Notas iniciais
Enjoy

Onde estou? Meu corpo, eu não consigo senti-lo, não sinto nada! Será que estou morto?

Kurapika estava parado em meio a escuridão. Ele não conseguia enxergar nada, nem mesmo seu próprio corpo. Não ouvia nada, nem mesmo sua voz. A voz que, por sua vez, parecia não sair. Não podia nem mesmo mexer seu corpo. Estava imerso na mais profunda solidão, o que colocava em duvida sua própria existência. A única coisa que ainda vivia era sua consciência. Mas não seria ela apenas uma ilusão? A perda de todos os sentidos não era suficiente para provar que sua existência havia chegado ao fim? Não. Não podia ser. Se havia alguma chance, ele haveria de tentar...

Por favor, mais uma chance! Por favor, eu tenho que sobreviver! Por favor!

Ele não sabia exatamente a quem estava pedindo essa chance. Seria a alguma entidade divina? A seu próprio corpo? Quem sabe, à sua própria consciência? Mais uma vez essa vontade não foi suficiente e sua consciência, aquela única coisa que o fazia ainda acreditar que estava vivo, se apagou.

23/03 – ???? –

Lentamente seus olhos foram abrindo. Demorou bastante tempo até que abrissem por completo. Parecia que suas pálpebras pesavam uma tonelada e a claridade do ambiente parecia querer cegá-lo. Mesmo com os olhos abertos, não conseguia entender o que estava acontecendo, sua cabeça estava latejando. Seu corpo estava pesado e mesmo se esforçando ao máximo, não conseguia mover nenhum milímetro. Passou a se concentrar na única coisa que conseguia enxergar, o teto. Tentava, sem êxito, se lembrar o que havia acontecido e onde estava. Não se lembrava de nenhum teto como aquele. Parecia feito de uma madeira avermelhada bem escura, porém já muito desgastada pela ação do tempo. Novamente tentou se mover, sem sucesso.

– Você não vai conseguir se mover.

O jovem Kuruta levou um susto. Se pudesse se mover, provavelmente teria dado um pulo da cama. Afinal, ele não estava sozinho. Tentou falar, porém, apesar de conseguir mover os lábios, não foi capaz de emitir nenhum som.

– Já disse, não adianta. Se está preocupado, não fique. Se eu quisesse te ferir já teria feito isso. Por enquanto foque-se apenas em descansar.

Após a sentença, Kurapika pode perceber que a pessoa dona daquela voz havia se levantado e saído do recinto. Ele não teve escolha a não ser seguir o conselho que recebera. Começou a analisar a voz daquele estranho, pois no momento era a única pista que tinha. Definitivamente a voz vinha de uma mulher, apesar do tom mais grave. Provavelmente uma mulher adulta, entretanto não muito velha. Não conseguiu determinar com exatidão sua idade. Ela deveria estar observando ele a algum tempo, pois pôde perceber de alguma forma suas falhas tentativas de se mover. Não tinha porquê não acreditar nela, afinal, como ela mesma havia dito, se quisesse feri-lo ou mata-lo, já teria feito. Lentamente, suas memórias começaram a retornar. A névoa.

O que será que aconteceu? Será que ainda estou na floresta?

Sem se dar conta, a exaustão foi tomando conta de seu corpo e, novamente, Kurapika foi jogado no mundo dos sonhos.

– Kurapika? Kurapika, você pode nos ouvir?

– Quem é? Quem está falando?

– Não se lembra de nós? Estamos esperando...esperando nosso olhos....

Kurapika acordou assustado. Seu corpo estava encharcado com seu próprio suor. Ainda sentia muitas dores pelo corpo, mais fortemente na cabeça.

Foi apenas um sonho.

Os batimentos cardíacos do jovem Kuruta lentamente começaram a normalizar. Havia sido apenas um sonho, aquele mesmo sonho. Ele ouvia as vozes de seus companheiros suplicando para ele encontrar seus olhos, só assim eles descansariam em paz. Abriu os olhos e novamente se deparou com aquele mesmo teto de madeira. Dessa vez, conseguiu fazer alguns movimentos com as mãos e logo em seguida moveu sua cabeça para o lado. Estava em uma espécie de cabana rústica. Ele estava deitado em uma cama na lateral da cabana. Do seu lado esquerdo havia apenas a parede de madeira da cabana. Do seu lado direito havia um pequeno criado-mudo, uma cadeira velha, uma estante mais velha ainda contendo alguns livros e uma porta. Não conseguiu identificar mais nada até onde sua visão podia chegar. Passou a se concentrar em tentar se sentar na cama. A tarefa foi muito árdua, mas depois de muito esforço, conseguiu conclui-la. Por um instante seus batimentos aumentaram bruscamente. Ele havia ouvido algo. Será que era aquela mulher que havia falado com ele? Seus sentidos estavam gritando, porém, o que ele poderia fazer naquele estado? Resolveu se acalmar e esperar.

Logo a porta do recinto começou a ser aberta. Esperava ansioso para ver sua anfitriã, entretanto o que viu não foi um ser humano, e sim um lobo. Sim, um belíssimo lobo branco. Era um pouco maior do que um lobo tradicional. Seus olhos eram de um azul escuro muito profundo. A criatura pareceu notar que estava sendo observada e se virou para seu visitante. Kurapika hesitou, mas logo se pronunciou:

– Olá. Você consegue me entender? Foi você que me salvou? Foi você que conversou comigo quando acordei daquela vez?

O lobo continuou olhando atentamente para o jovem Kuruta. Kurapika começou a se sentir um idiota por estar falando com um lobo, mas logo se espantou quando ouviu uma voz responder:

– Você faz muitas perguntas.

Surpreendido, Kurapika respondeu:

– Você é uma criatura mágica? Pode falar? Eu ouço sua voz, mas não consigo ver sua boca se movendo...

– Continua fazendo muitas perguntas. Mas, se prestar mais atenção, verá que não é o lobo que está te respondendo.

Novamente Kurapika levou um susto ao virar para sua direita. Sentada naquela cadeira velha estava uma menina, da sua idade talvez, não conseguia definir ao certo.

Como ela conseguiu fazer isso? A cadeira estava vazia eu tenho certeza! E desde que eu ouvi ruídos na casa, fiquei atento a todos os movimentos...não teria como ela entrar aqui sem que eu percebesse!

– É...quem é você? – Perguntou o garoto cautelosamente.

A garota se levando e foi em direção a ele. Kurapika estava completamente indefeso diante dessa garota, mas não tinha outra saída a não ser tentar ganhar sua simpatia.

– Tome, beba isso.

A garota parou de pé a seu lado e estendeu a mão, oferecendo um copo com um liquido verde claro dentro. Kurapika se questionou se deveria ou não pegar o copo. Se não pegasse acabaria irritando a garota, mas se pegasse, poderia ser a ultima coisa que beberia na vida.

– O que foi? Não consegue mexer os braços ainda? Eu já disse, se quisesse vê-lo morto já teria te matado. Vamos, beba!

Não havendo escolha, Kurapika esticou sua mão até o copo e passou a examinar seu conteúdo. O cheiro era bem forte, parecia uma mistura de ervas que ele não conseguiu identificar. Levou o conteúdo a boca e bebeu uma pequena quantidade. O gosto era amargo e ele fez uma leve careta.

– Pode ser amargo, mas vai ajudar na sua recuperação. Beba tudo. Se não o fizer, obrigarei você de uma maneira pouco amigável.

Kurapika olhou diretamente em seus olhos. Havia um brilho sinistro vindo deles. Resolveu não contrariá-la e bebeu o restante do liquido. Instantaneamente, seu corpo começou a esquentar. Era uma sensação boa. Parecia que seus membros estavam sendo irrigados com energia. Ele estendeu novamente o copo para a garota.

– Obrigado.

Ela pegou o copo e saiu do recinto. Kurapika observou que o lobo permanecia no mesmo local desde que havia entrado no quarto e ainda estava olhando diretamente para ele. Começou a pensar melhor sobre a garota. Ela era mais nova do que ele havia deduzido pela voz, na primeira vez que ouviu ela falando. Será que era outra pessoa? Não, certamente era ela, seu tom de voz era inconfundível. Provavelmente ela teria entre 17 e 19 anos. Seus cabelos eram marrons, entretanto eram muito claros, dando a impressão de estar no meio do caminho entre um marrom normal e um loiro. Eram cumpridos, porém estavam presos em uma trança. Seus olhos é que chamavam mais atenção. Eram de um azul quase cristalino, de uma profundidade imensa. Vestia um sobretudo quase da mesma cor que seus cabelos, com as bordas cobertas de pêlo branco. Sua blusa, aparentemente de manga cumprida, era completamente preta. Vestia calças compridas da mesma cor que o sobretudo e por fim usava uma bota num tom mais escuro de marrom, também contendo pelo branco na parte superior. Estava com uma roupa apropriada para o clima da montanha.

Será que ela é moradora da montanha? Ou será que é alguma aldeã daquela tribo ao pé da montanha? Se for, provavelmente ela me trouxe a aldeia novamente.

Chegou a conclusão que ela não tinha o objetivo de feri-lo. Resolveu tentar se levantar para ir atrás da garota. Surpreendentemente, teve facilidade em se mover.

Será que foi o efeito daquele chá verde?

De qualquer forma se sentiu aliviado em poder se mover novamente. Não havia gostado da experiência de sentir-se completamente a mercê de um estranho, mesmo sendo uma mulher. Kurapika levantou-se da cama lentamente. Queria evitar qualquer desequilíbrio uma vez que não sabia a quanto tempo esteve dormindo. Assim que se estabilizou em pé, notou que o lobo, que antes estava deitado, havia se sentado.

– Hm...eu não vou machucá-lo. Gostaria apenas de passar. Teria algum problema?

Kurapika se perguntou se ele poderia realmente entende-lo. Por algum motivo sentia-se mais seguro em informar ao lobo o que estava prestes a fazer do que simplesmente fazer sem aviso prévio. Começou a caminhar em direção a porta. A medida que foi se aproximando o lobo ficou de pé. Isso fez com que ele parasse por um instante.

Será que devo prosseguir? Se esse animal me atacar não terei forças para me defender.

O lobo então passou a caminhar em sua direção. O jovem Kuruta ficou completamente imóvel, não queria mostrar nenhuma animosidade. O lobo parou a 1 metro de distância de seu novo amigo. Kurapika resolveu se abaixar, na tentativa de mostrar ao canino que não tinha nenhuma má intensão. Olhando diretamente em seus olhos, pode sentir, de alguma forma, que aquele animal não tinha intensão de feri-lo. Novamente, sem saber o motivo, começou a levantar sua mão em direção a cabeça do animal. Vagarosamente, tocou a lateral de seu rosto, acariciando a parte detrás de sua orelha direita. O lobo pareceu apreciar seu gesto de carinho.

– Você é corajoso.

Kurapika deu um solavanco ao ouvir a voz da garota parada em frente a porta. Estava tão concentrado em sua tarefa que não reparou na presença da garota o observando.

Desde quando será que ela esta ai?

– Corajoso?

– Sim. Geralmente as pessoas evitam se aproximar de Saito.

– Saito é o nome dele?

– Sim. Ele também não é muito sociável. Fico surpresa por ele deixar você acaricia-lo. Por algum motivo ele confiou em você.

Encorajado, Kurapika levou sua outra mão ao lado esquerdo do rosto de Saito, passando a massagear as duas orelhas. O lobo parecer satisfeito com o carinho.

– Me diga. Onde estou? Como cheguei até aqui?

Perguntou, agora olhando diretamente para a garota.

– Você faz muitas perguntas. Responderei em breve. Consegue se levantar?

Notas finais
Espero que estejam gostando! A personagem feminina e Saito são criações minhas. Não possuem nenhuma ligação com o mangá ou anime.