Notas iniciais
Aqui, a história realmente começa. Uma boa leitura.

Um rapaz alto, elegante, com seus olhos perolados na alva pele que contrastava com seus longos e negros cabelos, estava no interior de uma luxuosa carruagem do Reino de Ruby, acompanhado de mais dois homens e uma mulher, os três pertencentes ao ducado. O jovem, porém, não. Era apenas um Chevalier. Aliás, havia sido treinado por toda a vida somente para isso— servir. Depois de anos sem ver sua prima, a Princesa de Ferro, como ela era conhecida, ele finalmente voltava à Moonstone. Eles haviam tido uma curta infância juntos, mas o suficiente para guardar boas lembranças daquele tempo que provavelmente não voltaria atrás. Sentia saudades dela; pensava em como ela estava, como ela tinha ficado ou se tornado. O reencontro era algo que ansiava o tempo todo, desde quando aqueles duques o levaram embora à força de Moonstone para Ruby, onde foi submetido a rígidos treinamentos e prolongados estudos sobre Ciência Política e Soberania. Com a morte do Rei Hyuuga e de sua esposa, a Princesa havia se tornado a governadora de seu reino. Agora, dezoito anos mais tarde, ele regressava para servi-la como sendo seu Chavelier pessoal.

— Espero ter aprendido tudo corretamente. — Disse a duquesa ao seu lado. — Não será permitido qualquer erro, Neji.

— Eu sei. — Respondeu o Hyuuga de vinte e três anos.

Uma brisa suave e fresca soprava as cortinas do quarto da princesa. O mesmo era adornado de objetos valiosos, relíquias antigas e caras, espelhos, tapetes e todo tipo de futilidade encontrava-se ali. No intuito de satisfazer as necessidades egoístas da princesa. Ela realmente não se importava com nada, ficava indiferente a opinião e a miséria do seu povo. Suas leis, opiniões eram superiores a qualquer protesto, e quem ousasse lhe desobedecer era, simplesmente, dizimado. Apesar do coração frio, a postura egoísta e mimada, se importava com um garotinho. O seu primo, que, aliás, devia ser um homem agora. Não se recordava do primo, então se concentrava em algo para lhe entreter, satisfazer o seu tédio.

— Não! — Gritou com a criada que tentava apertar os laços do seu espartilho, enfurecida, pegou um vaso, antigo, uma relíquia rara, e jogou contra a parede do quarto, assustando as criadas. — Ser inútil! Não consegue fazer nada direito? — Grunhiu segurando o espartilho contra os seios. Bufou completamente impaciente e lançou um olhar fulminante para outra criada. — Oe, você aí. Faça algo de útil e me ajude.

— C-Claro, princesa. — A criada se curvou numa reverência e se aproximou trêmula. Postou-se atrás da jovem e puxou os fios do espartilho, relanceou um olhar para as criadas que estavam mudas de medo e sorriu, tentando apaziguar os ânimos. — Nee, princesa... Está ansiosa com a chegada do seu primo, não é?

— O que? — Olhou para criada pelo espelho realmente atordoada com a notícia. Gemeu ao sentir o peito comprimido pelo espartilho. — E-Espere, o que disse? — Virou-se, sem importar-se em agradecer. — — Q-Quem lhe disse isso?

— E-Então... Foi anunciado á nós, criadas, para prepararmos um aposento para o jovem Neji. — Engoliu em seco, torcendo as mãos nervosamente, com medo de um dos, costumeiros, ataques de fúria da jovem Hyuuga. — Fomos informadas pelo Conselho, M-Majestade. — Curvou-se em uma reverência, e fechou os olhos, esperando uma reação.

— Entendo. — Lançou um olhar de desprezo para a serva e sorriu, voltando-se para o gigantesco espelho. — Vou me arrumar, para receber meu querido primo, então. — Arrumou os cabelos negros e passou um batom, realçando os seus lábios. — Que ele seja muito bem vindo. — Riu pegando a coroa que se encontrava em cima da penteadeira.

O jovem Chevalier observava a miserável cidade de Moonstone pelo vidro da carruagem. Ao passo que cruzava as ruas pavimentadas, via crianças, pertencentes àquela pobreza, admirarem o luxuoso veículo, algo que, para o dia a dia delas, era totalmente irreal. Embora fosse um Hyuuga, possuía um coração mais dócil. Doía-lhe ver aquela desigualdade social tão gritante, mas quem ele era? Ninguém. Não era de sua competência.

— Desça, Chevalier. – Ordenou o duque, já à porta do veículo. Ali dentro havia restado apenas o mais novo. – Já chegamos.

Distraído, havia perdido totalmente a noção de tempo e espaço. Com a advertência dada pelo superior, assentiu o rapaz ao sair vagarosamente do transporte. Estava com suas costas um tanto quanto doloridas devido ao longo tempo de viagem. Assim que estava à frente dos grandes portões do castelo, a carruagem real deixava o local, ficando apenas os três duques e ele. Olhava para aquela construção majestosa e secular. Respirou fundo, como se algumas memórias fossem desenterradas sobre o lugar. Assim que estes foram abertos, seus olhos rapidamente passavam a procurar pela Princesa, embora não fizesse ideia de como ela fosse.

A princesa descia as escadas lentamente, as criadas carregando a longa cauda do seu vestido, ela tinha uma postura elegante, o queixo erguido, num ar arrogante que somente os aristocratas e reis têm, e sua coroa parecia reluzir. Mas o que brilhava eram os olhos da Hyuuga, em expectativa de ver o primo, a qual lhe fazia tanta falta. A princesa quase suspirou em alívio ao chegar aos portões. Olhou séria para os guardas que protegiam o castelo e deu a ordem:

— Abram os portões. – Exigiu em um tom de voz sério e superior.

A princesa, que era apelidada de ser fria, arregalou os olhos, chocada ao ver o primo. Ele era alto, a pele pálida em contraste com os longos cabelos negros, o corpo era atlético e seus, lindos, olhos perolados miravam-na com curiosidade. Colocou a mão no peito, ainda atordoada e sorriu hesitante.

— Neji-nii-san? – Perguntou como se questionasse se era ele mesmo. Avançou lentamente em direção a ele, sorrindo em felicidade e choque.

Neji direcionava o olhar para aquela jovem que, lentamente, caminhava ao seu encontro e chamava por ele. Fez uma breve reverência para a mesma, um tanto quanto formal enquanto a observava detalhadamente. Ela estava muito diferente do que sua memória se lembrava. Ela havia crescido, com longos cabelos negros que jamais os havia visto antes. Aqueles olhos tão idênticos aos seus eram contornados em uma maquiagem ainda simples, porém perfeita para sua feição.

— Saudações, Hime-sama. – Anunciou o primeiro duque, numa solene reverência em conjunto com os demais. – Como prometido pelo vosso falecido pai, trago à Vossa Majestade Hyuuga Neji, vosso Chevalier pessoal.

Com a declaração feita pelo superior, o cavalheiro, agora frente a frente com a princesa, fitava aqueles nostálgicos olhos femininos. Curvava-se, assim, perante ela. Segurava uma das mãos da Hyuuga, beijando-a na parte externa em um cortejador cumprimento.

— Às suas ordens, Hinata-sama. – Proferiu o jovem, erguendo vagarosamente seu olhar, até, uma vez mais, encontrar o dela.

Repuxou ela os lábios em um sorriso satisfeito e fitou o duque com arrogância, inclinando o queixo, adotando a postura de uma rainha, os olhos frios e enigmáticos analisando-o de modo calculista.

— Bem, já que ele foi designado a mim, vamos discutir sobre sua 'importância' ao ser meu Chevalier. — Fazendo um gesto com a mão para as criadas, deu as costas a todos ali e caminhou em direção aos portões, sem olhar para trás para certificar-se se o primo lhe seguia. Foi ao jardim, onde algumas um bule de chá e algumas xícaras postas na mesa. Sentou-se com elegância e cruzou os braços no colo, esperando que lhe servissem.

Com as ordens da princesa, as criadas tratavam de carregar os pertences do rapaz, para que ele pudesse acompanhá-la para onde fosse.

— S-Seja b-bem-vindo ao castelo, C-chevalier-dono... — Disse uma delas, temendo que aquele fosse tão tirano quanto à sua senhora.

Assim que via sua prima dar a voz de comando e, seguidamente, dar as costas, sentiu certa frieza no olhar da majestade para com os demais, o que o fez ficar, mesmo que em seu interior, assustado. A Hinata da qual se lembrava era alguém delicada e dócil, bem diferentemente do que se deparava naquele momento. Olhava rapidamente para o duque que o acompanhava, em silêncio, que o fitava com um ar repressivo, como o de costume. Ao ouvir o cumprimento da criada, olhou para a mesma, notando o medo iminente em seu olhar. Ele, então, antes de acompanhar a princesa, sorriu para a outra gentilmente, para a surpresa da mesma. — Muito obrigada, donzela. — Assim, ele foi atrás de sua prima que já o esperava no jardim. Ao vê-la sentada ali na cadeira, à sua espera, Neji pegou em mãos o bule e serviu fresquíssimo chá à majestade, num gesto elegante e cortês.

— Obrigada. — Agradeceu num tom frio e educado e segurou a xícara de chá levando-a aos lábios. – Então, por que não me conta como passou os últimos anos, huh? — Cruzou as pernas olhando de maneira distraída para o jardim, observando e ouvindo o farfalhar das folhas e o tom vívido das rosas. Torceu os dedos, puxando um pouco a luva, e fitou-o com um sorriso um tanto que forçado, sentindo-se estranha perto do primo, como se fossem estranhos que nunca tinham se conhecido e compartilhado de tantas lembranças junto.

Observava como ela falava e agia. Era quase inacreditável que não pudessem conversar normalmente. Assim que ela o agradecia, apenas sorriu com gentileza. Por mais que ela tivesse mudado para com a pessoa dele, ele jamais mudaria para com ela.

— Passei anos fora de Moonstone. Estive com saudades daqui. – Começou ele, com sua voz rouca e grave, aquela que ela, talvez, nunca imaginasse ouvir. – Minha vida toda foi dedicada aos estudos, para atender apenas aos seus interesses, Hinata-sama. – Disse o Hyuuga suavemente. Não dirigiria qualquer pergunta a ela, a não ser que lhe fosse permitido ou necessário. Assim, ele acompanhou o olhar dela, de modo a observar igualmente a exuberância daquele esplêndido jardim num dia tão belo como aquele. – O dia está realmente muito agradável hoje. – Comentou ele, sorrindo.

Encarou-o surpresa e não pode deixar de se admirar com a voz e o sorriso dele, conteve a vontade de sorrir junto com ele e assentiu solenemente, os dedos tocando no colar da sua mãe, e que enfeitava seu esguio e pálido pescoço.

— Hai... — Murmurou perdida em pensamentos e lembranças, suspirando deu um sorriso melancólico e ficou de olhos fechados, cerrando o punho. – Parece que foi hoje... Que corríamos por esse mesmo jardim, os cabeços ao vento e a risada alta... – O tom de sua voz era suave e saudoso, o peito aquecido num sentimento reconfortante. – Éramos tão felizes.

Abriu os olhos perolados, fitando um canto qualquer, o olhar distante e os lábios pressionados em uma linha fina. Como se erguesse uma barreira emocional, completamente impenetrável.

Ouvia o cavalheiro atentamente às palavras da dama. Com o comentário alheio, lembrava-se novamente de sua infância. Via-se, naquele jardim, ainda tão pequeno, com sua prima, correndo e brincando, sem saber exatamente o que era o mundo tão cruel dos adultos. Lembrava-se, também, da vez que havia feito uma coroa de flores para a mais nova, com um sorriso tão inocente. Ela era sorridente, delicada. Voltava, assim, a fitar para a mesma ao observar sua rápida melancolia. Sorriu novamente, com o intuito de reerguê-la. Assim como nesse meio tempo ele havia sofrido, ela também não deveria ter passado por experiências muito agradáveis.

— A felicidade está no dia a dia, Hinata-sama. – Disse ele. – Apesar do que a vida nos reserva, creio que ainda continuamos sendo as mesmas crianças que um dia fomos. — Completou. — Assim como eu, além de ser seu Chevalier, ainda sou seu primo de antes.

Riu sem conseguir se conter e esboçou um sorriso feliz, sentindo-se como uma criança novamente, a empolgação e alegria inundando-a. Olhou-o de forma marota e apoiou as mãos nos braços da cadeira, levantando-se.

— Ainda é um péssimo corredor? – Segurou a barra do vestido e se afastou da mesa. – Que tal testarmos? – Rodopiou olhando-o de forma desafiadora.

Ficava contente ao conseguir fazê-la sorrir de maneira sincera. Aquela era a Hinata que conhecia, ainda que crescida. Com as provocações alheias, ele levou uma de suas mãos à boca, dando uma pequena tossida enquanto a olhava se levantar.

— Arrisco dizer que não há ninguém nesse reino que possa me vencer. – Disse ele, ajudando-a a se levantar. – Ser princesa não é motivo para eu te deixar vencer, hein? – Provocou-a de volta, dando a largada antes mesmo que ela.

Tombou a cabeça de lado e fitou-o igualmente desafiadora e provocadora, teve um sobressalto ao ver que ele já estava correndo e segurou a barra do vestido, tentando alcançá-lo.

— E-ei! Isso não é justo! — Gargalhou conseguindo esbarrar os dedos de leve no braço dele, num impulso, jogou-se contra ele e caíram no chão; braços e pernas se enrolando. Jogou a cabeça pra trás dando uma risada alta e histérica. – G-gomen...

Com a queda, Neji a fitou. Ao vê-la rir daquele jeito, não conseguiu se conter. Bem como ela, acabava por rir daquela situação. Deitado sobre o gramado, ele a observava encantado. Ela realmente havia se tornada bela e encantadora, ainda mais ao revelar aquela tão sincera expressão em seu semblante. Ao se acalmar, se voltava a sorrir para a mesma, levando sua mão aos lisos e longos cabelos de Hinata, acariciando-os enquanto a fitava.

— Você ficou linda, Hinata-sama. — Disse ele naturalmente.

Corou com a carícia do maior no seu cabeço e o fitou, hipnotizada pelos olhos, tão idêntico aos seus perolados. Tocou a sua bochecha com um sorriso gentil e acariciou ali, fitando-o com intensidade.

— Arigatou. – Fechou os olhos e franziu a testa, os lábios trêmulos. – Senti a sua falta... – Engoliu em seco, seus olhos marejados. – S-sabe como é perder uma das pessoas mais importantes? Praticamente o seu mundo e tudo o que conhecia e amava? – A voz ficava embargada e rouca. – P-por que teve que ir?

Com as palavras da mesma, ele suspirou ainda que sorrindo. Levava sua mão, antes ao cabelo, agora ao rosto da jovem princesa. Com seu polegar secava seus olhos que lacrimejados estavam.

— Minha vida foi destinada a você. Se um dia eu me fui era para que, um dia, eu voltasse apenas para lhe servir. — Respondeu ele enquanto a fitava gentilmente.

— Hime-sama — interrompeu aquele momento nostálgico um senhor robusto, elegante e solene. Era o Primeiro Ministro. –, perdão a intromissão da vossa particularidade. O Parlamento requisita a vossa presença na assembleia. – Disse o homem, enquanto observava o cavalheiro recém-chegado. – Caso seja de vossa vontade, vosso Chevalier poderá acompanhá-la.

Retirou a mão da bochecha dele e corou, sentindo-se constrangida. Fitou-o enfurecida e ergueu-se limpando o vestido.

— Oh, já estou acostumada com suas interrupções oportunas, Primeiro Ministro. – Sorriu sarcástica, o tom de desdém e bufou, fazendo um gesto brusco para as criadas, sinalizando que estavam dispensadas, por ora. – Vamos. – A postura fria e indiferente tinha voltado, a garota inocente e sorridente sendo deixada para trás. Virou-se e caminhou até a assembleia, sem olhar para trás, deixando o primo, o Primeiro Ministro e as lembranças ali, naquele jardim.

Colocava-se de pé com o anúncio do superior, assim passando a observá-lo. Mediante aquela situação, não sabia o que dizer. Afinal, era inegável o olhar de desprezo que aquele fazia sobre si. Com a ordem da princesa egocêntrica, ele fechava os olhos e assim levou sua mão ao peitoral enquanto se curvava para a mesma, em sinal de obediência e respeito.

— Hai, Vossa Majestade. — Pronunciado aquilo, colocava-se, agora, a acompanhá-la à assembleia parlamentarista.

Notas finais
Continua.