Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
19 Luz e Trevas
Notas iniciais
Luz e Trevas
CERENNA
Cresceu em um orfanato. Fugiu dele com doze anos. Encontrou sua mãe e ela lhe contou toda a sua vida. Então perdoou-a e direcionou sua solidão e ódio ao pai, Rei de Westeros. Fugiu para Dorne, para não ser encontrada. Ingressou na guilda. E desde então, a vida de Cerenna Luxfero se resumiu a roubos e tarefas de contrato pagos em dia em uma das gangues mais bem conceituadas de Dorne. Assassinos? Preferia se achar uma mercenária honesta. Eles eram profissionais e ganhavam bem por isso. Nada pessoal, apenas negócios.
Havia um teto sobre sua cabeça, havia uma cama grande de colchões e almofadas bordadas por aias belíssimas que a adornavam de vestidos de cetim roxo e cintos de prata. Seus cabelos eram banhados em óleos perfumados todos os dias e ela era massageada quando queria. Chamava-na de Lady Luxfero, embora o seu nome verdadeiro fosse Cerenna Water. Ser uma bastarda nunca a agradou, não menos do que conhecer sua mãe esfarrapada e doente naquele casebre em Porto Real. O dia em que ela soube quem realmente era... Jamais perdoaria Ayeres Targaryen.
— Milady – uma das suas aias ajoelhou-se diante de sua cama, enquanto outra lhe dava uvas na boca e a terceira tocava flauta. Era fácil roubar documentos importantes ou matar homens influentes em Dorne, em troca de tudo aquilo. Os nobres não sujavam suas mãos, e no entanto ela era a “milady” daquele palácio, construído com os eu suor. Nada mais justo. – Feodor está aqui.
Então aquela melancolia gélida terminaria. Cerenna mandou-o entrar, e os dois guardas em frente a porta de seu quarto permitiram a passagem de Feodor. Era o rapaz que a havia convidado para a guilda de ladrões, ele a vira roubando para sobreviver e se interessara por suas habilidades, principalmente por sua inteligência em ler e escrever. Cerenna poderia dizer que cresceu com ele, pois somente se sentiu viva quando entrou para a guilda.
— Fez um belo negócio nesse lugar – ele resmungou sorridente e alegre como sempre aparecia. Feodor possuía cabelos louros como os dela, embora os seus fossem dourados e os dela fossem... Prateados. Era um rapaz bonito, e muito habilidoso com a adaga, sabia roubar com a sutileza de um felino e não conquistara o título de Líder da Guilda à toa. – Por favor peça a suas aias que saiam.
Cerenna moveu a cabeça para elas e apontou a porta, o trio se moveu em silêncio para sair do quarto, embora ambos soubessem que estaria com suas cabeças coladas a porta para tentar ouvir o que se passava ali dentro. Os criados do palácio da Guilda pouco sabiam sobre o negócio de seus proprietários, em geral pensavam que Feodor era o dono de um grande hotel, onde seus amigos mais próximos moravam junto dele, cada um enfeitando seu quarto do modo que quisesse. Cerenna era uma das treze meninas pertencentes a guilda, em meio a quarenta e oito homens, isto fazia dela um dos alvos de cochichos sobre romances e coisas obcenas, embora ela nunca tenha praticado nem um e nem outro.
— Novo trabalho – ele anunciou, sentando-se sobre a cama. – A vida estava boa demais para ser verdade.
— Precisamos nos manter – ela o corrigiu com um leve sorriso astuto, coisa que muitos não aprovavam, pois imaginavam que ela os estivesse esnobando. Cerenna aprendera os números e sabia muito mais sobre diplomacia do que metade das pessoas de Paloferro. – O que há?
— A Rainha, novamente, pede por informações de um dos Comandantes de Exército do Rei. Ela suspeita de uma possível guerra, a qual pretende evitar para Dorne com as alianças devidas.
— Roubar ações de julgamento para livrar a cabeça de um senhor da forca é uma coisa. – ela resmungou – Roubar do Rei de Dorne... é arriscado demais. Tempos o que precisamos, recuse.
— Acha que devo? – Feodor aproximou-se mais dela, pousando a mão sobre seu pé, esticando entre os lençóis. Ele não escondia o interesse abusivo que sentia por Cerenna, embora ela lidasse com tudo da forma mais frígida e ignorante possível. Ele poderia ouvi-la apenas para tentar se aproximar, ou porque realmente achava sua opinião valiosa. Fosse o que fosse, Cerenna queria se envolver apenas no melhor negócio.
— Sim. Podemos arrumar coisa melhor – ela disse, puxando os pés para si, enquanto deixava o cobertor. Vestia um belo robe de seda, vermelho intenso, com as bandas bordadas de borboletas negras. Ela caminhou até o mezanino de mármore e marfim e serviu as duas pequenas taças com vinho de Dorne.
Cerenna não era uma pessoa de extravagâncias, ela exigia apenas o que merecia, sendo justa em todas as partes. Livrar-se da vida de uma pessoa era algo muito valioso e importante, por isso o devido preço deveria ser pago. Porém roubar documentos para uma rainha, que nem ao menos tinha fama de ser querida pelo esposo... isso sim era duvidoso. Se o trabalho fosse para a amante do rei, provavelmente o caso teria sido aceito sem pestanejar.
— Precisamos decidir também o que faremos com a Tríplice. Eles estão nos desafiando há semanas e se não fizermos algo em relação a isso, teremos de carregar o título de “covardes”.
— Eles são apenas uma gangue mal feita de ladrões pequenos e crianças pobres. Não vejo de quem teríamos medo. – Cerenna respondeu, entregando a taça para Feodor, que aceitou. – Tudo o que queremos é que os nossos clientes saibam no que somos capazes. E eles sabem.
— Você tem razão. Seria infantil responder a pinturas em nossos muros. Eles nem ao menos sabem escrever, precisam desenhar ao invés. – o rapaz tomou seu vinho e se levantou. – Preciso tratar de outros assuntos, agora que estamos livres destes dois.
Cerenna concordou com um meneio. Feodor acenou, mas se demorou um pouco até chegar a porta, talvez esperando que ela pedisse que ficasse. Mas Cerenna não o queria ali, realmente, e tinha assuntos a resolver também. Uma bela manhã para uma bela senhora. Suas criadas retornaram ao quarto assim que Feodor se foi, como que por mágica, as três sorridentes e com mãos ágeis para vesti-la e toucá-la. Quem sabe o que passaria por suas cabeças? Elas mal imaginavam que Cerenna Luxfero era na verdade uma órfã bastarda, abandonada por sua mãe, e antes mesmo de nascer, por seu pai. Ela vivera longos anos nas sombras das cidades de Dorne, em busca de lixo para comer. Até que subiu na vida no próprio esforço, e hoje participava de uma sociedade muito importante para Dorne. Luxfero era o nome de sua mãe, e ela gostava de como soava. Agressivo. Feroz. Voraz. Todas as palavras que poderiam descrevê-la.
Mandou as criadas embora, abrindo um baú escondido atrás de sua penteadeira. Ele era feito de madeira simples branca e para abri-lo era preciso apenas uma chave comum, junto de um movimento secreto que o impedia de ser arrombado por ladrões. Cerenna abriu-o e olhou para seus mais valiosos pertences ali dentro. Amarrou o espartilho debaixo do vestido de musselina amarela, sem mangas e com saia sem pregas. Enfiou cinco facas pequenas no espartilho, que possuía pequenos bolsos feitos para as armas. Também colocou sua cinta-liga amarrando-a na perna e na cintura, com facas e uma adaga um pouco mais na parte interna da coxa. Os cabelos louros estavam presos em um alto coque, adornado de presilhas de ouro e pérolas, entre as voltas de sua trança. Abriu um cofre do tamanho de sua mão sobre a penteadeira e prendeu o grampo de marfim sobre as madeixas, na parte interna do grampo, havia uma lâmina afiada, cheia de veneno, em um pequeno espaço, fechado por um sistema de mola, que se acionava quando o punho de Cerenna enviada a lâmina no corpo de sua vítima. Apetrechos que qualquer dama bem conhecida deveria ter, além de seus guardas pessoais e uma liteira.
Por fim, pegou seu leque, pois o calor era grande. Havia neste, também, um sistema de mola que acionava lâminas escondidas, porém muito pequenas, que seriam usadas apenas em casos extremos. Ela agitou o leque em frente ao rosto, sentindo pequenas gotas de suor se aglomerando sobre a tez. Dorne era um reino infernal. Mas a abrigara de braços abertos.
Quando terminou de delinear os lábios com tinta vermelha, abriu as portas de seu quarto, e passou, fazendo os guardas acompanharem-na. Ambos tinham elmos abertos e empunhavam lanças, sem abrir os olhos ou demonstrar qualquer dúvida em seus movimentos. Eram corajosos, aqueles, Cerenna sabia, podia sentir a honra exalando de seus poros. Ela caminhou pelos corredores do palácio dos assassinos, como assim a gangue chamava o seu lar, e desceu os degraus, sentindo já os raios do Sol alcançando-a pelas janelas grandes do corredor. Arcos enfeitavam a entrada e permitiam que o Sol batesse de frente com o mármore branco.
As ruas estavam cheias de gente.
Ela entrou em sua liteira e abriu o leque novamente, abanando-se. Cerenna Luxfero olhou desdenhosamente para Cerenna Water e sorriu, movendo seu leque para o lado de fora da liteira, onde a outra enfiou a cabeça para espiar. Sapateiros torcendo couro nas ruas, prostitutas com os seios desnudos e as mãos dentro dos calções de marinheiros bêbados. Fedia a humanidade. Luxfero pigarreou, chamando novamente a atenção de Water, e apontou em sua direção com o dedão, enquanto mostrava a liteira de tecido, com almofadas de linho branco e a própriga figura nobre de Cerenna.
— Este é o meu lugar. – resmungou, esticando as pernas para espantar a figura de Water.
Mas, mesmo assim, continuava a se sentir uma estranha dentro da própria pele.
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