Storm Lightning
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Tell me how it feels being out there
I want to stay with you, and I see it clear now
You are giving me no choice
Let the rain pour down"
- Storm, Theatre of Tragedy

Capítulo 1
Achado
Universo Alternativo, Karvina
A primavera chegara a toda Barka, e assim os quatro distritos despertavam sobre uma manhã de sol leve, ventos frescos e um céu azul anil sem nuvens. O terceiro distrito, Karvina, se estendia sobre vastas montanhas, a cidade cravada entre as rochas e as centenas de cascatas que pontilhavam a vastidão do território. As torres erguidas por toda a cidade eram altas, algumas levitavam metros acima com seus próprios saltos de água. As construções predominavam em cores quentes, principalmente laranja, com pequenas torres, arcos ou outros detalhes de cores frias. O centro de Karvina, o palácio real, era uma construção enorme, que subia até as nuvens, construída presa nas rochas do fundo do grande lago que as últimas cataratas formavam. Incrivelmente, a torre principal, que terminava no aposento aberto do Rei, mantinha um sistema com sua própria cascata, que escorregava até os outros níveis, com a água sendo jogada novamente no lago, em um ciclo repetitivo, e belo.
Como a primavera marcava o início de uma nova época, os Festivais organizados aclamavam a todos e não se via nenhuma alma viva que não estivesse nas ruas, praças, aproveitando as diversões oferecidas. A festa acontecia por todo o reino, não como um evento, mas já um hábito cultural de reunir a todos para rir e se divertir. E não era diferente a imagem que se tinha do povo e da realeza. Ambos aproveitavam o momento como um só.
Na torre do Rei, duas crianças pulavam na cama, agitando os lençóis de seda, gritando somente para fazer barulho. A rainha acordou rindo, agarrou os dois príncipes e enrolou-os nos lençóis, como punição pela travessura. Os pequenos rolaram pela cama, tentando se soltar – ela amarra forte – até o Rei cansar de fingir que ainda estava adormecido e se virar para soltar os dois. O casal se cumprimentou com um beijo doce ao se levantarem, enquanto seus filhos corriam no limiar da sacada – aberta, sobre quatro altas colunas, nos extremos da sala, que sustentavam a torre oca. A cama do rei era um circulo de seda, almofadas de penas e colchão de ar; para a direita, uma abertura no chão dava passagem a escada para os níveis abaixo; para a esquerda, uma banheira profunda com a parte côncava de vidro e a convexa de mármore branca. Uma cortina de cetim transparente envolvia a área da banheira, onde a Rainha tirava o roupão e se banhava com as melhores fragrâncias. Celine era o segundo amor do Rei, tendo a primeira Rainha – mãe de Daniel — morrido sete anos atrás. Um ano de luto e o Rei se casara novamente, inesperadamente, com uma dama incrível que conseguiu reacender seu coração velho. Celine era encantadora, e não somente pelos cabelos platinados, que desciam volumosos em ondas por suas costas esbeltas; Seus olhos amendoados e claros, nariz fino e pontudo, lábios carnudos e queixo fino lhe dava uma aparência nobre independente das roupas que usasse. Era uma dama, mulher forte e simpática, uma nova Rainha que derreteu o coração de um povo triste. Logo cedo engravidara, Jamie era seu garoto de cabelos platinados, dos mesmos olhos azuis e nariz pontudo. Porém não era somente por não ser de seu sangue, que Celine não amava Daniel como amava Jamie. Daniel parecia mais com o pai e demonstrava se tornar mais parecido com ele do que com a falecida mãe, tirando os cabelos escuros. Assim como pai, seus traços eram mais firmes e mesmo sendo uma criança animada, a seriedade de seu olhar e seu sorriso demonstrava uma sabedoria já precoce. Tinha olhos verdes escuros e orelhas pontudas.
O Rei, Robert, vestira rapidamente suas vestes casuais, um robe azul escuro com placas de bronze pesadas presas nos ombros largos, com um xale de cetim branco jogado por cima que descia até os pés. Hoje deixaria a coroa de lado, os rubis brilhando levemente em cima da almofada.
Os príncipes ainda corriam, sem o medo de cair – não que tivesse realmente um perigo eminente, o Rei os levitaria em um piscar de olhos – e Robert ria ao observa-los. Eram doces crianças e ele não ansiava ainda em velos crescer. Ficaria feliz se eles ficassem pequeninos para sempre, clamando a atenção dos pais.
Celine já terminara o banho e se vestia. Suas vestes eram mais enfeitadas que a do Rei, porém com a mesma base de cor. Seu vestido celeste de corte transversal possuía uma longa saia, atada nela cetins finos brancos e por cima ela usava um agasalho de um azul mais escuro com aba alta que terminava em floreios largos em sua mão. Afinando sua cintura atara um corpete de bronze puro, assim como suas botas de cano alto, a deixava bastante esguia e confiante. Ao terminar de calçar as luvas vermelhas pulou em Robert, rindo, e os dois se abraçaram forte enquanto o vento bagunçava o cabelo platinado da Rainha, que voara na frente do rosto de ambos, escondendo das crianças o beijo ardente.
- Meninos, vamos! – Robert os chamou, no pé da escada. – Estamos perdendo o festival.
- Eu ouvi dizer que um grupo de Khajiits apresentará um teatro magnifico, em que usarão mágica de verdade, de antepassados já esquecidos. – Celine os instigou.
Os dois já corriam para as escadas.
Os festivais de primavera duravam dias, em que a própria natureza comemorava sem descer o sol e subir a lua. Aquele ano fora cinco dias direto, e o povo se desgastaram até a última gargalhada, até os pés não conseguirem mais ficar em pé, e o cérebro começar a pedir por descanso.
Foram cinco dias de interação de vários, com viajantes de longe experimentando a cultura local. Daniel e Jamie se divertiram como nunca; O teatro dos Khajiits foi realmente um grande espetáculo, com dez atos de quase uma hora cada. Mesmo com tal longa duração, eles ainda gritavam bis no fim. Chovia confetes, folhas e pequenos brilhos esmeraldas que se apagavam na palma da mão. Centenas de barracas foram erguidas, com os mais variados doces, especiarias, abertos para todos. Naqueles dias, os oficiais não formavam turnos de patrulha, mas erguiam copos de cerveja com seus amigos. Não tivera nenhuma pequena discussão para se apaziguar; vândalos, se bufava, pareciam um mito.
Daniel e Jamie fizeram bastantes amizades, assim como Celine e Robert, que se misturavam como pessoas normais em meio ao povo. Nessas festas classes sociais caiam, preconceito virava tabu. No final das festivas, quando os burburinhos se acalmavam, em que os adultos se sentavam e observavam as crianças finalmente começarem a bocejar, o Rei e a Rainha subiram ao palco, onde por meio de alteração sonora, passaram uma mensagem para todos, que revibrou como uma canção pela cidade inteira.
- Acho que todos os presentes sentiram que as festivas estão chegando a seu fim. O próprio sol agradece a diversão que tivemos sob suas beleza, e deita para seu descanso. Espero que o que conquistamos nesses dias permaneça não somente como uma boa lembrança, mas um lembrete em nossos corações. Como uma amiga já disse, ‘Somente criando paz dentro de nossa própria mente e ajudando os outros a fazerem o mesmo, podemos esperar alcançar paz nesse mundo.’ Eu vi a paz reinar nossas ruas, e estou muito agradecido por poder presenciar tamanha revelação. Muito obrigada por todos, e bom descanso.
O povo bateu palma, e aos poucos voltaram para suas casas. As ruas eram uma completa bagunça, e quando a lua despontou no céu negro, pontilhado por infinitas estrelas, ele não lançou sombras sobre as torres, mas sim feixes prateados de luz, em uma imagem muito bonita. A cidade dormia, depois de seus dias de glória, e era como se ela sorrisse para o mundo.
Celine e Robert puseram Jamie e Daniel para dormir, na torre que os dois compartilhavam. Jamie adormecera completamente, ressonando baixo, já preso em seu mundo de sonho. Daniel observou os pais subirem as escadas para sua própria torre, sorrindo quando Celine lhe mandou um beijo no ar. Ele estava cansado, mas o clima que passara aqueles dias ainda fervia em seu peito e ele não conseguia dormir. Fechara os olhos, mas sonhava acordado.
Passados alguns minutos, mesmo com as pálpebras fechadas, Daniel percebeu um clarão repentino. Sentou em sua cama a tempo de ver um meteorito rasgar o céu da noite, passando a poucos metros de sua torre. O que a principio o chocou, não foi o fato do cometa não estar coberto por fogo, pela sua alta velocidade, nem seu tamanho, proporcionalmente três vezes maior que seu pai – e Robert era grande, na concepção de Daniel – mas sim o silêncio. O meteorito deixara somente um rastro de luz prateada, e nenhum outro som, nem mesmo quando atravessou o lago, atingindo o fundo. Nada perturbava a noite, e Daniel nunca se sentiu tão confuso e maravilhado.
Não queria dar nenhum alarme, não achava que fosse algo sério. E realmente por inocência, não queria acordar ninguém. A principio se sentiu tentando em acordar o irmão mas ele dormia tão sereno – raro vê-lo daquele jeito – que sentiu pena. Desceu as escadas sozinho, com os pés descalços, sem fazer barulho. Aceitava aquela situação como uma pequena aventura. Uma missão secreta. E mesmo que não houvesse nenhuma outra alma viva nas ruas àquela hora da noite, ele se movia escondido nas sombras, segurando um graveto que achara por acaso no chão, fingindo ser uma espada. Imaginação é tudo.
Quando chegou à base da cidade, na margem para o lago, só se ouvia a enorme roda d’agua trabalhando, e as tantas cachoeiras. Era um som muito agradável. Pegou um pequeno barquinho de pesca prateado, remos e com muita destreza, navegou até chegar ao meio do grande lago. Podia estar escuro, mas ele não tinha medo do lago. Era profundo, sim, tinha peixes e outras animais lá dentro, mas ele sabia quais eram e o quão dóceis também. Na verdade, era até divertido nadar entre as grandes parcas e raias. Principalmente porque quando a lua subia aos céus, esses animais possuíam um brilho similar, parecendo as próprias estrelas do lago. Sendo assim, Daniel não pensou duas vezes antes de pular para dentro do lago, certo da localização de onde o meteorito caíra. Ele podia segurar a respiração por até mais de meia hora – uma habilidade simples, das mais variadas que estava desenvolvendo, aprendendo aos poucos com o pai que ficava até quatro horas debaixo d’água – então não era nenhum problema que até alcançar o fundo, demorasse um pouquinho.
O meteorito perdera todo o brilho de mais cedo e agora era de um negrume quase inconciliável no fundo do lago. Não quebrara nenhum coral, e as algas já pareciam ter nascido em sua volta como se ele estivesse ali há milênios. Daniel imaginou que os peixes estariam curiosos, mas eles nadavam calmos em seu cotidiano de peixe. Daniel se segurou em algumas algas e se aproximou firme do meteorito. Debaixo d’água ele podia sentir emanações frias e quando o tocou mais forte quase gritou pelo susto, soltando algumas bolhas. Frágil, ele rachou ao meio, e Daniel notou, se acalmando, que por dentro ele era oco e suas paredes eram lixadas e platinadas, como vidro.
Agora os peixes se aproximavam. Encolhido, e agora boiando de leve pela imersão na água, um corpo pequeno fez o coração de Daniel bater acelerado. Nadou até ele e prendeu seus braços em volta do corpo do garoto e voltou para a superfície. Jogou o menino com esforço dentro do barquinho, e com mais dificuldade ainda subiu de volta, quase virando o barco. Ele não tremia de frio. O vento era quente, e suas roupas logo iam secar. Mas o garoto que descobrira dentro do meteorito e que agora estava na sua frente, com a aparência de estar morto, tinha praticamente sua mesma idade. Estava nu, claro, e Daniel tirou sua camiseta de pijama e cobriu o menino, tanto para esquenta-lo – apesar de ainda ter a dúvida no ar se ele estava vivo e se estivesse, para não ficar envergonhado quando despertasse. E aquele corpo era tão fino e pequeno que sua camisa passou mais como uma camisola.
Daniel segurou o rosto do garoto. Estava vislumbrado. Era verdade que possuía traços andrógenas, e que nunca vira um humano – pelo menos ele chegou à conclusão que seja lá porque aquela criança estava dentro de um meteorito ela era humana – emanar tanta beleza. Não era como se fosse física, mas era um sentimento abstrato. Ele não conseguia por em palavras, então a palavra “belo” melhor caracterizava a aparência dele. Tateou o pescoço do pequeno – na realidade, ele não sabia muito bem o que devia fazer numa hora dessas – e não sentiu nenhum pulso. Ele estava gelado, com os lábios já roxos. Porém ele já estava seco, sem nenhuma gota de água. Daniel segurou o menino bem firme no tronco e aproximou o ouvido de seu peito, enquanto segurava de leve o pulso. Não havia batimentos.
Era uma realização estranha. Ele estava morto. Era triste. Daniel já se afastava quando o pulso da criança ardeu de calor. Ouviu uma batida de coração – não como se fosse o retomar do compasso cardíaco, mas a primeira batida, que demonstrava o nascer. Seu corpo se tornou quente, cor voltou para sua pele, e ele até mexeu. Daniel levou um susto tão grande que o soltou inesperadamente, fazendo-o bater de leve no casco do barquinho. Levou dois segundos para retomar sua própria batida e se aproximou do menino, levantando-o com cuidado.
- Ei... – ele o chamou. A noite era tão silenciosa que pareceu estar gritando.
O garoto ouviu. Suas pálpebras tremeram e ele as abriu. Como em um peixe, havia uma película por cima de seus olhos, que com um piscar lento sumiu. Daniel pensou inicialmente que ele fosse cego. Sua pupila era tão branca quanto às estrelas no céu, porém os segundos foi a tornando mais escura. Somente a pupila, seus olhos ainda tinham uma cor prateada e incomum. A criança olhou para ele, franziu a testa e desmaiou. Daniel na verdade, achou que ele tinha desmaiado, até sentir o garoto ressonando e ele na verdade dormia.
Mais tarde Daniel percebeu o quanto aquilo fora estranho. Certamente, aquele fora o dia mais estranho, e louco de sua vida. Remou de volta para a margem, conseguiu levantar o garoto em seus ombros – sem o peso da água, era bem mais fácil. Ele era muito leve. Caminhou de vagar até de volta ao palácio e parou no hall de entrada. Recuperou o folego e então se perguntou. O que eu faço agora?
Olhou para os lados, para o estranho em seus braços. Fez a única coisa que conseguiu imaginar. Gritou.
- GUARDAS!
Notas finais
o/////
PS: deixem comentários, se não for pedir demais *-*
PS²: O desenho do capitulo vc pode encontrar em deviantART, feito por Peterconcept, nome do quadro Fantasy Castle.
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