Notas iniciais
Gente KKKKKKKKKK acho que acabei me empolgando nessa capítulo. Eu organizei as cenas que precisariam aparecer, mas não tinha noção de que ficaria tão grande assim. Espero que isso não seja um problema ♥ Eu só revisei uma vez, então podem me falar se encontrarem algum errinho. Boa leiturinha ♥ espero que gostem!!

As luzes que lhe invadiam os globos oculares, mesmo cobertos pelas pálpebras pesadas, fizeram com que Pan recobrasse a consciência pouco a pouco, sentindo sua cabeça latejar com uma dor insuportável, do tipo que a obrigava a fazer caretas no intuito de tentar amenizar aquele incômodo. Gradativamente suas pupilas se acostumavam à iluminação, permitindo que abrisse os olhos com dificuldade. Deparou-se com um gesso branco no teto que, somado ao aroma de látex, antisséptico e outras coisas mais, lhe faziam perceber que estava em um hospital. Não estranhou, no entanto. Aparentemente era o local que mais frequentava nos últimos tempos.

Tentou apoiar as mãos ao lado do corpo para servirem-lhe de apoio ao levantar, enfiando os dedos naqueles panos que separavam-na do colchão duro da maca. Os ouvidos a faziam suportar um zunido irritante, quase como se tivesse acabado de sair de uma festa ou um show barulhento. Já havia perdido a noção do tempo. Não tinha certeza se estava ali por algumas horas, alguns minutos, ou até mesmo por dias, mas percebera que era noite do lado de fora. Poderia ser a noite de seu desmaio ou a noite seguinte. Poderia ser até mesmo a noite depois daquela. Era impossível saber por enquanto.

A visão turva e a mente bagunçada lhe pregavam peças. Fitou por alguns instantes a figura sentada em uma cadeira ao lado da porta de seu quarto, reconhecendo perfeitamente a marca daqueles ternos caríssimos e os sapatos sociais pretos. Apenas dois ou três homens de seu círculo de conhecidos tinham condições de utilizar algo assim, então naturalmente pensaria que a pessoa abancada ali, de braços cruzados e cabeça baixa coberta por um chapéu, seria a pessoa que ela queria ver. Era mais uma esperança do que um achismo.

— Hec? — Sua voz manhosa e cansada ecoou pelo cômodo com certo sofrimento, despertando o sujeito de seu leve descanso.

— Perdão, gatinha. — No instante que o viu levantar o rosto para encará-la corretamente, sentiu-se desapontada. Não era quem estava esperando, afinal. — Eu não sou seu príncipe encantado. — Respondeu ironicamente, sem parecer desdenhoso, dirigindo-se até ela para passar as mãos em seus cabelos emaranhados e colocá-los atrás das orelhas, auxiliando-a a se tornar mais apresentável. Tinha algum remorso em seu olhar, decerto se arrependia por ajudar o amigo a quebrá-la daquela forma.

— O Hec nunca foi um príncipe. — Suspirou, esboçando um sorriso exausto e distante. — Eu sempre vi ele como um soldado. Um daqueles soldados de armadura que por fora parecem durões e inalcançáveis, vivem nas sombras do rei, mas são muito mais do que a própria posição ou as ordens que segue. — Acrescentou, permitindo-se perder nos próprios pensamentos ao relembrar-se da figura em questão. O aperto em seu peito fora inevitável.

— E mesmo assim se interessou por ele? — Arqueou as sobrancelhas galanteadoramente, de maneira até mesmo um tanto exagerada, como se estivesse contracenando. — Parece que a princesa tem olhos para os plebeus, então? — Brincou ainda mais, beijando-a nas mãos para seguir com o teatro. Ela apenas forçou uma risada abafada.

— Diego? — Chamou acanhada, mudando completamente a atmosfera e fazendo-o cessar o espetáculo para fitá-la. Ele já havia percebido a transformação no semblante da garota há alguns dias, porém após o ocorrido, finalmente assimilara as coisas. Ela estava miserável; seu interior passava por uma transformação impossível de controlar, e aquilo a consumia gradativamente, de dentro para fora. Os olhos já não tinham mais aquela jovialidade e inocência. Sua pureza estava se perdendo, fazendo-a afundar desenfreadamente, afogada nos próprios sentimentos. — O que aconteceu comigo? Por que eu vim parar no hospital? — Questionou entristecida em um timbre fraco e arrastado, vendo-o suspirar antes de pedir espaço e acomodar-se ao seu lado.

— Você desmaiou depois de um ataque de pânico, mas na hora da queda bateu a cabeça muito forte e teve uma concussão leve. — Explicou sem titubear. Parte de si queria muito perguntar se era a sua primeira experiência com esse tipo de acontecimento, porém a falta de surpresa em seu rosto falava por si. Aquela garota definitivamente já sofrera muito com isso, e não seria delicado continuar a tocar no assunto.

— Eu fiquei aqui muito tempo?

— Não, só um dia. — Retrucou, porém não parecia ter sanado todas as dúvidas deixadas no ar, portanto suspirou outra vez e acrescentou: — Seus amigos ficaram preocupados, mas o padrinho não deixou que nenhum deles te visitasse. Ele deve estar no andar de baixo, fumando enquanto reza pra você acordar.

— Você vai chamar ele agora que eu acordei, não vai? — Rumorejou quebrando contato visual, mordiscando os lábios para esconder o nervosismo. Não tinha muita vontade de encontrar-se com seu pai naquele momento. Na realidade, não sabia se aguentaria começar outra briga com aquele sujeito. Lhe faltavam energias para isso.

— Eu já deveria ter chamado, mas como eu disse, não sou igual ao fantasma. — Ajeitou a postura, encostando o torso no travesseiro e esboçando uma curva marota nos lábios antes de completar: — Ou seja, eu não sou o cachorrinho leal do padrinho. Eu fico feliz em poder ter uma participação nos negócios, mas isso não quer dizer que ele possa ficar me controlando o tempo todo.

Pan sorriu com sinceridade pela primeira vez aquela noite, aproximando-se dele para apoiar a cabeça em seu ombro com ternura.

— E o que você faz? Mata pessoas também? — Inquiriu sem afastar o corpo. Achava estranho o quanto agora seu coração permanecia tranquilo quando citava as atrocidades cometidas por sua família. Será que estava realmente começando a achar aquilo normal? Era frustrante pensar que sim, porém infelizmente era esse o caso.

— Não acho que esse seja o tipo de coisa que se fale fora de casa, mas sim, eu já matei. — Admitiu, sem pesar algum em seu tom. — Confesso que essas coisas já não são mais impressionantes pra mim, mas esse não é o meu trabalho também.

— Como assim?

— Eu sou bom com tecnologia, só isso. Acho que você já sabe que eu fiz alguns anos de faculdade relacionada à isso antes de me envolver com o padrinho. — Disse, e ela assentiu, dando-lhe a deixa para seguir: — Eu basicamente faço a função do controle de carregamentos e ajudo na lavagem de dinheiro, mas já me pediram pra acessar arquivos da polícia ou rastrear mercadorias de famílias rivais.

— Entendi. — Murmurou, encarando as paredes com um vazio existencial em seu coração. Ouvir tão abertamente sobre as coisas que aconteciam ao seu redor traziam um certo desconforto, mas o que mais incomodava era o fato de não dar a mesma importância de antigamente. Decerto estivesse realmente se corrompendo, apesar de tudo.

Um silêncio constrangedor e desagradável dominou o ambiente enquanto ela permitia-se imergir nos próprios devaneios. Todos os acontecimentos mais recentes eram desgastantes, o que a faziam sentir-se sufocada. O ocorrido com Vincenzo, a perda de Hector, a mudança súbita no comportamento de seu pai ao aprofundá-la mais no universo da família, os amigos descobrindo seu segredo e ainda por cima as sensações embaralhadas que a morte de Ethan lhe trazia. Tudo era tão confuso, tão novo, que vez ou outra necessitava de um segundo para respirar e colocar as ideias no lugar. Era como se estivesse perdendo sua essência ultimamente.

— Sabe, você não é uma pessoa ruim por ter ficado feliz quando descobriu que um cara que tentou abusar de você morreu. — Diego quebrou o silêncio em uma entonação séria e direta, causando-lhe arrepios desagradáveis que a fizeram sobressaltar com o susto de ouvir aquelas palavras tão abertamente. Como ele sequer sabia sobre suas emoções em relação à Ethan? Será que havia dado algum indício? Ou pior, será que com a notícia, sua felicidade transbordara tanto a ponto de acabar se deixando abrir um sorriso involuntário? Envergonhada de si mesma, apenas recuou e enrijeceu os ombros, fazendo contato visual sem coragem de abrir os lábios para retrucar. Algo em seu âmago ainda lhe dava leves pontadas de remorso por isso. — Antes eu me sentia culpado também, eu me achava um idiota. — Continuou, em uma tentativa de acalmá-la. — Mas eu aprendi do pior jeito que existem algumas pessoas que fazem um favor para o mundo se estão abaixo da terra. Você não precisa se sentir culpada por isso. Ele colocou as mãos em você, porra. — Argumentou irritado, embora sem levantar a voz. Não queria que alguém do lado de fora acabasse por ouvir sua conversa. Pensava que, talvez, ela ficaria mais confortável para se abrir caso o assunto fosse confidencial.

— Eu só... — ela iniciou sua resposta, porém com a entonação falha e trêmula, precisou limpar a garganta e respirar fundo antes de continuar: — quando eu ouvi que ele tinha morrido, a minha primeira reação foi de ficar feliz e aliviada por saber que ele não ia mais poder me machucar, ou então machucar a Kate. Era como se alguma coisa dentro de mim tivesse ido embora, como se eu me livrasse de um peso nas costas. A primeira coisa que eu pensei foi "ah, eu não vou mais precisar ficar com medo de entrar sozinha no vestiário, e também não tenho que ir suada para a aula depois dos treinos quando for a última a sair da quadra." — Esfregou os braços na intenção de amenizar os calafrios que as recordações traziam.

— Sinto muito. — Sussurrou enfurecido, abrindo os braços para dar-lhe a opção de ser abraçada caso tivesse vontade. Não demorou muito até que ela cedesse e se jogasse ali.

Diego a observou cautelosamente, percebendo cada pequena mudança em suas expressões. Realmente parecia acabada. Não, na realidade ela estava acabada, e ele sabia perfeitamente disso. O olhar sereno e perdido, as mãos vibrando à medida que empenhava-se em continuar a falar, mesmo que com calma em seu próprio tempo. Ele havia ajudado o amigo a lançar o ultimato, porém já estaria à sete palmos do chão se arrependimento fosse capaz de matar. Nunca era divertido acabar ferindo moças bonitas, e menos ainda se, à contragosto, houvesse criado alguma empatia pela senhorita em questão.

— Mas depois eu fiquei irritada com o papai. — Pan voltou a falar com um nó na faringe, ainda sem afastar-se do rapaz, lutando para não desabar ali mesmo ao prosseguir: — Não foi pelo Ethan, mas por saber que as coisas não vão mudar nunca. Eu não me importava com ele. Se ele tivesse simplesmente morrido sem relação nenhuma com a nossa família, por mais que seja horrível eu falar algo assim, eu juro que não ia me importar. Eu só ia ficar feliz, não ia ficar irritada, mas é um pouco frustrante saber que nada vai mudar, e que sempre que alguma coisa acontecer comigo, alguém vai acabar morrendo, porque o papai só confia no próprio julgamento sem respeitar a minha opinião, e eu vou ter que lidar com isso. Mesmo não escolhendo esse tipo de vida, eu vou ter que dormir com a morte de alguém na minha consciência. Mesmo que o erro seja meu, mesmo que eu comece uma briga agora mesmo com alguém no meio da rua, é a outra pessoa que vai morrer por ter colocado as mãos em mim, e isso me apavora. — Engoliu seco, percebendo que as mãos suavam frio novamente. Voltar às memórias da época em que ficara encarcerada era muito doloroso, porém sempre que parava para pensar no quão cara era a sua liberdade, também imaginava que as coisas poderiam ter continuado como sempre se não tivesse colocado os pés para fora de casa e apenas vivido de acordo com as regras de seu progenitor. Hector ainda estaria ao seu lado, e ela não passaria pela experiência traumática de ter as mãos indesejadas de Ethan tocando seu corpo tão maliciosamente.

— Infelizmente, essa é a sua maldição, gatinha. Você foi destinada a isso a partir do momento que nasceu uma mulher nesse meio, e ainda por cima carregando o nome dos Stracci, que é tão pesado. — Respondeu chateado, desejando com todas as forças ter um cigarro entre os dedos. Era muito difícil conversar sobre assuntos problemáticos sem um copo de álcool ou um cigarro nas mãos, droga. — No seu caso, pra ter algum tipo de opinião aqui, você precisaria no mínimo ter o nível de insanidade da madrinha, e mesmo assim ela ainda não tem influência alguma sem o padrinho do lado. Ela teve sorte de encontrar alguém tão poderoso e compreensivo quanto ele nesse mundo. A maioria não costuma ter essa sorte.

— Eu não considero o meu nascimento nessa família uma maldição. — Alegou, negando com a cabeça. — Eu amo o papai mesmo depois de tudo, mas eu queria que as coisas fossem diferentes.

— Diferentes tipo, "Hans Stracci, o padeiro", ou algo assim? — Comentou em zombaria, achando graça da cena que imaginara em sua cabeça. Definitivamente não era capaz de enxergar aquele homem nesse tipo de profissão.

— Eu não acho que consigo ver o papai todo sorridente acordando cedo pra fazer pães. — Retrucou, também sendo obrigada a rir ao pensar naquilo. — Mas até pouco tempo eu não conseguia te ver trocando a jaqueta de couro por ternos caríssimos, então... — Provocou, finalmente afastando-se de seus braços para verificar sua expressão.

Diego levantou-se com um semblante maroto e fitou-a por um instante.

— Bom, vossa majestade, aparentemente o nosso rei é um homem tradicional, não é mesmo? — Encenou uma vez mais, forçando um sotaque britânico de maneira cômica ao curvar-se como um plebeu que cumprimenta a realeza. Era impossível não rir ao vê-lo tão descaradamente fingindo estar em um filme de época. — Creio eu que as roupas acompanhem o cargo, então seu humilde guarda-costas só pode ser visto assim de agora em diante. — Terminou, sem abrir mão da entonação sarcástica.

Antes que pudessem seguir conversando, o clima amistoso e descontraído fora rapidamente interrompido e cessado no instante que ouviram soar algumas batidas na porta do quarto. Eles entreolharam-se como se houvessem acabado de cometer um crime, e o primeiro instinto de Pan foi o de automaticamente deitar-se e pedir para que Diego não abrisse o bico sobre o fato de ter acordado. Ele simplesmente deu de ombros e colocou uma expressão séria no rosto antes de ser interceptado por quem quer que fosse.

Quando a porta se abriu e o som dos passos do visitante ecoaram pelo cômodo, ela já sabia muito bem o dono daqueles sapatos. Conviver com alguém por muito tempo faz com que seja fácil acostumar-se com todo e qualquer costume ou mania do indivíduo em questão, e nesse caso, podia reconhecê-lo até mesmo pelo soar do atrito de seus calçados ao baterem no piso.

— Como ela está? — O timbre rouco e imponente dominou a atmosfera, fazendo seu coração prontamente acelerar ansioso. Os dedos logo buscaram pelo travesseiro, apertando-o para amenizar o nervosismo. Diego tomou o seu lado e acenou negativamente com a cabeça, como se dissesse que ainda não havia acordado, embora estivesse ciente de que não conseguiria enganar aquele sujeito, em especial se conseguiam ouvir a respiração pesada da menina. Se estivesse desacordada não respiraria daquele jeito, tão aflito e descompassado. — Entendi. Então ela ainda não levantou. — Comentou decepcionado. Era perceptível o quanto estava miserável com a situação. Seus olhos nunca tiveram muita vida, mas agora pareciam realmente mortos. Vendo-a ali, de costas para ele, recusando-se a admitir que havia despertado por não querer ver o rosto de seu próprio pai o matava por dentro. Imaginava-se que não era possível matar alguém sem alma; até aquele instante. Ele sabia com perfeição que sua filha estava consciente, mas pela primeira vez, respeitaria o espaço dela se assim desejasse. Não seria prudente de sua parte continuar a forçá-la depois de tudo.

— Então eu finalmente descobri a fraqueza do padrinho? Eu poderia vender isso por uma fortuna. — O garoto tentou apaziguar o clima tenso, referindo-se ao fato de ser tão dengoso com sua primogênita querida. Estava amolecendo progressivamente; tornando-se mais fraco e humano. Isso era ruim para os negócios. — Pensei que seria a madrinha, mas aparentemente não é. — Completou, forçando um sorriso fraco enquanto via seu chefe acomodar-se em uma das cadeiras próximas à porta.

— A Alice ser minha fraqueza? — Indagou retoricamente, rindo com frieza, quase como se quisesse debochar daquela frase. — Se tem uma coisa que não combina com aquela mulher é a palavra fraqueza. A Alice é forte, quase uma máquina. Poderiam torturar ela por dias, arrancar um braço ou uma perna, talvez até mesmo usar aquele método rudimentar que ela tanto adora usar com os outros e retirar as suas unhas uma por uma. Eu não piscaria um olho sequer, mesmo que ela aparecesse na minha frente rastejando à beira da morte. — Argumentou impassivelmente. Os batimentos de Pan aceleraram ainda mais, incrédula com o que acabara de ouvir. Até mesmo cogitara levantar-se e começar uma briga, porém hesitou ao ouvi-lo sibilar e ajeitar a postura, cruzando os braços antes de prosseguir: — E não pense que esse tipo de comportamento é por não amar aquela mulher. Eu amo aquela cretina com todas as forças, e é exatamente por isso que eu não faria nada na frente dela. Foi a vida que ela escolheu pra si mesma, e conhecendo ela do jeito que conheço, seria desrespeitoso encará-la com piedade ou empatia nesse tipo de situação. Talvez, para alguém com tanto orgulho, seria ainda mais doloroso do que a própria tortura em si.

O afilhado assentiu compreensivamente, aguardando que ele continuasse, como parecia querer.

— É diferente quando falamos da minha bambina, no entanto. — Retomou sua fala, encarando-a com remorso. — Ela não escolheu essa vida, fui eu quem a coloquei nesse mundo e desgracei todo o seu destino quando a fiz nascer como minha filha. Não foi uma escolha dela fazer parte de tudo isso, e é por esse motivo que eu faço de tudo ao meu alcance para protegê-la, mesmo que pareça um exagero de vez em quando. E se algum dia, depois de viver decentemente, ela quiser entrar nesse negócio por escolha própria, então eu não vou ter o que fazer senão aceitar de cabeça baixa, mas por enquanto eu vou decidir o que é melhor para ela, como um pai que já cometeu muitos erros e está tentando consertar toda a merda que fez. — Terminou, levantando-se lentamente após lançar outro olhar arrependido em direção à jovem ali deitada, na esperança de que fosse lhe responder ou até mesmo desculpá-lo por suas escolhas.

Diego permaneceu calado, aguardando por alguma reação, ciente de que não era o único a pensar sobre isso. Nada mudou, no entanto, a não ser pelo fato de que, depois de ouvi-lo, ela lutava internamente contra si mesma para segurar o choro. Decerto precisasse de espaço ainda mais do que antes, e se continuassem a pressioná-la, acabariam quebrando-lhe outro pedaço. Não era disso que precisavam; de maneira alguma tinham a intenção de sobrecarregá-la enquanto tão fragilizada, portanto apenas deram de ombros e decidiram não insistir mais.

— Você vai embora tão cedo, padrinho? — Questionou, surpreso ao ver aquele sujeito girar a maçaneta esboçando um semblante derrotado. Não tinha motivo para continuar ali se ela ainda não havia encontrado espaço em seu coração para perdoá-lo.

— Eu preciso trabalhar. Sou um homem ocupado. — Proferiu, dando dois leves tapinhas no rosto do afilhado. — A Alice e o Sandro vão subir logo, então você vai poder descansar em breve, criança. — Exprimiu cansado, fechando a porta ao sair.

Demoraram apenas alguns poucos minutos até que Diego fosse dispensado de suas funções pela noite, sendo substituído por seu tio e a mãe da garota. Apesar de simpatizar com a filha do Don e sentir-se culpado por tudo o que causou-lhe ao ajudar o colega, não trocaria seus momentos de curtição para consolá-la. Duas pessoas muito mais confiáveis ficariam ao seu lado, então sua consciência pesava menos ao saber que, provavelmente, acordaria pela manhã em algum hotel caríssimo bancado pela família acompanhado de duas ou mais belas moças. Ao contrário de Hector, ele não tinha sentimentos pela primogênita Stracci, e muito menos passava por sua cabeça desistir da própria vida para ficar ao seu lado e consolá-la até que se sentisse melhor. Era um mulherengo, e isso não mudaria somente porque agora ocupava o antigo cargo daquele sujeito.

Pan, no entanto, não estava tão animada para festas. Não tinha vontade alguma de conversar, nem mesmo com outras pessoas que não fossem o seu pai. Talvez houvesse se permitido abrir o coração para Diego por sentir algum aconchego em suas palavras honestas, já que, afinal, diferente das outras pessoas que a viam como frágil e incompetente, ele a enxergava como uma amiga qualquer. Ainda por cima encontravam-se em uma situação semelhante, pois ambos perderam um amigo precioso em suas vidas.

— Ruivinha? — A voz de Evan fez-se audível do outro lado da porta, em um timbre preocupado e aflito. Parecia estar ofegante também, como se tivesse acabado de completar uma maratona.

Ela sentiu o coração falhar uma batida, ponderando se deveria ou não levantar-se para recebê-lo, porém o desânimo era tamanho a ponto de fazê-la desistir da ideia e ignorá-lo. Para que o jovem não continuasse a incomodar os outros pacientes do andar, Sandro decidiu atender à porta, sem deixá-lo entrar. Empurrou-o com o corpo até o lado de fora e saiu também, cruzando os braços aguardando por uma explicação. Ele trazia consigo um buquê generoso de rosas vermelhas, e na outra mão, duas pelúcias; um coelho e um urso, ciente de que eram coisas pelas quais a amiga tinha muito apreço.

— Precisa de alguma coisa? — O conselheiro soou frio, ainda sem quebrar o contato visual.

— Ah, sim, boa noite, eu sou amigo dela. Queria saber se ela já acordou, ou se está tudo bem. — Apresentou-se acanhado; decerto até mesmo intimidado pela ocasião. Sabia que não era hora de ser invasivo e que a família da colega já tinha muitos problemas para lidar. Não era seu lugar de fala ali. Na verdade, não deveria nem ao menos dar as caras se tivesse um mínimo de noção, entretanto vê-la desmaiar bem à sua frente o preocupara mais do que o esperado. Não era o tipo de cena que poderia ser facilmente esquecida.

— Ela está bem, mas ainda não acordou. — Mentiu impassivelmente, sem titubear. Se sua protegida não queria encontrar-se com ninguém, então ninguém colocaria os pés para dentro daquele quarto, independente do que fizessem ou quantos presentes trouxessem. Absolutamente ninguém incomodaria o descanso de sua queridinha, e esse era o veredito final.

— Acho melhor eu não entrar, então. — Suspirou decepcionado, com os ombros encolhidos.

— Sábia decisão.

— Você poderia pelo menos entregar isso pra ela? — Requisitou esperançoso, estendendo os objetos em direção à Sandro, que apesar de frustrado, sinalizou com o queixo para que os colocasse no chão ao lado do quarto e fosse embora. — Obrigado. — Agradeceu com certo desânimo, antes de sair. Já estava muito tarde, e não seria educado de sua parte continuar a importuná-los.

Logo cedo pela manhã, ao acordar, Pan decidiu voltar para casa e trancafiar-se no quarto acompanhada de seu gatinho, permanecendo ali, quieta, apreciando a chuva pela janela, deitada na cama espalhafatosamente. Sarah tentou averiguar sua sanidade mental ao bater algumas vezes em sua porta ao longo do dia, mas não obteve resposta. Aquele quarto fora aberto em apenas dois momentos: às quatro horas da tarde para permitir que o felino saísse e às duas da manhã, para buscar algum alimento na cozinha sem que fosse incomodada por outro morador da casa. Nem mesmo Sarah, nem mesmo sua mãe, e muito menos seu pai. Ela não tinha vontade de encontrar-se com absolutamente ninguém, e isso continuou assim por uma semana, até que todos começassem a se preocupar verdadeiramente, imaginando que ela poderia voltar ao estado deplorável em que encontrava-se antes de ganhar sua liberdade e viajar para a América.

No oitavo dia, Evan impacientemente aproximou-se de sara com a intenção de receber novas notícias. A amiga estava ao lado de Chris, sentada na lanchonete do colégio enquanto apoiava a cabeça em seu corpo, esboçando uma expressão derrotada ao buscar por conforto nos braços do namorado. Era como se o passado voltasse para atormentá-la outra vez, e temia muito perder sua amiga novamente. Ficar mais de uma semana sem nem ao menos ser capaz de vê-la lhe trazia péssimas lembranças.

— Você precisa me falar alguma coisa, Sarah. Qualquer coisa, de verdade, eu vou enlouquecer se isso continuar assim. — Pediu em uma entonação desesperada, fitando-a como uma súplica. Tinha uma certa fúria em sua voz que ele tentava mascarar com a melancolia. — Ela sumiu por mais de uma semana depois de desmaiar na minha cara e ninguém sabe de nada a não ser você. Por favor. — Insistiu.

— Eu sei que não tá sendo fácil, mas eu também não sei de nada. — Retrucou cabisbaixa, permitindo que os olhos marejados e a garganta cheia de nós falassem por si. — Ela se isolou do mundo outra vez e não quer falar com ninguém. Depois que ela voltou do hospital, ela não saiu do quarto e deixou bem claro que não quer conversar. Nós duas não conversamos desde o dia do desmaio. — Acrescentou, permitindo que o companheiro a abraçasse com mais força. Era reconfortante tê-lo ao seu lado em um momento tão difícil.

— Acho que eu vou ter que ir na casa de vocês, então. — Murmurou frustrado, levantando-se com pressa. Sarah segurou-o pelo pulso antes que se afastasse muito, obrigando-o a encará-la.

— É melhor deixar ela em paz, Evan. Ela precisa de espaço. — Alertou, após acenar negativamente com a cabeça para indicar que não era uma boa ideia visitá-la.

— Deixar ela em paz? É fácil pra você falar, porque você vive com ela, você tem um mínimo de noção de que ela pelo menos não morreu ainda, mas como você acha que eu me sinto? Eu vi ela desmaiar bem na minha frente e depois disso ela some, desaparece por mais de uma semana, ninguém sabe porra nenhuma, ninguém fala porra nenhuma, e você quer que eu simplesmente engula toda a minha preocupação e "deixe ela em paz"? — Ralhou entre dentes, lutando internamente para conter sua raiva e não começar uma briga desnecessária. Chris instantaneamente puxou a garota para si e a envolveu em seus braços novamente, sinalizando que a protegeria. Não estava gostando nada do tom utilizado naquele diálogo. — Da última vez que ela sumiu assim, ela foi sequestrada por um psicopata e vocês falaram que ela estava de castigo. Pela porra de um psicopata, Sarah! — Aqui ele aumentou ainda mais a voz, chamando atenção das pessoas ao redor. Ela chutou-lhe a canela para fazê-lo perceber a cena que estava causando, vendo-o pigarrear e aproximar o rosto do seu antes de prosseguir em sussurro: — Então, sabendo disso, não me pede pra deixar ela em paz, porque eu sei que no meu lugar você também não deixaria. E só pra constar, eu não sou o único que já está começando a ficar de saco cheio com esse monte de segredo de vocês duas e essa porra de máfia. — Concluiu, dando uma forte batida na mesa antes de sair em passos rápidos, deixando-os atordoados e, acima de tudo, apreensivos com a possível besteira que ele poderia fazer.

Algumas horas depois, Sandro, que estava saindo da casa de seu chefe, deparou-se com o garoto em frente à residência, segurando um buquê ainda maior do que o anterior. Já começava a sentir a veia principal de sua testa saltar, demonstrando seu desgosto em precisar lidar com aquele jovem, que não parecia ter compreendido o recado da primeira vez. Os outros homens que estavam de guarda ali já o haviam expulsado, porém ele seguia voltando na esperança de que alguém fosse deixá-lo entrar em algum momento.

— O que você quer, ragazzo? — Indagou desinteressado, acendendo um cigarro entre os dentes ao mesmo tempo que aguardava por uma resposta. — Eu estou com pressa. Sou ocupado e tenho coisas pra fazer, então seja rápido.

— Eu quero ver ela pessoalmente. Quero saber se ela ficou bem, quero saber o que aconteceu. — Manifestou em tom de súplica. O homem à sua frente franziu o cenho e liberou uma baforada da fumaça que saíra de seus pulmões, sem dar-lhe muita atenção. — Eu não vou embora até conseguir isso. — Arriscou, encarando-o como se o desafiasse.

Sandro simplesmente sorriu de forma que esbanjasse escárnio, achando graça daquela atitude.

— É o seguinte, criança. — Iniciou, tragando outra golfada antes de dar dois passos para frente e aproximar-se de seu ouvido para prosseguir: — Você não vai passar dessa merda de porta, isso é um fato. Você não é ninguém aqui, então por que não volta pra casa do papai e espera pacientemente a sua governanta fazer o jantar como o bom menino que você precisa ser? — Concluiu seco, afastando o rosto para fitá-lo com frieza, demonstrando toda a sua seriedade. Quando dizia que não passaria por aquela porta, então era uma verdade absoluta, seja a do hospital ou a da casa.

— Já disse que não vou sair daqui enquanto não me deixar ver ela. — Teimou, lutando para manter a compostura. Estava um pouco intimidado, sim, mas não deixaria transparecer se quisesse ter algum crédito.

— Eu sou um homem razoável, garoto, mas eu não posso dizer o mesmo da pessoa que vai sair dessa casa em alguns segundos. Ele não costuma ser muito tranquilo em dias normais, e não anda de bom humor ultimamente. Apenas volte pra casa e não dê mais dor de cabeça para os seus pais resolverem. — Alertou com as mãos no bolso, ciente do que poderia vir a acontecer.

Evan deu de ombros e continuou a insistir, ignorando os inúmeros avisos de Sandro até o instante em que a porta se abriu novamente, obrigando-o a ficar de cara com Hans, aparentemente mais frio e impiedoso do que em suas recordações. Alguns calafrios percorreram o seu corpo, entretanto engoliu seco para não demonstrar o quão estava nervoso. O pouco brilho que ele antigamente tinha no olhar já não existia, e havia dado lugar à um vazio imerso em escuridão. Trajava um sobretudo preto e discreto que cobria o terno da mesma cor; a camisa branca logo abaixo, além das calças escuras e os sapatos sociais de sempre. Era como se houvesse se preparado para um funeral, e honestamente, com a sua pouca paciência atual, se o jovem à sua frente seguisse irritando-o mais ainda, decerto tal evento não seria uma realidade tão distante.

— O que está acontecendo aqui? — Perguntou ríspido, com toda aquela sua rouquidão imponente usual, encarando o garoto com desdém. A coragem de Evan desaparecera, pressionando-o a encarar o chão, retraído. Hans impacientemente fez contato visual com seu conselheiro, aguardando uma explicação.

— Ele quer se encontrar com a bambina. — Explicou após suspirar exausto, já aguardando por uma cena nada agradável de se assistir. — Disse que não vai sair daqui até conseguir entrar.

— É mesmo? Ele disse isso? — O Don levantou as sobrancelhas com estranheza, quase como se não conseguisse acreditar em tamanha idiotice, avizinhando-se alguns passos de Evan antes de voltar a falar: — Da primeira vez que eu te vi, você estava agindo como um imbecil, bagunçando em frente ao meu quarto no hospital sem respeito algum. Agora você aparece na minha casa e faz a mesma coisa, achando que tem o direito de fazer demandas e desobedecer a palavra dos meus homens. Quem você pensa que é? — Inquiriu arrogante e retoricamente, buscando um cigarro no bolso e colocando-o entre os lábios para acendê-lo com o isqueiro.

— Eu sou amigo dela e agradeceria muito se o senhor me deixasse vê-la. — Requisitou educadamente, fazendo com que Sandro revirasse os olhos com a diferença de tratamento entre ele e seu chefe. O rapaz levantou a cabeça em hesitação, querendo averiguar a face daquele sujeito. Tinha muito interesse em ver o tipo de reação que demonstrava naquele segundo em específico. — Eu sei que ela já foi sequestrada, e sei que é por causa das coisas que vocês fazem que ela acabou assim. Eu não sei direito o que aconteceu, mas não deixam ela nem ao menos se encontrar com os amigos. Vocês não cansam de tornar a vida dela mais difícil do que já é? — Permitiu que todas as palavras entaladas em sua garganta saíssem de uma só vez, cometendo provavelmente um dos maiores erros de sua vida. Não demorou muito para se arrepender disso.

Hans rapidamente sentiu o sangue ferver; a veia central de sua testa e algumas de seu pescoço já estavam realçadas graças à sua feição extremamente irritada. O cigarro fora amassado pelos dentes cerrados, antes de ser cuspido no segundo que buscou por seu revólver no paletó, apontando-o à cabeça do rapaz e liberando a trava quase que instantaneamente. Por sorte, ao ouvir o barulho, Sandro conseguiu alcançar-lhe a mão antes de puxar o gatilho, empurrando-a para o lado e fazendo com que o disparo acertasse o asfalto ao invés do garoto.

— Não vale a pena, meu Don, nós estamos em público. Reconsidere, por favor. — O conselheiro argumentou, quase tornando-se o próximo alvo se não tivesse escolhido as palavras ideais para acrescentar à sua alegação: — Além disso, ele é amigo da bambina. Ela já está em uma situação delicada, então pense nela antes de sujar as mãos com o sangue desse bastardo.

— Eu tenho cara de idiota, Sandro? Eu amoleci tanto assim nesses últimos anos para que qualquer imbecil venha até a minha casa querer exigir alguma coisa aqui? — Rosnou entre dentes, acercando-se uma vez mais do colega da filha, utilizando o cabo de sua arma para acertar-lhe diretamente na nuca com toda a força, fazendo-o desmaiar. — Esses adolescentes de merda acham que podem vir até a minha casa do jeito que querem, fazer o que querem. Disgraziatos. — Praguejou em sua língua nativa, chutando-o no chão sem medir esforços. — Se livrem desse moleque. Levem ele para casa e digam à Valerie que é melhor ela se virar e começar a ensinar-lhe boas maneiras, porque da próxima vez eu não garanto que vai ter alguém ao meu lado para me fazer errar o alvo. — Terminou, dirigindo-se até o carro para seguir rumo à reunião que marcara com Bertolucci. Já estava atrasado por causa da visita inesperada, e como valorizava muito o tempo alheio, isso o frustrava ainda mais.

— Leonardo, Matteo, levem o menino para casa. — Sandro reafirmou a ordem de seu Don, requerendo à alguns dos seguranças da residência que deixassem seus postos para resolver aquilo. — Para os outros que ficarem, as instruções são claras. Ninguém entra ou sai dessa casa sem autorização minha, da senhora, ou do Don. Capisci? — Quis assegurar-se de que todos haviam compreendido, recebendo uma resposta afirmativa em coro. Depois de um longo suspiro cansado, buscou por seu veículo e acomodou-se no banco do motorista, girando a chave na ignição.

Tinha ciência sobre o encontro de Hans com Don Bertolucci, e como fora dispensado dessa obrigação de acompanhá-lo, decidiu resolver alguns assuntos pessoais pendentes. Estacionou em frente à um dos hotéis mais luxuosos da cidades, pertencente à famiglia, batendo com força a porta do carro ao sair; seu semblante irritado. Nem ao menos sabia o motivo de estar se submetendo a algo assim, entretanto já estava no elevador, então era muito tarde para recuar.

Não tinha tempo para encontrar algum funcionário que lhe providenciasse uma chave reserva, então assim que chegou ao quarto que buscava, retirou o revólver do coldre e rosqueou o silenciador no cano, antes de disparar duas vezes na fechadura e abri-la. Empurrou-a com força para invadir o espaço em passos largos, deparando-se com o sobrinho adormecido e completamente nu em meio aos lençóis, rodeado por três mulheres tão desnudas quanto ele. Todos pareciam ter bebido até que perdessem a noção da realidade. A imagem o fazia revirar os olhos. Impaciente, retirou o silenciador e disparou para o teto no intuito de causar um estrondo, acordando-os com o susto. As garotas estavam horrorizadas, velozmente cobrindo os corpos com objetos que encontravam pela frente; fossem lençóis, travesseiros ou até mesmo fantasias de fetiche utilizadas durante a noite anterior. Elas esconderam-se atrás de Diego, que permanecia incrédulo, com os olhos arregalados enquanto fitava assustado o sujeito à sua frente.

— Tio? O que você quer aqui? — Questionou surpreso, levantando-se para vestir alguma coisa e ficar mais apresentável.

Sandro grunhiu e não tardou a dar-lhe um forte tapa na cabeça, obrigando-o a colocar as mãos para cima como se fosse uma rendição.

— "O que você quer aqui?" Isso é jeito de falar comigo, seu incompetente? — Vociferou, agora acertando-o na bochecha esquerda, embora com menos força. — Você tem cinco minutos para vestir alguma coisa e me acompanhar até o carro se não quiser que eu estoure os miolos dessas meninas, uma por uma. — Ameaçou impassivelmente.

Elas encolheram-se ainda mais. Uma delas estava até mesmo prestes a chorar, tão trêmula que poderiam pensar que estava prestes a ter um ataque de pânico. Sandro nunca faria algo assim, obviamente. Eram apenas palavras vazias que serviam para assustá-las, e em especial, para apavorar um pouco seu sobrinho irresponsável. Sabia que o garoto demoraria horas para se arrumar caso não agisse com um pouco mais de frieza, então a cena era necessária, pois estava com pressa. Não seria capaz de machucar civis sem motivo aparente, e muito menos era descontrolado o suficiente para causar um tumulto desnecessário. A porta do hotel e o gesso do teto seriam facilmente consertados e acobertados, já que o estabelecimento pertencia à família, mas os cadáveres das moças lhe dariam trabalho extra, e tudo o que ele menos precisava em um dia cheio como aquele, era de mais problemas para resolver.

— Podem me ligar mais tarde, se quiserem! — Diego lançou uma piscadela galanteadora em direção à elas antes de sair acompanhado pelo tio. Quando acomodou-se no assento do passageiro, sentiu que o motorista não tinha vontade alguma de dialogar, portanto abaixou a cabeça e aguardou até que chegassem ao destino, esperando que, talvez, conseguisse mais informações sobre o motivo daquela visita repentina depois disso. — A casa do padrinho? O que nós vamos fazer aqui? — Indagou assim que estacionaram, arqueando as sobrancelhas em admiração. Sandro não disse nada e somente sinalizou com a cabeça para que o seguisse, sendo prontamente obedecido sem contestação. Quando pararam em frente ao quarto da filha do anfitrião, mais dúvidas surgiram em sua cabeça. Por que havia sido retirado de sua confortável cama para ser arrastado até ali? Não via sentido algum nessa situação toda.

— Eu já estou começando a perder a paciência, Diego. Já faz mais de uma semana desde que essa menina colocou os pés para fora desse quarto. — Cruzou os braços, deixando transparecer sua aflição. Era uma das poucas e raríssimas vezes que o sobrinho presenciara uma atitude tão alterada de sua parte; tão vulnerável e infeliz. — A última pessoa com quem ela sequer cogitou conversar foi você. Eu não sei o motivo. Sinceramente, vocês dois não têm nada em comum, mas a última pessoa foi você, naquela merda de hospital. — Completou, soltando um longo suspiro para acalmar os ânimos.

— Como você sabe que nós dois conversamos aquele dia? — Surpreendeu-se com tal alegação. Imaginava ter sido discreto, entretanto parecia estar enganado.

— Você acha que trabalha para um idiota? Quem entrou naquele quarto antes de mim, moleque estúpido? — Repreendeu-o, novamente acertando-lhe um leve golpe de mão aberta no rosto, fazendo-o bufar.

— O padrinho... — Sussurrou entre dentes.

— Exatamente. — Assentiu, tocando seu ombro. — Seja lá o que você tenha feito, ela se abriu com você, então eu preciso que você tente outra vez. Eu vou sair daqui e descer até o escritório do Don, ficar lá por alguns minutos, algumas horas, não sei. Enfim, veja se consegue fazer alguma coisa, porque isso não pode continuar assim. — Exprimiu em uma entonação de ordem, incentivando-o ao empurrá-lo levemente antes de deixá-lo sozinho.

Diego respirou fundo e bateu suavemente na porta algumas vezes, tentando chamar pelo nome da garota na esperança de que fosse recebê-lo de braços abertos. Sem resposta, no entanto. Já desanimado depois de ter sido tão brutalmente ignorado por, ao menos, vinte minutos, sentou-se no corredor com as costas apoiadas na entrada do quarto. Tentara de tudo, desde piadas até oferecer-lhe comida ou optar por chantagem emocional, citando o quão miserável Sarah estava por vê-la agindo assim, porém nada parecia funcionar.

— Não sei por que fui ajudar o fantasma a fazer isso com você. Me desculpa. — Resmungou arrependido, ouvindo barulhos de passos se aproximando e logo perdendo o apoio de seu torso, quase indo com o corpo de encontro ao chão. A porta havia se aberto, e lá encontrava-se uma Pan Stracci com olheiras enormes, cabelos emaranhados e um cheiro nada agradável, como se não tomasse banho há dias, observando-o com cautela e curiosidade. — Posso entrar? — Arriscou pedir, e ela hesitantemente concordou, trancando a fechadura assim que passara para o lado de dentro.

— O que você quis dizer? — Soou manhosa; sua voz parecia a de uma pessoa que chorara incansavelmente por horas, embora o resto de sua face não tivesse sinal algum disso. Decerto estivesse apenas exausta ou entristecida. Não, definitivamente estava entristecida, era óbvio.

— Fui eu quem ajudei ele a chegar até o menino que ele matou aquele dia. — Admitiu, sentando-se na cama dela e pegando o gatinho nos braços. Já estava mais amável e acostumado com pessoas, muito menos arisco do que costumava ser. Pan arregalou os olhos brevemente e acomodou-se ao seu lado, esperando por uma explicação que não tardou a vir: — Ele apareceu lá sem fazer questão nenhuma de se esconder, sem dar valor nenhum para a própria vida, com uma cara péssima de quem tinha trabalho pela frente. Ele provavelmente não precisava da minha ajuda pra nada, mas eu ofereci mesmo assim. Eu queria que ele tivesse tempo o suficiente para escapar da cidade antes de ser pego, então depois de insistir muito, ele aceitou a minha ajuda.

Os detalhes em seu esclarecimentos eram desnecessários. O desfecho da história era muito bem conhecido por ambas as partes, afinal.

— Mas o que você quis dizer quando falou que ajudou ele a fazer alguma coisa comigo? — Insistiu. De certa forma, sentia que existia algo a mais por trás daquelas palavras. — O que o assassinato do Ethan tem a ver com isso?

Diego suspirou uma vez mais e deu-se por vencido, soltando o felino para fazer contato visual corretamente.

— Ele ganhou o apelido de "fantasma" logo no início da carreira, depois de acobertar o homicídio da filha mais nova de um político. Nesse meio, as pessoas costumam ser conhecidas por alguma característica física marcante, alguma nacionalidade ou por competência, e ele ficou conhecido por ser muito cuidadoso e nunca deixar rastros, então por que ele deixaria um corpo para trás e arriscaria ser preso sem ter um motivo pessoal pra isso? — Indagou retoricamente, vendo-a se aturdir. Já ouvira o apelido de Hector, e embora não conhecesse sua fama no submundo, confiava em Diego. Se era ele quem estava lhe contando, então não tinham dúvidas. Ele não era do tipo que se importava com seus sentimentos, e muito menos tentava mentir sobre os assuntos da família para protegê-la. — Foi proposital, gatinha. Ele provavelmente queria que você começasse a pensar todo tipo de merda sobre ele, ou então queria que você o odiasse. Eu não sei o motivo certo, mas o recado foi diretamente pra você, isso é um fato. — Concluiu, deixando-a ainda mais aflita.

— Eu nunca odiaria o Hec. — Rumorejou melancólica, abraçando as próprias pernas e escondendo o rosto ao apoiar a testa em seus joelhos. — Ele é muito importante pra mim, então se quiser ser odiado, vai ter que fazer muito pior do que matar alguém que me machucou. — Acrescentou, cerrando os punhos com força.

Lembrar-se de que aquele homem já não fazia mais parte de sua vida trazia-lhe uma dor interna insuportável. As memórias construídas ao longo dos anos faziam-na perceber que sua presença era mais importante do que imaginara. Durante seu tempo encarcerada, ele quem a ajudava a suportar as piores situações sem enlouquecer pela perda de sua liberdade. Era Hector quem permanecia ao seu lado mesmo após uma noite cansativa de trabalho quando acordava assustada com pesadelos, acariciando ternamente seus cabelos até que fosse capaz de adormecer outra vez. Ele quem sempre fez-se presente nas madrugadas mais difíceis, acompanhando-a mesmo nos momentos que sua própria família não estava disponível para ajudá-la. Hector fora o seu pilar de apoio durante boa parte de sua vida; na realidade, durante a parte mais infernal de sua vida. Se não fosse por ele, decerto não teria suportado nem ao menos um mês daquela maldita prisão feita por seu pai. Perder toda a sua juventude enquanto na televisão a vida parecia tão divertida era devastador, entretanto, a presença daquele indivíduo tornava tudo minimamente tolerável. Algo nele a fazia querer não desistir.

— Você deu algum nome pra ele? — Diego empenhou-se em quebrar o clima tenso, retirando-a de seus devaneios antes que começasse a chorar.

Pan levantou o rosto no intuito de averiguar o que estava falando, percebendo que tinha o gatinho em suas mãos. Provavelmente referia-se à ele.

— Ainda não. — Respondeu desanimada, deixando cair os ombros em exaustão.

— Eu posso te ajudar, se quiser.

Observar aquele animalzinho fez com que ela se recordasse do dia de seu resgate, quando pela primeira vez, Hector submeteu-se a fazer algo constrangedor como debruçar-se em meio à uma avenida apenas para ajudá-la a capturar um gato de rua. Estava especificamente doce naquele dia, quase como se soubesse sobre a tempestade que viria depois. Foi inevitável que seus olhos começassem a marejar. Respirou fundo para manter a compostura e direcionou o olhar para o felino, esboçando um sorriso tímido entre lágrimas.

— Fantasminha. — Sussurrou, estendendo a mão até que tocasse em seus pelos negros e sedosos para acariciá-lo. — O nome dele vai ser Fantasminha.

Notas finais
aaaaaaaa ela deu o apelidinho provocativo que o Diego usava pra irritar o Hector ao gatinho ♥ fofurinhas. Meu Deus. Tadinha da Pan :( não deve ser fácil ter que aguentar tudo isso, sabendo que a culpada por ter feito o Hector perder tudo é ela. Vamos torcer pra ela melhorar logo~ Beijinhoss~ ♥