Stonefield
3 Ignore them.
Notas iniciais
“Ele não vai.”
Se eu soubesse que essa frase fosse causar tanta polêmica entre eu e Diana, eu não teria dito ela.
Eu e Diana combinamos de nos encontrar no centro empresarial que tinha algumas quadras de minha casa para conversarmos, já que quase não nos vemos por sermos de escolas diferentes (mentira, de quinze em quinze pelo menos a gente se encontra).
– Como assim?? Que babaca! Nem trabalho??
– Diana, minha linda, ele teve um imprevisto.
– Ele tem SEMPRE um imprevisto.
– Mas dessa vez acho que é diferente, a tia dele disse que ele não está bem.
– Isso não é desculpa. Se fosse um cinema, tudo bem, mas é trabalho! Vai ficar você e Mateus só?
– Vou ver se marco outro dia, preciso mesmo trabalhar na minha palestra.
– Ah é! Quando é que é?
– Daqui há duas semanas, mas eu ainda tenho que estudar para as provas, então não é tanto tempo quanto parece.
– Vou poder ir te ver?? – ela sorriu esperançosa.
– Desculpa, só funcionários no prédio ou convidados.
– Então me convide!
Dei uma risada, mordiscando o brownie que a gente comprou.
– Não é bem assim. Convidados tipo eu. Palestrantes, professores.
– Desculpa, senhorita Inteligente. – ela respondeu, colocando as duas mãos como quem diz “Não fui eu.”.
– Quem vai entrar com 16 anos na faculdade não sou eu, é você.
Ela sorriu. Dava para ver que se sentia orgulhosa por estar terminando o High School com dois anos a frente da maioria dos alunos.
– Mas uma coisa curiosa aconteceu. – falei.
– O que? – ela perguntou com um pedaço de brownie na boca.
– Ele sonhou comigo o mesmo sonho que eu sonhei com ele. Só que, como se eu, obviamente, fosse eu e ele, ele. Tipo...
– Como se fosse à vida real, só que um sonho.
– É.
– Hm, ele te contou?
– Sim.
– E o que acontecia?
Eu contei todo o sonho para ela, como misteriosamente eu estava caindo e um elástico me segurava, mas aí acontecia alguma coisa depois que eu não sei o que, porque acordei antes. A gente discutiu um pouco sobre o assunto quando acabei de contar, mas tivemos que ir para a casa que já estava começando a ficar tarde.
À noite conversei um pouco com Arthur por face enquanto fazia pesquisa de química, quando escutei alguma coisa pingando. Achei aquilo estranho, dei uma olhada para o quarto, mas não vi nada.
Fim de semana que vem meus pais estão pretendendo fazer um jantar especial, não sei para que, e minha mãe falou que eu podia chamar o Mateus se quisesse. Minha vontade era chamar, mas por um lado eu queria que fosse o Leo.
Deixei quieto, voltei para a minha lição, dei boa noite para Arthur e fui dormir.
...
Estava olhando para cima, algo misterioso preso na minha mão me fazia não cair para a escuridão. Eu não identificava onde estava, só sei que parecia bem alto, não conseguia enxergar o fundo. Alguma coisa estava lutando acima de mim, pareciam ser dois animais diferentes, um azul e vermelho e o outro verde. Só sei que conforme o vermelho se mexia, eu me movimentava junto. Parecia que eu estava sendo controlada por ele, como uma marionete.
Um vento sugou meu estômago e soprou meus cabelos. Minha pele ficou achatada e eu despenquei em queda livre.
– PETER!
Eu acordei gritando de madrugada no meu quarto.
Ainda bem que eu estava de porta fechada, não queria explicar caso minha mãe me escutasse e viesse correndo perguntar o que houve.
Agora que eu não dormia mesmo. Vi no celular que eram cinco e meia e resolvi ficar usando até a hora do despertador tocar. Acabei me vestindo mais rápido que o normal já que eu estava acordada e quando cheguei para tomar café, não estava nem pronto.
Chegando a escola, Mateus já estava lá sentado no lugar de sempre e abriu os braços quando me viu.
– E aê! – ele exclamou e seus olhos azuis brilharam.
– Por que essa animação toda?
– Porque estamos quase de férias.
– É, só uns três meses ainda.
– Já faltaram mais.
Sorri e soltei minha mochila ao lado dele. Suspirei, apoiando minha cabeça em seu ombro.
– O que foi? – ele perguntou.
– Sono.
– Dormiu mal?
– Tive um pesadelo aí.
– Se você me contar, ele não acontece mais.
– Por quê? Você é por acaso um mago transformador de pesadelos em sonhos?
– Não. É o que dizem.
Balancei a cabeça de um lado para o outro e acabou que ficou por isso.
– Animada para sexta? – ele me perguntou, rindo.
– Ele não vai...
– Ta brincando?
Não respondi nada.
– Ah cara... Que sacanagem. Por que?
– Não sei, ele falou que surgiu um imprevisto.
– Que estranho. Ele sempre explica quando não vai.
– Você fala isso como se ele sempre fosse a todos os compromissos.
Ele riu de uma forma irônica.
...
As horas passaram correndo nesse dia, sabe-se lá por que. Acho que a presença de aulas de biologia me deixou mais animada, sei lá. Manuella me convidou para almoçar com as meninas depois da aula. Aceitei, afinal elas são minhas amigas, mas recebi uma bronca de Mateus e um ataque de ciúmes de Bianca.
– Isso é falsidade. – disseram os dois, mas por diferentes razões.
– Olha, — começou Mateus – você não gosta delas...
– Eu gosto delas...
– Mas só sabe falar mal!
– Porque elas me tratam mal.
– E por que então você ainda anda com elas e GOSTA delas? – ele respondeu cruzando os braços de uma forma emburrada.
– Porque elas acham que as coisas que falam são brincadeira, não tem noção que isso machuca, elas não fazem por mal.
Ele ficou me encarando e depois de um longo período, deu um suspiro e balançou a cabeça de um lado para o outro.
– Desde quando você se tornou tão ingênua?
– Eu não sou ingênua...
– Eu sei que não. Por que acha que eu pergunto?
Fiquei em silêncio.
– Você não é ingênua. Só é “boa” demais. – eu senti uma pontada em meu peito e não consegui sustentar o olhar dele, baixando a cabeça. – O mundo é mau, Luna. E você sabe disso. Ninguém faz esse tipo de brincadeira sem intenção.
– Você faz! – exclamei.
– As minha brincadeiras são diferentes das delas. E você também sabe disso.
Eu odiava quando ele tinha razão e isso acontecia praticamente toda hora. E ele estava mais do que certo. Manuella e as outras meninas eram todas egoístas e egocêntricas. Não é culpa delas, elas nasceram assim, vieram com esses defeitos, mas o como elas debochavam para se mostrarem melhor que os outros, querendo que eles se sentissem inferiores, era algo devastador.
– Te vejo na aula. – ele falou e foi ficar junto dos meninos, aproveitar os restinhos dos minutos de nosso recreio.
Bianca chegou com as amigas dela da outra turma rindo e fofocando. Quando ela me viu parada ali, veio falar comigo.
– Está sozinha? – ela me perguntou.
– Não. Quer dizer, agora sim. Mas eu já ia indo para a sala mesmo.
– Por que não está com a Gabi, Lisa...?
– O Mateus me chamou para perguntar sobre nosso trabalho e acabou que discutimos sobre uma coisa, mas não é nad...
– Sobre o que era?
Assustei-me um pouco com a imprudência dela.
– Nada. As meninas só me chamaram para almoçar com elas.
– Hoje?? – ela franziu o cenho.
– Sim, hoje.
Ela ficou quieta e seu rosto ficou vermelho de ciúmes. Já conhecia essa cara.
– Vou indo. – falei, colocando a mão no ombro dela. Não queria ouvir o discurso de “ninguém me ama”.
Cheguei na sala e peguei um livro para ficar lendo, não que adiantasse muita coisa, o sinal tocou dois minutos depois.
Eu ainda não conseguia tirar da cabeça e desculpa boba de Leo. Isso estava me incomodando muito. Deixava-me triste só de pensar.
A porta se abriu num BOOM e os opaiós entraram. Codinome para os bagunceiros da turma, não me pergunte por quê. Gritando e cantando, desenhando no quadro, pulando pelas cadeiras. Eu ria muito com eles, mas hoje fiquei na minha. Os meus amigos chegaram e Dan veio falar comigo.
– Ei! – olhei para ele, esqueci meus pensamentos e abri um sorriso.
– Olá.
– Vou poder sexta!
Fiquei estática.
– Érh... Eu estava pensando em marcar em outro dia já que o Leo não vai poder ir.
– Porque ele não vai você desmarca, se eu não vou você deixa rolar!
– Não, Dan... Não é isso! – me desesperei.
– Sei que não, bobinha, estou brincando. – ele piscou para mim e eu senti um alívio em meus ombros – Eu sempre falto, entendo porque você não desmarcou.
Sorri pela compreensão e ele saiu. Chamei Leo e ele veio até mim.
– Hey. Fale.
Expliquei para ele para marcamos outro dia o trabalho e ele aceitou.
...
Depois da aula, fui em casa, deixei minhas coisas e troquei de roupa. Encontrei-me com as meninas num restaurante ali perto de casa e todas elas já estavam sentadas, bebendo, rindo e conversando. Sentei-me ao lado de Scarlet, uma amiga minha da turma delas que eu nem sabia que estaria ali. Ela sorriu, me cumprimentou, mas as outras continuaram o que estavam fazendo, ignorando minha existência.
– Parece que estamos no mesmo barco. – ela falou depois de um tempo.
Eu ri e perguntei por que.
– Somos duas pessoas ignoradas neste momento.
– Só neste momento?
Ela riu também.
– Aposto que se sairmos daqui, elas nem notam.
– Ao menos que estejam chorando e precisando de um ombro.
– Ai. Pegou pesado. – ela falou, tampando a boca para não rir. Ri também e dei um soquinho no braço dela, que soltou uma gargalhada.
– Ah! A Luna chegou!
Olhamos para a Manuella que estava com um sorriso amarelo.
– Já tem um tempo. – respondi.
– Ah, é que ninguém liga para você, então ninguém nota.
Sorri e levantei o copo do Matte que o garçom trouxe para mim. Todas riram e voltaram a conversar.
Sei que foi brincadeira, mas depois de tantas vezes que elas falaram, comecei a realmente acreditar que ninguém liga ali para mim, como se fosse uma “indireta dita”.
– E aí, — Scarlet se virou para mim – me conte suas novidades porque, sinceramente, eu não sei como você ainda aguenta ficar no recreio com elas. Ainda bem que eu resolvi passar o meu com os meninos.
– Bom, — respondi rindo – eu basicamente não passo mais, Mateus sempre me salva. – ela riu também.
– Eu só vim aqui hoje porque eu sabia que você vinha, se não...
Sorri, agradecendo.
– Eu vim porque eu sou uma boba mesmo em aceitar isso delas. E não sabia que você vinha, mas se soubesse teria vindo para cá mais animada.
– Aw, que linda.
– Mas das minhas novidades, só que eu consegui aquela vaga de palestrante na Oscorp.
– Caramba, isso é incrível! Parabéns!!
– Obrigada! E minha apresentação será daqui a duas semanas.
– Isso é muito legal! Muitos parabéns!
Ri, tomando um gole de meu Matte.
– Muitos obrigadas. E você, quais são suas novid...
– LUNA! – ela exclamou e apontou para o restaurante do outro lado da galeria. Em frente a ele, um menino moreno que eu conhecia muito bem, estava passando. – É o Leo! – ela disse.
Meu coração deu um pulo e fiquei encarando ele até o momento que o mesmo virou a cabeça em minha direção e eu quase joguei o cardápio por cima da minha cabeça. Quando olhei de volta, ele estava com uma cara confusa, parado no mesmo lugar. Sorri sem graça e acenei. Leo me reconheceu, sorriu e veio andando em nossa direção.
– Aonde você vai?? – Scar me perguntou quando me viu me levantado da cadeira.
– Vou falar com ele! – respondi como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Esquivei-me da baixa grade do restaurante e andei em sua direção. Ele já estava quase me alcançando, quando resolvi dar um passo maior para acabar logo minha ansiedade.
O que eu não deveria ter feito.
Meu cadarço se enroscou nos portões de ferro da grade, todo retorcido e foi aí que eu soube que ia encontrar meu melhor amigo antes de falar com Leo. O chão.
– Wooow! – exclamei para não gritar quando meus cabelos começaram a esvoaçar para cima. Ouvi alguns passos apressados e não senti o friozinho do meu amigo chão na minha bunda por pouco.
– Luna! Você está bem?? – Leo perguntou, me segurando pelos braços.
– Estou. – falei rindo e resolvi tentar dar um empurrãozinho na nossa relação – Graças a você.
Ele riu e me colocou no chão.
– Não foi nada. Vem, deixa eu te ajudar a desamarrar seu cadarço.
Se não fosse por ele, que percebeu minha proeza com antecedência, dando um largo passo com sucesso, e me segurando ainda no ar, eu teria pagado o mico do século.
Sentei com minhas mãos apoiadas atrás de minhas costas, com uma das pernas levantadas, já que meu pé estava preso no ferro da grade. Tentei esticar uma mão para desamarrar, mas derrapei e quase caí de costas.
– Deixa que eu faça isso, Luna. – ele falou, se agachando ao meu lado e tirando o nó feito pela minha pessoa ilustre.
Leo estava tendo um pouco de dificuldade e deu uma risada meio sem graça.
– Desculpa, eu não sei como consegui fazer isso. – falei e ele riu.
– A culpa não é sua. Pronto!
Pude abaixar minha perna e ele pegou minhas duas mãos, me ajudando a levantar.
– Você se machucou? – ele perguntou, preocupado, olhando em meus olhos.
– Não, estou bem. Obrigada. – respondi sorrindo e só depois de um tempo que reparei que ele ainda estava segurando as minhas mãos. Ele parece ter percebido e as soltou, sorrindo e corando de uma forma sem graça. Que fofinho.
Andamos um pouco mais para longe do restaurante e paramos um pouco antes de onde ele estava.
– O que está fazendo aqui? – perguntei.
– Eu estava vindo almoçar. Os meninos cancelaram de última hora, mas estava tão a fim de comer um japa que vim sozinho mesmo..
– Se quisesse companhia, era só falar.
– O Mateus disse que você ia almoçar com as meninas. Eu até pensei nisso.
Vou matar o Mateus.
– Érh... Mas eu não estou nem estava com a mínima vontade de fazer isso. Se você ainda estiver querendo que alguém almoce contigo, elas não vão nem notar que eu não estou lá.
Ele riu e depois de um tempo, respondeu:
– Você é quem sabe.
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