Stormsea - Livro 1 [INTERATIVA, Finalizada]
43 Dias de Esperança e Reconciliação
Notas iniciais
DIAS DE ESPERANÇA E RECONCILIAÇÃO
Ela acordou quando os pássaros começaram a cantar em sua janela. Os raios de sol entravam pelas cortinas e iluminava seu leito, lençóis brancos, cachos dourados, seios nus. Puxou as o tecido imediatamente, suas bochechas ruborizando com as memórias da noite passada. Núpcias eram mesmo estranhas assim? Syerra nunca imaginou o que um homem e uma mulher casados faziam, mas pareceu-lhe bizarro. Até que Rhomeo a beijasse docemente os lábios e a acalmasse com suas mãos calorosas nos quadris e...
Não! Não podia lembrar essas coisas! Eram tão... constrangedoras. Oh, deuses, ela estava corrompida? Talvez estivesse se tornando uma esposa ruim, uma que gostava daquilo. Não podia gostar. Era imoral, completamente impuro. Devia gerar filhos o mais rápido possível para nunca mais precisar continuar naquela cama.
Tinha seu próprio quarto no palácio de Jardim Suspenso, porém Rhomeo insistira em anexar uma porta entre ambos, para que pudessem visitar um ao outro. Ela não entendera muito bem e aceitou, pois gostava de quando Elric dormia ao seu lado, afastando os pesadelos. M-mas... era para isso que Rhomeo queria a porta? Ela o observou com o canto dos olhos, ainda se martirizando. Seu esposo estava nu, coberto pelos lençóis transparentes e rodeado pelos feixes de sol. Os cabelos pareciam brilhar como ouro, os lábios entreabertos suplicavam um beijo. Syerra se negou. Em hipótese alguma iria beijá-lo assim! Tudo o que ela faria era cumprir seu dever de esposa e pronto.
— Majestade, bom dia. – a criada entrou despreocupadamente no quarto do rei. Ela era uma das moças responsáveis por ele desde pequeno e não se importava com cenas como aquela. No entanto, Syerra estremeceu e se escondeu entre os lençóis. – A senhora gostaria de tomar o desjejum em vosso quarto?
— Sim, por favor. – ela murmurou estridente, sem perceber o sorriso divertido da mulher.
Quando a porta voltou a se fechar, Syerra correu para fora da cama em busca de suas roupas. Não estavam ali. Seu vestido de casamento, com a longa capa dos Valois cheia de flores e beija-flores, o qual ela queria cuidar com carinho e passar para sua futura filha, havia desaparecido. Talvez a criada já estivese ali há tempos. Quanto tempo? O que ela teria visto? Sem querer seus olhos se voltaram para a cama, onde o esposo dormia o sono dos anjos. Ele moveu o peito de leve, respirando com suavidade. A cena a encheu de rubor e correu para a porta do quarto. Se a abrisse, estaria em seu próprio quarto. Lá encontraria um vestido, com certeza.
— Querida?
Voz rouca, movimento lento, cachos dourados. Syerra virou as costas para a cama e cobriu o corpo com os braços, da maneira que podia.
— Não olhe! – gritou com a mesma voz estridente e assustada.
— Perdão! – ele fechou os olhos, embora não tivesse visto nada além da janela ensolarada.
Rhomeo se lembrava vividamente da última noite. Era estranho tentar se imaginar fazendo o que tinha feito. Era ainda mais estranho saber que do lado de fora do quarto estaria os irmãos, seus senhores e damas de companhia para averiguarem que o ato havia sido consumado. Teriam conseguido ouvir? Corou levemente. As cenas vinham claras para sua mente. Primeiro no salão, dançando com Syerra. Ela estava linda, seus cabelos em cachos castanhos até o final das costas, os ombros a mostra, finos e delicados. Ambos haviam bebido vinho demais, talvez em preparação para aquele momento. E em seguida... nada. Não se lembrava como pararam no quarto, mas lá estava ele, com o gibão aberto e sua miúda esposa rindo feito uma criança.
Syerra subiu na cama e começou a pular, o vestido longo e pesado de casamento a fazia cair violentamente nos lençóis. E então... novamente nada. Estava já nu, beijando-a nos braços e nos ombros, ela dizia seu nome e soltava risadinhas suaves, como as dos anjos. E...
Novamente nada.
Mas a próxima cena... Gostaria de ter esquecido, mas involuntariamente se tornou ciente da cama, do corpo nu e da esposa. Virou o rosto de súbito, olhando para ela sem inibir nenhum dos sentimentos de desejo e paixão que afloravam em seu peito. Gostava de ouvir os suspiros e gemidos que ela fazia, eram tão delicados e finos. Gostava de sentir seu peito pequeno contra o corpo, ela parecia uma boneca de pano, macia e receptiva. Gostava de...
— Deuses – sussurrou, erguendo-se da cama e se envolvendo com os lençóis para esconder a vergonha. – Perdão.
— Vou para o meu quarto! – ela informou já correndo. Um vulto branco e de cabelos longos.
Quando o quarto do rei ficou em silêncio, ele soltou os lençóis e olhou para a cama. Estava completamente desarrumada, com os travesseiros no chão, o dossel pendurado em uma das pernas e o forro aparecendo, com couro duro. Pressionou as têmporas pois a ressaca começava a atingi-lo. Precisava de um banho e de roupas de cama novas. Respirou fundo e deu-se um puxão de orelha.
O que ela estava pensando de tudo aquilo? O que teria sentido? Rhomeo se lembrava de feixes do que havia acontecido, mas em nenhum momento parecia-lhe que ela estivesse detestando. Talvez fosse encenação, para que não se sentisse mal e fizesse o que era necessário. Aquilo o teria atingido em cheio de fosse verdade, nunca ousaria tocá-la de novo, mesmo que isso significasse sem herdeiros.
Mesmo que isso significasse?
Duvidava de si mesmo. Não conseguiria se abster depois de experimentar, sabia daquilo que não podia correr. Ophelya, Syerra, Layse... e ele. Jon. Não conseguia fugir de certas pessoas, elas o perseguiam mesmo em sonhos, mesmo a distância. Após os momentos com Jon, Rhomeo se perguntou se seria capaz de sentir prazer com uma mulher. Se seria capaz de se apaixonar por uma mulher. Gostara de Layse, mais do que como uma amiga de infância, e agora amava Syerra. Ainda não como uma esposa, talvez, ou como uma pessoa. Mas com certeza a amava como uma mulher. Precisava dela assim.
E o assustava a força daquele sentimento.
Tinha de conversar com Ophelya. Ela saberia o que dizer.
{ . . . }
As coisas se aconchegariam, enfim. Seria uma esperança perdida se acreditasse nisso? Ela já havia deixado de ter fé nas pessoas, era normal que perdesse a fé em todo o resto. Mas não tentava ser pessimista, pelo contrário, tinha de esperar por alguma melhora. Quão ruim as coisas podem ficar? Depois da guerra, talvez, voltasse a pesar isso, mas agora era a calmaria antes de uma tempestade. Uma noite os separavam da tomada de Rochedo Casterly e ascensão da família Lannister novamente sobre as Terras Ocidentais. Tinha de ser assim, pelo bem de todos e pelo bem de Otto. Os deuses que a perdoassem, mas ela mesma não conseguia culpá-lo por todas as traições que fazia. Em Campina, com seus lordes. Em Porto Real, com o príncipe e o rei. Com ela, tantas e tantas vezes... Os deuses deveriam pensar que era boba. Mas quem poderia nos perdoar, além da família? Depois de todos os erros que cometemos, somente um coração está sempre aberto...
— Milady Giselle, a senhorita está absorta em pensamentos – uma das senhoras que acompanhava seu esposo na missão Lannister se aproximou do tapete de Giselle Tyrell. Seu cabelo estava armado em tranças estupendas e violentamente escuras. Sua pele contrastava quase doentiamente em branco cadavérico. – Poderiam ser devaneios de amor? Tão comum nesta idade de donzela, eu mesma já suspirei por cavalariços, quando era da vossa altura.
— Não, Senhora Clifton, estou apenas me preocupando com meu irmão. Ele é um pouco intuitivo demais, embora goste de se imaginar manipulador.
— Homens são sempre intuitivos, Lady Giselle, disso posso falar. Conheço-os há mais tempo que vossa graça. – a mulher admirou brevemente o ar primaveril do bosque no sopé do Dente Dourado, onde estavam realizando o piquenique. A montanha inteira era cheia de locais escondidos para se fazer piqueniques, e as irmãs Lannister não paravam um momento sequer dentro da fortaleza.
— Algo mais que possa me contar sobre homens? – manter o diálogo a manteria afastada dos pensamentos sobre Otto. E sobre Asalan.
— Além de que fedem, bebem e são irrepreensíveis? Homens são a última coisa que a senhorita irá desejar. Infelizmente só nos informam isso depois do matrimônio... – e então ela torceu o nariz, como se falasse do filho de alguma criada desastrada. Giselle achou graça do comentário e riu.
Senhora Clifton lançou um olhar arrogante para as demais damas, assentadas em tapetes mais afastados. Todas analisavam o diálogo que Sra. Clifton tinha com a jovem e séria Lady Giselle, e nenhuma delas esperava que tudo terminasse naquele riso doce. Clifton empinou o nariz e continuou o resto da tarde ao lado da Lady. A conversa não saiu de comentários bobos sobre coisas bobas, mas divertiu Giselle de uma forma que não experimentava desde que... Desde que Otto pediu para atrair Betyne em uma armadilha. Ela nunca havia traído ninguém antes e lembrava-se de estar com medo. O que mais a magoava era ter sido Betyne, uma moça inocente.
Por sua culpa, ela foi raptada e seu pai foi assassinado.
Talvez não fosse com Otto que precisasse se preocupar.
Tinha de lidar com a própria culpa, não podia se esconder atrás de Otto. Seu irmão nem sempre escondia o que queria. Ela só não conseguia dizer não. Também não se achava fraca por isso, ela acreditava que sua família tinha laços complicados demais para serem explicados por contextos tão simples. Fraqueza ou falta de vontade não exemplificavam suas decisões. Giselle também não conseguia dizer sim para as irmãs menores. Não se lembrava de uma vez sequer que tenha concordado com algo que Rosemary ou Magnolya tenham dito. As duas pareciam tão... infantis e burras.
Era o seu ciúme que a deixava azeda. Sentia-o escorrendo pelo peito quando lembrava do pai. Ele nunca, sequer, importou-se em dar algum conselho sábio e digno para seus filhos mais velhos, mas era cheio de presentes e agrados com aquelas duas. Ela e Otto tinham de cuidar de si mesmos, muitas vezes um do outro. Otto fora o pai que nunca teve.
E isso explicava porquê não conseguia dizer não a ele.
A tarde passou num piscar de olhos e lá estava ela, sendo vestida para o último banquete antes da viagem até Rochedo Casterly. Escolhera um tecido leve, pois fazia calor, bordado de flores e em fundo verde claro, como o brasão dos Tyrell. Havia pequenas rendas nos ombros e cotovelos, para facilitar o movimento. Queria deixar os cabelos soltos, mas seria inapropriado. Deixou que as criadas os prendessem em uma rede dourada.
O salão de Dente Dourado estava a todo vapor. Ela viu banquetes em Porto Real e em outros castelos mais imponentes, mas o banquete da Fortaleza de Lorde Lefford era o mais impactante. Não havia música, nenhum bardo estava presente para acalmar os ânimos e o som dos gritos e risadas vinha de gargantas grossas de senhores e cavaleiros bêbados. Todos queriam seu último pedaço de graça antes da batalha. Ela conseguiu entrar através de uma câmara que ligava os quartos principais até o salão, deste modo evitou passar pelas mesas mais violentas.
A mesa de Lorde Lefford era dividida visivelmente entre Lannister, Lefford e alguns convidados especiais, como os Tyrell e Sra. Clifton. Otto vestia o gibão gêmeo de seu vestido, verde claro com o broche de flor. Assim que entrou, ele se levantou e a ajudou a se sentar em seu lugar, voltado para o resto do salão e ao lado direito de uma das filhas do Lannister. Ela era a quieta que não se aventurava tanto em irritar os outros. Giselle deu graças aos deuses por aquilo.
— Minha irmã está estonteante esta noite. – Otto falou, sorrindo plasticamente ainda segurando sua mão. Ela fingiu ruborizar e o rapaz ao lado do irmão soltou uma risada fraca.
Ninguém falaria “ela está sempre estonteante” ou “ela é estonteante”. Nem mesmo concordariam com Otto. Perto da maioria das donzelas daquela mesa, Giselle sentia-se uma camponesa com cara de cavalo. Seus cabelos louro-palha também não se destacava e o queixo fraco a denunciavam. Nenhum vestido, o mais belo ou rico que vestisse, a tornariam estonteante para aquele banquete. Talvez ela nunca fosse estonteante. Mas quem precisava ser quando estava prometida ao herdeiro do trono?
Asalan...
— Pare de pensar nele – Otto sussurrou.
— Eu não estou pensando.
A menina ao seu lado virou a cabeça com as sobrancelhas erguidas.
— Pensando em quê? – sua voz era quase idêntica a da princesa Beata, com as mesmas notas de inquisição e impetuosidade que Giselle tanto detestava.
Faltava mansidão em certas almas.
— Meu prometido. Ele está... com problemas na família. Quer receber o título de seu pai, mas a irmã insiste em dizer que o título pertence a ela.
A Lannister sorriu com deboche.
— Uma irmã está incomodando o seu prometido? Ele não parece muito promissor. – seu comentário foi ofensivo, mas sua expressão era a de quem gostaria de continuar o diálogo. E Giselle sabia engolir a própria irritação.
— As coisas ficam mais complicadas quando a herança é um trono. – Giselle não aguentou a vontade de soltar o comentário e o disse como uma criança que conta uma ideia fantasiosa. Para efeito, a garota arqueou novamente suas sobrancelhas douradas e abriu a boca para dizer, mas não disse. – O Príncipe Negro, Asalan.
— Quem?!
— Asalan Targaryen, o exilado. Meu irmão está apoiando a causa...
— Eu sei disso! — por algum motivo a reação da Lannister estava fora de controle e Giselle se perguntou se havia ido além do bom-senso. Só queria deixá-la um pouco impressionada... – Ele não pode ser o seu prometido!
— Por quê? – a pergunta foi das mais infelizes para se fazer. Todos na mesa já estavam olhando para elas.
— Porque ele é meu— Ellyn quase bateu o punho contra a mesa, porém se deteve no meio do ato. Seus braços tremiam e ela sentia o rosto ardendo de raiva. Ergueu o rosto e percebeu que todos a encaravam.
Levantou-se num so salto e correu para a saída do salão, através das câmaras. As lágrimas já começavam a rolar pelo rosto. Não queria admitir o que havia feito, por mais infantil e tolo que fosse, Ellyn Lannister sempre tinha uma justificativa ou um intuito. Mas explodiu, na frente de todos, na frente do pai e de Lorde Tyrell. Ela havia gritado com a irmã de um lorde, com a provavelmente futura rainha de Westeros. Onde raios estava com a cabeça? E por que, raios, havita dito aquilo? Sentia-se tão envergonhada, como se estivesse novamente com doze anos. Aprendendo a ver tudo.
Estava iludida com a própria vontade de mudar que havia se esquecido do resto do mundo. É claro que Asalan poderia receber propostas enquanto estivesse solteiro. Na verdade, a aliança com os Tyrell não pareceria tão sólida sem um laço mais profundo que a afinidade. Um casamento! Ellyn fechou a porta do quarto com força e despencou na cama, tentando se livrar do tamanho da sua humilhação.
Queria seu irmão ali, para dizer que ela estava agindo feito uma criança e mandá-la ir pedir desculpa à Lady Giselle. Mas Ellyn sentia tanta... raiva! De Asalan, sim, por nunca mandar nenhuma carta, e de Lorren por ser tão forte e nunca ter tentado nada antes. De Kilian, pelo que havia dito aquele dia, no pátio, e de Roselynn por fazer amizade tão rápido com aquela Tyrell prometida a Rolland. Mas agora a maior raiva que sentia era de Giselle.
Desde que ela chegara, há três dias, não havia outra coisa na fortaleza além de Lady Giselle, Lady Tyrell, Milady, Lady, lady, lady! Ellyn sentia tanta raiva em ouvir aquele título sendo difamado por todo lado!... E depois veio a disputa das damas para ver quem receberia a afeição da “lady”. E é claro que ela era a única que percebia tudo aquilo. Aquela garota de nariz empinado e cabelo de palha olhava para todos de cima e gostava de ser paparicada! Ela era tão arrogante! Enfurecia-se só de imaginar alguém assim sentado ao seu lado na mesa.
Mas não! Papai tinha de ter separado os lugares daquela forma!
Havia lidado tão bem com o começo da conversa, tinha sido educada, muito educada. Tentou não entediar a “lady”, tentou não ser ignorante para a “lady”. Para quê? Para ela dizer que Asalan era dela? Talvez fosse tudo mentira, só pra deixá-la ainda mais irritada. Só podia ser! Ellyn queria encher de socos a cara torta daquela loira pálida e sem graça!
Nunca pediria desculpas, nunca.
Nem se Lorren aparecesse de joelhos e se curvasse prometendo fazer todo mundo chamá-la de Lady, mesmo depois de casar.
— Ellyn? – as batidas na porta eram de Lorren, mas a voz era de Roselynn. Não queria nenhum dos dois ali.
— Não estou!
— Ah, claro, desculpa. Volto mais tarde – Rose abriu a porta lentamente e a observou estirada na cama. Com certeza seu cabelo já estaria arruinado.
Lorren realmente vinha junto, ele fechou a porta e deu permissão à outra irmã para que entrasse no quarto. Como se o quarto fosse dele. Ellyn detestava aquela coisa de não pertencimento entre eles, como se dividir um útero fosse o suficiente para tornar tudo o que fosse de um, também o que fosse do outro. Com certeza Lorren não iria gostar de dividir a esposa com ela. O pensamento a fez rir e os irmãos a encararam surpresos.
— Você está brava – Rose disse com cuidado – ou louca?
— Talvez um pouco dos dois.
Lorren agachou entre seus joelhos, com os braços em suas pernas e a cabeça deitada entre as mãos. Ela começou a procurar o cachinhos duros que ele tinha no meio do cabelo liso. Era um passatempo que ambos adoravam e a ajudava a se acalmar. Mas visivelmente era ele quem saía ganhando. Roselynn se sentou no colchão, ainda preocupada em não dizer a coisa errada.
— Está tudo bem?
— Não – confessou.
— Algo que a gente possa fazer?
— Com um coração quebrado? Acho que não. – ela sorriu tristonha e deixou que a irmã a envolvesse num abraço curto. Lorren não moveu um músculo.
— Você é muito mais do que imagina para se importar com coisas assim. A Coroa nem é tão rica ou tão poderosa.
Ellyn só não entendia por que sentia tanta raiva.
— Tudo bem, eu estou bem. – resmungou, já tentando se livrar dos irmãos.
— Deveríamos voltar para o banquete? – Rose sugeriu a Lorren, porém o rapaz continuou parado.
— Acho que isso é um não.
A irmã mais nova se levantou e deu de ombros, iria voltar ao banquete para dizer a todos que Ellyn se sentira mal e que havia se recolhido para estar disposta na viagem do dia seguinte. Quando fechou a porta, ficou alguns segundos olhando para ela e então pensou em Catherine, uma irmã que não podia mais contar. Roselynn não sabia porquê se lembrou de Catherine, mas tudo o que conseguia passar por sua mente agora era o momento em que Cath subiu no navio e se despediu para ir até o casamento do Rei.
Todos estavam lá e lamentavam a partida da irmã. Menos papai e Ellyn. Eles olhavam o navio, desejando que afundasse no meio do mar. Enquanto voltavam para a casa em Lannisporto, Rose cometeu o erro de falar de Catherine enquanto Lorren e Ellyn trocavam cutucões e respostas ríspidas.
— Acho que estou com inveja de Catherine. Imagine como será um palácio de verdade?
Ellyn ergueu suas sobrancelhas ameaçadoras e riu com escárnio.
— Nunca mais fale esse nome na minha presença. Esqueça que ela é sua irmã. – ordenou, da mesma maneira autoritária que somente ela conseguia fazer.
Roselynn riu e olhou para Lorren, mas o irmão não sorriu de volta. Ele estava encarando o chão, tão submisso e fraco que ela mesma começou a se sentir fraca. O que estava acontecendo com eles? Desde a primeira faísca do plano de Ellyn para conquistar Rochedo Casterly, parecia que tudo mudava drasticamente na família. Pararam de ser eles mesmos e começavam a se parecer cada vez mais com um Nightingale. Mesquinho e esnobe.
Era esse o fardo de uma família nobre?
Enquanto voltava para o banquete, Roselynn mastigou as memórias e as próprias opiniões. Talvez fosse melhor para sua própria irmã que ela morresse em paz, durante o sono. Ninguém conseguiria aceitá-la se tudo corresse para a direção de Ellyn.
— O que você quer? – Ellyn perguntou a seu irmão. Ele parecia estar dormindo em suas pernas.
Conhecia Lorren por inteiro. Ele nunca esconderia nada dela. Mas... era a primeira vez que o via daquele jeito, tão passivo e quieto. Parou de acariciar seus cabelos e tentou erguer-lhe o rosto, porém Lorren forçou o queixo em sua coxa e se recusou a soltá-la, mesmo depois de contorcer-se toda. Desistiu, cutucando sua barriga com a ponta dos sapatos.
— O que você tem?
Não esperava uma resposta, não depois de tantas tentativas, mas inesperadamente o gêmeo ergueu os olhos azuis e eles estavam avermelhados. Suas bochechas também estavam molhadas e avermelhadas. Pelos deuses, isso sim é impossível. Por que Lorren estava chorando como uma criança?
— Eu quero você! – sua voz embargada se enrolou nas palavras. Era grave. Muito diferente daquela de garoto, quando se separaram pela primeira vez, para ir a Porto Real. – A Ellyn, minha irmã!
— Eu estou aqui! – tentou se defender, sem saber do quê.
— Não! Você não está! É outra pessoa que está aqui. Onde está a Ellyn? – ele a segurou pelos ombros e balançou-a, da mesma forma que fazia quando queria enfiar alguma ideia sensata em sua cabeça. – Por que você não me ouve?
Um lapso levou Ellyn de volta ao tempo, em um lugar que não queria estar. Quarto da mamãe, penteadeira cheia de joias ancestrais da família Lannister, espelho quebrado, papai chorando na porta do quarto.
E Catherine. “Por que você não me ouve?”, ela gritava, sufocando-se no próprio choro. “Por que você não me ouve?”.
Ellyn retornou ao momento presente, mas sentiu o peito afundando e o ar lhe faltando. Seus olhos se umideceram novamente e tentou esconder-los antes que as primeiras lágrimas escapassem. Lorren ainda a encarava e balançava. Estava com medo de encará-lo. Estava com medo de encarar tudo! Ela não sabia onde aquela Ellyn estava, havia esquecido-a há muito tempo. Talvez na Corte, talvez dentro de uma caixinha pequena, no fundo do coração. Não tinha tempo para procurar pela chave agora, tinha coisas demais para fazer. Lugares demais para ir, pessoas demais para lidar...
Enfiou o rosto nas mãos e começou a chorar de verdade, com gemidos e fungadas nada delicadas.
— Eu não sei! Eu não sei! – gritou de volta para ele. – Eu não sei!
— Ache ela, então! Ou você vai perder todos nós. – Lorren era cruel. Ele sempre foi maldoso daquele jeito. Dizendo as coisas que ela não queria ouvir, tendo tanta razão, sendo tão esperto. Ela queria chutá-lo com mais força, fazê-lo gritar no chão e pedir desculpas. Pedir clemência!
O que ela era?
O que estava se tornando?
— Desculpe-me... – ela tentou tocá-lo, mas as mãos deslizavam aleatoriamente pelo espaço entre eles e morria no próprio colo. – Não, perdoe-me.
— Você só quer tirar a culpa dos seus ombros, mas você não tem culpa. – ele respondeu. – Está magoando toda a nossa família. Inclusive papai e Catherine. Você não pode fugir das pessoas que te magoam, Ellyn. Mas também se torna o monstro daquelas que machuca. E você tem machucado muitas pessoas.
— Eu não queria.
— Isso não importa. Você não é uma criança inconsequente, você tem maturidade para saber o certo e o errado.
Talvez uma bofetada não doesse tanto quanto a verdade de Lorren. Engoliu, tentando levar junto o choro.
— Eu acredito em você, Ellyn. – Lorren a envolveu num abraço apertado e finalmente conseguiu tocá-lo para retribuir.
Ele lhe beijou a fronte e encostou-a em si mesmo, também controlando as próprias emoções. Havia dito o que precisava, Ellyn agora deveria ouvir e abraçar aquelas palavras. Estava depositando toda a sua fé nela.
E não queria estar enganado.

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