Ströme der Seele
26 O feitiço do tempo
Notas iniciais
05/04 — Lago Tensai — Parte Sul da Montanha Huggia
Kurapika observava enquanto o corpo da garota desaparecia por entre a mata. Finalmente sentia que podia respirar aliviado. Os últimos acontecimentos haviam deixado seu corpo esgotado, isso para não mencionar sua mente. Parando para pensar, Kurapika se deu conta que na realidade tudo aquilo havia passado muito depressa, isso se analisarmos de uma perspectiva objetiva onde o tempo não é relativo e sim pré-determinado por uma medição precisa. Porém para eles o tempo havia durado muito mais do que os ínfimos 15 minutos. Para os jovens ali presentes foi como se o tempo quisesse lhes por a prova, desafinando-os a permanecer em uma lenta e agonizante eternidade.
– Será que não deveríamos ir atrás dela? Me parece que ela está bem machucada – comentou Gon tirando Kurapika de seu devaneio .
– Seria o ideal, mas conhecendo ela como eu conheço, te garanto que isso seria suicídio – respondeu Kurapika com certo ar sombrio.
Gon refletia sobre as palavras do amigo, enquanto Killua permanecia à seu lado observando Saito se enrolar em Leório para aquecê-lo. O garoto de cabelos brancos também parecia perdido em seus pensamentos.
– Ei Kurapika, por falar nisso, como vocês se conheceram? – perguntou Gon curioso sobre a garota.
– Bom, foi quando....- o Kuruta deu uma pausa, mudando sua expressão relaxada para uma expressão séria – espera ai, antes eu preciso saber uma coisa. Por que vocês vieram até aqui? Não receberam meu recado? Vocês podiam estar feridos ou até mesmo mortos! Veja o que aconteceu com o Leório! — exclamou ele irritado apontando para o amigo.
– Eu sei mas...- Gon tentou se justificar.
– Não tem “mas” Gon, isso foi muita irresponsabilidade da parte de vocês, achei que a essa altura já estariam mais maduros! Vou ter uma boa conversa com Leório quando ele se recuperar – disse o garoto loiro terminando seu sermão.
– Desculpa Kurapika nós estávamos preocupados com você. – respondeu Gon cabisbaixo
– Eu sei Gon, mas vocês precisam parar de achar que eu sempre preciso de ajuda e tem mais...
– Hey, espera ai! Você não precisa nos tratar assim! Viemos aqui porque somos seus amigos e estávamos preocupados, assim como a Senritsu também está! Então pare de ficar nos censurando e tente sentir o mínimo que seja de gratidão. – interrompeu Killua irritado.
Kurapika observou Killua por um instante. Seu amigo tinha razão, ele havia exagerado em suas colocações, estava sendo ingrato. Porém a idéia de perder novamente as pessoas que amava deixava o jovem Kuruta apavorado. Quando se tratava desses sentimentos, Kurapika perdia a cabeça e se deixava levar.
– Me desculpem, eu apenas fiquei nervoso com a possibilidade de acontecer algo à vocês – admitiu Kurapika enquanto suspirava pesadamente e olhava em direção de Leório. – Vocês são muito importantes para mim. Agradeço por se preocuparem comigo – disse sorrindo amavelmente para ambos.
Killua desviou o rosto diante do gesto do amigo e Gon retribuiu o sorriso com um maior ainda.
– Você não tem que agradecer Kurapika, se fosse qualquer um de nós que estivesse com problemas tenho certeza que você também largaria tudo para nos ajudar! – afirmou Gon com toda certeza.
O comentário de Gon fez com que o jovem Kuruta parasse para pensar. Será que isso era verdade? Ele deixaria seus objetivos de lado em prol dos amigos? Isso já havia acontecido antes quando ambos foram seqüestrados pelo Ryodan, mas nesse caso a situação havia sido provocada por ele mesmo e por isso tinha a obrigação moral de salvá-los. Se fosse outra situação, ele hesitaria?
– Tem razão Gon, eu faria o mesmo – respondeu Kurapika encontrando sua resposta.
Por alguns instantes o silencio se instaurou. Os únicos ruídos que podiam ser ouvidos eram os da lenha estalando enquanto era consumida pelo fogo e o das folhas se remexendo com o soprar do vento. A temperatura estava caindo rapidamente e a claridade do dia começava a se extinguir. Logo escureceria e ficar ao relento não seria a melhor das opções.
– Precisamos achar um lugar fechado para passarmos a noite. Com o Leório nessas condições seria muito perigoso ficarmos ao relento – comentou Killua.
– Você tem razão. Podemos perguntar à Maia se há algum abrigo próximo de onde estamos já que ela conhece bem toda a região – respondeu Kurapika.
– Por falar nisso, você não acha que ela está demorando demais não? – questionou Killua
– Sim, já faz um tempo que ela saiu. Acho que deveríamos ir atrás dela, você não acha Kurapika? – sugeriu Gon.
– Você tem razão – respondeu Kurapika já se levantando – Deixa que eu vou procurá-la enquanto você ficam de olho no Leório. Ela já está acostumada comigo, o estrago será menor do que se ela topar com algum de vocês – explicou ele enquanto caminhava em direção ao ponto onde a garota havia entrado na mata.
Saito que estava envolto à Leório fez menção de acompanhá-lo, porém foi detido pelas palavras do garoto loiro.
– Fique aqui para aquecer meu amigo, por favor Saito. Eu voltarei rápido, prometo – disse ele ao canino.
Saito voltou a posição anterior, envolvendo Leório com seu corpo. Kurapika agradeceu a ele com um sorriso antes de entrar definitivamente na mata. Deduziu que encontraria a garota rapidamente, afinal não havia necessidade de entrar tão profundamente na floresta apenas para colocar algumas peças de roupa. Decidiu andar fazendo propositalmente alguns barulhos, assim a garota saberia que alguém se aproximava e o alertaria caso não quisesse que ele se aproximasse. Kurapika continuou seu caminho em linha reta, porém estava começando a se incomodar com a situação.
Onde será que ela se meteu? – pensou preocupado.
Mais à frente pôde perceber que a mata começava a ficar mais escassa, dando a entender que poderia haver uma espécie de clareira logo à frente. Decidiu avançar nessa direção.
– Maia? – perguntou hesitante.
Não houve resposta. À medida que foi se aproximando, percebeu que havia alguém no local. Ao chegar mais perto se deparou com a silhueta da garota agachada à sua frente, porém virada de costas para ele. Pelo movimento que seu corpo fazia, concluiu que a garota estava tendo dificuldades para respirar.
– Maia, você está bem? – perguntou ao se aproximar mais
Aparentemente a garota havia notado sua presença, porém não respondeu. Talvez porque não quisesse, ou talvez porque não tinha condições para tal. Kurapika chegou bem próximo e colocou uma de suas mãos em seu ombro. A garota rapidamente se desvencilhou do toque, entretanto caiu de frente no chão pelo esforço do ato. Ela estava no seu limite.
Kurapika apressou-se em ajudá-la. A garota já não lutava contra sua ajuda pois já não tinha mais forças para isso. O garoto pegou Maia no colo, retirando-a do chão. Ela estava com suas roupas secas, entretanto seu corpo estava absurdamente gelado. Respirava com muita dificuldade e não tinha forças nem para manter seus olhos abertos. Agilmente, Kurapika refez o caminho de volta para onde se encontravam seus amigos, torcendo para que a fogueira estivesse bem acesa e que houvesse sobrado um pouco de água que Killua havia aquecido. Assim que saiu da mata com a garota inerte em seus braços, ambos os garotos se levantaram para ajudá-lo.
– O que aconteceu com ela? – perguntou Gon aflito.
– Está muito fraca, precisa se aquecer o mais rápido possível – respondeu Kurapika sério
– Vou esquentar mais água – apressou-se Killua indo em direção ao recipiente agora vazio
Droga, vai demorar muito para esquentar essa água gelada! – pensou nervoso.
Kurapika colocou a garota cuidadosamente sobre um cobertor que Gon havia estendido no chão. Saito que antes aquecia Leório foi correndo em direção sua dona. Maia por sua vez estava com os batimentos muito fracos, porém o que mais preocupava era sua respiração. Ela lutava desesperadamente para colocar ar em seus pulmões e ao que parece, estava começando a perder essa batalha.
– Ela está usando o resto da energia que tem para tentar respirar – disse Killua enquanto colocava o recipiente no fogo – Se não encontrarmos alguma maneira de ajudá-la ela vai morrer, ou de exaustão ou por falta de oxigênio.
O cérebro de Kurapika fervilhava mais uma vez. A situação era crítica e ele não sabia como poderia ajudá-la.
– Kurapika! Pelos sintomas ela deve ter algum problema de respiração, isso não parece ser uma parada respiratória ou algo do tipo. Ela nunca mencionou nada à você? Nunca viu ela tomar nenhum tipo de remédio? – perguntou Killua na esperança de que o amigo se lembrasse de algo
– Eu não sei. Ela nunca disse nada. Eu nunca vi ela tomar nada a não ser aqueles chás e...- de repente Kurapika parou.
Como se tudo começasse a fazer sentido, Kurapika se levantou e correu até a bolsa da garota. Passou a remexer seu conteúdo até localizar finalmente o que estava procurando. Pegou a erva que Maia usava todos os dias para fazer seu chá. Por ter passado um bom tempo com ela, estava acostumado a observá-la na preparação da bebida, sabendo exatamente a quantidade necessária em seu preparo. O garoto foi até o recipiente de água e despejou a medida certa de erva dentro da pequena panela.
– O que é isso? – perguntou Gon enquanto tentava ajudar a garota a se acalmar
– Eu pensei que fosse penas uma erva de chá convencional, mas acredito que possa ser um remédio – disse ele encarando o recipiente esperançoso.
Novamente o tempo foi traiçoeiro com nossos amigos, transformando meros segundos em uma longa e torturante espera. Kurapika alternava sua atenção entre o recipiente e a garota estendida no chão. O rosto de Maia era de puro sofrimento e agonia, o que atingiu diretamente o coração do jovem Kuruta. Ele nunca havia imaginado que pudesse sentir tanta dor e medo ao ver a garota naquela situação. Afinal, ela era apenas uma (des)conhecida, não era? Então por que esses sentimentos eram tão fortes? Antes que pudesse pensar mais sobre isso seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho da água fervendo. Rapidamente retirou o recipiente do fogo e levou o conteúdo esverdeado até onde Gon e Maia se encontravam.
– Gon por favor, tente segurá-la sentada – pediu Kurapika após esfriar um pouco o recipiente no chão congelado.
Lentamente foi aproximando o objeto até a boca da garota. Maia não tentou se desvencilhar, na verdade ela parecia nem ter ciência do que acontecia ao seu redor. Vagarosamente foi despejando o conteúdo para evitar que a garota engasgasse. Apesar do esforço, Maia começou a tossir tudo o que lhe foi despejado na boca, piorando ainda mais sua crise.
– Teremos que forçar ela a engolir. Coloque novamente o chá na boca dela que eu iria segurar para que ela não cuspa tudo novamente – disse Killua sério
Apesar de achar esse método agressivo, Kurapika percebeu que não haveria outra alternativa. Gon ficou responsável por manter seu corpo sentado enquanto Killua forçava sua nuca para baixo. Novamente Kurapika despejou o conteúdo. Assim que Killua fechou sua boca a garota tentou se debater. Era visível que aquilo a estava machucando porém os três se mantiveram firmes em suas tarefas. Após terminar todo o conteúdo do recipiente só restava à eles esperarem. Killua já não segurava mais a cabeça da menina, porém Gon permanecia dando suporte para que ela continuasse sentada. Lentamente a respiração da garota começou a se estabilizar.
Deus do céu, quando é que esse dia vai terminar? – pensou Kurapika exausto.
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