproximou-se dela para tocar-lhe o ombro como um gesto de conforto antes de retirar-se e deixá-los à sós, surpreendentemente sentindo alguma empatia pela garota.
Ela não contestou. Parte de si já conhecia a personalidade oposta que tinham e que ocasionalmente resultava em brigas bobas. Sendo assim, aproveitou para dirigir-se até a cozinha e pegar algumas bebidas e petiscos antes de subir até seu quarto na companhia dos amigos, no intuito de iniciar aquela sessão de estudos proposta. Evan fez questão de mantê-la entretida com a matéria o máximo que conseguira, embora vez ou outra ela acabasse divagando, cansada de ficar sentada em silêncio por mais do que uma hora inteira.
Chris e Sarah estavam logo ao lado, com as costas apoiadas na lateral da cama e as mãos entrelaçadas enquanto resolviam algumas questões de química juntos. Era uma das únicas matérias que tinham em comum, e ambos pareciam muito concentrados, apesar de ser inevitável trocarem alguns olhares insinuantes quando se encaravam entre os breves intervalos entre os exercícios.
Kate e Isis também não perdiam a oportunidade de ocasionalmente flertarem entre si, deitadas no chão lendo em conjunto alguns textos passados pelo professor de história para um trabalho que precisariam entregar em poucos dias.
Todos só perceberam que a tarde fora produtiva no momento em que ouviram algumas batidas na porta e observaram o horário no celular, espreguiçando-se após aquela longa reunião de aprendizado. Pan bocejou e levantou-se para receber a pessoa que pedia permissão para entrar, esperando pela figura de Hector com seus braços cruzados, a cara de poucos amigos e um sermão interminável já preparado por ter que aturar seus colegas durante a noite toda. Quando a abertura da entrada revelou a figura de Alice, o aperto decepcionado em seu peito fora instantâneo, o que fez com que ela se lembrasse do ocorrido e se sentisse ainda pior.
— Eu vim chamar vocês para jantar. — Ela soou hesitante, percebendo que a filha titubeara antes de assentir e forçar um sorriso nada convincente. Os outros jovens já haviam requisitado a permissão de suas famílias para que pudessem permanecer ali mais um tempo, então também agradeceram e levantaram-se quase instantaneamente para acompanhá-la até a mesa, sem vontade de deixar os pais da colega aguardando.
— Boa noite. — A voz rouca de Hans ecoou por toda a extensão daquela silenciosa sala de jantar, causando um certo desconforto nos rapazes, em especial Chris, que estava de mãos dadas com sua namorada.
As garotas já pareciam mais acostumadas com sua presença, inclusive o cumprimentaram com beijos na bochecha, porém no instante que percebeu Sarah com os dedos entrelaçados nos de um garoto, ele instantaneamente fitou-o com frieza, quase como se quisesse perfurá-lo com os olhos e ver através de sua alma. Chris sentiu-se intimidado, soltando-a repentinamente e ajeitando a postura antes de engolir seco e sentar-se cautelosamente ao lado dela, esboçando uma expressão cheia de conflitos, dividida entre uma tentativa de sorriso e aflição.
— Não vai me cumprimentar, bambina? — Voltou a falar, direcionando-se à filha, que apesar de irritada não queria parecer grosseira, e consequentemente balbuciou um arrastado "boa noite" antes de sentar-se na outra ponta da mesa sem desviar o olhar. Estava como sempre, demonstrando aquele semblante inexpressivo e desinteressado, trajado impecavelmente com seu terno alinhado e as calças caríssimas que combinavam com os sapatos sociais pretos. A postura também não deixava a desejar, e toda aquela pose de superioridade tornava fácil que fosse reconhecido com alguém da realeza.
Pan respirou fundo e focou no ambiente ao seu redor, tentando ignorar a briga que tivera com seu pai, e então m silêncio constrangedor dominou o ambiente, sendo possível ouvir apenas os barulhos que faziam os talheres ao atritarem contra os pratos. Para Diego, aquela era a deixa perfeita, no entanto. Serviu-se um pouco de vinho apesar do olhar de reprovação vindo de seu chefe por vê-lo consumir álcool em frente aos jovens e se levantou até a sala, buscando o controle da televisão antes de voltar rapidamente ao seu lugar na mesa sem que acabasse ouvindo um belo sermão. Conhecia bem as manias de seu padrinho e sabia o quão rígido era sobre etiquetas. Achava uma frescura, mas como diria isso ao seu superior? Bom, não diria. Aceitaria de cabeça baixa e não tentaria contestar.
— Já que vocês vão ficar nesse clima tenso, eu vou colocar nas notícias. Ninguém se importa, né? — Questionou ladino, não recebendo respostas adversas. Tinha noção de que seu Don não apreciava o barulho da tevê durante o jantar, mas ele não causaria uma cena por isso.
A sala continuou taciturna, o ambiente pesado entre a família anfitriã causava um incômodo nos visitantes que não sabiam como reagir. Diego fitou o relógio e ingeriu uma garfada de comida, antes de apoiar corretamente as costas na cadeira para apreciar o show. Não demorou muito até que a notícia pela qual ele tanto aguardava aparecesse na tela, iniciando um burburinho indignado entre aqueles que conheciam a vítima. Kate até mesmo engasgara-se com a comida, e foi então que todos os olhares se direcionaram à Pan, que fez tanto barulho ao arrastar bruscamente sua cadeira e levantar-se que se tornou o centro das atenções.
Era exatamente daquilo que ele precisava; daquele semblante apavorado estampado na face da amada de seu colega, exasperada com o que estava assistindo ali.
— Eu sei que você tem alguma coisa a ver com isso, papai. — A fala dela em sua língua nativa soou melancólica, quase como se lhe implorasse para dizer o contrário. Não queria que mais ninguém compreendesse o tópico da conversa a não ser por aqueles relacionados aos assuntos da família, porém a preocupação dos colegas ao verem-na tão alterada com as mãos suando frio e a respiração fatigante era inevitável.
— Não foi o padrinho, gatinha. — O responsável por transmitir a mensagem interveio, também em italiano por respeito a ela. O Don encarou-o com desgosto, nada satisfeito com o apelido utilizado ao dirigir-se à sua filha.
— Então foi você? — Ela engoliu seco para amenizar sua frustração; não queria começar a chorar de raiva ali mesmo, e muito menos fazer um escândalo em frente aos seus convidados. — Por isso que o tio Sandro apareceu lá brigando com você, não foi? — Continuou; a voz trêmula e a respiração ainda mais acelerada. Quase não conseguia sentir o oxigênio circular por seu corpo, que gradativamente tornava-se mais pesado.
Ele acenou negativamente com a cabeça, sinalizando que não fora o responsável por isso também. Obviamente tinha uma participação naquilo tudo, mas ninguém precisaria saber, em especial se ainda quisesse manter a cabeça colada em seu pescoço por um bom tempo. Afinal, seu padrinho não apreciaria nada saber que havia ajudado um atual inimigo a cometer um homicídio.
— Independente do que digam alguns idiotas por aí, nós não somos assassinos. — Hans argumentou, também em seu dialeto de nascença. Vislumbrou rapidamente a televisão e examinou o objeto utilizado pelo criminoso que estava sendo mostrado pela polícia durante a entrevista, descobrindo instantaneamente o autor do ato. — Mas o garoto sim. — Comentou desinteressado, enfiando outra garfada de pasta na boca.
Seu afilhado esboçou um sorrisinho malicioso ao ouvi-lo tão abertamente admitir aquilo para a garota. Não esperava que fosse descobrir tão rapidamente, e muito menos contar à ela, porém aquele era Don Stracci, e não existiam sequer mínimos detalhes que passavam despercebidos por aquele sujeito. Bom, não que Hector fizera muita questão de esconder-se. Havia até mesmo utilizado seu tipo de lâmina favorita, quase sua assinatura, embora apenas os membros mais próximos da famiglia soubessem sobre isso. Ele não seria tão descuidado a ponto de permitir que algo o incriminasse.
— Que garoto? — Ela indagou agoniada, sentindo o coração falhar uma batida. Apertou as mãos uma na outra empenhando-se em conter sua instabilidade emocional e a tremedeira que havia tomado conta de si como consequência.
— O fantasma. — Diego revelou, finalmente dando o último toque para fazê-la perder a compostura.
Pan finalmente havia sucumbido. Jogou os talheres e guardanapo ao lado do prato, subindo apressadamente as escadas para abrir de modo estrondoso a porta do quarto de Hector no intuito de cobrar-lhe uma explicação. Ele havia prometido respeitar seus desejos e não se envolver naquela questão com Ethan, então como poderia ter feito algo assim depois de tudo? Era inadmissível. Ao abrir a porta, no entanto, deparou-se com um enorme vazio que a fizera receber um enorme choque de realidade. As coisas daquele homem não estavam mais ali; sua cama, sua poltrona, seu cofre... nada daquilo que ela havia visto no dia em que dormira ao lado dele naquele lugar não existia mais.
— Cadê as coisas do Hec? — Sua voz custou a sair devido à garganta fechada; o estômago já começava a dar-lhe pontadas doloridas causadas pelo estresse e respirar se tornava cada vez mais complicado.
Sarah e Evan levantaram-se apressados para segui-la, não tardando muito até que os pais da moça e Diego também os acompanhassem, vendo-a tão miseravelmente apoiada no batente da porta enquanto mantinha o olhar insípido vidrado naquele cômodo deserto; tão desolado quanto seu interior naquele momento.
— Pan? — A amiga ousou aproximar-se com receio, tentando averiguar seu estado mental.
— Sarah, as coisas do Hec sumiram. Por quê? — Balbuciou com dificuldade, cerrando os punhos e empenhando-se em conter aquela sensação ruim que começava a dominar-lhe de dentro para fora. — Por que as coisas dele não estão aqui? Ele não ia só ficar afastado por um tempo? Cadê ele? — Tagarelou aflita, agora aumentando o tom de sua voz. Não chegara a ponto de gritar, porém havia alcançado um certo nível de insanidade graças ao impacto emocional.
— Porque ele não vai voltar. — O pai respondeu friamente. Doía-lhe o coração ser tão rígido, mas precisava fazê-la compreender que aquele rapaz não fazia mais parte de sua família; ao menos não mais. — É o meu veredito final. — Concluiu, vendo-a balançar a cabeça em negação várias vezes. Era uma reação preocupante.
Respirar tornou-se ainda mais difícil, suas mãos estavam mais quentes; suavas, e as pernas começavam a perder força à medida que alguns pontos de luz arroxeados dominavam sua visão turva. Estava amedrontada, uma sensação de morte iminente corroía seu interior e o coração acelerado parecia que explodiria em poucos segundos. Era angustiante perceber que sua pele começava a perder a cor enquanto apertava as mãos contra o pescoço lutando para conseguir voltar a respirar, deixando sua visão embaçada até que se tornasse um escuro completo; uma escuridão solitária que trazia um conforto inexplicável. As vozes chamando desesperadamente por seu nome pareciam distantes; tão distantes que pareciam estar em outra dimensão, ecoando no vácuo. Fechar os olhos depois de tudo equiparava-se à uma paz, uma necessidade de simplesmente render-se e permitir que seu corpo desligasse por completo, portanto cedeu, sentindo uma leve dor momentânea assim que sua cabeça tocara o chão frio antes de perder completamente a consciência e desmaiar devido ao acúmulo de estresse entalado em seu peito.
Em uma cidade não muito longe, eram pouco mais de oito horas da noite quando Hector finalmente chegara ao seu destino, extremamente exausto. Ficar em um hotel seria muito arriscado, então decidiu alugar um chalé em uma área mais rústica e afastada da maioria da sociedade. Ao abrir a porta do lugar, suas narinas foram instantaneamente invadidas pelo aroma de madeira e feno, trazendo-lhe um sentimento caloroso ao fazê-lo se recordar de sua infância na Sicília, quando corria no campo ao lado de seus pais quando visitava os falecidos tios na fazenda.
Colocou as malas no chão e encontrou um cantinho ao lado da janela para acender um charuto e apreciar a tempestade do lado de fora. Uma chuva fora de época, muito estranha, mas nada desprezada. Fazia-lhe muito bem observar aquele cenário; aquelas árvores com as copas sendo arrastadas pelo forte vento e as gotas gordas batendo no vidro, causando um estrondo cômodo antes de desmancharem e escorrerem até que outra viesse e ocupasse seu lugar. Nostálgico, fechou os olhos por um momento e tragou com vontade a fumaça do tabaco, soltando-a de seus pulmões e deixando-a tremeluzir naquele pequeno cômodo iluminado somente à meia-luz.
Já faziam anos desde a última vez que sentira-se tão deplorável a ponto de se permitir chorar, porém aquela noite em especial trazia-lhe uma espécie de melancolia inexplicável. Abriu novamente os olhos e voltou a contemplar o temporal estrondoso, deixando seu rosto ser tomado pelas lágrimas enquanto as lembranças dos momentos que dividira com sua amada lhe atormentavam a mente, apreciando seu charuto em silêncio.
Agora era definitivo. Ele a havia perdido para sempre, e não existia a possibilidade de voltar atrás.
Fale com o autor