Notas iniciais
Graças a greve e a minhas aulas adiadas na faculdade, consegui escrever esse capítulo! Boa leitura.

Capítulo 52

DOIS FUGITIVOS DE VOLTA AO LAR

Não percebeu que encarava as mesas montadas no porto, seus olhos brilhando com entusiasmo. Nada parecia melhor do que a terra firme após tantos dias navegando de Jardim Suspenso até Lannisporto. A cidade continuava vibrante, como se lembrava. Cheiros, sons, texturas. Tudo que lhe remetia uma infância distante, antes mesmo de ter ido para Braavos. Antes de ter estragado toda a sua vida. Mas agora o peso da própria culpa não parecia mais esmagar seu coração. Sempre que olhava para o lado, via Dorian e se enchia de alegria.

Seu primo nunca levou em consideração aquilo que diziam sobre ela, provavelmente ninguém da família levasse os rumores como verdade, mas o que fora colocado em jogo era o nome de sua Lannister. Catherine não queria retornar para Lannisporto, nem imaginava morar em Rochedo Casterly. Seus maiores medos estavam sempre entre rever seu pai ou a irmã, Ellyn. Dorian sabia que estava sendo levada cativa, de volta a uma torre de onde não sairia até estar casada? Provavelmente seu primo não conhecia a proporção dos rumores dentro de Westeros.

— Milady, cubra vosso rosto — o comissário responsável pela estadia durante toda a viagem lhe indicou o lenço que lhe fora dado para esconder a identidade. Ficou tão absorta com a imagem das ruas estreitas e o porto movimentado de Lannisporto que não se lembrou que seus irmãos haviam provocado uma guerra contra o Trono das Flores.

— Obrigada, Heber — ela sorriu e fez como pedido.

Observando por sobre os capacetes dos guardas, Dorian Lannister não reconhecia os comerciantes que gritavam na praça e nas avenidas principais. Os órfãos e pedintes também pareciam diferentes e os fiéis mais devotos que o normal durante um Dia do Ferreiro. Não nutria nenhum afeto especial pela maior cidade das Terras Ocidentais, mas era triste perceber que havia mudado. O resto do mundo agora parecia ainda mais interessante e bonito.

Suas garras de combate pareciam luvas macias nos dedos. As armas comuns nas Cidades Livres sempre assustaram seus oponentes westerosi. Era ridículo como, com tantas formas de se matar e ser morto, os nobres se apegavam tanto a espada. Ele nunca conseguiu ser o espadachim que seu pai e o tio esperavam. Desde que era o primeiro herdeiro de Lannisporto, antes dos filhos Lorde Lannister, fora instruído para ocupar o lugar da Casa, se fosse preciso. Quando se tornou descartável, decidiu que daria sentido a própria vida e abandonaria todas as responsabilidades bobas que lhe eram colocadas contra a vontade. Partiu para o mar, junto de Catherine. Viu-a em Braavos antes de continuar sua viagem sem destino pelos mares. Se soubesse em que estariam se metendo, preferiria fugir completamente, sem manter contato com o tio ou os pais, levando Cath junto.

De todos que o irritavam constantemente naquela antiga vida de sobrinho do Senhor da cidade, Cath era a única das primas que nunca fora insuportável, sem aquelas risadas constrangedoras e palavras ácidas. Dorian nunca gostou de mulheres assim, na verdade não gostava de confusão e histeria, logo a grande vivacidade das filhas de Lorde Lannister que tanto parecia exótico aos outros lhe deixava exausto ao final do dia. Os primos também não eram poços de inteligência, suas conversas nunca passaram de assuntos bobos e preocupações irrelevantes. Talvez o maior problema fosse a criação que lhes foi atribuída em Correrrio. Ainda muito pequeno, seus pais discutiam entre qual das famílias deveriam ficar, Lannister ou Tully, mas o fato de seus parentes maternos ainda possuírem um título de lorde e um castelo favorecia muito mais a sua criação junto dos Tully. E a família de sua mãe nunca admitiu frivolidades e insubordinação.

Pensando nisso agora, quando ele e Kilian brigaram com seus pais e foram viver com os Lannister, o irmão também não gostara dos primos a princípio. Talvez, se fosse mais velho, continuaria a não gostar. Mas Kilian tinha… onze, doze anos? Ele aprendeu a ser uma criança ativa e a rir quando não se esperava que o fizesse. Em suas cartas, ele contava o quanto se sentia feliz em ter uma família ao seu redor, mas nunca mencionava o avô em Correrrio, morrendo lentamente em sua velhice, ou a tia Virya, que assumira o cargo de cuidar do lorde. Não falava de Namond, a Mão do Rei, nem de sua tia Coryna, que tanto cuidara deles quando eram apenas meninos. As primas, com quem sempre se envolveram muito, nunca foram citadas em nenhuma linha. Quando dançavam juntos nas aulas ou ao estudar as casas e a história de Westeros, nada disso parecia ser lembrado por Kilian.

Afinal, era muito jovem naquela época. Essas memórias foram ocultadas. Não poderia culpá-lo. Mas se ressentia um pouco por não ter sido tão imaturo naquela época. Suas convicções já eram fortes, ele tinha certeza de que boa índole e honra eram essenciais.

O mar o mudou o suficiente para saber que nunca seria um homem caloroso como seus primos, nem honrado e justo como seu avô queria. As poucas qualidades que pensava ter adquirido em sua criação foram deixadas em terra firme. Assim que atravessou o mar de Braavos para o desconhecido, rendeu-se ao que as marés lhe davam. Passou fome, ficou dias sem dormir em meio a tempestades, aportou em ilhas que não tinham água doce ou uma alma viva sequer. Comeu mais peixe do que imaginava ser possível, dormiu com prostitutas e mulheres comuns por todo o mundo, apaixonou-se uma vez, deixou-a, talvez tivesse um filho bastardo por ai, talvez alguém ainda se lembrasse de seu nome. Um marinheiro sujo, alto e westerosi.

— Meu capitão, o navio está seguro atrás dos rochedos ao norte. Devo ordenar aos homens que estoquem os barris e o óleo? — Seu primeiro navegador perguntou sorrateiramente conforme caminhavam, como se não estivessem conversando.

— Sim. Logo partiremos.

Ele assentiu e se foi, desaparecendo em uma rua tortuosa. A maior parte de sua tripulação era feita de homens livres e westerosi, mas Gonge era o único nascido na pocilga de Lannisporto e ele conhecia a cidade como se fosse seu quintal.

O plano era cumprir o pedido de seu tio, resgatando Catherine e levando-a até ele, para então desaparecer novamente antes que tentassem lhe empurrar algum título ou outra exigência.

Quando se aproximaram da estrada que levava até o castelo, pôde reconhecer alguns dos soldados que pareciam vigiar todo o trajeto, com cavalos e lanças erguidas. Eram homens comuns de Lannisporto que sempre estiveram próximos dos Lannister. Provavelmente seu tio os nomeara guardas e cavaleiros para honrar sua lealdade. Seria mesmo sensato colocar a honra acima do mérito? Poucos dos seus marujos foram selecionados desse jeito. Se desse um posto para cada homem que já havia salvo sua vida…

— Estão vistoriando os visitantes. — notou Heber, enquanto eles se aproximavam mais ainda. Um dos guardas ergueu os olhos e começou a caminhar em sua direção.

— Guarde a espada. Somos convidados — ordenou e então foi de encontro ao guarda, mantendo Heber e Catherine escondidos atrás de seus ombros. — Bom dia.

— Bom dia — o guarda esticou a mão — Estão trazendo carregamento? Posso ver o selo?

— Não somos pescadores — Heber trincou os dentes, mas se calou imediatamente quando Dorian o encarou em silêncio.

— Eu sou Dorian e vim a pedido de meu tio.

— Ah — o homem analisou seu rosto — E Dorian é alguém importante o suficiente para o tio pedir que ele viesse com mais dois amigos até a fortaleza do Senhor destas terras? Se não tem um selo, não pode entrar.

— Você não sabe quem eu sou? — estava começando a perder a paciência, mas conteve-se. Em Correrrio, todos os empregados sabiam o nome de todos os netos, bisnetos e tataranetos de Lorde Tully. Poderiam ser açoitados caso esquecessem um.

O guarda encolheu os ombros.

— Sou um homem mal-instruído, meu senhor. Minhas ordens são para não permitir a entrada de inimigos dos Lannister, mas não conheço nomes.

Ele parecia sinceramente envergonhado por sua tolice, então Dorian apenas bufou baixo e assentiu, como se fosse preciso um esforço de paciência para não socar-lhe a cara.

— Dorian Lannister, filho de Oster Lannister e Salyna Tully, neto de Lorde Tully e sobrinho de Lorde Lannister, irmão de Kilian e meio-irmão de Anezka Bolton… Espere, eu estou tentando lembrar se sou parente de mais alguém que você possa conhecer…

O rosto do guarda estava próximo do roxo e ele imediatamente chamou dois cavaleiros para darem seus cavalos ao sobrinho de Lorde Lannister. Ele e Catherine montaram nos cavalos, mas Heber preferiu caminhar, pois não gostava dos animais. Os guardas pelo caminho o observavam desconfiados, mas não questionavam a inspetoria da estrada. Os muros de Rochedo Casterly eram gigantescos, embora nunca tenham parecido pequenos ao longe. Os portões únicos estavam entreabertos, permitindo que apenas um cavaleiro passasse por vez. Ele e sua comitiva de duas pessoas entraram sem esperar ver as bandeiras vermelhas e douradas penduradas em todas as paredes. Ouviu o fascínio de Catherine e de Heber, que nunca estivera perto de tanta nobreza antes.

Francamente, Dorian se envergonhava de sua linhagem. Dizer todos os graus de parentesco que tinha para aquele guarda fora doloroso, principalmente enquanto um de seus mais fiéis comissários ouvia. Catherine talvez não entendesse ainda o quanto sua família nunca realmente se importaria com ela. Eles não se importavam com peças descartáveis, peças defeituosas, que não traziam tanto orgulho quanto precisavam. Seus primos tinham talentos e isso os favorecia, mas ele e Cath sempre foram as vacas mais magras.

— Senhor, prepararei o vosso banho — um dos meninos que pareciam ansioso por cumprir a sua função o puxava pelo pulso rudemente. Ele era magricela, parecia morto de fome e tinha uma das orelhas cortada. Já vira situações piores, mas ainda lhe dava náuseas pensar que tipo de vida tantas outras pessoas estavam vivendo agora, enquanto ele teria o seu banho preparado.

— Certo — concordou, mas puxou o próprio braço, pois ainda tinha dignidade. O garoto não esboçou reação. Catherine e Heber foram levados para outros quartos, onde receberiam o mesmo tratamento. Talvez Heber recusasse o banho, mas era provável que se aproveitasse um pouco da regalia.

A banheira não era grande o suficiente para ele, Dorian teve de encolher as pernas para se sentar e esfregou as costas com dificuldade. Não permitiu que nenhum serviçal lhe banhasse, pois não estava mais no patamar dos nobres. Ele não queria ser visto novamente como um deles. Lavou a cabeça mergulhando-a quando já estava fora da banheira e não se importou de reutilizar a água suja. O sabão tinha um cheiro agradável e pareceu correr todas as marcas e pequenas cicatrizes acumuladas durante as semanas no navio. Havia se esquecido de como sua pele estava bronzeada e cheia de rugas. Parecia muito mais velho do que realmente era, mas o sol cumprimentava assim os seus companheiros do mar. Vestiu-se apenas com as calças velhas e a camisa de linho branca que normalmente se vestia por baixo do gibão, escondida dos olhos. Os pelos de seu peito estavam longos, por isso cortou-os com uma tesoura e também raspou a barba no pescoço e ao redor da boca. Um pouco mais civilizado para encontrar seus parentes, não tão pomposo para se identificar com eles.

Mas não era tolo.

Quando permitiu que um pajem lhe trouxesse vinho e algumas frutas, o garoto o olho de cima a baixo antes de fechar a porta. Parecia impressionado com o “sobrinho pirata” do Lorde. Provavelmente Dorian incitava muitos sussurros pela fortaleza. Desde que esses sussurros vangloriassem sua força e coragem, seu tio não se importaria. Dorian não queria vê-lo e suspeitava que não seria recebido, quando um visitante importante vinha até um lorde, normalmente ele o recebia logo nos portões. A demora por qualquer notícia só lhe davam mais certeza de que era melhor deixar Cath sob os cuidados do pai e simplesmente ir-se embora, sem comprometimentos. Heber com certeza o xingaria por tê-lo tirado da fatura tão cedo, mas seria melhor para ambos.

— O mar parece fazer maravilhas nas pessoas.



— Não pensei que se importasse tanto assim — Kilian fingiu um sorriso tímido para a esposa e terminou de calçar as botas.

— Não pensei que fosse se envolver nesta guerra — Alayne o encurralou com os olhos, nenhum sorriso tremeluzia em seus lábios. O sono ainda dominava seus cabelos revoltos e a camisola descia pelos seios, mas ela não se importava com a aparência que tinha, não depois de duas semanas casada. — Você me disse que ficaria na fortaleza, cuidando dos negócios do seu tio.

— Os negócios de meu tio envolvem conversar com os nobres e espantar aqueles que se negam a reconhecê-lo como seu lorde. Eu vou voltar ainda amanhã, ou durante o almoço do dia seguinte. — prometeu sem olhar para ela, que estava revirando os olhos sem grande expectativa. — E além disso, quando meu irmão voltar com minha prima, ele será oficialmente o Senhor de Lannisporto e consequentemente o Castelão Protetor do Rochedo. As responsabilidades passarão para ele.

— Todos dizem que Dorian não aceitará o título.

— Provavelmente — Kilian concordou, mas tocou-lhe o rosto com ternura — Mas não podemos prever o futuro, doce. Volto daqui dois dias.

Alayne resmungou em concordância. Não podia fazer nada se aquela era a responsabilidade de Kilian. Ele deveria cumpri-la. Mas ainda se sentia muito incomodada. Não percebeu os lábios se comprimindo com os cantos para baixo, mas ele se inclinou e lhe beijou de surpresa a boca, deixando seu coração levemente acelerado e as bochechas quentes.

Ele vinha lhe surpreendendo todos os dias, com poucas palavras, algumas carícias cheias de ternura e sinceridade. Alayne começava a imaginar que estava se apaixonando pelo esposo, o que não seria desagradável, na verdade. Os Lannister não eram os monstros que imaginou, talvez eles realmente tivessem razão em toda a sua reinvindicação por Rochedo Casterly e as Terras Ocidentais. Afinal, foram os reis daquele lugar, uma vez. Kilian, também, era doce demais para ser ignorado. Ele não tinha apenas esperteza e raciocínio rápido, mas também um coração sensível e afetuoso que se dedicava a família com a mesma intensidade com que se dedicava a música. Às vezes passava o dia inteiro tocando e cantando, às vezes fazia questão de ficar sentado longas tardes na sala de costura, junto das primas, conversando sobre nada. Alayne imaginou que não teria espaço para essa vida boêmia e já preenchida pelos caprichos de Kilian, mas ele se esforçava para encaixá-la a tudo. Até mesmo sussurrou que a amava, uma vez, enquanto faziam… Bem, isso que os casados fazem.

Ainda tinha vergonha. Sentia-se estranha ao pensar no que acontecia, mas imaginava que seria assim com todas as mulheres casadas. Ela não imaginara se casar tão nova e ainda sentia que era imatura demais para isso. Todos os juramentos sobre dar continuidade a linhagem de Kilian e ser leal e conselheira, sempre ajudá-lo nos piores momentos e se alegrar com suas vitórias… não sabia se conseguiria se dedicar tanto a outra pessoa. Queria ser essa esposa perfeita, até mesmo orou para a Mãe lhe abençoar com essa dádiva, para que engravidasse logo e pudesse sentir o prazer de ser mãe, mas duas semanas eram um tempo muito curto para qualquer dessas preocupações ser sanada.

— Algum problema?

— Nada — respondeu de imediato, quase sem digerir a pergunta. Ele analisava seu rosto minuciosamente e não aceitou a resposta. — Só preocupações bobas.

— Não vou morrer, nem nada disso. — ele sorriu novamente e se deitou na cama, fazendo-a estremecer levemente, imaginando se algo aconteceria ou se ele apenas continuaria ali parado. Esses momentos eram os piores, na verdade. Quando Kilian entrava no quarto, ela não sabia o que esperar. Se ele exigiria alguma coisa ou não. Era o seu dever de esposa, mas ainda lhe dava insegurança. — É só o meu irmão.

— Dizem que ele é um pirata.

— Navegador — ele a corrigiu, brincando com uma de suas madeixas. Kilian adorava a cor dos seus cabelos, ele dizia que parecia como uma fogueira na floresta escura que aquecia um caçador solitário. — Marinheiro, no pior dos casos. Não nos odiamos.

— Seus irmãos são problemáticos. — disse, mas em seguia se arrependeu, pois não queria ferí-lo. Kilian ergueu as sobrancelhas e então suspirou, um pouco triste. — Desculpe, meu amor, não queria dizer…

— As pessoas não entendem minha família, mas é verdade. Somos problemáticos. Anezka e Dorian, até mesmo eu… Temos personalidades e histórias muito diferentes. Mas ainda os amo, são meus irmãos e eu quero vê-los. Nem que seja apenas por algumas horas, devo passar esse tempo com ele.

— Eu sei — Alayne sorriu — Fico feliz que sinta isso. Eu também adoraria rever Lan caso ele saísse em viagem por dez anos ou mais… Mas por enquanto, estou bem sem ele.

Kilian riu e beijou-lhe a testa, novamente se levantando. Então ele não queria nada além daquilo. Seu peito estava um pouco mais aliviado.

— Dois dias e estarei de volta. — prometeu pela terceira vez e despediu-se com um aceno.

Alayne afundou nos travesseiros e suspirou. Não conseguia entender os próprios sentimentos. Quando estava com ele, queria-o longe, mas quando ele se ía, imediatamente sentia saudades.



— Ellyn — fingiu não sentir os pelos de sua nuca se arrepiarem, o instinto de puxar uma adaga fez sua mão voar para a cintura, mas estava desarmado desde que entrara na fortaleza. A prima sorria, um sorriso com mais maldade do que amor.

— Querido primo Dorian. Você ficou longe por muito tempo. Eu ainda era uma criança quando você partiu e veja só como estou agora. Você também envelheceu.

— De fato se parece muito mais com uma mulher agora, do que quando tinha seis anos. — ele se lembrava da pirralha mimada e irritante que puxava seu cabelo longo e dizia que sua barba era espinhenta demais.

— Eu apenas vim lhe dar as boas vindas. É bom tê-lo de volta em casa.

Casa, como se aquela fosse a sua casa. A única casa de que se lembrava estava em Lannisporto, entre as inúmeras construções nos bairros baixos e altos. Não conseguia associar a sua vida com os Lannister àquela fortaleza. Rochedo Casterly provavelmente não estava acostumada a ser governada por leões, apenas as próximas gerações teriam algum lar. Mas Elyn caminhava pelo quarto como se todas as tábuas de madeira e blocos de pedra fossem sua propriedade desde o nascimento. Ela sempre fora assim, agora se lembrava. Algo que também o irritava.

— Obrigado. Você já viu Catherine?

— Quem? — ela piscou os olhos atônita e então franziu as sobrancelhas, com tanto desprezo quanto indignação. Dorian adoraria ter uma adaga, mas mesmo que tivesse, nada faria, pois ela era uma dama. Infelizmente, uma dama. E ele tinha bons princípios. — Ela está aqui?

— Seu pai me pediu para trazê-la, por isso vim.

— Ah, claro. Uma desculpa para te trazer até aqui — Ellyn revirou os olhos e voltou a sorrir. — Obrigada por escoltar minha irmã.

“Escoltar” não seria a palavra mais apropriada. Resgatar, sim.

Antes que precisasse tolerar qualquer outra gracinha da prima, outra pessoa entrou no quarto e preencheu-o até expulsar Ellyn do centro das atenções. Kilian estava vestido apenas com seu pijama e as botas, mas não parecia se importar com isso. Ele deixou o cabelo crescer e a barba também era muito aparente em costeletas bem aparadas, havia aumentado uns dez centímetros em altura e ao menos vinte quilos em peso. Parecia mais forte, mas ao mesmo tempo mais lento. Provavelmente não fazia muito mais que tocar e conversar o dia inteiro. Em Correrrio, ambos adoravam brincar nas praias e atirar com arco e flecha.

O abraço veio naturalmente, mais do que Dorian imaginava que seria. Kilian estava verdadeiramente feliz em vê-lo e percebeu que também se sentia feliz com aquilo. A semelhança entre eles era quase palpável agora, desde seu nariz anguloso, até as sobrancelhas naturalmente grosseiras. Ver um rosto tão parecido com o seu próprio lhe deu conforto de uma maneira desconfortável, uma coceira debaixo do coração. Não queria admitir, mas sentiu saudade.

— Irmão! — Kilian disse, simplesmente. Mesmo com a altura e a barba, ainda olhava para ele como se fosse um irmão mais novo dependente e bobo.

Sentaram-se e beberam vinho, comeram as frutas e as horas se passaram conforme um contava ao outro o que havia acontecido que não cabia dentro das cartas. Ele contou sobre as ilhas desabitadas que encontrou, onde não havia nenhuma espécie de comida que ele conhecia, também contou como salvou Catherine e a viagem até Lannisporto. Prometeu que traria um vinho de Essos para ele provar, um tipo de vinho que não se fazia com uvas, e até mesmo deu um dos laços que usava ao redor do pulso, tradição que trouxera de outra ilha ainda mais distante, em que as pessoas acreditavam que aquele laço as manteria mais próximas de seu deus e da proteção.

— A minha vida não foi tão animada assim — Kilian ria, suas bochechas avermelhadas pelo vinho e os olhos brilhantes de felicidade. Dorian sentiu que também estava sorrindo como não costumava fazer. — Mas sou um homem casado, agora. — e ergueu a mão, para mostrar a sua aliança especial.

— Você é o quê?

— Eu tenho uma esposa — Kilian apoiou o queixo sobre sua mão, parecia mais bêbado do que deveria.

O peito de Dorian se enegreceu imediatamente. Uma espécie de luto silencioso se formou sobre a felicidade de reencontrar seu irmão menor. Casamento? Com certeza fora obra de seu tio, para firmar algum acordo com a filha de um senhor importante. Esse tipo de história não era feliz. Deveria consolá-lo, pois nada mais poderia ser feito contra isso. A não ser se oferecesse levá-lo consigo em seu navio, fugindo de Westeros e da esposa. Talvez ele aceitasse, mas era provável que não. Kilian ainda nutria fervorosamente os seus valores de honra e justiça.

— O nome dela é Alayne, ela tem um cabelo tão vermelho e olhos perigosos — sua risada escapou feito a de criança. — Ela é pequena, mas fica bem nos meus braços.

Dorian o observou silenciosamente. Não parecia devastado. Isso poderia significar uma coisa boa. Deixou-o falar sobre como conquistaram Rochedo Casterly facilmente e do duelo de Lorren contra o irmão de sua esposa. Como esperado, Kilian adorava sua vida junto dos parentes e Dorian não se incomodava com isso. Ficava até feliz de não ter de se preocupar.

— Agora que o tio é lorde de Rochedo Casterly, nossa família assume a cidade de Lannisporto. — o irmão comentou, olhando para ele como se esperasse por algo.

— Devo desejar felicidades? — Dorian ergueu uma taça para ele — Esposa e título, numa mesma semana, isso deve tê-lo deixado muito feliz.

— Você é o irmão mais velho, Dory.

Uma apelido antigo junto de palavras dóceis. Evidentemente estava tentando convencê-lo a aceitar o cargo. Dorian revirou os olhos, como se isso fosse capaz de tirá-lo do mar.

— Nós dois sabemos que você tem servido a nosso tio com muito mais lealdade. O que uma ordem de nascimento o impediria de fazer?

— Ele quer a família junta — Kilian bebeu um gole longo de vinho e sorriu — E eu não quero Lannisporto.

— Sua esposa sabe disso? Aposto que ela não ficará tão contente em saber que seu filho não terá terras quando for herdar o legado do pai.

— Não use esses argumentos comigo. — o irmão sacudiu a mão, cortando a enrolação. — Nós somos herdeiros legítimos da cidade, nosso pai nos deu esse direito. Deveríamos honrar sua memória.

— Honre por mim — Dorian se levantou — Vou ver Cath, ela deve estar assustada.

Kilian assentiu e o acompanhou pelo corredor. Um dos criados informou que o quarto de Catherine estava ocupado com a visita do senhor seu pai, mas isso não o impediu de bater à porta e entrar. O recente Lorde Lannister tinha calvos cabelos brancos que mal lembravam sua imagem anos atrás, quando ainda era um homem terminando a meia-idade. Seus braços finos pareciam balançar ao lado da corcunda e ele tinha olhos muito cansados e velhos para alguém com apenas cinquenta anos. Do outro lado do mar, os homens envelheciam lentamente e as mulheres ainda tinham belos corpos e rostos aos quarenta. Ver uma figura tão degradada após anos de viagens lhe causou um pouco de espanto.

— Sobrinho — o homem sorriu friamente em sua direção. O cumprimento não se seguiu de um abraço ou demais palavras. Sua atenção parecia ser exclusiva da filha. — Como eu dizia, Cath…

— Eu entendi — Catherine assentiu e olhou para Dorian, contando silenciosamente que na verdade não tinha engolido tão facilmente o que quer que o pai tivesse lhe dito. Kilian sentiu o peso no quarto e pensou em ir embora, mas queria muito rever a prima, por isso escondeu-se atrás do irmão até que Lorde Lannister saísse, dando espaço para que os jovens se cumprimentassem.

— Catherine! — Kilian abraçou-a com afeto e não soltou até que ela lhe desse tapinhas nas costas. — Graças aos deuses nada de ruim aconteceu a você!

— Graças a Dorian, na verdade — Cath sorriu.

Dorian sentou-se e deixou-os conversarem. A mesma conversa que ele e Kilian tiveram algum tempo antes, mas sem a parte sobre a posse de Lannisporto. Ao contrário, Kilian queria saber o que Lorde Lannister havia dito a ela. Visivelmente Catherine se sentia melhor dentro da fortaleza. Seu cabelo ainda estava molhado por causa do banho e ela usava um vestido bonito e limpo. Nada comparado com as duas semanas a bordo do Vingança Púrpura.

Sentia-se grato por isso.

— Eu vou para a Campina, como dama de companhia de Lady Tyrell.

— Os Tyrell são muito gentis, você tem sorte. Rolland se casou com a irmã mais nova do Lorde e está muito feliz, ela e Roselynn são grandes amigas. — Kilian sorria, mas Dorian conseguia ver por trás do sorriso amarelado de Catherine que ela não estava feliz com a decisão de seu pai. Mal havia chegado em casa e já recebia essa notícia… Mas ele não deveria se preocupar com ela, aquele era o ambiente ao qual estava acostumada, de qualquer forma teria uma vida melhor com eles.

— Rolland também se casou? Eu não trouxe presentes para nenhum dos noivos — Dorian se levantou — Devo me adiantar e cuidar disso.

— Papai gosta muito de aproveitar a vantagem que está tendo para assegurar o futuro de seus filhos, então. Gostaria que ele arranjasse alguém para mim, logo.

— Você deveria passar essa mentalidade para Ellyn — Kilian disse — Ela recusa qualquer pretendente que não seja o príncipe.

Notas finais
Beijos da Mell!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!