Storms Ahead

3 O sangue é mais espesso que água


(O sangue é mais espesso que água)

— Você se importa se nos sentarmos aqui? – Potter a encarou por menos de dois segundos antes de abrir uma versão cansada do típico sorriso com o qual Lily já estava mais do que acostumada e em seguida fazer um gesto com a mão.

— Fiquem à vontade. – respondeu, por fim.

Ela tomou o acento do meio para que a divisão de lugares não fosse muito desconfortável para ninguém. Já era pedir demais de seus companheiros para que compartilhassem a mesa com alguém da casa rival.

Lily, ao contrário da maior parte dos alunos de Hogwarts, nunca se importara muito com a divisão de casas. Ela sempre havia acreditado que era algo bobo e que, além de tudo, alimentava antigas intrigas desnecessarias.

Veja bem, não era que ela odiasse a forma com que o sistema funcionava. Ela amava ser uma aluna da Grifinória e acreditava que a competição pela taça das casas era algo razoavelmente saudável, principalmente quando se tratava de manter os alunos na linha. Mas o ódio mortal criado entre certas pessoas era simplesmente... Errado.

Após Lily ter assumido seu devido lugar, Potter continuou a encarando por mais alguns segundos, como se estivesse muito surpreso pela iniciativa dela para fingir que nada de anormal estava acontecendo. Embora ele ainda mantivesse aquele sorriso, Lily pensou, não pela primeira vez, que algo parecia muito estranho no semblante do garoto.

Como se o movimento em seu rosto não chegasse completamente em seus olhos – os quais, ela não pode deixar de notar, carregavam profundas marcas de olheiras.

Seu contato visual foi quebrado quando o professor Slughorn se aproximou de sua mesa e suspirou profundamente, olhando para James com um quê de pena e tristeza em seu semblante.

— James, meu jovem... – ele disse, mais baixo do que seu tom habitual – Eu preciso que saiba que estou devastado. Uma perda imensa para o mundo das poções, sem sombra de dúvidas...

Percebendo que os estava encarando por mais tempo do que socialmente aceitável, Lily balançou a cabeça e se virou para a frente da sala, tentando deixar isso para lá. Infelizmente, não era como se ela pudesse parar de ouvir uma conversa que se desenrolava exatamente ao seu lado.

— Muito obrigado, professor. – James respondeu com um tom de voz monótono e apático. Quase como se o típico James Potter tivesse sido trocado por uma máquina.

— Por favor, transmita minhas condolências à sua mãe. – ele continuou, e então tomous as mãos de James entre as suas por dois longos segundos, entre os quais Lily o sentiu se mexer desconfortável ao seu lado.

Slughorn deve ter notado também, porque ele apenas soltou mais um longo suspiro e se afastou, bamboleante.

Obviamente, o desenrolar de tal cena apenas a deixou ainda mais curiosa sobre o que quer que estivesse acontecendo ali – muito embora, naquele ponto, Lily já tivesse uma certa ideia. De qualquer forma, ela afastou aquilo de sua mente, porque ela nunca seria rude a ponto de se intrometer na vida do garoto, e então disse para si mesma que Potter provavelmente estava apenas cansado, mesmo que aquele só fosse apenas o terceiro dia desde que tinham retornado à escola, afinal, ela não tinha nada a ver com os assuntos pessoais (ou a disposição física) de James Potter.

E, de qualquer forma, se esse fosse o caso, sua exaustão era completamente compreensível.

É um fato mundialmente conhecido de que muitas coisas são melhores quando estão sendo admiradas à distância do que quando conquistadas. Todas as pessoas já passaram por essa experiência no mínimo uma vez na vida, mesmo que de forma tola e infantil.

Um grande exemplo disso é a escola: estar em casa é entediante, e cada segundo parece se arrastar como horas enquanto você está sentado no sofá, com o calor escaldante do verão lhe causando letargia. E então, você volta para a escola, e se torna um verdadeiro inferno.

Bom, ao menos era assim Lily se sentia atualmente. Nem ao menos uma semana se passara desde o retorno às aulas, e aquilo já tinha feito com que a garota estivesse contando os segundos para as férias de Natal. Ou para a hora de sua morte. O que viesse primeiro.

Quando os alunos da Grifinória receberam seus novos horários de aula, todos respiraram aliviados ao notar que, na maioria dos casos, teriam diversos horários livres durante alguns dias da semana devido ao fato de poderem desistir de algumas matérias após prestarem seus NOM's. Lily sabia que tal alegria não duraria tanto tempo e que aquelas horas vagas seriam a salvação de seus trabalhos atrasados, ou então uma hora de cochilo bem vindo após uma madruga insone, a qual provavelmente seria usada para finalizar uma lição da manhã seguinte.

Ela estava completamente certa.

O quinto ano era cansativo, mas o sexto ano em Hogwarts estava se provando a verdadeira definição de “pagar por seus pecados”.

Lily sempre tivera um pequeno truque para se manter minimamente interessada nas coisas que precisava terminar para a escola, e ele era: ter nascido trouxa.

Quando você cresce em um mundo completamente comum, acreditando que magia só existe em contos de fada, para então descobrir que muitas coisas nas histórias que ama desde a infância pode ser real, é possivel usar isso como um empurrão acadêmico. Lily sempre tentava se motivar pensando na quantidade de coisas incríveis e interessantes que poderia aprender se realmente se dedicasse aos estudos – mas nem ao menos isso estava lhe ajudando muito naquele momento.

Em um resumo, ela estava mais do que extremamente cansada quando desceu para as masmorras na quarta feira da primeira semana de aula. E nem mesmo a possibilidade de duas aulas seguidas de uma de suas matérias favoritas foi o suficiente para animá-la completamente.

O fato de que quando ela chegou na porta da sala ela teve um breve resumo do que a esperava para o resto do ano também não fora muito animador.

Como Lily esperava, mais de metade das pessoas de seu ano não tinham atingido as notas necessárias ou então haviam simplesmente desistido da matéria, tal como Roslyn e Sirius. Agora, todas as casas teriam aula durante o mesmo horário, e sua turma se resumia a cinco alunos da Corvinal os quais ela apenas conhecia de vista, um garoto da Lufa-Lufa que ela sabia se chamar Reginald, três pessoas da Sonserina, entre elas Artemis Selwyn – que era realmente uma pessoa adorável e alguém de quem Lily gostava muito, além de ser a namorada de sua melhor amiga – Severus Snape e um de seus amigos, Gregory Nott.

Além dela própria e James Potter.

Eles não tiveram muito tempo de conversar, porque o corpulento professor Horace Slughorn já estava andando para a frente da sala após ter sua conversa em voz baixa com James enquanto eles retiravam seus exemplares do Manual Avançado no Preparo de Poções de dentro de sua mochila.

— Não vão precisar de seus caldeirões ainda, não se preocupem – ele disse, o que, para Lily, pareceu um pouco óbvio, já que a sala estava repleta dos próprios caldeirões do professor, os quais soltavam fumaças distintas por todo o ambiente, tornando as imagens um tanto quanto turvas. A que estava mais perto da mesa que ela dividia com James e Ártemis tinha um aroma delicioso, mas ela não prestou muita atenção no momento.

— ... Claramente não estou surpreso com quem eu encontro por aqui. – ela pegou apenas metade da frase que o professor dizia, aparentemente ele não havia parado de falar desde o primeiro momento, e tal realização fez Lily sentir as bochechas esquentarem. – Bom, no sexto ano eu gosto de fazer uma coisa diferente. Vocês estão entrando em uma fase muito desafiadora agora, meus queridos.

Ele parou na frente da mesa de Lily, James e Ártemis, e então sorriu e suspirou, juntando as duas mãos na frente de seu corpanzil massivo.

— Vamos ao que importa. Eu queria que nós nos divertissemos um pouco hoje – Lily franziu o cenho, confusa – Como vocês podem ver, temos várias poções espalhadas pela sala, e quem conseguir descobrir o nome dela e seu efeito... Bom, alguns pontinhos para a casa estaria de bom tamanho, não acham?

Ele riu, batendo palmas, e então acenou para que os alunos de espalhassem e analisassem o conteúdo dos caldeirões. James, Lily e Ártemis se juntaram perto do caldeirão mais perto, o de cheiro gostoso.

Dali, Lily pode analisar que o líquido soltava gotas borbulhantes muito gordas e seu conteúdo era de um prateado que lembrava espelho líquido. Ela sorriu: a fumaça espiralada e fina deixava aquela brincadeira fácil demais.

Amortentia era conhecidamente a poção do amor mais poderosa do mundo. Se não estava enganada, Lily já havia lido artigos que diziam ser uma magia extremamente poderosa e perigosa: afinal, o amor é um sentimento tão único, tão singular, que seria incapaz copia-lo.

Um bruxo muito talentoso no preparo de poções poderia criar algum efeito mais duradouro e real, mas na maioria dos casos, ela apenas despertava uma ligeira paixonite obsessiva que poderia ser curada facilmente com um contrafeitiço simples.

— Então... – os olhos de Slughorn brilhavam, excitados, ao se aproximar de alguns de seus conhecidamente alunos favoritos – Devo perguntar o que vocês sentem?

Lily lambeu os lábios e prestou muita atenção no aroma que a fumaça tão distinta desprendia. De fato, era a coisa mais deliciosa que ela já tinha sentido na vida, e fazia seu peito doer com um sentimento desconhecido.

Era como se a poção tivesse cheiros diferentes ao mesmo tempo, mas ainda assim mudando muito rapidamente como um piscar de olhos. Primeiro, ela se parecia com algo que lhe lembrava biscoitos de gengibre no forno e lenha queimando lentamente, como o aroma que a sala de estar de sua casa sempre tinha durante todos os natais, com Lenore trazendo uma bandeja para a mesa de centro e Jude atiçando as chamas da lareira.

As lembranças foram interrompidas quando o cheiro da poção foi ofuscado pelo movimento de James ao seu lado, fazendo com que Lily desejasse que o rapaz não usasse tanto perfume durante as aulas em uma sala tão abafada e fechada como aquela.

O professor ainda os encarava, curioso, e a garota notou que talvez a poção de seus colegas tivesse um cheiro tão particular quando para ela, então, Lily forçou um sorriso no rosto e disse, de forma audaciosa:

— Será que nós devemos perguntar qual cheiro ela tem para você, professor?

O rosto de Slughorn assumiu um tom tão vermelho que ela nem ao menos acreditava ser possível, mas ele deu uma grande risada.

— Astuta como sempre, Lily. Você nunca muda... Nem um pouco – ele suspirou e então, após lhe lançar mais um longo olhar carinhoso, como um pai cheio de orgulho, ele se virou para instruir seus outros colegas de sala.

— Nós deveríamos dar uma olhada nas outras poções –Ártemis comentou, baixo, com o que Lily concordou com a cabeça e se virou para James, pronta para chamá-lo para ir até a próxima mesa.

Ele estava parado e observando atentamente o conteúdo dentro do caldeirão, parecendo hipnotizado pelos reflexos de luz lançados pelo brilho cintilante do líquido. Lily estendeu uma mão e tocou o braço de James muito suavemente, quase temerosa.

— Potter...? – James pulou no lugar e se virou para ela, parecendo surpreso – Você está bem?

Ele levou mais cinco segundos até balançar a cabeça e olhar por cima do ombro de Lily, notando sua outra parceira de tarefa na ponta dos pés para enxergar o conteúdo que Nott parecia querer manter os outros alunos afastados, como se tentasse obter alguma vantagem na lição.

— É, eu estou bem. – James respondeu finalmente. – Estou ótimo. Vamos terminar essa atividade de uma vez.

Sirius Black não estava com energia para se preocupar com qualquer coisa naquele momento.

Entre as aulas e o quão bagunçada sua vida se encontrava, tudo o que ele não queria era abrir seus olhos e não precisar ir para a aula de Estudo dos Trouxas em... Vinte e dois minutos?

Ele suspirou pesadamente e abriu os olhos, vendo o rosto mais que familiar um de seus melhores amigos flutuando logo acima de sua cabeça.

— O que foi? – ele perguntou, direto e sem rodeios.

— O que foi o que? – em sua defesa, Remus realmente parecia confuso.

— O que foi? Você está estranho – encontrando forças que não sabia possuir, Sirius se pôs sentado no sofá e encarou Remus do outro lado do móvel, inquisitivo – Desembucha.

O rosto de Remus tomou um tom suave de rosa e ele desviou o olhar de Sirius, atiçando ainda mais a curiosidade do rapaz em relação a o que quer que o amigo estivesse escondendo.

— Moony...?

Remus bufou e então encarou Sirius diretamente nos olhos, parecendo derrotado.

— Tá, certo... Tá bem... – ele pigarreou e então continuou: – Lembra da primeira noite de volta? Quando eu e a Evans tínhamos um turno para fazer?

Sirius franziu o cenho, confuso.

— Claro. Você voltou todo estranho e então disse que não tinha...

— Eu menti.

Sirius riu e revirou os olhos.

— E isso deveria ser uma surpresa? – ele provocou, dando um breve sorriso de lado – Você é um péssimo mentiroso, Moony.

Contudo, diferentemente do que ele esperava, Remus não respondeu à sua provocação com nenhum comentário ácido e nem ao menos um sorriso sem jeito. Ao invés disso, ele manteve um olhar sério e firme no rosto de Sirius.

Ótimo. Mais desgraças para a pilha de merda na qual sua vida se encontrava.

Remus suspirou profundamente antes de continuar. Ele ainda tinha os olhos cravados aos de Sirius, e em seu rosto, aquela expressão determinada e séria.

Sirius não gostava daquela expressão. Ele não gostava de seriedade. Tudo o que ele queria era um longo ano de paz e tranquilidade, mas talvez aquilo fosse pedir demais do universo.

— Durante a nossa ronda, quando já estávamos quase voltando para a torre da Grifinoria... – ele estava enrolando. Sirius sabia disso porque, por apenas um segundo, ele desviou o olhar e estralou os dedos – Nós encontramos um grupo um tanto quanto suspeito.

Sirius franziu o cenho e usou os dedos longilineos para afastar uma mecha do cabelo escuro da frente do rosto.

— Nós podemos ser classificados como um grupo suspeito andando pelo castelo no meio da noite, Remus. Você vai precisar ser mais específico do que isso.

Remus suspirou.

— Sabe... Aquele pessoal pau no cu da Sonserina.

Ele não precisou explicar. Aquilo era o suficiente.

No meio de sua preocupação, Sirius deu um pequeno sorriso interno. Já fazia seis anos, e ele ainda não conseguia lidar com o acervo de xingamentos de Remus Lupin.

Era quase como ser amigo de um pirata.

— Vocês falaram com a McGonagall? – em sua cabeça, nenhuma peça se encaixava.

Então, Remus e Evans haviam encontrado um criame de Comensais da Morte. E o que?

— Lily e eu achamos que não era a melhor decisão a se tomar.

— Remus... – Sirius franziu o cenho, confuso. – Não é exatamente esse o seu trabalho como monitor?

Remus fechou os olhos e suspirou mais uma vez. Ele não os abriu para dizer as seguintes palavras.

— Eles estavam falando sobre o Regulus. – disse de uma vez, como quem arranca um Band-Aid. – Como se ele... Você sabe...

Foi como se algo subitamente tivesse acabado com todo o oxigênio do ambiente. Sirius não conseguia respirar, e ele pode sentir todos os músculos de seu corpo se retesarem.

Mas a pior parte daquilo era que ele não se sentia nem um pouco surpreso. Apenas... Vazio – e culpado.

Talvez se ele não tivesse ido embora, aquilo não tivesse acontecido. Ou se ao menos tivesse levado o irmão consigo. Afinal, ele havia pedido, não era mesmo?

“Não me deixe aqui sozinho, Sirius”, ele havia dito.

Ele deveria ter adivinhado que, uma hora ou outra, ele cairia na conversa de Orion e Walburga. Regulus nunca havia sido um rebelde.

— Lily e eu conversamos e decidimos que era melhor conversarmos com você... Sabe... Para...

— Eu não sei o porquê. – ele cortou, impedindo Remus de continuar. Cada centímetro de seu ser doía ao dizer aquilo, mas se Reg havia chegado à tal ponto, não havia nada que ele pudesse fazer.

— Eu... O quê?

— O que você ouviu. – respondeu, e um olhar confuso cruzou o rosto de Remus. – Vocês deveriam dizer o que ouviram para a McGonagall. Ela vai saber o que fazer.

— Sirius... Você ouviu bem o que eu disse? – Remus estava com aquele olhar condescendente, como se falasse com uma criança. – O seu irmão...

— Eu entendi o que você disse, Remus. Eu apenas não me importo – primeira mentira – Regulus faz suas próprias decisões – segunda mentira –e eu vou me atrasar para a aula.

Três mentiras em menos de três segundos. Isso sim era um novo recorde.

Antes que Remus pudesse abrir a boca para dizer algo, Sirius já tinha pegado sua mochila no chão e passara pela passagem de saída batendo o quadro da Mulher Gorda com força atrás de si.

Estático de onde estava, Remus só pode ouvir os gritos abafados e irritados da pintura, amaldiçoando Sirius por suas costas. E mais nada.

O fato de ela ter encontrado o salão comunal da Grifinória completamente deserto ao passar através portal aberto pelo retrato da Mulher Gorda foi mais um alívio do que uma surpresa. Afinal, já passava muito da meia noite e qualquer um que tivesse o mínimo de juízo provavelmente teria ido para cama há muito tempo.

Lily suspirou profundamente, completamente decepcionada consigo mesma, e pensou que era uma sorte que tivesse os dois primeiros períodos do dia seguinte livres. Ela definitivamente precisaria deles para tentar ter algumas horas extras de sono, considerando o tempo que ainda levaria para finalizar tudo o que deveria ser tirado de sua lista de afazeres naquela noite.

A mesa ao lado da lareira tinha alguns livros jogados, mas a garota decidiu que aquele seria o melhor lugar para ficar. Seus trabalhos mais urgentes envolviam uma redação sobre animagia para entregar à professora McGonagall que estava pela metade, além daquela análise detalhada de seu próprio mapa astral no qual ela definitivamente precisava começar a trabalhar logo se quisesse entregar a tempo para madame Parrish.

Ela já tinha jogado sua mochila de qualquer jeito em cima do móvel quando se virou e notou que, diferente do que havia pensado, não era a única no cômodo (quase) vazio. A visão de um James Potter sentado ali, no sofá mais próximo da lareira a fez dar um pulo no lugar. Era muito estranho que ele tivesse passado despercebido a uma primeira inspeção, entretanto – Lily sempre vira James como o tipo de pessoa que parecia preencher um ambiente, e não se sentar quieto em um canto.

— Eu... Me desculpa. Eu não tinha visto que você estava aqui... – ela começou a dizer, meio envergonhada.

— Não se preocupe com isso – ele respondeu. A voz de James estava muito grossa e rouca, e ao analisar o rosto do garoto com mais atenção, o coração de Lily se apertou dentro do peito. Ela se sentou no sofá ao lado de James, que não se moveu nem ao menos um centímetro do lugar em que estava. Ele ficou olhando para o fogo baixo que queimava na madeira, e Lily ficou olhando para ele.

James Potter era, de fato, um adolescente muito bonito. Talvez não tanto quanto Sirius, mas talvez aquele fosse o ponto.

Sirius era o tipo de pessoa que deixava todos embasbacados com sua beleza. O tipo de garoto que fazia todas as meninas (e alguns rapazes) suspirarem quando passava pelo Salão Principal. Lily realmente conseguia ver o apelo, mas a beleza que James Potter emanava era muito mais... Natural.

Seus olhos, escondidos por baixo das lentes dos óculos que usava o tempo todo tinham um tom claro de avelã, mas no momento eles estavam vermelhos, inchados e suas írises haviam se tornado um tom de verde muito claro. Seu cabelo estava mais bagunçado que nunca, como se ele tivesse segurado a cabeça entre suas duas mãos e puxado cada fio sem qualquer cuidado... James simplesmente parecia devastado.

E então tudo se juntou em sua mente como um intricado quebra-cabeça. A preocupação de Remus e Sirius no primeiro dia no trem, a aparência esquisita de Potter durante toda a semana, e para finalizar, as palavras de Slughorn no início da aula daquele mesmo dia ressoaram nos ouvidos da garota: “uma grande perda para o mundo das poções”.

Seu coração se apertou novamente.

— Você está sendo estranhamente gentil comigo – Potter comentou repentinamente, virando o rosto para encontrar o olhar de Lily fixo em seu rosto.

— É, sabe como é... É meio difícil ser deliberadamente rude com alguém que fica pelos cantos chorando mais que a Murta Que Geme.

Os olhos de James se estreitaram, e no mesmo segundo ela se arrependeu de suas palavras. Que tipo de comentário ridículo é esse, Lily Evans?

E então... Ele riu.

Riu mesmo, soltou uma daquelas gargalhadas que faz a pessoa se dobrar em duas e ficar sem fôlego, e ela não pode evitar dar um sorriso para si mesma. Ali, ouvindo o som do riso de James ecoar pelo ambiente vazio, Lily se deu conta de como sentira falta daquilo.

Era um pensamento estranho para se ter. Principalmente sobre alguém cujo seu desgosto ela nunca havia tentado esconder verdadeiramente. Mas James Potter sempre fora parte da alegria constante no castelo de Hogwarts. Sua felicidade e presença pareciam encher o ambiente de maneira inexplicável, e naquele exato momento, Lily percebera o quanto havia se acostumado com a vida que ele espalhava por aquele lugar.

Fosse na sala comunal, na mesa da Grifinória no Salão Principal ou com suas piadas durante as aula, James Potter era simplesmente... Bem, uma presença difícil de se ignorar. A qual ela até mesmo apreciava. Um pouco.

Na verdade, se fosse ser bem honesta consigo mesma, Lily precisava admitir que não sabia se todo seu desgosto por James vinha dela mesma ou de toda a convivência com Snape. Claro, ele fazia coisas ruins, além de toda sua implicância desnecessária para cima de Severus, mas ela também precisava admitir que seu (ex) melhor amigo também não era a pessoa mais fácil com quem se lidar no mundo.

Eventualmente, eles pararam de rir e soltaram um longo suspiro juntos, se recuperando. O silêncio invadiu o lugar mais uma vez.

— O que aconteceu com ele?

A resposta levou cerca de um minuto para vir. Obviamente, ele sabia sobre o que Lily estava falando.

— Varíola de dragão. – respondeu, e ela não disse nada. – E ele... Bom, ele era bem velho, na verdade, não foi uma grande surpresa.

James deu de ombros, sem encara-la.

— Ele e a mamãe levaram muito tempo tentando ter um filho, entende? E quando eu nasci... Eles não eram exatamente jovens. Mas ainda assim... – ele parou, e olhou para Lily – Era ele, sabe?

Ela assentiu, sabendo exatamente o que ele queria dizer.

— Eu sei. Eu... – Lily pigarreou – Nas férias de Natal do quarto ano minha mãe também... Ela... Câncer...

Lily não saberia explicar porquê pelos sete infernos estava contando sobre uma coisa tão íntima e dolorosa para ele, mas de alguma forma, ela sentia que devia aquilo ao rapaz. James apenas precisava daquilo, ela sabia.

Ela queria que alguém estivesse ali para falar aquelas palavras quando estivera no lugar dele.

— Com o tempo você se acostuma. Melhora, na verdade – seus olhos se prenderam aos de James, analisando o quanto o novo tom adquirido por suas írises por conta do choro combinava com suas feiçõss – Porque as pessoas param de tentar ser gentis ou de te tratarem como se você... Como se você fosse quebradiço, sabe?

James inspirou profundamente. Lily teve a impressão de que ele sabia exatamente sobre o que ela estava falando. E então, ela se lembrou da preocupação excessiva que Remus e Sirius pareceram demonstrar sobre ele no trem.

— As pessoas vão seguir a vida delas, mas você sempre vai ser o garoto que perdeu o pai, porque... Bom, elas podem seguir em frente, mas não tem como você fugir de você mesmo, entende? Quero dizer, isso tudo é muito ruim, mas com o tempo você se acostuma. A dor não some, ela só fica sendo... Constante. E então, eventualmente, ela para de incomodar.

Ele assentiu, parecendo estar assimilando as palavras que ela dizia muito lentamente. Por fim, James arqueou uma sobrancelha e disse:

— E por que você está aqui? Não que eu esteja reclamando, mas... Isso é simpatia por pena, ou...?

Lily deu uma risadinha e balançou a cabeça.

— Em parte. — admitiu, dando de ombros. James não pareceu ofendido.

— E quanto a outra parte?

Ela deu um sorriso largo.

— Bom, eu tinha feito uma resolução de novo ano, e o Potter-em-sofrimento torna muito mais fácil me manter fiel a ela.

Ele sorriu para si mesmo, balançando a cabeça e processando o que ela havia dito. Aparentemente, James não chegou a conclusão alguma sobre aquilo ser bom ou ruim, mas deu de ombros por fim.

— De nada. – disse, e então eles riram juntos mais uma vez.

— Eu quem deveria estar usando a pose de falsa modéstia, Potter. Afinal, sou eu quem estou atrasando minha lição e meu sono para ser sua psicóloga particular.

— A minha... O que? – James franziu o cenho, fazendo Lily rir.

Ela sempre se esquecia sobre as pequenas coisas tolas com as quais os bruxos não estavam acostumados.

— Coisa de trouxas.

Ele assentiu com a cabeça lentamente, e então perguntou:

— O que exatamente você precisa terminar?

Lily suspirou e abriu a mochila, pegando o rolo de pergaminho escrito pela metade e mostrando a James.

— Essa pesquisa da McGonagall sobre animagia é muito difícil. Eu encontrei livros muito bons na biblioteca, mas eu não tenho ideia de como resumir isso para não acabar com 180 centímetros de pergaminho. E ainda tem um dever de adivinhação...

James tinha um pequeno sorriso no canto dos lábios, e então colocou uma mão no queixo, parecendo estar pensativo.

— Eu não tenho aulas de adivinhação, mas... – Lily arqueou uma sobrancelha – Eu posso emprestar meu trabalho sobre animagia se você quiser. Ele já está pronto e eu quase não passei dos limites.

A garota suspirou e sorriu, aliviada.

— Você não se importaria? Mesmo?

James riu, dando de ombros e balançando a cabeça de um lado para a o outro.

— Não se preocupe com isso – disse, calmamente – E além do mais, eu te devo uma. Pelo conselho...

Lily pensou que ela poderia abraçar James naquele exato momento, tamanho o alívio que ela sentiu se instalando em sua alma.

— Uma dúzia de palavras bonitas em troca de uma não-reprova com a McGonagall? – ela sorriu – Eu realmente acho que estou saindo no lucro. Não que você vá me ouvir reclamar sobre isso.

O rosto de James espelhou o sorriso largo que Lily estava lhe dando e ambos ficaram parados ali por alguns segundos. O sorriso esmoreceu no rosto de ambos e então James criou uma grande cena para se levantar, bocejando e se espreguiçando.

— Eu estou realmente cansado. E eu acho que você também deveria deixar todas essas coisas pra amanhã – ele mordeu o lábio inferior – Eu sinto muito por ter te atrapalhado.

Lily maneou a cabeça indicando que estava tudo bem.

— Você pode me atrapalhar se precisar conversar de novo – lembrou, e ela própria ficou surpresa quando aquelas palavras saíram da sua boca. James abriu um enorme sorriso.

— Eu vou. Boa noite, Lily...

Ela parou, um pouco mais do que levemente surpresa. Em seis anos de convivência constante, mesmo naquela fase irritante em que Potter a havia importunado por meses para que saísse com ele, aquela era a primeira vez que ele usava seu primeiro nome.

Ela gostava da forma com que ele o pronunciava.

— Boa noite, James.

James sorriu brevemente em resposta, e depois novamente quando já estava deitado em sua cama. Ele também gostava da forma que ela pronunciava seu nome.

Notas finais
Oi gente! Eu sei que faz muito tempo que eu não atualizo (mais especificamente três meses...) mas é que aconteceu taaaaanta coisa na minha vida que eu realmente não tive tempo de escrever a única coisa que faltava quando eu postei o último capítulo, que no caso era essa cena curtinha do Sirius com o Lupin. Mas como eu já disse antes, eu NUNCA irei desistir dessa fic e vou voltar sim, não importa quanto tempo passe. Espero que tenham gostado desse capítulo gigantesco pra compensar meu sumiço. Tem até Jily pra vocês não me odiarem tanto. Eu sei que não tenho moral de pedir nada, mas, por favor, deixem um comentariozinho pra aumentar a moral dessa que voz fala. Xoxo Roslyn
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.