Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
55 A verdade descoberta
Notas iniciais
Naquele mesmo instante a porta do escritório de Hans se abriu, e os olhares pidões de sua filha direcionaram-se à ele, que logo modificou o semblante preocupado por um questionador. Gostaria de saber o motivo de tanto alvoroço na sala de estar, e especialmente, por que sua queridinha encontrava-se agoniada.
— O jantar vai ter que esperar um pouco, papai. — Soou desconcertada, empenhando-se em manter a calma. Mas, caramba, era realmente difícil se difamavam abertamente uma de suas amigas com mentiras deslavadas. — Preciso ir na casa do tio Sandro. — Acrescentou, ciente de que ela provavelmente estaria ao lado de Kate, buscando conforto em um momento tão complicado.
— Do Sandro? — Repetiu e a observou intrigado, vendo-a concordar com a cabeça enquanto esboçava uma expressão de súplica. — Não precisa fazer essa cara, bambina. — Suspirou cansado. — Estou indo para lá agora, então pode me acompanhar se quiser. — Disse no intuito de acalmá-la, porém acabou causando o efeito oposto. Não era de seu feitio sair às pressas no meio de um jantar, afinal, porque o simples ato de ser o anfitrião e abandonar os convidados já era grosseiro de acordo com seus ideais de etiqueta. Se realmente precisava encontrar-se urgentemente com seu conselheiro a ponto de fazer algo assim, então deveria ser algo sério.
Como o homem intuitivo que sempre fora, ele percebeu a preocupação da menina e optou por uma aproximação sutil, cobrindo-a com seu sobretudo que retirara do mancebo ao lado da entrada principal. Fitou-a com firmeza e garantiu com o olhar que tudo estava bem, beijando-a carinhosamente na testa antes de se afastar e cortesmente abrir a porta para deixar que ela passasse.
— Vocês não vão vir também? — Questionou curiosa aos colegas, e eles prontamente se levantaram no intuito de acompanhá-la.
Os garotos estavam receosos de oferecerem companhia pois não gostariam de irritar o Don. Não sabiam o que faria na casa de seu conselheiro, e se fosse algo confidencial, a presença de desconhecidos definitivamente o desagradaria, portanto aguardaram ansiosamente pelo convite da colega e respiraram aliviados quando ele chegou.
Atravessar a rua não demorou mais do que alguns segundos. Sandro os recebeu com um ar misterioso e um sorriso forçado no rosto, mantendo a compostura em frente aos jovens, embora soubesse que a conversa com seu chefe não seria tão prazerosa.
Diego tomou para si a responsabilidade de levar os convidados até o quarto da mais nova hóspede da casa enquanto seu tio e padrinho subiam até o escritório. Isis estava sentada na cama, tentando não desabar com os boatos que corriam pela mídia manchando o seu nome, completamente angustiada. Kate obviamente ficara ao seu lado durante todo o tempo, fazendo o melhor para confortá-la.
— Quem te conhece sabe que isso é mentira. — Evan iniciou conversa, sentando-se ao lado dela. — Nós vamos resolver isso, fica tranquila. — Deu um leve aperto em sua mão, dando-lhe segurança.
— É a palavra de uma mulher nova no ramo contra a de vários homens conhecidos e bem mais famosos do que eu. Você acha mesmo que alguém vai acreditar em mim? — Balbuciou chateada em um timbre baixo e trêmulo; que ao invés de demonstrar tristeza estava carregado de uma raiva incontestável. Sua vida e sua carreira eram uma coisa, porém a partir do momento que os comentários negativos começaram a interferir em seu relacionamento também, a guerra tornara-se pessoal.
Quer dizer, claramente fora uma surpresa descobrir que o ator com quem fingia um relacionamento havia alegado uma traição fantasiosa para prejudicá-la e trabalhar em uma imagem de vítima. O falso namoro deles acabaria em poucos dias, e isso acarretaria em sérios declínios na fama dele que ultimamente só encontrava-se nos tópicos mais falados por causa dessa relação com ela. Mas ainda assim, não era como se esperasse muito daquele sujeito, porque afinal, ele era infame por criar escândalos no intuito de não ser esquecido pela mídia. O pior de tudo foi ter sido enganada por seu próprio assessor; o sujeito à quem confiara todos os seus segredos mais profundos. Que diabos ele ganharia ao caluniá-la em rede pública? Não fazia sentido algum.
— Eu posso pedir pro papai resolver isso. — Pan ofereceu, percebendo o estado emocional completamente devastado das amigas. Deixá-las assim era imprescindível, e nunca perdoaria a si mesma caso fechasse os olhos para uma situação injusta dessas. Tinha noção de sua hipocrisia pois já havia ignorado ocorridos bem mais graves por parte de sua família, mas independente disso sempre ajudaria as pessoas amadas.
— O padrinho não, gatinha. — Diego interrompeu prontamente, com uma firmeza nada usual. Quando todos o encararam confusos, pigarreou e cruzou os braços antes de explicar: — Você não vai querer que suas amigas fiquem devendo favores para ele depois disso.
— Mas não dá pra continuar assim. — Contestou, observando a chateação das colegas; especialmente de Isis que tinha o choro preso na garganta e lutava para não sucumbir em frente à sua amada. Isso apenas a faria se sentir mais culpada pela situação, portanto não admitiria fraquejar ali.
— Vou conversar com o meu tio. Ela é parte da nossa família agora. — Direcionou um olhar convicto à Kate, que surpreendeu-se com sua alegação e teve o coração aquecido ao ouvi-lo chamá-la assim. Sempre considerara a si mesma como um estorvo para todos, e era satisfatório descobrir que ao menos existia algum lugar aonde era realmente querida. — Dito isso, você que é namorada dela também se torna responsabilidade nossa. — Coçou a nuca minimamente sem jeito, respirando fundo. — Até porque... bom, eu não sei sobre o cara que contracenou com você, mas o seu assessor foi provavelmente subornado ou ameaçado pra dizer aquilo. Dava pra ver o desconforto na voz dele durante a entrevista. — Completou, imaginando que talvez os inimigos de seu Don tivessem um dedo em toda essa sujeira. Todas as pessoas próximas dos Stracci agora haviam enormes alvos em suas cabeças, portanto não seria surpresa caso eles tivessem propositalmente atacado a garota no intuito de prejudicar sua carreira.
— Não precisa disso, vocês já fizeram muito por mim. — Kate levantou-se apressada, negando com a cabeça. Por um lado estava contente pela consideração, porém não conseguia evitar a sensação de que já os havia incomodado muito nos últimos tempos.
— Família é algo sagrado pra gente, gatinha. — Deu um passo para frente e tocou-lhe os cabelos com os dedos, não como um flerte, mas sim como um gesto de reafirmação. — E além disso, eu nunca negaria socorro para duas mulheres bonitas. — Comentou galanteadoramente, diminuindo a tensão no cômodo ao provocar uma risada coletiva. A moça simplesmente o abraçou com força e agradeceu em um sussurro, sendo prontamente retribuída. Ele jamais recusaria um gesto carinhoso vindo de qualquer mulher do universo, afinal, embora essa pudesse ser considerada sua irmã mais nova.
No andar de cima, Hans bebericava um copo de uísque com gelo, acomodado em uma das cadeiras do escritório enquanto fitava seu conselheiro, aguardando-o folhear os papéis de sua escrivaninha.
— Finalmente encontrei. — Colocou os óculos de leitura e sentou-se ao lado de seu chefe, averiguando o documento que tinha em mãos. — Perdão pela demora, Hans. Sei como odeia fazer os outros esperarem, mas já faz tanto tempo desde a última vez que mexi com isso e os papéis acabaram se perdendo no meio de outras coisas. — Deu duas batidinhas com as folhas na mesa para alinhá-las e entregou-as à ele para que as averiguasse, franzindo o cenho instantaneamente ao ouvir alguns gritos animados vindos do primeiro piso.
— Quando foi que nós viramos babás de todas as crianças que minha menina traz para casa? — Suspirou cansado, ainda sem perder o foco. — Amolecemos tanto assim por causa da bambina?
— Já ouviu falar em destino? — Puxou o isqueiro de seu bolso e acendeu um cigarro entre os dedos, ajeitando a postura no assento. — Talvez seja isso. Nossa vida conturbada precisava de um equilíbrio.
— Você sabe que não sou um homem supersticioso.
— Realmente... — Esboçou um sorrisinho fraco e deu uma baforada no tabaco — às vezes me esqueço de que você é um velho carrancudo. — Acrescentou, vendo-o simplesmente dar de ombros. Não tinha como discordar. — A Antonella gosta muito da nossa hóspede. Me pediu para adotá-la formalmente, e eu estou de acordo. — Encarou-o discretamente, aguardando pela resposta. Estava implicitamente pedindo-lhe permissão.
— Não vou interferir na sua vida pessoal, consigliere mio. — Serviu-se outro copo, arqueando as sobrancelhas e sutilmente observando-o por cima da folha. — Mas você vai conseguir lidar com o fato de ter uma filha que escolheu outra mulher como parceira? Que eu saiba você sempre foi bem antiquado nesse quesito.
— Confesso que sou da velha guarda, nós tivemos uma criação muito diferente, mas honestamente acho que não me importo. Se a criança está feliz, então eu não tenho reclamações. — Admitiu receoso, batendo duas vezes no cinzeiro. — O que você faria no meu lugar?
— Não me incomodaria. A única coisa que eu nunca quis para a minha principessa era que ela acabasse se envolvendo com um criminoso, e foi exatamente isso que aconteceu. — Articulou decepcionado, desviando novamente a atenção até a papelada. — Parece que quanto mais eu a proíbo de fazer as coisas, mais ela quer fazer exatamente o oposto. Tentei afastá-la dos negócios e agora ela vive me perguntando sobre o trabalho.
— Por que não dá uma chance? Talvez ela consiga assumir o seu posto um dia.
— Minha filha? — Deixou escapar uma risadinha lotada de escárnio, negando automaticamente com a cabeça. — Nós dois sabemos que ela não duraria um dia no meu lugar. Seria como jogar um filhote em meio aos leões. Mesmo que eu ensinasse tudo o que sei, no fim ela não conseguiria liderar nossa família.
— Nós já conhecemos algumas mulheres que chefiavam as próprias famiglias. — Insistiu, fitando-o para analisar suas feições. Seguia indiferente, mas ainda assim existia uma pontada de insatisfação.
— Você tem muita fé na bambina, Sandro.
— Ou talvez você quem tenha pouca, meu Don.
— Muito pelo contrário. Eu só acredito que ela seja uma pessoa muito decente para esse tipo de serviço miserável. Os homens que comandam sob o nome Stracci a comeriam viva. — Cruzou os braços, jogando os documentos acima da mesa. — Se nem uma cretina como a Alice consegue o reconhecimento que precisa, como acha que a minha criança, que nunca manchou as mãos e nunca teve nem sequer uma dificuldade na vida vai ser capaz de sentar naquela cadeira e provar para todos esses bárbaros que ela é mais capacitada para o posto do que eles? — Ajeitou a postura, bebendo um pouco mais antes de completar: — Ela acabaria morta nas primeiras horas e eu já posso até mesmo citar o nome dos sujeitos que fariam isso acontecer.
— Bom, isso é verdade. São um bando de animais selvagens. E falando nisso... — Pigarreou, apagando o tabaco para resolver logo as pendências entre eles. Seu chefe havia marcado um jantar, e ele repudiava o simples pensamento de fazer as visitas esperarem. — Ele recusou sua ordem e deixou bem claro que viria hoje para uma visita. Não acho que a bambina vá lidar muito bem com isso.
— Pezzo di merda. — Rosnou frustrado, esbanjando descontentamento ao cerrar o punho e batê-lo contra a mesa. — Acha que ele vai querer se encontrar com ela?
— Provavelmente. Você sabe como ele é. — Deu de ombros.
— Um desgraçado que só faz o que dá na telha, como sempre. — Apertou os dedos contra o vidro do copo, prontificando-se a tomar até a última gota de álcool ali contida. — Esse bastardo é muito competente e leal, mas impossível de controlar. Vou precisar explicar tudo antes dele aparecer e complicar as coisas.
— De qualquer forma, já consegui encontrar todas as pessoas da lista que me passou. Bom, quase todos. O herdeiro do Vincenzo ainda é uma incógnita sem rastros.
— Luca Caccini? — Seu timbre saiu desdenhoso e a testa franziu-se em estranheza. Jurava que o encontrariam sem dificuldades por aparentemente nunca ter se envolvido com os negócios do pai, contudo estava enganado e isso o preocupava. — Te avisei para não subestimar essa criança. Mesmo que não tenha manchado as próprias mãos, não se pode negar as origens. Está no sangue dele. — Fez uma pausa, ponderando suas próximas decisões. Dar brechas em meio à uma guerra poderia ser fatal, portanto qualquer ação errada traria consequências irreversíveis. — Coloque alguns homens discretos para vigiar os que já encontramos e continue com a busca pelo garoto. Quando terminar os preparativos vou precisar que alguém esteja por perto para puxar o gatilho em cada um deles.
— Eu te conheço bem, Hans. Sabia que diria algo assim, então já deixei tudo preparado com antecedência.
— Não esperava menos do meu conselheiro. — Exprimiu orgulhoso, como se já esperasse por isso. Bebeu uma última dose de uísque e levantou-se apressado. — Chame as minhas meninas por mim. Vou lá fora para fumar enquanto se despedem.
Ele assentiu, cumprimentando-o com um aperto de mão e acompanhando-o cortesmente até a saída antes de dirigir-se ao quarto de sua hóspede, aonde encontravam-se todos os jovens. Conseguia ouvir risadas animadas e um burburinho de conversa que se transformaram em silêncio absoluto ao bater suavemente na porta algumas vezes.
— Tio Sandro? A gente tá atrapalhando a reunião de vocês com o barulho? — Pan correu para atendê-lo. — Desculpa, vou falar com o pessoal. — Deu espaço e o permitiu adentrar o cômodo, um tanto preocupada de tê-los incomodado.
— Não, bambina. — Curvou os lábios em um sorriso fechado, tocando-lhe a cabeça em um gesto amistoso para demonstrar que estava tudo bem. — Só vim avisar que o seu pai está aguardando lá fora.
— Ah, verdade. Já ficou bem tarde, né? — Alcançou o celular que havia jogado acima da cama, acendendo a tela na intenção de verificar o horário; contudo seus olhos arregalaram-se instintivamente com a imagem de um número privado ali contida. Tentando disfarçar a expressão admirada, prontificou-se a colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha e forçou um sorriso, voltando a fitar despreocupadamente o indivíduo à sua frente. — Posso usar o seu banheiro rapidinho? Pede pro papai me esperar lá em baixo, por favor. — Pediu, mantendo a naturalidade do tom de voz.
Ele não era estúpido, no entanto. A conhecia muito bem a ponto de saber que havia algo errado, porém deixaria passar porque ela provavelmente não diria nada e isso acabaria atrasando ainda mais os compromissos de seu chefe impaciente.
— Sim, claro. — Assentiu, olhando rapidamente ao sobrinho. — Diego, acompanhe ela até lá. — Ordenou seco, aguardando-a se retirar para tocar-lhe o ombro e sussurrar em seu ouvido: — E nada de gracinhas. O Don não está de bom humor hoje.
— Eu não tenho esse tipo de interesse nela. — Retrucou incomodado. Realmente não conseguia enxergá-la como uma pretendente.
— Não me importa. Você não é confiável perto de um rabo de saia.
— É, você sempre fala isso. Já me acostumei. — Discretamente revirou os olhos, subindo as escadas para não perdê-la de vista. Quando chegou ao segundo andar, surpreendeu-se ao ver a garota posicionada tão próxima do escritório de seu tio; assustada, intercalando a atenção entre a porta e o celular, quase como se estivesse se decidindo sobre entrar ou não. — O banheiro não é aí, gatinha. — Soou galanteador, avizinhando-se dela em passos lentos que logo se transformaram em uma corrida desesperada ao percebê-la engolindo seco antes de adentrar o cômodo e trancar a porta, abandonando-o do lado de fora para que não atrapalhasse seus planos.
O rapaz não compreendera o motivo da reação exagerada, mas de uma coisa estava certo: se não a retirasse dali nos próximos dois segundos estaria em sérios problemas com seu padrinho. Dependendo dos documentos expostos acima da mesa que ela pudesse ver, isso acarretaria em sérias consequências para a família.
— Abre a porta. — Pediu aflito, girando a maçaneta com a esperança de que ela fosse destrancá-la. — Eu não sou seu inimigo, você sabe disso. — Insistiu.
— Desculpa. — O ignorou por completo, buscando em seu telefone a mensagem recebida e averiguando-a corretamente. O mais curioso nela era o fato de ser uma ordem escrita em sua língua nativa, mandando-a subir no escritório para fuçar nos documentos que seu pai e o conselheiro haviam desenterrado há pouco.
Uma situação completamente atípica, principalmente porque Sandro não costumava ser descuidado a ponto de deixar a porta aberta, então como o remetente sabia de algo assim? Ela sentiu uma onda fria tomar conta de seu corpo, sendo dominada pela insegurança e pela sensação de que estava sendo observada mesmo sozinha naquele cômodo vazio, ouvindo apenas os rumorejares preocupados de Diego no lado de fora.
Respirou fundo, buscando manter a calma. Direcionou-se até a escrivaninha lotada de papéis, extremamente bagunçada; ao contrário da de seu genitor que era sempre organizada e limpa, correndo com os dedos pelas folhas soltas como se procurasse por algo específico. Em meio àquela desordem um envelope velho e amassado de cor já amarelada chamou-lhe a atenção, obrigando-lhe a abri-lo cuidadosamente para revelar uma carta nele contida. O destinatário era Hans Stracci, e isso por si só atiçou seu interesse. Percorreu-a com os olhos antes de realmente focar no conteúdo e seu peito apertou ao encontrar no canto da folha a assinatura do remetente.
Vincenzo Caccini.
Tudo ficou ainda mais estranho. Quer dizer, eles aparentemente se odiavam muito, e sendo assim, não via sentido no fato de trocarem cartas. Apressou-se em sanar a própria curiosidade e iniciou leitura, gradativamente se afundando em mais e mais dúvidas. O conteúdo era o total oposto do que ela esperava.
"Eu não sei nem como começar a te dizer isso, Hans. Por anos eu te considerei meu irmão, por anos você me chamava assim, e nós dois tínhamos a sensação de que conquistaríamos o mundo juntos. Eu te achava um homem por quem valia a pena morrer, tinha certeza de que você seria aquele tipo de pessoa que faria qualquer pessoa ajoelhar aos seus pés, e eu estava certo, mas eu não esperava que quando você chegasse ao trono faria com que seus irmãos se ajoelhassem também. Você sabe de quem eu estou falando, de nós cinco, os seus verdadeiros irmãos, que não tinham o seu sangue, mas que dariam a vida por você. Eu te perdoei quando você entregou a Martina para os nossos inimigos querendo prevenir uma guerra, ela foi o meu primeiro amor, a mulher com quem eu tive o meu primeiro filho, mas tudo bem, eu entendi o meu erro e sabia que pagaria caro, sabia que a morte dela acabaria chegando mais cedo ou mais tarde, e então eu me preparei para isso..."
— Como assim? O papai matou a namorada dele? — Sussurrou incrédula; as mãos suaram frio, os batimentos descompassaram e o medo dominou no instante que criou coragem para seguir.
"... mas eu nunca me preparei para a morte do meu filho mais velho, você nunca me deu tempo para me despedir dele antes de fazê-lo ajoelhar bem na minha frente e puxar o gatilho pessoalmente. Isso eu nunca vou ser capaz de perdoar..."
E ela fraquejou, soltou a carta e a deixou flutuar pelo ar até cair ao chão; seu senso de julgamento foi atrapalhado pela respiração pesada e emoções tumultuadas, contudo manteve a compostura e procurou algum documento que comprovasse a veracidade da carta. Não conseguia acreditar em algo assim. Era inadmissível que seu pai, um homem que sempre colocava a família acima de tudo pudesse ter matado os entes queridos de alguém que considerava um "irmão", certo? Não, definitivamente não era possível. Seu pai não era esse tipo de pessoa.
Ou ao menos era nisso que ela gostaria de crer.
Infelizmente a papelada acima da mesa dizia o completo oposto. Algumas folhas grampeadas à fotografias contavam toda a história por trás dos assassinatos citados; uma delas continha a imagem de seu pai ao lado de Vincenzo, Alice e uma mulher desconhecida muito bonita, com longos cachos escuros e olhos cor-de-mel. Estavam tão jovens, sentados no capô de um carro, fumando e sorrindo juntos como se fossem melhores amigos. Bem no canto tinha a marcação de uma data que entregava a data em que a foto havia sido tirada, e era exatamente no aniversário de trinta anos de Hans. Pareciam tão felizes, tão amigos que era inimaginável pensar nos acontecimentos mais recentes e relacioná-los às pessoas ali retratadas.
Aprofundando-se um pouco mais em sua procura, deparou-se com dois retratos que a fizeram perder as forças nas mãos, soltando tudo o que segurava rapidamente e tampando os lábios; agradecendo aos céus por não ter jantado antes disso. Definitivamente colocaria tudo para fora sem hesitar.
Em uma delas, aquela moça tão vívida de cabelos cacheados estava cortada em pedacinhos, o corpo totalmente triturado e apenas parte da cabeça ainda inteira, jogada ao soalho como se não fosse nada; como se houvesse cometido um pecado imperdoável. Na outra, um garoto bem jovem, talvez em seus treze ou quatorze anos, os lábios completamente ressecados e pálidos, manchados apenas pelas gotas vermelhas de seu sangue espirrado do buraco feito em sua cabeça. Aquilo comprovava a veracidade dos fatos escritos na carta.
Seu pai realmente havia tornado a vida de Vincenzo um inferno.
Descobrir isso foi dolorido, contudo nada a abalava mais do que recordar-se de que há alguns instantes, o mesmo indivíduo causador dessa bagunça lhe tinha prometido com todas as palavras jamais mentir outra vez porque gostaria de se tornar alguém em quem ela pudesse confiar cegamente; mas depois disso, como poderia entregar sua confiança à quem lhe fizera acreditar em uma grande e absurda mentira durante tanto tempo? Sentia-se traída, miserável por ter sido estúpida a ponto de cair na lábia dele, e especialmente assustada por ter quase contado sobre a aproximação de Luca. Ele e Vincenzo possuíam o mesmo sobrenome, afinal, e caso houvesse aberto o bico, esse rapaz com certeza acabaria morto também.
Tomada por uma onda de fúria, ela pegou a carta em mãos e destrancou a porta, passando diretamente por Diego e descendo as escadas com passos pesados, saindo bruscamente da casa e deparando-se com Hans tão calmamente tragando um charuto enquanto observava a penumbra da noite. Com os olhos marejados, colocou-se à frente dele e fitou-o diretamente por alguns instantes, forçando a carta contra o seu peito antes de dirigir-se até Evan e segurar suavemente a sua mão para suplicar em tom melancólico e baixo:
— Me tira daqui, por favor. Pra qualquer lugar, eu só quero sair daqui.
Parecia devastada, a aflição estampada em seu rosto e os membros trêmulos entregavam seu estado emocional. Ele obviamente percebeu e prontificou-se a entrelaçar seus dedos nos dela após assentir com a cabeça, ignorando o olhar de fúria que lhe fora direcionado pelos anfitriões ao fazê-la correr consigo até sua moto estacionada no final do quarteirão. Não a questionaria, não pediria explicações. Ouvi-la pedir ajuda já era o suficiente para obedecer sem contestar.
— Coloca isso rápido. — Entregou um capacete, cobrindo-a com sua jaqueta de couro e apressando-se em acomodá-la atrás de si. — Segura com força pra não cair. — Disse firme, aguardando até que ela colocasse os braços ao redor de sua cintura para dar a partida e levá-la dali sem olhar para trás.
— Bambina! — Hans vociferou desnorteado, cerrando o punho ao perceber que sua queridinha descobrira sobre tudo. Quando seu conselheiro avizinhou-se, encarou-o com o cenho franzido; a veia da testa marcada pela raiva, incrédulo com seu descuido ao guardar os documentos. — Nós dois vamos ter uma conversa mais tarde. Agora preciso ir atrás da minha menina. — Bufou entre dentes, passando a mão dentre os cabelos em preocupação. — Não acredito que ela fugiu assim no meio de uma guerra declarada.
— Encontrei isso no escritório do tio. — Diego interrompeu, acercando-se com o celular da garota em mãos; a mensagem causadora de toda a discórdia estampada na tela. — Vocês precisam ver isso. — Entregou-o ao seu chefe, com o conteúdo aberto na intenção de que ele o averiguasse.
— Algum dos Romano deve ter descoberto o número da minha filha. Esses cretinos... — apertou o aparelho com raiva, recobrando a compostura em um mísero segundo, no intuito de resolver a situação antes que fosse muito tarde. Jamais se perdoaria caso a pessoa mais importante em sua vida acabasse se machucando por estar com raiva dele. — Sandro, notifique os nossos contatos dos quatro cantos da cidade e peça que encontrem a bambina. Não me interessam os meios que vão usar para isso, mas eu quero a localização dela agora. — Ordenou friamente.
— Não precisa, padrinho. Eu já rastreei o celular do cara que tá com ela. — O mais novo interveio hesitante. Respirou fundo e seguiu: — Mas posso ir sozinho atrás deles? Ela ficou irritada e acho que a última coisa que vai deixar ela confortável agora é ter um bando de guarda-costas arrastando ela de volta. — Requisitou sem graça, nunca havia se sentido tão desconfortável. Começava a se preocupar com o fato de ter se apegado mais do que gostaria àquela moça, obviamente de uma forma não romântica. — Estou pedindo um favor como seu afilhado. — Completou, ciente do peso de suas palavras. Não sabia o motivo de incomodar-se tanto com o bem-estar dela, porém uma parte de si já estava consumida a ponto de começar a enxergá-la como alguém indispensável; talvez uma irmã carinhosa que sempre desejou e nunca pôde ter.
— Você não é tão bem treinado quanto os outros, criança. — Retrucou, jogando o charuto no chão e cruzando os braços, encarando-o intrigado. Não conhecia aquele lado emocional dele, e de certa forma isso o balançava um pouco. — Mas tudo bem. Saia logo daqui, não gosto de saber que a minha menina está sozinha. Vou mandar alguns homens mais experientes atrás de você e pedir que fiquem bem longe, só por precaução. — Completou, aceitando o pedido à contragosto.
— Grazie pelo voto de confiança, padrinho. — Beijou-lhe a mão e pediu bênção antes de correr até sua moto também. Tinha noção de que não chegaria a tempo de carro, portanto foi necessário reviver um velho costume há tempos não exercido.
Colocou a chave na ignição e deu uma olhada na localização dos alvos, prevendo o destino final do trajeto que fariam. Não demorou muito para encontrá-los no trânsito; ao contrário deles, não se importava em ultrapassar a velocidade máxima porque não existia ninguém em sua garupa. Manteve distância e continuou a segui-los até a praia, aonde os dois adolescentes estacionaram e desceram juntos enquanto ele os observava de longe.
Pan saiu em disparada querendo sentir a areia nos pés descalços. Havia ficado tão preocupada com a amiga mais cedo que nem ao menos se lembrara de colocar sapatos antes de sair.
Seu acompanhante abriu o baú do veículo e pegou um cobertor, copiando-a ao deixar os pés desprotegidos, guardando os calçados no espaço vazio que ficara ali. Acercou-se dela ao vê-la sentada na beira do mar e a permitiu imergir nos próprios pensamentos, simplesmente cobrindo-a para prevenir um resfriado com a brisa noturna e sentando-se ao seu lado em silêncio.
— Obrigada. — Ela sussurrou, apoiando a cabeça em seu ombro e compartilhando parte da manta. O som das ondas se quebrando abafaram sua voz, contudo o colega a ouvira perfeitamente. — Por me afastar de toda a bagunça, eu digo. Pode ter sido um drama desnecessário meu, mas eu não conseguia encarar o papai depois do que eu vi. Eu fiquei com tanto nojo, eu só...
— Não precisa se explicar pra mim, ruivinha. — Colocou um dos braços ao redor dela, puxando-a para si e envolvendo seu corpo em um abraço, sinalizando que não era necessário falar mais nada. Embora ela provavelmente sentisse que devia alguma explicação pelo ocorrido, ele não pensava assim; não via necessidade em forçá-la a se abrir sobre algo tão delicado. — Eu sou seu amigo. Independente do que aconteceu ou do que você viu lá dentro, eu vou te ajudar e não precisa me dar satisfação sobre o motivo que te fez sair correndo de lá.
— Que estranho. — Riu, afastando-se alguns centímetros para arrumar os cabelos que cobriam-lhe o rosto graças à ventania. O rapaz arqueou as sobrancelhas e observou-a com curiosidade, elevando o queixo como se pedisse por uma explicação sobre as palavras ditas. — Não é nada. — Voltou a sorrir; um sorrisinho bobo e descontraído que por um instante a fez esquecer dos problemas. — É só que você não parece mais a mesma pessoa de antes. — Terminou despreocupada, deitando-se na areia com a nuca em seu colo; perdendo o olhar nas estrelas que, somadas ao som revigorante do oceano, a acalmavam.
— Você também não. — Curvou os cantos dos lábios, ousando acariciar aqueles cabelos escarlate. — Uma parte de mim vai sempre sentir falta da sem noção que você era, mas a outra fica aliviada de saber que não preciso mais me preocupar com uma certa criança aceitando ajuda de estranhos na rua. — Tocou levemente sua testa na intenção de provocá-la, rindo ao escutá-la reclamar.
— Por que você era assim? — Perguntou intrigada, desviando o foco até a face dele. — Sabe, tipo, agressivo, invasivo, querendo arrumar briga o tempo todo. Principalmente com o Hec.
— Porque eu me sentia um pouco ameaçado. — Admitiu sem titubear, inclinando as costas e colocando as mãos na areia, atrás do corpo. — Ele morava com você, ficava do seu lado o dia todo, já tinha a confiança da sua família, era mais velho e ainda por cima vocês dois tinham uma ligação de sei lá quantos anos. E me dói admitir, mas a Isis estava certa quando falou que ele era o tipo de cara misterioso e chamativo que as meninas gostam. — Suspirou decepcionado, engolindo seco ao prosseguir: — Ele tinha um trabalho legal e provavelmente um salário que poderia comprar pelo menos uns duzentos hospitais iguais ao da minha família, e eu era só o cara que te tratou mal no primeiro dia de aula e ficava forçando intimidade com a esperança de que você fosse retribuir o que eu sentia em algum momento. Não era uma disputa justa.
— Como assim "disputa justa"?
— Ah, ruivinha. — Estalou a língua, negando com a cabeça. — Não vem com essa. — Ajeitou a postura outra vez, batendo as palmas uma na outra para retirar o excesso de sujeira acumulada. Abaixou o pescoço e fitou-a diretamente nos olhos antes de rumorejar: — Sempre fui sincero quanto aos meus sentimentos por você, então não adianta fingir que não sabia.
— Pensei que fosse brincadeira. Todo mundo vivia comentando sobre o quanto você gostava de sair com várias mulheres, aí eu achei que fosse só mais uma na lista.
— De novo com esse negócio? Nem sei de onde eles tiraram esse boato. — Bufou cansado, tocando a própria testa como símbolo de decepção. — É verdade que eu já fiquei com algumas meninas no passado, mas sempre deixei bem claro que não queria nada sério e todas elas concordaram. Se eu nunca te falei nada foi porque eu queria mesmo te conquistar do começo ao fim. — Aqui sua entonação ficou séria, esbanjando sua convicção e sinceridade.
Ela desviou o olhar um tanto sem jeito, ponderando a declaração feita.
— Evan, eu... — iniciou resposta, porém antes mesmo de finalizar, seu estômago grunhiu alto e a interrompeu, causando uma risada coletiva e quebrando totalmente o clima. — Desculpa, é que a gente fugiu do jantar e agora eu fiquei com fome. — Sentou-se apressada, abraçando timidamente os joelhos.
— Vem comigo. — Estendeu sua mão, a auxiliando a se levantar. — Vou te levar pra comer em um lugar que você vai gostar bastante. — Concluiu, acomodando nela o capacete.
— Aonde?
— Calma, curiosa. Você vai ver. — Pegou os sapatos que havia retirado anteriormente e ajoelhou-se na frente da garota, sinalizando que levantasse os pés. — Vai ficar um pouco grande mas é melhor do que se machucar no asfalto.
— Você vai pilotar descalço? — Questionou preocupada, percebendo-o dar de ombros e acomodar-se, colocando a chave na ignição e gesticulando que subisse na garupa. Obedeceu sem contestar e o abraçou com força por trás, permitindo-lhe seguir trajeto.
Pan não havia notado até aquele instante o quanto a colônia dele era agradável, ou então o quão eram longos os seus cabelos castanhos que chegavam até pouco abaixo dos ombros largos; eles sempre ficavam presos no dia-a-dia, mas ali estavam sendo brutalmente bagunçados pelo vento. Evan possuía muitos pontos fortes. Decerto fosse verdade que qualquer outra mulher se sentiria muito sortuda por estar em seu lugar, especialmente após sua mudança drástica nos últimos meses que o fizera desistir da arrogância. Quer dizer, ele declarara abertamente seus sentimentos, então deveria dar-lhe uma chance e tentar seguir em frente? Estava bem claro que Hector provavelmente não retornaria, e por mais que seu coração seguisse acelerando apenas por ouvir seu nome, era definitivo que sua família não poderia aceitá-lo de volta.
Caso fosse capaz de se apaixonar por Evan as coisas seriam fáceis e viveria sem preocupações, acompanhada de alguém sem índices criminais. Seu pai não precisaria se incomodar com sua segurança; finalmente quebraria todo e qualquer vínculo com aquele mundo no segundo que Hans Stracci renunciasse ao posto e ela se envolvesse romanticamente com o rapaz em questão. Mas era a coisa certa a se fazer? Deveria seguir a razão ou a emoção? Eram tantos problemas surgindo um atrás do outro que mal conseguia raciocinar direito.
— Ruivinha, eu já estacionei. — A voz dele fez-se audível, quebrando sua concentração e trazendo-a de volta à realidade. — Tá vidrada na paisagem? — Indagou, enquanto tinha o torso minimamente virado e um dos cotovelos apoiados no guidão, aguardando-a descer.
— Ah, desculpa. — Saltou levemente do veículo para tocar os pés no chão, quase tropeçando nos sapatos alguns números maiores do que os seus. Quando se deu conta de onde se encontravam, fora inevitável curvar a boca alegremente. — Aqui é o lugar que eu tô pensando que é? — Perguntou animada, aproximando-se da barraca para tirar a dúvida.
— É sim. O lugar que o Chris comprou seu hot dog de rua. — Comentou acanhado; sua atitude tão cheia de si havia mudado drasticamente e o tom de sua fala abaixara-se ao colocar as mãos no bolso para continuar: — prometi que te contaria aonde era quando a gente se encontrou aquele dia, mas preferi te trazer pessoalmente. Se não estiver com vontade de fast-food eu posso te levar em um lugar mais caro e refinado.
— Não, aqui tá perfeito. Obrigada. — Alegou contente, esboçando um sorriso radiante ao fazer seu pedido.
E assim, ele se perdeu completamente naquela expressão satisfeita da garota, sentindo o coração acelerar ao vê-la se lambuzar com o molho de mostarda; as bochechas sujas e o contraste com os sapatos ridiculamente grandes a representavam perfeitamente. Pan Stracci era uma grande bagunça. Desajeitada, incompreensível, imprevisível e ainda assim muito intrigante, tornando impossível que desviasse o olhar, especialmente após ter aceitado abertamente seus sentimentos por ela.
— Agora você quem tá vidrado. — Estalou os dedos em frente ao seu rosto, despertando-o do transe momentâneo.
— Lógico, você tá fazendo tanta sujeira que eu não consigo ficar em paz. — Deu uma risadinha ladina, alcançando alguns guardanapos na intenção de limpá-la. — Fica quietinha. — Diminuiu a distância entre eles e começou a esfregar suavemente sua face com o papel, fazendo questão de apertar carinhosamente sua bochecha e provocá-la ao se afastar.
A noite fora longa e divertida, precisamente necessária para que Pan se acalmasse e reorganizasse as ideias antes de voltar para casa e decidir conversar civilizadamente com seu pai, se possível. Diego os escoltou e adentrou a residência de seu tio para dar-lhes privacidade, não querendo intervir na despedida.
O acompanhante dela obviamente desceu e a levou até a porta, aguardando-a destrancá-la para garantir que nada aconteceria. Ela timidamente agradeceu a hospitalidade e devolveu seus pertences.
— Obrigada por hoje, Evan. — Murmurou em timbre sereno, esfregando os braços na intenção de amenizar o efeito congelante do zéfiro da madrugada. O garoto rapidamente se deu conta do clima gélido e a envolveu em seu agasalho novamente. — O que foi? — Inquiriu confusa.
— Amanhã você me devolve, quando eu vier te buscar pro nosso encontro. — Ofereceu, surpreendendo-se positivamente ao notá-la assentindo e, automaticamente, concordando com a sugestão de terem um verdadeiro encontro no dia seguinte. — Posso te buscar de moto mesmo? Não ficou com medo?
— Não, eu me diverti bastante. — Negou suavemente com a cabeça, sem esconder o semblante aliviado. — Isso de hoje não foi um encontro? Pensei que tivesse sido.
— Depende. — Tocou-lhe o queixo, levantando-o suavemente para obrigá-la a fazer contato visual direto. — Se foi divertido pra você, então eu posso pensar em considerar esse como o nosso primeiro encontro.
— Se esse foi o nosso primeiro encontro, é agora que você faz igual os mocinhos dos filmes e me beija pra dizer boa noite?
Ele riu; demonstrou um sorriso malicioso e deu um passo para frente.
— Alguns dias atrás eu faria isso, te beijaria agora mesmo sem hesitar, mas... — recuou aquele mesmo passo, deixando de tocá-la — eu decidi parar de brincar, ruivinha. Fui sincero sobre os meus sentimentos, e eu sei que se te beijar agora você não vai recusar mesmo que não sinta o mesmo que eu. Você é o tipo de pessoa idiota que faz qualquer coisa pra não magoar um amigo, e provavelmente foi isso que me fez gostar de você. — Suspirou exausto, tentando colocar os pensamentos no lugar. — É por isso que eu não posso. Se você algum dia decidir que gosta de mim e quer tentar algo mais sério, aí eu não vou hesitar, mas até lá é melhor a gente não confundir as coisas.
Antes que uma resposta pudesse surgir, ambos foram surpreendidos pelo ranger da porta se abrindo, porém ela simplesmente travou, sendo dominada por uma onda gélida e desagradável ao escutar o burburinho de uma voz muito familiar.
— Bambina? — Exprimiu admirado; o timbre rouco soara até mesmo arrependido, como se estivesse escondendo algo, ou na realidade, como se fosse um meliante pego no flagra pela última pessoa que ele esperava encontrar ali justamente naquele instante.
Pan respirou fundo e decidiu encará-lo sem causar uma cena, contudo suas pernas perderam a força, os batimentos se descompassaram e sua consciência ficara turva no instante que seus olhos encontraram-se com os do homem ao lado de seu pai; aquele olhar dissimulado e traiçoeiro que conhecia perfeitamente e causava-lhe arrepios da cabeça aos pés. Piscou exageradamente sem acreditar na própria visão, instintivamente escondendo-se atrás de Evan, lutando para manter a compostura, embora suas mãos estivessem trêmulas, suando frio, e a respiração gradativamente tornando-se mais e mais pesada. Esforçou-se em dizer alguma coisa, mas estava completamente paralisada pela somatória do frio e do choque de encontrar-se com um sujeito que jurava ter morrido bem à sua frente. Era inimaginável.
Engoliu seco com muito empenho, apertou o braço do rapaz para criar coragem e percebeu que não estava sozinha. Inspirou profundamente outra vez, repetidamente se obrigando na imaginação a reagir antes de conseguir balbuciar em um tom fraco e cheio de temores:
— Vincenzo?
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