Notas iniciais
Olá, queridos. Preciso dar alguns esclarecimentos aqui: não sei se perceberam, mas eu estava voltando a ativa e de repente comecei a postar com intervalos de uma semana ou mais. Minhas férias acabaram e, com isso, recomeçou as minhas aulas de manhã e de noite, pois estou no terceirão e faço cursinho a noite. Minhas tardes são corridas, às vezes tenho de sair de casa, e ai fico o dia todo fora. Sem contar os trabalhos que tenho de correr para fazer. Nos sábados, tenho inglês a tarde e reunião na igreja a noite, por isso escrevo de manhã. No domingo tenho mais tempo livre, tirando o culto a noite. Então, peço que tenham paciência e esperem nos sábados e domingos por novos capítulos, e se eu não conseguir postá-los, por favor, não fiquem bravos. Não é o que eu gostaria que acontecesse, amo vocês. Boa leitura.

Lute, Ruja, Vença

Os homens esperavam pacientemente em frente aos portões de Dente Dourado. A subida pela montanha levara muitos ao cansaço, mesmo os animais descansavam sob a sombra dar árvores montanhosas, bebiam das veias da laguna Dourada e relinchavam se seu cavaleiro lhe esfregava a crina. Ellyn insistiu para vir, pois queria ver a conquista da Casa Lannister, não apenas ouvir sobre ela. Seus irmãos mais velhos nunca poderiam pará-la, e o pai não se opôs a tal desejo. Apenas a septã e Kilian pareciam incomodados com isso. Principalmente porque Roselynn decidiu vir junto e porque Lorenna ficara sozinha em Lannisporto. A jovem criança temia tanto as histórias de batalha que chorara implorando pela permanência da família a seu lugar de origem. Nada tinham de fazer com reis e senhores, nenhum homem deveria morrer, em sua inocente opinião. Que os deuses preservem sua bondade, desejava Ellyn, pois não podia compartilhar da mesma.

— Você está impaciente. – Lorren sorriu, o mesmo sorriso besta que significava algo profundamente tonto “Eu te conheço tão bem que poderia ser você”. E poderia. E deveria. Se ela fosse parte de Lorren, talvez o pinto lhe fosse útil e pudesse ganhar mais batalhas, do que esperar do lado de fora de uma. O pai entrara para tratar com Lorde Lefford há quase uma hora, e a demora deixava todos mais apreensivos. – Quer que chame Kilian?

— Se for para tocar uma música de guerra, talvez. – ela grunhiu, voltando a caminhar de um lado para o outro, os braços firmemente cruzados debaixo dos seios medianos. Ela ganhara um corpo de mulher, durante os anos em que esteve em Porto Real, e Lorren percebera isso desde o primeiro instante em que a vira. Ellyn achava desconfortável o modo como ele o tempo todo se desviava de seus seios, quando ela os apertava um contra o outro. Ela começava a pensar se não fazia de propósito, talvez para provocar. Nunca sabia exatamente quando queria irritá-lo ou não. Mas Kilian não se desviava, o que a fazia se perguntar se queria provocar em outro sentido. Não. Ela não era tão baixa. Não podia ser.

— Ellyn Lannister, você quer ver sangue e nunca machucou um homem.

Ellyn trincou os dentes e virou-se para o primeiro escudeiro que encontrou, enfiando seu sapato de couro no vão entre suas pernas. O rapaz guinchou e caiu de joelhos, curvado sobre a própria dor explodindo de sua virilha. Lorren sentiu como se a dor dele fosse sua e protegeu a intimidade com ambas as mãos. Sua irmã tinha um sorriso intimidador.

— Tudo bem, Ellyn Lannister, você já machucou um homem.

Ela riu, ignorando o garoto ainda se contorcendo. Ellyn não achava realmente impressionante chutar as bolas de alguém, talvez um pouco vulgar, mas ela não era uma dama da alta classe, ela fora criada em Lannisporto, o aterro de Rochedo Casterly. Todos os luxos que tivera se resumiram a comida boa e roupa nova. Ela com certeza era mais forte em caráter que muitas mulheres de seu sangue. E muito mais forte em vida que muitas pessoas de seu mundo. Ninguém a condenava por não temer a dor alheia.

Os portões se levantaram, com dois soldados armados de alabardas saindo para protegê-los. Senhor Lannister retornou, seus olhos pareciam cansados, seus ombros estavam caídos. Nada de um leão resplandecia em seu semblante, era apenas um homem abatido. Seus homens recuaram, surpresos com o aspecto de seu comandante, e principalmente os filhos. Roselynn correu até o pai e acompanhou-o em direção a Lorren. O rapaz roçou os dedos na mão de Ellyn e ela sentiu a conexão que mantinham desde o ventre: ele tinha medo. Segurou-lhe os dedos entre os seus e encarou o pai com determinação. Ambos sabiam o que vinha a seguir.

— Lorde Lefford aceitou os termos do duelo.

A tenda entre os dois exércitos foi armada no centro do pátio de Dente Dourado. Não eram literalmente exércitos, mas os homens de Lorde Lefford e os homens dos Lannister pareciam prontos para a guerra. Lorren vestia-se com a ajuda de seu escudeiro, vinha com a espada milenar da família, com o cabo de leão e lâmina de aço valiriano. Muitas vezes desejara usar a arma, mas nunca tivera oportunidade digna. A primeira vitória de sua Casa restaurada seria ali, sob a montanha dourada. O filho mais velho de Lorde Lefford também se equipava. Tinha cinco anos a mais que ele, era um homem de verdade, com uma esposa grávida e várias disputas em torneios. Não havia vencido nenhum, mas mantinha a dignidade. Eles se entreolhavam, desconfiados.

Ellyn atormentava os ouvidos de seu pai, falando o quão irresponsável poderia ser aquilo, ao mesmo tempo que elogiava a bravura do risco que corriam todos ali, dentro do castelo. A verdade é que não haveria espaço nas montanhas para um duelo justo. Lorde Lannister ouvia e observava seu filho mais velho, ele era muito mais forte e alto do que reparara. Na verdade, parecia ter o tamanho de um touro e ser tão forte quanto todos os seus homens juntos. Lorren herdara uma parte do sangue que não resplandecia nos Lannister há muitas gerações. Um sangue que dividia com Ellyn, ambos altos, esguios e belíssimos.

Orgulhava-se muito da prole.

— Acorde, Kilian, eu preciso da sua ajuda. – Roselynn estalou os dedos diante de seus olhos, despertando-o do torpor. O estojo do alaúde começava a pesar sobre o ombro, por isso colocou-o ao lado da perna. A prima esticava um brasão do leão Lannister em fundo carmesim intenso. Parecia incitar coragem a todos que o vissem, e ela insistira em agitá-la enquanto gritasse “Ouça me rugir!” para seu irmão, no centro do pátio. Rolland a ajudou em tudo, e agora segurava a outra ponta do brasão, seus olhos oscilando entre cansaço e diversão.

— Eu não vou gritar. – Kilian respondeu, simples.

— Ah, mas sua voz é tão boa para isso! – a menina bateu os pés contra a pedra. – Parece um trovão.

— Obrigado, Rose. Mas eu tenho dignidade. – E com isso, piscou um dos olhos, deixando-a com seu gêmeo.

Os primos tinham a sua própria maneira de lidar com os assuntos de família. Por mais que fosse um Lannister, Kilian não via seus irmãos há meses. Nem mesmo conhecia o paradeiro de Dorian, e nenhuma carta viera de Correrio nos últimos três meses. Seus vinte anos brilhavam como a aurora, e ele deleitava as cordas do alaúde, tocando por aonde ia. Sua alma precisava daquilo, assim como precisava de água. Mas não apenas de música e poesia vivia a sua mente. Ele tinha também as invenções para roubar-lhe roubar o foco, elas apareciam como ideias miraculosas em seus miolos, e de repente esboçava no papel, desenhava com números e tinha o protótipo funcionando perfeitamente.

Mas conforme se afastava dos soldados Lannister, dos primos e dos cavalos, não era isso que Kilian queria. Nem uma nota de música despontava em seu interior, ou qualquer ideia para entretê-lo naquele momento. Inspirava-se com o ardor e ansiedade da luta, da coragem que emanava dos ombros de cada homem ali. Passou pelos portões de Dente Dourado e começou a descida para a montanha, a floresta crescia ao redor da trilha larga na encosta. A vegetação montanhosa era muito alta, embora o relevo deixasse que muitas copas de árvores estivessem a altura de seus olhos. Viu pássaros entrando em ninhos, raposas correndo furtivamente por folhas secas, e encontrou um lugar para sentar, sobre uma pedra caída, grossa e com um pouco de musgo.

Tirou o arco das costas e tencionou a corda entre os dedos. Não trouxera flechas, pois não tinha alvos a atirar e não queria provocar mais instabilidade no pátio do forte. No entanto, gostava de tocar o arco como se fosse seu alaúde. Sentir a dureza e a força que a corda tinha, que o obrigava a usar mais força e mais dureza para encurvar a vergadura do arco.

Saira de perto de todos porque não gostava de ambientes como aquele. A tensão e a espera da violência. Tudo o lembravam de uma taverna descontrolada, onde os homens berravam canções obscenas que nada tinham de belas. Simplesmente não engolia.

Kilian era um ótimo arqueiro. E como um ótimo arqueiro, era um ótimo caçador. Espreitar a presa em silêncio, perceber seus movimentos com cautela, sempre foram talentos que ele tivera. Por isso não foi difícil perceber os movimentos a suas costas e o som de galhos se partindo.

Ele segurou o arvo com ambas as mãos, pronto para batê-lo no seu agressor. E então ela caiu bem acima dele, gritando e debatendo os braços e pernas nos braços e pernas de Kilian. A garota gemeu grave, um chiado de dor. A dor também se espalhava por Kilian, subindo o quadril em direção às costelas. Sobre seu colo, a estranha fora salva do impacto da queda.

— O que você...? – ele grunhiu, a voz estava um tom mais fina do que o normal, tamanha era a sua surpresa.

Ela apenas voltou a gemer de dor, esfregando seus joelhos ralados na pedra. Kilian não conseguiu deixar de olhar para o estado dela. Cabelos despenteados e emaranhados em ramos e folhas, braços arranhados, joelhos começando a sangrar, vestido verde de bom tecido que combinava com a cor ruiva de suas madeixas. A piedade o acometeu sem volta.

— A senhorita está bem? – a pergunta lhe soou muito ridícula assim que a proferiu, mas a menina não fez questão de respondê-la, ainda com os olhos muito fechados e a fina voz exprimindo sua angústia. – Moça?

Ela abriu os olhos, estavam marejados, num tom pastel de verde acinzentado que se encaixava com a pele amarelo papel e os lábios vermelho-morango. A jovem, de aspecto tão selvagem e ao mesmo tempo dócil, o encarou com uma súplica, e então com curiosidade, virando o rosto para o lado, na forma de uma pergunta, silenciou as queixas.

— Você não é a irmã Hyacinth. – sua boca ainda aberta numa inquisição.

— Não, não sou – concordou Kilian.

— Quem é você? – e com isso, seus olhos se arregalaram e ela saltou do colo do rapaz, colocando as mãos entre ambos. – Você é um Lannister!

Nunca ele tentou rugir como um leão.

Às vezes se perguntava por quê um leão, e não algo ainda maior, como uma fênix, que também era vermelha e amarela. Seus ancestrais foram reis majestosos, que lutaram até o fim, até a morte, para defender o seu reino contra dragões e bárbaros. Hoje descansavam na casa dos sete. Mas ainda queria saber: um leão?

Os leões correm atrás da sua presa. Eles vivem em bandos com várias leoas, e protegem seus descendentes e mulheres. As leoas saem para caçar e voltam com vida para alimentar a todos, os leões protegem contra outras ameaças. Um leão de verdade sabe que deve dar espaço para sua leoa, mas também sabe que deve proteger a todos do seu bando, mesmo que isso signifique morrer.

E continuava a se perguntar por quê um leão.

Lorren nunca se conveceu facilmente sobre essas coisas fundamentais. Os deuses são sete. Mas e se existir mais um e ninguém souber? Ele poderia se vingar de todos os homens por causa disso? A família é feita de um homem, uma mulher e seus filhos. Mas e se a mãe morrer? Deixaria de ser uma família? E se o pai nunca estiver presente para seu filho? Ele ainda será um pai? E quanto a estupros? Sua mente fervilhava.

Mas nenhuma de suas dúvidas mudou o fato de ser um leão.

Então ele foi para frente de batalha. Para aquilo que poderia exterminar a sua Casa para sempre ou fazê-la se reerguer das cinzas. Ele queria ser chamado de Lorren, a Fênix, se isso acontecesse. Sempre gostou de fênix. Mas essas eram questões para um futuro incerto, no qual não tinha o luxo de refletir agora. Ele estava lá, no castelo de Lefford, com um pequeno exército diante da majestosa força dos protetores do norte das Terras Ocidentais. Aqueles que protegiam as montanhas douradas. Lorren sabia que teria de duelar contra o primogênito de Lorde Lefford e que ele teria talvez o dobro da sua idade, tamanho e habilidade. Poderia morrer.

Então descobriu um dos primeiros fatos de ter um leão em seu brasão: leões têm coragem.

Eles ficam mesmo que signifique morrer. E se encontrou caminhando para o círculo onde o duelo aconteceria, ombros erguidos, espada desembanhada, escudo. Seu escudeiro logo atrás segurava uma espada reserva e outro escudo. Na outra extremidade do círculo, o filho de Lorde Lefford vinha. Pesado e carrancudo. Tinha barba grossa, fios de cabelo cinza no meio do castanho claro e rugas nos cantos dos olhos. Lorren queria acabar com ele.

Foi o primeiro a avançar. Estava possuído por uma antiga fúria que nutriu no fundo do peito, nas pequenas mágoas de quando Ellyn não estava lá para curá-lo. E era ainda muito cedo para a volta dela fazer efeito. Sua espada, aquela grande e brilhante, com o punho esculpido em ouro por um leão rugindo, encontrou o escudo de Lan Lefford. Se o oponente fosse mais novo e mais preparado, teria encontrado uma falha perfeita para um contrataque, aproveitando que a força que Lorren usou para atacar o seu escudo, retornava para ele e precisava ser contida com mais força. Esse desiquilíbrio deixaria Lorren indefeso pelo flanco. Mas Lan Lefford não lutava batalhas, ele duelava em torneios. Como um bom duelista, ele tinha classe. Mas não era um espadachim.

A força que Lorren jogou contra o escudo repercutiu por todo o braço de Lan e desestabilizou-o para trás, fazendo com que suas pernas vacilassem, e ele abaixasse o escudo levemente. Sua espada ainda estava apontada para o chão. E Lorren tinha o sangue em fogo. Não sabia quando vira aquilo, ou se fora intuição, a questão é o que fez em seguida. E durante todo o duelo. Jogou seu próprio escudo contra o topo do escudo de Lan Lefford, abaixando-o mais ainda e forçando o homem a se agachar, a cabeça rala aparecendo.

Neste momento, já havia retomado o controle do braço da espada e abaixou-a contra o ombro enlatado do outro. Sua armadura entortou, mas não gerou danos, o que não era o intuito. Lefford não conseguiu se reestabilizar com esta terceira investida, e novamente a oportunidade cantou nos ouvidos de Lorren em segundos. Era belo como tudo parecia certo quando lutava. Como se o mundo normal fosse um relógio muito lento, e o mundo em uma luta fosse o tempo exato para ser ele.

Descobriu que sabia rugir.

A série de golpes que desceu contra a impotência de Lan Lefford foi cruel e ao mesmo tempo belíssima. Todos que o assistiam viam ali um rei sem trono, mas com um cabelo louro de coroa brilhante e uma coragem de leão. Lorde Lefford via seu primogênito fraco e despreparado para aquele desafio e se perguntava onde estava o jovem galante que ele era nos torneios. Pois mesmo Lorde Lefford não sabia o que era um combate. Nenhum dos senhores das Terras Ocidentais precisara lutar por sua vida nos últimos duzentos anos.

Lorren rugia como um leão.

Sua voz se alternava entre os golpes, era um grunhido gutural e cheio de fúria, havia força até mesmo no modo como encarava os pontos fracos de Lan Lefford, como se todo o corpo do Lannister fosse uma máquina de pura energia, movida por uma mão invisível divina. Era a mão do guerreiro que o empurrava tão violentamente contra o seu oponente, e ele triunfava antes mesmo de desferir o ataque. Não defendeu-se uma só vez, pois não precisava. Mesmo se Lan Lefford tentasse acertá-lo, a força de Lorren era tão superior que não sentiria uma vibração sequer. Era um homem nascido para a batalha. E ninguém negaria isso.

Poderia despedaçar a vida do pequeno Lefford, mas não o fez. Em algum lugar de toda a sua fúria animalesca, havia a corrente da razão mantendo-o contido para não fazer nenhuma loucura.

Parou somente quando uma trombeta anunciou o término do duelo. Qualquer sinal de esperança de que os homens apoiassem a vitória de Lan Lefford foi desfeita em poucos minutos. Ele se encontrava no chão, braços abertos e peito ofegante. Seu escudo caíra ao lado do corpo, a espada estava dez metros depois dos pés de Lorren. O Lannister jogou suas armas para o escudeiro e retirou o capacete, deixando que todos vissem seu rosto debaixo da viseira de leão.

— Lorren Garra de Leão! – Rolland gritou, estava sob os ombros de outros dois homens, ele erguia alto a bandeira que Roselynn fizera, pintada com sua incrível arte que se parecia com o leito de um lago, uma imagem dos deuses. Os olhos de todos se impressionavam com o leão a rugir e as palavras transbordantes “Ouça-me rugir”. O irmão gritou novamente, e desta vez mais de seus soldados o acompanharam. Roselynn saltou os limites do campo de duelo e dançou alegremente ao redor de Lorren, seu vestido vermelho agitando a areia e terra solta sob as pedras do pátio.

— À Casa Lannister! – e a onda de gritos acompanhou a voz de Rolland.

Ellyn surgiu por trás de todos que vinham parabenizá-lo, ignorando Lorde Lefford ou a autoridade que tinha sobre seu castelo. O Dente Dourado não pertencia mais à Casa Lefford, pertencia a eles. Sua gêmea não saltava e ria como Rose, nem gritava com o punho erguido como Rolland. Ela não lhe deu tapinhas no ombro. Uniu-se a seu corpo num abraço intenso, permitindo-o de sentir seu coração acelerado. Lorren alinhou a sua própria adrenalina a ela e envolveu-lhe o corpo esguio como o seu, pousando o queixo na curva de seu pescoço.

Ela soltou-o, forçando-o a soltá-la também e segurou seu rosto. Os olhos vidrados nos dele. Agarrava suas orelhas com os dedos, a palma da mão quente sobre o maxilar largo e a barba rala. Prendia-o a um momento de calma e compreensão que talvez nunca outro homem pôde sentir na vida. Não um homem que não possuísse uma irmã gêmea, uma parte de si mesmo em outra vida. Uma elipse preencheu sua consciência, dando espaço a ausência de razão, e em meio-segundo Lorren soube que um complemento de sua alma era ela, Ellyn. Não parte dela. Ela inteira.

— Ouça-me rugir!

As palavras foram da irmã, e os homens acompanharam, num ritmo marcado, com vozes graves de homens guerreiros. Quando unidos, pareciam rugir de verdade. O hino dos Lannister soava perfeito em seus ouvidos.

E no alto da galeria, onde Lorde Lefford e Lorde Lannister assistiram ao duelo juntos, o mais velho abaixou sua cabeça, humilhado e envergonhado. Mas o leão encarava seus filhos, preenchido de orgulho.

{...}

Clarysse soltou o fôlego, sentindo-o pressionado contra seu ventre. Parecia um louco, sedento, com fome. Não parecia em sã consciência. Mas não importava, ele a tratava bem. Lambeu-lhe o pescoço, quando os beijos faltaram, suas unhas arranhavam de leve a pele de seu braço, deixando-a arrepiada e com mais desejo.

— Não podemos continuar com isto – ele disse, seus lábios perdidos entre os dela, grudando-se com firmeza.

— Não continue. – ela desafiou, com um sorriso brincalhão nos lábios. Mas ele não conseguiria, mesmo que os deuses dissessem que deveria.

Clary gostava de brincadeiras, e colocou a mão na frente de sua boca quando Wylis veio beijá-la mais. O rapaz parecia muito desapontado, mas seus olhos sorriam. A Stark soltou-o, jogando-o para longe e saltitando para as escadas da cripta. Seu esconderijo preferido para traições. O marido não notaria o sumiço, ele nunca notava nada em relação a ela. Desde o casamento e a consumação, só queria saber de tratados com seu pai e Porto Branco. Ambos muito preocupados com a segurança do Norte. Wilys era muito mais atencioso.

E não era um gordo babão.

Subiram as escadas, seus dedos se roçavam com afeto. O Manderly assobiava uma canção de amantes para ela, que lhe sorria com amor. Sim. Pela primeira vez um de seus casos resultara em algo mais que uma sensação estranha no ventre. Não apenas desejo (como agora Clarysse sabia ser), ela sentia seu peito vazio quando Wylis estava longe e uma completa satisfação e paz quando ele estava ao seu lado. Mas nunca conseguiram privacidade suficiente para...

Suspiro. Ela não queria ser esse tipo de mulher, de esposa, de mãe. Não tinha filhos ainda, mas não queria que eles soubessem de alguma reputação ruim sobre ela. E... se os tivesse... teriam de ser de Florence. Seu esposo e Wylis eram muito diferentes um do outro, embora as cores dos olhos e cabelos fossem idênticas, o seu senhor tinha gorduras demais e um físico fraco, enquanto o seu amado tinha músculos demais e um físico forte. Era provável que as sementes de Florence nem ao menos vingassem nela.

E esta era a sua segunda preocupação: Florence se mostrara desinteressado em manter as relações obrigatórias de casado. Ele se recusava a dormir mais de uma vez por semana em sua cama e normalmente se cansava antes de conseguir terminar. Era ela quem tinha de terminar, evidentemente. Uma grande humilhação, na opinião de mulher que Clarysse formara após o matrimônio.

Oh, e quantas mudanças! A começar pelo modo que a olhavam, como se não fosse mais a jovem e bela filha de Lorde Stark, mas uma mulher de quarenta anos, com rugas e peitos caídos. Apenas Wylis ainda prestava atenção nela como deveria. E Aryen. Mas preferia morrer a ter a atenção do irmão. Fugia dele em quase todo dia, esquivando de seus olhos. Contara a Wylis sobre seu caso com o meio-irmão e ele entendeu. Eram jovens, adolescentes, e pensaram que podiam apenas brincar. Mas Aryen não aceitou bem aquilo. Wylis sempre a entendia.

Ele estava sempre sedento por ela. Sempre pronto a ouvir suas queixas e lamúrias sobre o casamento, sobre a provável guerra no Norte e sobre seu irmão que voltava a cada semana com novas batalhas e novas vitórias, mas coberto de sangue, dor e uma esposa grávida esperando-lhe com impaciência. Todos se atentavam muito com Elyna, pois não desejavam outra esposa morta em Winterfell.

— Esta maldição é mesmo verdadeira? – perguntara-lhe Wylis, certa vez. Eles nunca haviam conversado sobre isso, mas estes assuntos voavam dentro das paredes do castelo.

— Não sei. Mas nunca falhou. – e lhe deu um sorriso amarelo, pois lembrava-se de sua mãe e da última Lady Stark, a mãe de Lily.

— Então você corre perigo?

Clarysse nunca parara para pensar se a maldição estava sobre sua família ou sobre as esposas da família. Brandon perdera todas as suas esposas, Poddrick perdera a primeira e agora estava casado a menos de dois meses com uma moça franzina. E se a maldição estivesse sobre ela também? Não se importaria se Florence morresse, talvez a obrigassem a casar com o irmão dele. Seu Wylis. Pensando nisso, apertou-lhe com força os dedos e virou-se, depositando um beijo de surpresa sobre seus lábios. Wylis aceitou a surpresa e devolveu o beijo com um mais lento e mais intenso. Seu corpo prensou-a contra a parede da escada e entrabriu-lhe as pernas levemente. Ela sentiu-o segurando suas coxas, e carregando-a até acima de sua cabeça, com as panturrilhas ao redor de sua cintura e os cotovelos sobre seus ombros. O rosto de Wylis na altura de seus seios a fez corar.

— Eu a quero tanto, Clary – sua voz falhava de tensão. – Quero tanto tê-la em mim. Ter-me em ti.

— Não... – tentou dizer, mas a sua voz também falhava. Sem o menor pingo de convicção. Queria-o dentro de si, era a verdade. Queria isso, e queria que seus filhos fossem de Wylis, queria chamá-lo de esposo, queria ser Senhora de Porto Branco ao lado dele. Sussurrar-lhe canções à noite, abraçá-lo sem medo na frente de todos. Mas não podia. Não devia.

Suas mãos, segurando-lhe as coxas, subirm mais, encontrando suas nadegas e, sem interlúdios, apertando-as. Clarysse bateu com o punhou em seu largo ombro, as mãos dele se afastaram rapidamente, compreendendo.

— Não force, Wyl.

— Você não me quer? – Oh, a sua voz, tão suplicante! Deuses, o que farei? Se vacilasse agora, não voltaria nunca atrás, iria até o fim. E continuaria até o último fôlego de sua existência.

Desvencilhou-se dele, voltando a pisar o chão. As escadas irregulares das criptas pareciam muito geladas agora. Wylis encarava o chão, talvez com desgosto, talvez com raiva. Mas tudo se dissolveu quando ela lhe segurou o rosto cheia de ternura e disse, num tom meigo:

— Você é meu, e eu sou sua. Por favor, espere por mim.

E subiu as escadas correndo, tendo a certeza de que quando voltasse, Wyl ainda estaria ali.

O cavalo de Bryanna estava com uma das patas machucadas. Era apenas uma leve contusão no joelho, e o estábulo de Torrhen cuidava bem dele. Enquanto acariciava seu focinho, ela observava os cuidados do cavalariço de um dos cavaleiros de Mestre Tallhart. Dentro da torre principal da fortaleza, o Mestre e Poddrick debatiam sobre as possíveis formas de prevenir o ataque dos homens de ferro na costa oeste. Seus navios haviam sido avistados dentro de um dia, próximos de Regatos. Tudo indicava que estavam indo em direção a Ilha dos Ursos, e Lorde Mormont fora avisado a tempo.

Ela nada tinha a ver com aquilo. Poddrick e Roddrick limpavam o Norte com a ajuda dos senhores, enquanto em Winterfell seu pai casava Clarysse com um fundo monetário alto e investia no dote de Lilyne com sede de armas para a guerra. Armas e homens. Ela viera até Praça de Torrhen para visitar Mestre Tallhart em nome do pai e acompanhar a viagem de seu irmão. Tudo indicava que a carta de seu pai para o mestre ofereciam uma patente como senhor de Torrhen e a mão de uma de suas filhas para seu herdeiro, um garoto de quatorze anos.

Bryanna o vira, mirrado e pobre, encostado em sua cadeira. O filho de Mestre Tallhart era aleijado de nascença, suas pernas atrofiadas eram escondidas por um cobertor de peles de lobo e seu rosto tinha sempre uma expressão muito severa. Como se reprovasse a má conduta de todos. Por isso, quando seus olhos se encontravam, Bryanna refletia sobre tudo o que havia feito antes, somente para ter certeza de que não cometera erros graves.

— Lady Bryanna – chamou-lhe um dos escudeiros no pátio. Ele parecia ofegante por ter corrido até ali. – Vosso irmão a chama.

Bryanna assentiu e despediu-se do cavalo com um beijo em sua fronte. O animal retribuiu tocando-lhe de leve a testa.

Se Poddrick a requisitava na torre principal de Torrhen, era um sinal de grandes notícias. Ou partiriam imediatamente para o sul, talvez para Regatos, ou ela se casaria com o filho aleijado de Mestre Tallhart. Sinceramente, a segunda alternativa era mais assustadora que ver os navios Greyjoy no mar.

Ela não queria julgar o menino por ser aleijado. Na verdade não via problemas nisso. Além dos problemas físicos óbvios que enfrentariam. Só não conseguia ver seu esposo tão mais jovem, com meros quatorze anos. Uma criança! Mas, se assim precisasse ser, que fosse. Estava disposta a servir sua Casa até o fim de sua vida, era o único sentido para a existência.

— Bryanna – o irmão a recebeu, seu rosto não era afetuoso, como nunca fora, nem mesmo conciliador. Parecia contrariado. – Eu e Mestre Tallhart temos boas novas para você.

Ela segurou a respiração, apreensiva.

— Você está noiva do filho mais velho do mestre – e então apontou para o outro lado da sala, onde misteriosamente se sentava um rapaz alto e magro, com cabelos louros e profundos olhos verdes. – Gilbert Snow.

{...}

Alezabeth encarou o irmão como num desafio, e ele lhe socou o peito sem gentilezas. Nunca a julgara inferior por seu sexo. Seu seio ardeu com o impacto, mas não causou maiores danos. Com a cabeça erguida, ela gargalhou, apontando a terra para seus homens. A manobra em Regatos fora perfeita. A noticia de que os navios se encaminhavam para Ilha dos Ursos deixaria todas as forças do Stark prontas para defender um ataque de cima, começando pela ilha, mas não encontrariam nenhum homem de ferro lá. Estariam todos em Dedo de Pederneira, tomando o Norte pelo sul.

Seus canhões começaram a disparar assim que Ornstein berrou a ordem. Ele sempre fora uma figura convincente, e até mesmo os seus próprios homens parecia ter mais devoção a ele que a sua capitã. Não se importava. Desde que no fim tivessem aquele castelo, todas as portas se abririam para eles. Regatos e Vila Acidentada eram seus aliados, e assim que Dustran invadisse Atalaia da Água Cinzenta, teriam o domínio de toda a região baixa do Norte. Winterfell receberia aquele ataque com mãos atadas.

{...}

Fora tirada da cela mais tarde do que o normal. Sentia isso porque normalmente aproveitava o momento para urinar no corredor. A bexiga, cheia, reclamava. Não urinou, porém, pois fora vestida e presa com correntes. Cortaram seus cabelos ralos e a arrastaram por todo o corredor, escadas e carro. No alto daquelas grades, sentia o calor do Sol pela primeira vez em... muito tempo. O povo de Porto Real viera vê-la e jogava-lhe tomates podres juntos de insultos muito baixos.

Sua boca, há muito tempo seca, estava muda. Não conseguia gritar para eles, talvez insultá-los também. Isso na verdade lhe era motivo de orgulho, pois sua boca continuara muda por todos os dias debaixo do castelo, até que fosse julgada como perda de tempo. A execução por desistência de seus inimigos parecia algo muito saboroso, era verdade. A corda que a enforcaria já estava amarrada no alto do pátio. Um banco debaixo dela indicava que agonizaria ao menos um metro acima do chão, apenas para que tivessem certeza de que não poderia sobreviver.

Tudo bem. Há muito tempo a morte parecia mais doce que um belo manjar dornês.

Eles a colocaram lá em cima, seu carrasco e o septão. Ele fez uma prece, para que sua alma fosse julgada com justiça, e para que o Pai soubesse o que fazer caso houvesse arrependimento. Pois todos sabiam que o pai tinha justiça e perdoava seus filhos, e que o crime de matar um rei era o pior de todos. Pior que a profanação.

Não importava.

Num último rompante de pânico, ela se agitou, contorcendo o pescoço para que não entrasse no laço. Sentiu os músculos mal exercitados em câimbra, e não evitou as mãos dos guardas enquanto apertavam firmemente o nó em sua nuca. O homem santo terminou sua oração. E a multidão prosseguia com seus cânticos.

Ela notou, então que havia os homens com as armaduras, o homem santo, o homem que lia sua sentença, o homem que segurava o banco. Muitos homens. Estava cercada de homens. Que engraçado. E no povo, chamava-na de bruxa. Feiticeira. Mas nenhuma menção a assassina, fatricida, até mesmo prostituta. Talvez o palavrado fosse muito baixo.

Queria gritar para eles, oh, como desejava gritar para eles, com todas as últimas forças do seu ser, dizer em alto e bom som, por mais que fosse morrer em seguida, apenas para que os deuses escutassem aquele fiapo de sua existência: Por favor, eu matei seu rei porque sou boa no que faço.

Mas a boca estava muda, o homem do banco puxou o banco, o homem santo agradeceu aos deuses por sua morte e os homens de armadura acompanharam o silêncio que se estendeu por toda a multidão.

Notas finais
Espero que tenham gostado. O capítulo ia ter bem mais coisas, como mais acontecimentos em Porto Real, Skagos e Winterfell, mas depois das partes dos Lannister e Stark, vi o número de palavras e corri para colocar o que era mais importante e conseguir postar hoje. Amanhã talvez eu consiga postar o que faltou. Beijos de Mellyne Saboia.