Ströme der Seele
32 A guarda
Notas iniciais
06/04 – Floresta de Kobi
Silêncio. Esse era o único som que nossos amigos ouviam naquele momento. O profundo e tedioso som do nada. E era dessa maneira sonoramente incomoda que Gon e os outros caminhavam por entre a temerosa mata da Floresta de Kobi. Desde que saíram do acampamento provisório à beira do Lago Tensai que esse convidado incômodo os acompanhava de perto. Nem mesmo Gon se atreveu a expulsá-lo. Leório, outro provável candidato a quebra dessa barreira auditiva, estava mais concentrado em manter-se caminhando firmemente do que em qualquer outra coisa. Sua expressão exausta denunciava seu esforço. Killua prestava atenção no amigo pronto para agir caso o mesmo chegasse a seu limite. Kurapika e Maia, responsáveis por terem convidado o silêncio a se juntar a caminhada, comportavam-se como exemplares anfitriões, fazendo questão de respeitar a vontade de tão ilustre convidado. O jovem Kuruta carregava um semblante sério e cansado, já a garota sustentava o mesmo olhar de sempre. Foi só quando Leório caiu sobre seus joelhos que finalmente o hospede indesejado se despediu de nossos amigos.
–Leório, você está bem? – perguntou Gon se aproximando do amigo.
– Estou sim Gon, apenas um pouco cansado – respondeu ele respirando profundamente.
– Talvez fosse melhor nós descansarmos um pouco – sugeriu Killua.
Kurapika concordou silenciosamente com um gesto de cabeça, enquanto Maia se limitou a sentar encostada em um arvore próxima. Gon se encarregou de buscar um pouco de água de um local próximo que Maia havia indicado. Após alguns minutos o garoto retornara com os cantis cheios e logo distribuiu para cada um dos presentes.
– Quanto tempo temos até começar a escurecer? – perguntou Killua à garota
– Pouco mais de uma hora provavelmente — respondeu ela.
– Então talvez devêssemos já ficar por aqui essa noite – sugeriu o garoto de cabelos brancos.
Killua esperou por uma resposta da garota, porém como não houve sinal de que ela lhe daria alguma satisfação, negativa ou positiva sobre o assunto, chegou a conclusão de que Maia não possuía objeções quanto a proposta. Leório parecia contente com essa decisão, pois apesar de tentar não parecer sentir os efeitos do trauma anterior, era visível à todos ali presentes que o jovem estudante estava se esforçando demasiadamente para concluir o percurso. Esse porém não era o único fato visível a todos naquele momento. O atrito presente entre Kurapika e Maia também podia ser sentido com tanta intensidade que chegava quase a ser palpável.
Uma vez decidido a permanência do grupo no local começaram a tomar as medidas necessárias para que pudessem passar a noite de maneira segura e confortável. Uma fogueira foi acesa e a comida distribuída. Como já estavam mais próximos a base da montanha, o frio já não era tão intenso e incomodo como quando estavam mais próximos do cume, apesar de ainda não poderem o considerar agradável. Após todos se acomodarem e se alimentarem, foi decidido a ordem em que cada um deveria ficar acordado de guarda. Apesar de Maia insistir que poderia ficar a noite toda de guarda, todos concordaram que um rodízio seria o mais plausível nessa situação, excetuando-se claro Leório, que precisava mais do que todos repousar. Sem vontade de discutir a garota apenas aceitou a proposta, ficando então decidido que ela começaria o 1° turno, seguido por Kurapika, Gon e por último, Killua. Assim combinado, recolheram-se para um merecido descanso, deixando apenas a garota acordada na companhia de seus pensamentos.
–-------
CRACK.
Kurapika acordou assustado e rapidamente se sentou. Demorou alguns segundos para se adaptar a claridade do ambiente mas logo se deu conta de onde estava. Olhou ao redor e se deparou com todos os seus companheiros dormindo em um canto. Estranhou o fato de só ele ter acordado com aquele barulho uma vez que sabia muito bem que tanto Gon quanto Killua permaneciam sempre em alerta, mesmo enquanto dormiam.
CRACK.
Ouviu novamente o som. Era fraco, porém estava próximo. Virou sua cabeça na direção de onde o som havia sido emitido a fim de descobrir sua procedência. Deparou-se com a garota sentada próxima as chamas remexendo nos galhos que a alimentavam. Notou também um recipiente suspenso sobre o fogo.
CRACK.
Dessa vez ele não apenas ouviu como também pôde ver a origem do som que o havia despertado. Era nada mais nada menos que o simples estalar da madeira sendo consumida pelo fogo. Ele ficou surpreso ao constatar que um ruído tão recorrente como esse, se considerarmos a situação, o havia desperto.
Talvez eu esteja estressado demais até para relaxar
Ele sabia que Maia havia notado seu despertar. Permaneceu parado apenas ouvindo o trepidar das chamas que o havia acordado. Apesar de olhar na direção da garota, sabia que ela não retribuiria a ação, muito menos se pronunciaria. Kurapika ainda estava irritado com ela por toda aquela situação anterior, porém de alguma maneira sentia vontade de falar com ela. Não podia se recordar com exatidão o sonho que tivera pouco antes de despertar, porém sentia-se vazio e sozinho. Não gostava nem um pouco dessas sensações, pois lhe passavam a impressão de que estava sendo fraco. Tinha receio de que olhassem para ele e enxergassem sua fragilidade. Não! Era inadmissível. Ele, acima de tudo, tinha que permanecer forte. Mas então por quê? Por que sentia vontade de procurar seu conforto, mesmo sabendo que não o receberia? E por que, com tantos outros...por que com ela?
Seus pensamentos foram interrompidos com a aproximação da garota. Ela andava em direção à ele com dois recipientes nas mãos. Kurapika havia ficado sem palavras e num gesto automático aceitou o copo oferecido pela garota assim que ela o alcançou. Não bastasse isso, Maia sentou-se à seu lado e passou a beber seu chá com a maior naturalidade e completamente em silêncio. Aquilo o irritou. Não, na verdade não estava irritado, estava furioso!
Por que ela faz isso? O que ela quer?- pensava confuso
O jovem Kuruta não compreendia as ações da garota. Estava zangado com ela, mas acima de tudo estava zangado com ele mesmo por não entender seus próprios sentimentos em relação aquilo tudo. Irritava-se por não ter o controle. A maneira como ela se comportava era imprevisível e muitas vezes contraditória. Ele queria xingá-la de todas as formas que conhecia, e no fundo sabia que era exatamente isso que a garota esperava.
Não, não darei essa satisfação à ela.
– Obrigado pelo chá, mesmo eu não tendo pedido. – cochichou ele para não acordar os outros.
Como esperado Maia não lhe respondeu. Permaneceram em silencio por mais um bom tempo. Kurapika estava conformado de que não obteria qualquer palavra da garota quando foi surpreendido novamente naquela noite.
– Seus amigos...são boas pessoas – comentou ela entre um gole e outro.
– São sim – concordou o Kuruta.
Houve mais um período de silencio antes da garota continuar.
– Como soube? – perguntou ela.
– Como soube o que?- questionou confuso – Que eram boas pessoas?
Ela virou o rosto, olhou diretamente para ele e então deu um discreto sorriso de deboche.
– Não, como soube que o chá era um remédio?
A mente de Kurapika paralisou. Provavelmente não havia conseguido escutar a pergunta da garota já que seus pensamentos estavam voltados unicamente àquele simples gesto que o assombrou.
Ela....sorriu?
Maia ainda encarava o Kuruta atônito. Aquilo não podia ser verdade, estava ele ainda dormindo? Apesar de ter sido apenas um fraco riso de gozação, aquele comportamento não combinava em nada com as maneiras habituais da garota. Sua reação foi tão natural que não havia nem se dado conta quando uma de suas mãos tocou levemente na testa da garota.
– Você por acaso está doente? – perguntou ele com um misto de surpresa e diversão em seu rosto.
Não demorou mais que um segundo até o garoto perceber o que havia feito. A garota por sua vez o encarava com espanto enquanto ele refletia sobre a situação. Sua mente gritava para que se afastasse, porém seu corpo simplesmente não o obedecia. Mas mesmo que Kurapika pretendesse continuar com a mão em seu rosto por tempo indeterminado, logo o olhar de espanto de Maia se transformou em um olhar de reprovação, fazendo com que se afastasse rapidamente de seu toque. Kurapika achou que ela tentaria estrangulá-lo ou que amaldiçoaria todas as gerações de sua família, porém ela apenas voltou seu rosto para frente e repetiu a pergunta, dessa vez com seu típico tom frio e sério. Kurapika ainda demorou um pouco antes de responder à ela.
– Não foi algo tão consciente na hora, apenas me ocorreu... – parou para dar um gole – ...mas pensando bem, com um gosto amargo como esse, só poderia ser um remédio mesmo – comentou ele fazendo careta e logo em seguida sorrindo.
– Para você ele age apenas como um energizante – comentou ela didaticamente.
– E para você ele age como um remédio para curar o que? – perguntou ele
Kurapika sabia se tratar de uma pergunta ousada de sua parte, considerando o caráter reservado e por vezes reacionário da garota.
– O passado. – respondeu ela levantando logo em seguida e se afastando lentamente do jovem Kuruta. – Meu turno terminou. – completou ela se dirigindo até uma arvore próxima para se encostar.
Kurapika foi deixado sozinho novamente. Bom, pelo menos aparentemente não seria uma noite monótona afinal, teria muito o que pensar. No final das contas, mesmo dormindo, Maia ainda se fazia presente.
Tenho que parar com isso – se censurou respirando pesadamente.
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