Stolen Dance
1 O necessário para o primeiro
Notas iniciais
Não era muito viável prestar atenção na música que tocava de fundo. Mas não era qualquer música, era a música dela, porem, o que vinha pelo auto falante do telefone em forma de caveira, em seu quarto escuro, não era a coisa mais harmoniosa que ela poderia escutar.
O sol se pôs mais rápido naquela tarde e a lua deixou o céu enfeitado por estrelas no mesmo momento em que os faróis do carro de um sujeito qualquer iluminou o pequeno hall de entrada do triplex em que a família Irwin morava. As luzes vermelhas e azuis denunciavam que era a polícia que tentava entrar, porém em poucos minutos ou até mesmo segundos ela não teria forças para respirar, o sangue saia de seus pulsos continuamente com o fluxo cada vez mais baixo.
Tempo, era tudo uma questão de tempo, só mais alguns segundos e aquele sofrimento se encerraria.
Como se estivesse submersa por muito tempo ela acordou em seu quarto escuro com o toque do telefone em forma de caveira que ficava em cima de sua escrivaninha de metal. Seus pulsos ardiam e qualquer movimento ou toque faziam com que uma sensação de que um ferro quente estava entrando em sua pele.
Ela atendeu ao telefone e antes de responder, colocou uma mecha de seus cabelos cacheados mal preso atrás da orelha e só então sua voz rouca pelo fumo precoce ecoou pela casa e pelo microfone do telefone — Quem é? São quatro horas da manhã, você não acha que está meio grandinho para passar trote?- ela fez uma pausa permitindo que a outra pessoa do outro lado da linha falasse- Não, eles estão viajando, voltam amanhã! Eles estão bem! Não quero que ninguém venha me buscar. Eles vão chegar amanhã! ELES NÃO ESTÃO MORTOS! — ela bateu o telefone no gancho, pegou um cigarro na carteira, colocou-o na boca, ela não queria acreditar.
Jogou o cigarro no chão, antes mesmo de acender, no mesmo momento que escutou barulho de motor de um carro dobrando a esquina. Correu as escadas a baixo, tropeçou em alguns degraus e só parou quando bateu contra o espelho no fim da escada.
Seus pulsos foram os primeiros a se encher de cacos, depois o ombro direito e então o pescoço. No instante que seu corpo tocou o chão, o velho rádio da cozinha voltou a funcionar e a voz grossa do radialista já cansado de sua vida sem adrenalina veio a tona- Essa é para encerrar a noite. A pedido de um de nossos ouvintes, Stolen Dance de Milky Chance. Boa Noite.
Era a música dela, estava atrasada. No sonho ela já estava ali há pelo menos dois minutos.
"stoned in paradise"- Os faróis de um carro de um sujeito qualquer invadiram as janelas, dançando entre os moveis e se misturando com o azul e vermelho das luzes da sirene , denunciando que era um carro de polícia.
Ela já podia sentir suas pernas formigarem: "Então é assim" ela pensou " É como cair no sono".
As pancadas na porta na tentativa de arromba-la estavam sincronizadas com a batida constante da música que acompanhava sua morte lenta e pouco dolorida.
Ela conseguia escutar sua respiração forte, porém muito pausada ficar mais alta que a música que martelava em sua cabeça. Seus sentidos já dormiam, mas ela conseguia distinguir o som de madeira quebrando e passos subindo a escada.
"Suspence is controling my mind" um rosto estranho se aproximou do dela, um chiado após um bipe alcançou suas orelhas.
–Preci..d..a...ambulanciA!- saiu falhado para os ouvidos dela. Seus olhos alcançaram os dele que se destacavam entre o misto de luzes. -Deus... ah...Eu jurei que não faria mais isso!- ele segurou a mão dela- você não merece morrer.. ah .. Deus..- Ele esfregou as mãos como se estivesse as esquentando e então ficou serio, quase sem expressão — Como da primeira vez, a vida cairá sobre você. Porem, amaldiçoada você será. Com um beijo eu te devolvo a vida, com um beijo da morte. — ele tocou os lábios dela com os dele o que a fez parar de respirar.
O véu da morte caiu sobre ela deixando seu corpo gelado, sem uma gota de vida passando por seus pulmões. Seus olhos ficaram vidrados e com o termino da música um silêncio mórbido se espalhou pelo ar.
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