Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
39 Lute, ruja, vença pt. 2
Notas iniciais
LUTE, RUJA, VENÇA pt.2
— Sim, eu sou um Lannister. – Kilian sorriu, embora aquilo não parecesse o melhor, afinal a moça ergueu os lábios num sinal de repulsa. Era raro alguma bela jovem repudiar alguém como ele, então decidiu que optaria o caminho mais difícil, e também o mais seguro em relação a ela. – Você pode sair agora, correndo e gritando de medo.
— Ah, eu posso? – ela ergueu a cintura e colocou uma mão sobre o corpete do vestido, seu sorriso era próximo do sarcasmo, mas havia um elemento diferente: escárnio. – Medo de quem? Nenhum Lannister me assusta, vocês são todos covardes e fracos, assim como o seu “líder”. Se tivessem alguma glória, derrubariam Dente Dourado de cima da montanha. Mas tudo o que têm são farrapos e uma casa no “bairro nobre”. Eu conheço as suas histórias, você não vai me envenenar, eu sei que veio aqui esperando encontrar um homem fraco, mas meu irmão vai destrui-lo!
— Doce, eu não vou lutar com o seu irmão. Aliás, ele já deve estar lutando agora. – Kilian deu de ombros. – Mas eu aceitarei um pedido de desculpas, quando tomarmos o seu castelo, e uma agradecimento, por tê-la salvado.
— Você não me salvou, eu cai em você! – a pele da menina tornou-se vermelha com a raiva e ela cerrou os punhos fortemente ao lado do corpo. Uma típica lady zangada. Já vira muito daquilo em Ellyn.
— Diga-me seu nome, doce.
— Pare de me chamar assim, Lannister – sua mão enluvada voou para o corpete novamente, desta vez até o final da cintura, de onde retirou o fino cabo de uma adaga. – Para você é Alayne Lefford, Lady de Dente Dourado, e eu exijo que se curve para mim assim que o meu irmão...
Uma sombra saiu detrás da trilha, correndo, e saltou sobre o pescoço de Kilian, obrigando-o a se curvar. A sombra era Roselynn, e a menina gritava com extrema felicidade, ignorando Alayne ou o que quer que o primo estivesse fazendo ali com ela. De qualquer forma, não era mais importante que as boas novas. As novas que trariam devolta a boafortuna dos Lannister. Kilian a segurou como pôde e perguntou como que para confirmar uma certeza:
— Ele venceu?
— Venceu! É claro que venceu! É Lorren, ele sempre vence! – ela o beijou nos lábios e soltou-o, voltando a saltitar. Neste momento, percebeu a estranha parada em silêncio em frente a eles. – Quem é você?
Mas Alayne não estava mais ali, voltou os olhos para os portões de seu castelo e abandonou-os. Suas pernas pareciam lentar e pesadas, como se atravessasse um oceano, mas era tão rápida que nenhum soldado Lannister a notou, enquanto os empurrava para chegar até as escadas do piso superior das muralhas. No alto, seu pai e Lorde Lannister observavam a folia. Ela mordeu os lábios, encarando o rosto sempre sério e indecifrável do homem que tanto amava. Ele nunca parecera fraco, pois nunca fora. Por que sentia que ele cairia a qualquer momento? Agarrou-o, envolvendo-o com força e lágrimas já rolando pelo rosto.
— Pai – sussurrou.
Mas não obteve resposta.
— Que bela filha tens, Lorde Lefford. – o leão sorriu, observando-a sem muita atenção. – Parece uma juba de leão, esta que tem na cabeça.
— Por favor, leve tudo – Lefford murmurou, envolvendo a cabeça de Alayne com os braços. Era sua preciosidade, uma filha que nunca o deixaria humilhado. Não como Lan deixara. – Fique com o castelo, o título, meus homens, toda a riqueza!
— Fizemos um acordo, Lorde Lefford, e eu não estou interessado em seus bens. Não todos. – ele se ajoelhou diante de Alayne e tocou seus cabelos. – Um Lannister sempre paga as suas dívidas. Mas... um Lannister sempre cobra as suas dívidas. Ficaremos para o banquete. Em homenagem ao meu filho, é claro. Espero que sua filha vista um vestido adequado. Ela não poderá escalar árvores com a mesma facilidade com que dança no salão, imagino.
E virando as costas, foi-se como se não estivesse ali de verdade. Micha Lefford soluçou, vacilando para trás, perdendo as forças de suas velhas pernas. Lan ergueu o rosto, cuspindo ainda a terra que havia engolido, junto do sangue e da dor. Ao seu redor, homens gritavam e bradavam, mas nenhum deles o olhava. Estavam todos balançando as bandeiras Lannister, com o leão em campo vermelho. Nenhum deles se importava com quem ele era ou o que havia acontecido. Tudo o que importava era o garoto Lannister e sua vitória. A humilhação pesou sobre seus ombros, estapeou-o na face com mais violência do que aquela que havia enfrentado no ringue. Buscou refúgio nos olhos de seu pai, ele não permitiria que se sentisse fraco. Mas não conseguiu que ele o visse, pois estava ocupado. Abraçava Alayna com a mesma dor que no dia em que perdera a sua mãe. Uma dor de perda tão grande...
Como se tivesse perdido o próprio filho.
— Quem era ela? – Rose voltou-se para o primo, suas sobrancelhas tão arqueadas e o sorriso tão vacilante que era difícil não imaginar o que ela estava imaginando. Kirian deu de ombros, procurando por seu arco.
— O que importa? Ela já voltou correndo para o castelo.
— É a sua amante? – a garota abriu o sorriso ainda mais, soltando uma risada. – Toque uma música para ela, Kilian!
— Eu só toco músicas para quem me importo. – ele a agarrou e rodou pela cintura, deixando que voasse com os braços abertos.
— Eu?
— Você.
— Deixe só Ellyn ouvir isso, ficará morta de ciúme.
— Você e ela também, espertinha. – Kilian a colocou no chão, sentindo os braços cansados. – Vocês e Anezka são as únicas que importam para mim.
Roselynn sorriu e correu para a trilha.
— Venha, vão fazer um banquete para Lorren!
O pátio interior ficaria cheio de barracas vermelhas por duas noites, enquanto os leões estivessem em Dente Dourado. Lorde Lefford não fora informado dos motivos daquela invasão, muito menos se poderia retornar ao círculo de aliados dos Lannister, ou se aquela derrota já os havia retirado da batalha. O orgulho de sua Casa lhe dizia para pedir por uma parte na guerra, mas a vergonha de seu filho o obrigava a permanecer calado, na ponta da grande mesa principal, onde o banquete era servido primeiro. Dez pratos de início, seis principais e quatro sobremesas, todos feitos às pressas e certamente sem nenhum capricho por suas cozinheiras. Os soldados Lannister eram homens comuns, mais despreparados que os de Dente Dourado, e agora Lorde Lefford percebia porquê o haviam desafiado para um duelo: não haveria chance em um confronto direto entre seus exércitos. Agora, no entanto, muitos de seus homens haviam trocado a lealdade para a causa Lannister, e a maioria preferia não carregar as bandeiras Lefford.
— Milorde – a dama Jeyne ajoelhou-se ao seu lado, com as mãos unidas sobre seu joelho. Era uma das companheiras de Alayne, com a mesma idade que a filha e sua sobrinha mais próxima, protegida de Dente Dourado desde que era um bebê de peito. – Alayne não está se sentindo bem e gostaria de passar a noite em seu quarto.
— Ela deve ao menos vir e cumprimentar nossos convidados. – disse, ainda mantendo o orgulho de sua Casa acima da vergonha. Até mesmo a doce Alayne sabia que a desgraça estaria manchando qualquer nota de seu belo rosto. Poucos cavaleiros olhariam para ela e veriam suas madeixas vermelhas. Estariam atentos ao fato de ser filha do Lorde daquele castelo e irmã do homem derrotado tão pateticamente.
Ao seu lado, Lan comia lentamente suas lentilhas.
— Sim, senhor. – Jeyne assentiu e se levantou.
Lorde Lannister abriu um sorriso amigável, enquanto a criada que o servia enchia sua taça até a metade com vinho bom da Árvore. O ardiloso leão mantivera seus assuntos longes da refeição, mas após experimentar o javali e o ganso, decidira por observar pai e filho, quietos e de olhos baixos. O Lannister compreendia o sentimento de ser uma vergonha para seu povo, ele fora sempre apenas um descendente de uma antiga famíia que perdera a glória, mas ao contrário da maioria dos humilhados, não era um covarde. Não se conformaria com aquela situação. Nenhuma vitória ou derrota dura para sempre, e por isso era preciso todos os dias lutar novas batalhas para retomar uma posição, gloriosa ou não.
Ao longo da mesa, sentavam-se também os filhos e sobrinhos de Lorde Lannister, agora definitivamente lorde. Seu primogênito e maior orgulho da noite recebia todas as honras dos soldados e senhores que vinham beijar-lhe a mão. Seus ombros carregavam um manto pesado carmesim e o gibão era dourado, costurado com diversos desenhos de leões rugindo em corte lateral, como o estandarte de sua Casa. Ao seu lado direito, estava sua irmã gêmea, também orgulho, embora apenas da família, pois somente eles conheciam a mente por detrás de toda aquela conquista. Ela não demonstrava rancor. Ao contrário, sorria ao vê-los dobrar os joelhos em frente a seu irmão.
E não esqueçamos dos demais, os gêmeos Rolland e Roselynn, devorando toda a comida e conversando com as damas de companhia e pequenos cavaleiros do castelo Dente Dourado, ambos criando tantos vínculos com cada um que quase pareciam os filhos de Lefford, ao contrário do vínculo fraco que Lan e Alayne conseguiam sustentar com ordens e poucas gentilezas. A família dos leões era muito mais dócil e amável.
— O que você acha, Kilian? – esquecemo-nos do lado esquerdo de Lorren, onde se assentava o jovem primo, de cabelos até os ombros, um gibão vermelho escuro e os pés batendo debaixo da mesa em compasso com a música do salão.
— É mesmo uma comemoração. – o primo respondeu, com seu sorriso amplo.
— Eu gostaria que seu irmão e Anezka estivessem aqui para ver. Que mamãe estivesse aqui.
— Eles estão muito orgulhosos, eu sei. E Lady Lannister também. Ela o vela no alto dos céus, junto da Mãe e da Avó.
— Avó? Você quis dizer o Estranho. Ele cuida dos mortos.
— Apenas dos maus mortos. – Kilian piscou – A Mãe cuida das boas almas das mães, junto com sua própria mãe.
— Os deuses são sete.
— A Velha pode ser a Avó – o moreno retrucou. – Ou podemos ter uma Avó que não sabemos, ela é fraca demais para aparecer. Talvez borde junto da Velha, quando não estão jogando xadrez.
— E a Donzela imagino que seja sua neta.
— Sim. Mas é uma avó que deseja que ela se apaixone por amor verdadeiro, enquanto a mãe a obriga a escolher o Guerreiro como pretendente, pois é forte e bravo. Mas a Donzela ama o Estranho, pois ele lhe recitou muitos poemas e canções que nenhum homem jamais ouviu.
Lorren bebeu um gole de seu vinho.
— Você deveria escrever as suas histórias, Kilian. Aposto que todos os templos as recitariam como se fossem reais.
— Eu prefiro que continuem comigo. Assim me torno valioso e interessante. – eles riram um para o outro, antes que outro soldado viesse prestar as honras a seu jovem senhor.
Kilian observava o banquete. As outras mesas estavam cheias e poucos dançavam no espaço reservado. A folia só começaria quando Lorde Lannister ou Lorren tirasse Ellyn para dançar, então todos teriam que acompanhar. Mas, até lá, riam e bebiam. Lorde Lefford e seu filho ainda em silêncio não erguiam os olhos de seus pratos e pareciam prestes a cair em prantos. Porém sua filha, Alayne, era um semblante reluzente e de completa autoconfiança. Sua beleza exótica e ao memso tempo simples conquistavam a atenção de poucos homens, que paravam por alguns segundos para contemplá-la. E assim também fora com Kilian.
Ele não costumava achar mulheres bonitas. Talvez fosse o fato de ter uma alma poética demais, era difícil não enxergar profundamente nas pessoas, ignorando seu físico. Raramente reparava nisso. Claro que sentia desejo, qualquer homen normal sentiria, mas era preciso uma prostituta seminua para excitá-lo, não apenas um rosto. Orgulhava-se disso, sempre que reparava os olhares famintos de homens comuns sobre mulheres bonitas, parecendo lobos atrás de carne, pensava em quanta sorte tinha por não ser um deles.
Mas sua queda, seu fracasso, sempre fora os cabelos vermelhos. Sua raiz Tully possibilitava ter contato com muitas pessoas ruivas, suas primas e tias, eram todas avermelhadas, mas também eram da família. Uma vez vira uma de suas primas mais novas tomando banho em um quarto, enquanto acompanhava Corynna para fazer alguma coisa. Não importava. Sua prima deveria ter treze anos, e ele dezesseis. Era um garoto criado com mulheres, e tinha mais intimidade com o lado Tully que com o lado Lannister. Vê-la em uma banheira não fora o problema. Mas ver seu corpo coberto de pelinhos e sardas avermelhados o deixou louco. Não pôde mais virar o rosto um segundo, de tão envergonhado que estava.
Vermelho era uma cor intensa, a cor da paixão, do sangue, da morte. A cor de todas as coisas belas, poéticas e que podem causar um sofrimento mortal. Era uma cor sedutora, sempre fora. E Alayne Lefford tinha o tom de vermelho que ele mais gostava: era quase como uma cereja, quase vermelho-alaranjado. Brilhante, intenso, puro. Seus cílios eram também vermelhos e seus lábios rosados contrastavam com o peso dos tons. As sombrancelhas chamavam a atenção contra a pele pálida, tão arqueadas e vívidas quanto o resto. Exótica, mas simples. Com um rosto retangular, um nariz um pouco grande e olhos mortos. Era o extremo de excitação e tédio. Kilian não conseguia decidir se a queria devorar, ou se a queria jogar fora. Mas que continuava sendo uma cereja, ah, isso continuava.
— Um momento de atenção, por favor. – Lorde Lefford se levantou, um pouco trêmulo e engolindo em seco. – Gostaria de apresentar nossos convidados da Casa Lannister e pedir uma salva de palmas.
O salão aplaudiu.
— Em segundo, também gostaria de anunciar que, a partir de hoje, a Casa Lannister é aliada da Casa Lefford, e por isso têm direito total de se hospedar na fronteira das Terras Ocidentais e Fluviais quando quiserem. O direito também se estende aos membros Tully das famílias de Kilian e Anezka Lannister. – ele respirou fundo, seus olhos estavam avermelhados e os dedos tremiam ao lado do corpo. – Por fim, esta aliança se unirá até o fim dos tempos, quando a linhagem desta Casa acabar, ou seja, nunca. E como voto de fé e de amor a nossos aliados e irmãos de Lannisporto, eu dou a mão de minha filha – ele ergueu o braço e segurou os dedos da menina, fazendo-a se levantar com a mesma elegância com que vinha se portando no banquete. – à um dos jovens da Casa Lannister.
Lorde Lannister se levantou. Ao seu lado, Lorren se remexeu na cadeira, incomodado com aquilo. E também Rolland, ambos os primos estavam apreensivos, pois agora seu pai escolheria a quem daria Alayne Lefford. E nenhum deles a queria. Kilian sentiu compaixão por ela. A aceitaria, caso lhe fosse oferecida, se isto significava manter as fronteiras das Terras Ocidentais protegidas contra os Tully, então faria. Não era segredo a ninguém que suas famílias iriam entrar em uma guerra, agora que apoiavam o Príncipe Exilado e seu tio era Mão do Rei Targaryen. Mas Alayne parecia saber de seu destino, e voltou os olhos exatamente para ele.
Kilian jurou ver seu peito subir e descer pesadamente contra o corpete do vestido.
— Aceito-a com muita felicidade em tê-la na família, Lorde Lefford. Creio que meu sobrinho, Kilian também se sentirá muito feliz em recebê-la como noiva.
Lorren suspirou e cutucou-o com o cotovelo. Todos no salão o encaravam, esperando ver sua reação. Era comum que os jovens saíssem correndo ou apenas abaixassem a cabeça, envergonhados, tristes, enfurecidos. Porém Kilian conhecia sua dívida para com o tio, sabia que ele era a sua única família e que seus primos eram seus irmãos verdadeiros. Porque todos os outros o abandonaram e o deixaram lá, em Lannisporto, para que pudessem se esquecer dele. Até mesmo os pais. Nunca recusaria um pedido de seu tio. Mesmo que isso significasse casamento. Não era um pedido ruim, na verdade preferia se casar a lutar em uma guerra.
Levantou-se, sorrindo.
— Como? Vocês perceberam que não pude parar de olhá-la? – ergueu sua taça, vazia, porém ainda uma taça. – Saúdamos minha noiva, Alayne!
Todos na mesa pegaram seus copos e brindaram. Alayne abriu um sorriso tímido e também ergueu a sua taça, porém seus olhos não voltaram a ele. Estavam perdidos na multidão. Seu velho pai e seu irmão continuaram o banquete até que se iniciasse as danças, então se retiraram para seus aposentos. Cansados da festa. Lorde Lannister também se foi um pouco mais tarde, levando consigo sua filha mais nova, Roselynn, que estava tão sonolenta que mal conseguiu andar sozinha. Rolland jurou que não a deixou beber mais que um copo de vinho.
Kilian sentia as palmas das mãos formigarem. Precisava de seu alaúde. Ou do arco. Ou de uma madeixa de cabelo ruiva. Olhou para Alayne, assentada na cadeira ao lado de Rolland. O irmão não havia conversado com ela, mas tampouco ela fizera esforço para isto. Rolland se divertia com os demais membros do castelo, e até mesmo aceitou dançar uma das damas de companhia de Alayne. Mesmo os criados pareciam felizes com aquele banquete. Ao invés de estarem tristes por seu senhor. Como os Lefford comandavam sua terra? Não pareciam muito adorados.
Ele se levantou e caminhou até a cadeira de Roselynn, agora vazia.
— Primo, deixe-me sentar ao lado de minha noiva. Gostaria de passar o máximo de tempo possível antes do matrimônio para conhecê-la melhor.
Rolland assentiu e se levantou, tocando o ombro de Kilian como se o consolasse masculinamente, e então passou para a cadeira ao lado. Alayne não se importou com o gesto e apenas abriu um sorriso rígido, com o queixo apontado para ele e os cabelos vermelhos alcançando o final das costas, soltos como raramente as damas permitiam ficar. Ele a venerava por tê-lo feito assim. Como o banquete era em seu castelo, ninguém a recriminaria se usasse roupas e penteados mais simples. No entanto poderia ser uma afronta, considerando que o banquete era em homenagem aos Lannister.
— Não nos conhecemos da melhor forma. Permita-me – ele segurou sua mão com suavidade e beijou-lhe o nó dos dedos. – Kilian Lannister, filho de Torren Lannister e Salyna Tully.
Ela novamente sorria como se fosse feita de gelo, como se fosse um grande esforço, e disse em uma voz alta e imponente, que os distanciou alguns centímetros, embora continuassem parados no mesmo lugar.
— Sou Alayne Lefford, filha de Lorde Lefford e Maryn Tully.
Sentou-se ao lado da moça, e ela petiscou um dos mariscos em seu prato. O fato de terem a mesma família das Terras Fluviais poderia torná-los primos distantes, porém ela não parecia sentida por aquilo. O seu lado Lannister deveria gritar mais alto para Alayne. E ela repudiava todo e qualquer Lannister.
Aquilo seria mais difícil do que imaginava,
— Nosso casamento será uma aliança para manter nossas famílias afastadas, você sabia?
— Ah, verdade? – a resposta veio sem interesse e repleta de indiferença.
— Sim. Os Tully estão apoiando a coroa, enquanto nós Lannister apoiamos o Príncipe Legítimo. A guerra acontecerá contra os Targaryen e talvez o Rei Valois, porém todos sabem que a mão do Rei é Namond. Ele não trairia Ayeres nem que isso custasse toda a sua família.
— Vocês estão envolvidos em uma guerra? – as sombrancelhas avermelhadas de Alayne se levantaram, um pouco de curiosidade surgia por trás de sua casca dura.
— Estamos, e será em breve a primeira batalha. Nos aliamos aos Tyrell, para defender o Príncipe Negro, e juntos destronaremos o Rei e coroaremos o seu verdadeiro herdeiro. Um velho debilitado e manipulado é melhor morto, e um jovem esperto e justo é melhor coroado.
— Isso é o que vocês dizem. – ela piscou, como se soubesse das coisas. Aquele jeito manhoso o deixou enamorado. Ver Alayne como uma possível paixão não era tão difícil. Ela fazia seu tipo, tinha uma personalidade difícil o suficiente para mantê-lo entretido, e não estava se jogando aos seus pés, a parte principal. – Quer dizer que posso me tornar viúva antes do ano acabar?
— Oh, lamento muito, milady, mas duvido que eu vá participar de qualquer batalha. Meus talentos estão a distância, com o arco. Como bem pôde observar na floresta.
Ela arregalou os olhos e então fez um sinal de silêncio com o dedo. Ninguém poderia saber que esteve na floresta em um momento tão importante quanto o duelo de Lan. E aquele Lannister, tão cheio de si e teimoso, estava se abrindo muito fácil para ela. Contanto todos os detalhes das suas alianças e estratégias. Era quase como se pedisse para ser traído. Poderia contar tudo isso ao Rei, mandar uma carta ao seu primo Namond ou mesmo Coryna. Não importava. Ela poderia sabotar toda a chance dos Lannister de vencer, e tinha essa arma em suas mãos graças ao seu noivo estúpido.
— Então, eu espero que a minha noiva vá guardar segredo das coisas que lhe contei, pois seria ruim para todos que algo chegasse aos ouvidos errados. – ele sorriu e piscou.
Cretino! Agora não sabia se o que ele dissera era verdade ou se estava tentando enganá-la para ganhar sua confiança e enganar seus inimigos. Não duvidava em nada do que ouvia por aí, de bardos e cantores: Kilian, o Belo, tem dedos de querubim e toca alaúde como se o fizesse para a Donzela, cativa qualquer coração virgem e tem a docilidade de um suspiro. Esse tal de Kilian era mesmo “o belo”, ao menos nisso havia conseguido algo que prestasse. Mas não estava se saindo bem em cativas o coração virgem, e não parecia dócil como um suspiro. Alayne se perguntava que tipo de homem ele era. Sem espadas, sem terras. Seu casamento seria mais ligado à Casa Lannister e à aliança de seu pai, que a adquirir algo no futuro. Viveria sempre nos favores de Lorde Lannister e seus filhos não seriam mais que cavaleiros ou Senhores pequenos. Ela não esperava muito, sendo filha de um lorde pequeno, porém não queria viver às custas de ninguém, muito menos um Lannister.
— Por que odeia a minha família? – ele perguntou, quebrando o curto silêncio que se instalara ali.
— Eu não odeio.
— Ah, odeia. E não adianta dizer que não odeia.
Ela bufou.
— Eu não sei. Só não gosto de vocês. Vocês... entregaram as Terras Ocidentais. Entregaram-nos aos dragões. Meu pai me dissse que nosso poder já foi o triplo, éramos os mais importantes na mesa do conselho do Rei, porém ele nos abandonou sem pensar duas vezes. Abriu mão e cedeu.
— É assim que contaram a você?
— É assim que está nos livros. O último Rei Lannister se rendeu após deixar mais da metade de seu exército morrer para o fogo e as lâminas que cortam aço dos Targaryen. Ele foi um covarde, fraco. Desistiu após se sentir ameaçado. Fomos todos esmagados. E felizmente a sua Casa foi a mais rebaixada. É um pouco justo, ao menos.
Kilian nunca havia ouvido aquela história. Normalmente todos adoravam a sua família. Mas viviam muito em Lannisporto e pouco nas Terras Ocidentais para ouvir todas as versões sobre o último Rei Leão. Sua experiência com as canções dizia que sempre havia uma segunda via, de onde tudo poderia ser diferente.
— O rei não se rendeu. Ele cedeu pelo bem de seus senhores. Para que nenhum deles fosse punido quando perdessem a guerra. A derrota era iminente, e por isso ele preferiu que humilhasse a sua Casa, a deixar todos que estavam sob sua guarda passarem pelo sofrimento e miséria. Você deveria agradecê-lo por ainda ter um castelo, um título, uma família nobre. Em Lannisporto, nossa casa é apenas uma grande mansão, mas nada comparado a um castelo verdadeiro. Rochedo Casterly foi carbonizada e reconstruída pelos Nightingale, e até hoje está sob o domínio do Rei Rhomeo. Nós somos de sua terra, você deveria odiar os Valois, não os Lannister.
Alayne revirou os olhos, embora não estivesse retrucando. Ela realmente não sabia o que pensar. Apegara-se tão fácil a ideia de que havia um inimigo e ele não estava em maioria sobre ela... considerar o Lorde Nightingale como um inimigo era pior, ele era mais forte, iria acabar com Dente Dourado no menor sinal de traição. Seria isso o que aconteceria nos próximos dias. Talvez não imediatamente. Mas com o cerco, os meses, a falta de alimentos... estariam acabados.
— Nós iremos para Rochedo Casterly. Lá mataremos os Nightingale e retomaremos nosso castelo. Então ficarei quieto, com minha esposa, para ter filhos e ser útil a meu tio.
— Vocês vão enfrentá-lo de frente? É impossível! Serão dizimados.
— Nada é impossível – ele sorriu, esbanjando otimismo. Aquilo ofuscava, então desviou o olhar, assustada com a mudança do clima na conversa. É, talvez fosse mesmo dócil como um suspiro.
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