Still Yours, Rose

1 U: Still Yours, Rose


Notas iniciais
Olá, pessoas lindas!!! Tudo bem com vocês? Finalmente 22/05 está aqui e com ele o tão esperado “Ever Secret Exchange”. Estou há meses ansiosa por esse dia e muito empolgada por ele ter finalmente chegado. Red, minha querida amiga secreta, espero sinceramente que goste dessa história. Fiquei muito feliz ao descobrir que havia tirado a rainha das edições (inclusive, desculpe por essa capa feia, estava tentando evitar os spoilers e que você descobrisse que fui eu quem te tirou, rs), mas também fiquei receosa, porque queria escrever algo a sua altura. Acho que você viu alguns dos surtos fanfiqueiros nessa tentativa. No total escrevi três fanfics (uma ainda estou avaliando se irei postar), porém, acho que essa é realmente a melhor. A primeira de todas. A que comecei a escrever ainda no dia do sorteio. A que eu acho que carrega mais verdade e sentimento, por ser também a que carrega mais de mim. Cada palavra aqui foi escrita com muito carinho e me esforcei para conseguir algo próximo ao final feliz que você queria (desculpe, mas é que a música em si não ajudava, rs). Espero mesmo que você goste! ♥ Com amor, Thaís

{still yours, rose}

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Hogsmeade, 22 de dezembro de 2027

Amado Scorpius,

Há uma casa velha e decrépita, sendo lentamente pintada de branco pela neve cândida. Uma garota ruiva assiste, enrolada a um cachecol verde e prata. Um cachecol roubado. É uma cena bastante desoladora. A pequena ladra parece hipnotizada pela construção. A Casa dos Gritos. O prédio mais assombrado da Grã-Bretanha, se os rumores estiverem corretos. Nós dois sabemos que não estão. Não passam de lendas estúpidas. Mentiras contadas com boas intenções. Não importa. Os fantasmas estão aqui. Apenas não habitam a casa.

Pessoas podem ser assombradas também. Você me disse isso uma vez. Parece que foi há mil anos. Até mesmo em outra vida. Talvez tenha sido. Uma vida passada, na qual um adolescente, com nome que inspirava pouca fé, contou a uma garota perfeita, ao menos aos olhos do mundo, sobre todos os fantasmas que herdara do pai. Sobre seu legado de sangue (puro) e amaldiçoado. Sobre como não queria nada além de se libertar. A menina – que também sonhava com a liberdade, embora por razões diferentes – não teve escolha a não ser se apaixonar por ele. Gostaria que não houvesse sido assim, no entanto, não posso reescrever a história. Como jornalista meu dever é apenas narrar os fatos.

E o fato é que, após tantos anos, a garota se encontra novamente nesse mesmo lugar. Em frente à casa que você tanto amou. Está sozinha agora, com nada além de um cachecol furtado e um coração partido. Você sempre gostou de coisas destruídas e assombradas, no fim das contas. Talvez por isso tenha me destruído. Talvez por isso tenha escolhido se tornar o espectro que me acompanha dia e noite, assombrando minha mente e congelando meus ossos. Saber disso mudaria alguma coisa? Te faria ficar? Me tornaria finalmente suficiente? Agora que já não sou inteira, sou enfim digna de seu amor?

Há uma parte mim de que ainda anseia por respostas. Que ainda deseja seu afeto. Que ainda espera por você. Que talvez espere para sempre.

Ainda sua,

Rose.

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Hogsmeade, 22 de fevereiro de 2028

Amado Scorpius,

Há uma gaveta com as coisas que você deixou para trás. A terceira da cômoda branca. Aquela com a pintura lascada e a perna quebrada. E a garota a encara, não pela primeira vez, sem saber o que fazer com todos esses objetos. Com todas essas lembranças. Às vezes, ela apenas se senta no chão frio do quarto e retira item por item. Os tocando, os sentindo, os segurando da forma como não conseguiu te segurar. No começo aquilo costumava trazer algum conforto. Mas não mais. Seu perfume já abandonou as roupas. Seu calor já desvaneceu em frio mortal. Cada centímetro de você se desfez em um emaranhado de fios frágeis que ela não pode tecer novamente. Ainda assim, as memórias permanecem bem firmes e costuradas na mente da jovem.

Se lembra de você, usando uma camiseta velha de Mumford & Sons, em um bar decrépito. Da banda desafinada que tocava e da cerveja ruim e barata. Os copos eram imundos e aquela a pior bebida que ambos já haviam tomado. A garota quase consegue sentir o gosto amargo na boca. Quase consegue ouvir as risadas que ecoaram dos dois durante a noite inteira. O pior encontro de todos os tempos. O melhor encontro de todos os tempos.

Se lembra de você, sentado em uma poltrona carmesim, vestindo pijamas. Os óculos – que usava somente para ler – equilibrados no nariz e os olhos fixos nas páginas de um romance trouxa. Uma ruguinha de concentração em sua testa. O livro velho e amarelado, adquirido em um sebo, quase se desfazendo em suas mãos. A chuva caindo do lado de fora e o cheiro de café na cozinha. Uma manhã de domingo completamente cotidiana. A mais gloriosa das manhãs.

Se lembra do dia em que vocês dois compraram a velha cômoda. Dois jovens, mal saídos da adolescência, tentando descobrir o mundo juntos. Duas crianças que sabiam muito pouco sobre a vida – ou sobre qualquer outra coisa –, mas que juravam ter todas as respostas. O mundo inteiro parecia estar contra aquele romance, porém, ambos se recusaram a aceitar a desaprovação. Brigaram com as famílias, brigaram com os amigos, praticamente fugiram juntos, alugando um apartamento antigo e barato. Usando todas as economias para comprar móveis ainda mais antigos e baratos. A cômoda era um desastre, ainda assim, você insistiu que poderia transformá-la em algo belo e funcional. E, tola como era, a menina acreditou. Ela sempre acreditou em você. Em cada uma de suas palavras, promessas, planos malucos.

Hoje percebo que esse foi o meu grande erro.

Ainda sua,

Rose.

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Hogsmeade, 22 de agosto de 2028

Querido Scorpius,

O álbum Babel do Mumford & Sons está tocando na vitrola, enquanto a garota valsa sozinha pela sala. É o seu álbum favorito. Ou, pelo menos, costumava ser. A moça se lembra de como sempre se espantou com essa sua capacidade de não hesitar ao fazer uma escolha. Para uma libriana indecisa como ela, aquilo era fascinante. Coisa de escorpiano, ela diria e você iria revirar os olhos. Um cético da cabeça aos pés (bem fincados ao chão). Você nunca acreditou em astrologia, destino ou qualquer religião. A menina, como a grande crente que era, costumava achar que haviam lhe dado o sobrenome errado. Sua fé, afinal, não era má. Era simplesmente inexistente. Sendo assim, Escorpião Sem Fé lhe cairia melhor. Ou até mesmo Escorpiano Sem Fé. Porque, embora não acredite, você é um escorpiano perfeito, Scorpius. Misterioso, destemido, ambicioso, teimoso. Decidido, acima de tudo.

Lembro de ter lhe dito isso uma vez. Em uma noite como essa, um tanto embriagada, enquanto dançávamos pela sala, ao som de seu álbum favorito. Lembro de como você gargalhou e disse que não era um cético completo. Que tinha fé em nós dois. Mas que, sim, era bom em fazer escolhas e, nesse caso, sempre me escolheria como a sua pessoa favorita. Quando isso mudou? Quando toda sua fé enfim morreu? Quando eu deixei de ser aquela que você amava acima de tudo? Quando você tomou a decisão que me destruiria para sempre? A decisão da qual jamais se arrependerá? Porque eu te conheço o suficiente para saber que arrependimento é uma palavra que não existe no seu vocabulário. Para saber que você não é o tipo de pessoa que olha para trás.

Saber tudo isso, de qualquer forma, não é capaz de assassinar a libriana otimista que me habita. A libriana péssima em fazer escolhas e que nunca será capaz de decidir qual o seu álbum favorito e que, ainda assim, escolheria você como pessoa preferida sem nem mesmo piscar. A libriana que ainda te escolhe. Que ainda tem fé em nós dois.

Ainda sua,

Rose.

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Hogsmeade, 22 de novembro de 2028

Querido Scorpius,

Você já se sentiu congelar? Não de forma física ou literal. De um modo emocional ou apenas simbólico. Talvez eu não esteja explicando corretamente. Mas é assim que a garota se sente. Como se houvesse congelado, ficado presa, parada no tempo. Como se houvesse olhado nos olhos da Medusa e se transformado em uma estátua de pedra, condenada a permanecer estática por toda a eternidade.

O lugar em questão é o Black Axe. Aquele restaurante caro e pretencioso, que você sempre abominou e que, mesmo assim, escolheu como cenário para destroçar o coração da menina que te amava. Ela se lembrará daquele lugar amaldiçoado pelo resto de seus dias. E do momento em que você a estilhaçou por inteiro. Não tem escolha. Revive aquele instante diariamente. Como se sua cabeça estivesse rebobinando um filme ruim. Um filme que ela odeia, mas do qual decorou todas as cenas.

Se lembra de como você estava impecável em um terno negro e da expressão sombria em seu rosto. Se lembra de como era ainda ser a pessoa que você amava. Ou, pelo menos, como era acreditar nisso. Se lembra de ter detestado a lagosta e bebido mais vinho do que deveria. Se lembra da música dos violinos e da iluminação fraca e intimista das velas. Se lembra de quando você respirou fundo, pediu desculpas e a contou que conheceu um outro alguém. Se lembra de como o tom gentil e condescendente de suas palavras foi a parte mais cruel. Se lembra do rímel escorrendo pelo rosto, do copo escorregando por seus dedos e se fragmentando pela mesa. Se lembra de estar sentada de pernas cruzadas. Inerte e em completo silêncio. Incapaz de se mover, incapaz de seguir em frente, incapaz de entender o que havia feito de errado. Repassando cada detalhe daquele relacionamento e procurando por uma falha, por um buraco na parede, pelo momento em que começaram a morrer.

E talvez esse seja o problema. Você tentou sepultar algo que estava vivo. Algo que ainda está vivo. Um sentimento que permanece na menina, pulsando em seu peito, intoxicando todo seu sangue, penetrando em seus poros. Esse velório sem corpo talvez tenha servido para que você seguisse adiante, mas não para ela. Ela permanece tentando salvar a vítima com ferimentos fatais, se recusando a deixá-la ir, a deixa-la morrer.

Naquela noite, eu permaneci no restaurante até muito depois de você ter partido. Até que não houvesse mais ninguém, além de funcionários desesperados por seu merecido descanso. Até que a noite chegasse ao fim. De certa forma, acho que nunca deixei aquele lugar de verdade. Ainda estou ali, assombrando um canto qualquer. E ali irei permanecer, porque você não me deixou outra escolha. Porque o funeral que você arquitetou foi feito para uma única pessoa, quando deveria haver lugar para duas no sepulcro.

Ainda sua,

Rose

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Hogsmeade, 22 de janeiro de 2029

Caro Scorpius,

A garota não sabe o motivo de continuar escrevendo em terceira pessoa.

Eu não sei o motivo de continuar escrevendo em terceira pessoa. Presumo que seja apenas mais fácil. Uma forma de criar distanciamento entre as verdades reveladas nessas cartas e meus próprios sentimentos. Entre a pessoa que sou e a que escreve. O ponto é que não suporto falar de mim mesma. O que pode lhe surpreender, já que esse não costumava me ser um problema. Mas isso foi antes. Agora é difícil até me olhar no espelho. Porque já não me reconheço. Porque não sei quem é a mulher me encarando de volta.

Você foi embora, Scorpius, e levou uma parte de mim consigo. Uma parte que suspeito que nunca conseguirei ter de volta. Não tenho muito orgulho do que restou. Essa garota – que escreve cartas endereçadas ao fogo, que dança sozinha, veste roupas roubadas, bebe mais do que deveria e já não tem mais lágrimas para chorar – me é uma estranha. Uma estranha da qual não gosto nenhum pouco. Odeio ter me tornado essa figura patética e paralisada, congelada por memórias, incapaz de continuar. Corações se partem todos os dias e as pessoas seguem suas vidas mesmo assim. O mundo não acaba após o fim de um relacionamento. Então, por que o meu parece ter acabado? Por que não consigo apenas seguir?

Acho que há algo errado comigo e detesto esse sentimento. Abomino a criatura que me tornei. Às vezes te odeio um pouco também. Por ter me reduzido a essa mulher que precisa escrever em terceira pessoa, porque não tolera sequer olhar para si mesma. Às vezes te odeio por ter ido embora, levando consigo as minhas melhores partes. Às vezes te odeio simplesmente por não conseguir te odiar, o que só me deixa como opção, portanto, odiar a mim mesma e a parte de mim estúpida o suficiente para ter te amado um dia. Para ainda te amar.

Ainda sua,

Rose

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Hogsmeade, 22 de maio de 2029

Caro Scorpius,

Albus vai se casar. Você ficou sabendo disso? Ele te contou ou enviou um convite? Eu não saberia dizer, não sei sequer se continuam amigos. Al não fala de você comigo. Ninguém fala, na verdade. É quase como se seu nome fosse amaldiçoado e qualquer menção a você fosse proibida. Tenho certeza que é algo que fazem com boas intenções. Uma tentativa de ajudar. Só que não ajuda. Pelo contrário, transformar algo em “proibido” apenas o tornar mais tentador. Não foi exatamente assim que acabamos juntos, para começo de conversa?

De qualquer forma, não é esse o ponto. O ponto é que Albus Severus Potter vai se casar. Justo ele, sempre tão cínico, autocentrado e sem tempo para “baboseiras românticas”. Ao menos, era assim que nosso amigo costumava ser. Não mais. Al foi flechado pelo cupido e Bradley Wood conseguiu transformar o senhor rabugento no mais patético dos apaixonados. Isso é maravilhoso, é claro. E me sinto bastante feliz pelos dois. Porém, também sinto inveja.

Para ser sincera, a inveja é um sentimento que tem me corroído até os ossos nas últimas semanas. Não me orgulho nenhum pouco disso. A vergonha, no entanto, não torna essa uma emoção menos real. Não evita que o veneno corra por minhas veias, transformando em cinzas tudo o que deveria ser açúcar. Porque houve um momento – e nem faz tanto tempo – em que nós dois iríamos nos casar e Albus era o solteirão convicto. Você se lembra disso? Se lembra de como se ajoelhou aos meus pés e me pediu para passar o resto da vida com você? Se lembra do anel de sua mãe em meu dedo e de todo o planejamento? Se lembra de como eu já havia até mesmo comprado um maldito vestido? Se lembra de como mudou de ideia, esmigalhando todos os meus sonhos sobre véus e grinaldas?

Talvez eu esteja começando a soar repetitiva nesse ponto, porém, não consigo evitar. Me tornei um disco arranhado. Uma daquelas velhas rabugentas, reclamando das mesmas coisas de novo e de novo e de novo. Ao menos, é o que faço nessas cartas ridículas. Não é algo que me atrevo a dizer em voz alta. Sei que meu lamurio se tornou insuportável e todos esperam apenas que eu siga em frente de uma vez por todas. Como se fosse tão simples. Como se você pudesse colocar um limite temporal para a dor. Ainda assim, é isso o que fazemos, não é? Sempre colocando limites nas experiências, sentimentos e sofrimentos dos outros. Medindo com a nossa régua, algo que não cabe a nós. Tentando controlar a emoção alheia.

De qualquer forma, estou apenas divagando e fugindo do tema principal. Essa carta não é sobre isso. É sobre o fato de que Albus vai se casar e de que estou morrendo de inveja. E não só dele. De Victoire e Teddy que esperam seu terceiro filho. De Molly II que finalmente se divorciou e resolveu seguir seu sonho de maternidade sozinha, adotando uma linda menina. De James Sirius que também será pai em breve (a mãe é uma moça que ele mal conhece, coisa de uma noite só, mas pela primeira vez, James está se responsabilizando por algo). De Dominique superando seu pavor de compromisso e dividindo uma casa com a namorada. De Hugo que se tornou o mais novo goleiro dos Chudley Cannons. De Fred que conseguiu uma promoção no trabalho. E de Lucy que pediu demissão do Ministério da Magia e resolveu começar uma faculdade trouxa. De Lily Luna que encontrou um novo amor. De Roxanne que finalmente aceitou que ela e Lorcan são mesmo inevitáveis. E de Louis que está se mudando para a França, para estudar artes plásticas.

De uma forma ou de outra, todo mundo seguiu em frente. Todo mundo tem algo bom e novo para chamar de seu. Não causo nenhum dano, cuido da minha própria vida e tento controlar esses sentimentos verdes e distorcidos que querem de dominar. Porém, sou a única estagnada. Presa a um passado que não existe mais. E isso dói. Faz o ressentimento crescer como hera venenosa em meio peito. Mais do que qualquer coisa, isso está começando a parecer uma tragédia.

Ainda sua,

Rose

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Hogsmeade, 22 de julho de 2029

Caro Scorpius,

Já tentou tirar uma mancha de vinho de um tecido branco? Foi o que eu passei a tarde de hoje tentando fazer. Sim, um excelente domingo. Divertidíssimo. Talvez você se pergunte o motivo de eu estar te contando algo tão trivial. Na verdade, não sei ao certo. Não sei sequer o motivo de escrever essas cartas, uma vez que não tenho seu endereço. Além disso, não acho que teria coragem de enviá-las, mesmo se tivesse um remetente. Sim, que bela grifinória eu sou. Acho que a minha coragem também foi algo que você roubou, levando escondida em sua bagagem, quando partiu. Ou talvez eu esteja te culpando por isso apenas porque é mais fácil. Também não sei dizer.

O que sei, contudo, é que ontem derramei vinho no meu vestido favorito. Aquele que também costumava ser o seu vestido favorito. Se lembra dele? Aquele branco com pequenas pérolas nas mangas e com zíper que tem uma tendência irritante de travar? Eu sempre precisava de sua ajuda com aquele maldito zíper, porém, era isso que tornava o vestido tão querido para nós dois. Você amava me ajudar a despi-lo. E eu amava que me ajudasse a vesti-lo. Nunca te contei o motivo, mas era porque me trazia segurança. Porque me mostrava que você estava ali por mim e me fazia acreditar que sempre estaria. Que grande tolice!

Nada disso importa. O vestido está arruinado. Tentei, com bastante empenho, me livrar da mancha escarlate, no entanto, não obtive sucesso. Talvez o tenha apenas manchado ainda mais. A parta engraçada é que é justamente assim que me sinto em relação a você, Scorpius. Como se houvesse sido manchada por seu amor e não conseguisse me livrar da marca. Porque não importa com quanta água me lave ou o quanto me esfregue, suas digitais ainda estão por todo meu corpo. Por toda minha alma.

Não importa o que eu faça ou quanto tempo passe, você ainda está em mim. Porque você fincou raízes no meu âmago. Entrelaçou minhas entranhas em nós que não sou capaz de desatar. Empeçonhou o meu sangue. Me contaminou com seu veneno, me deixando refém de uma doença da qual não consigo me curar. E o problema é que eu quero me curar, Scorpius. Preciso me libertar de você.

Acho que todo esse tempo estive tentando, mesmo que inconscientemente, te manter comigo. Te prender em meu coração. Me recusando a te deixar partir. Mas preciso te deixar partir, porque te amar está me matando e não posso continuar assim. A questão é que, mesmo agora, ainda sinto seus grilhões em meus pulsos. Ainda sinto suas correntes me fazendo afundar. Ainda não consigo me livrar de sua presença espectral. Ainda não consigo seguir em frente.

Ainda sou sua,

Rose

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Hogsmeade, 22 de setembro de 2029

Prezado Scorpius,

Um dia você me disse que o que mais detestava em sua casa – a tão sombria e imponente Mansão Malfoy – eram as antiguidades que seu pai colecionava com tanto afinco. Me lembro de como isso sempre foi algo que te enlouqueceu em Draco. Esse apego tão sufocante ao passado. Essa necessidade de reviver algo que não podia ser alterado. Você nunca suportou esse tipo de comportamento. Nunca tolerou ser cobrado pelo que havia vindo antes. Para você, o passado era história ancestral e deveria permanecer assim. Era por isso que seus olhos estavam sempre voltados para o futuro. Para as promessas gloriosas de dias melhores e novas oportunidades. A novidade sempre lhe despertou fascínio. Sempre conquistou seu coração.

Quando você decidiu que eu era uma relíquia que deveria ser deixada para trás? Quando percebeu que meus ponteiros estavam desajustados, minhas engrenagens começavam a falhar e meu sangue era ferrugem? Quando decidiu me abandonar no canto do esquecimento, para coletar poeira por toda a eternidade? Foi quando você encontrou um modelo atualizado de mulher ou antes disso? A garota por quem você me deixou ainda é o seu novo amor ou você já encontrou uma versão nova dela também? É provável que sim, porque você nunca suportou antiguidades. Porque sempre precisou de novidade e efervescência para espantar o tédio e as teias de aranha de sua alma. Quantos corações mecânicos você já coletou, desde que me deixou para oxidar sozinha? Você os coleciona – como seu pai faria – ou ateia fogo em cada um deles? Você sequer dedica um pensamento às suas vítimas?

Acho que a pergunta real é: você sequer pensa em mim, Scorpius? Porque eu penso em você. Todos os dias.

Ainda sua,

Rose.

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Hogsmeade, 22 de dezembro de 2029

Scorpius,

Às vezes acho que sou um fantasma. Um espírito agourento, vagando pela Terra e espalhando tristeza por onde passa. Às vezes acho que você é o fantasma. Uma assombração que se instalou em minha morada e me atormenta há três anos. É mais ou menos o tempo em que não tenho notícias suas. Não sei por onde você anda ou com quem. Ainda vejo seu rosto o tempo todo. Te imagino em cada mocinho de livro romântico. Te dedico cada música de amor que escuto. Vivo perseguida pela sua memória, por tudo o que tivemos e tudo o que poderíamos ter tido. Se ao menos as coisas houvessem sido diferentes. Se você tivesse escolhido diferente. Às vezes acho que todos esses “e se” vão me enlouquecer.

Nesse ponto, já não sei se sinto sua falta ou apenas sinto falta da ideia de você. Da ideia de que alguém como você poderia amar alguém como eu. Da forma como me sentia ao seu lado. Porque o fato é que você fez com que eu me sentisse real pela primeira vez na vida. E isso é mais do que sou capaz de explicar. Antes de você, eu era apenas uma farsa inconcreta e imaterial. Uma boa garota, contando as mentiras doces que todos ao meu redor queriam ouvir. Interpretando um papel que me sufocava. Uma menina covarde e invisível que se misturava à multidão, desejando apenas desaparecer.

E então, você me notou. Justo você, o rapaz que nunca conseguiria passar despercebido. Que navegava pelos corredores de Hogwarts com o queixo erguido, mesmo quando todos os dedos eram apontados em sua direção. Mesmo quando cuspiam ao ouvir seu sobrenome. Você, um rebelde de péssima reputação, me viu. Não a personagem que eu performava, mas a pessoa que se escondia na pele dela. Você percebeu a verdadeira Rose. Viu os espinhos e não as pétalas róseas e delicadas. Mais do que isso, encontrou em mim algo que valesse a pena amar. Pela primeira vez, eu me senti uma pessoa real. Sólida. Palpável. Não mais a filha perfeita da Ministra da Magia. Mas uma pequena rebelde da qual sentia bastante orgulho.

Depois de tudo isso, você partiu. Se deixou levar pelo vento e resolveu espalhar seu amor por outras flores. E eu me desfiz por inteira. Me tornei líquida. Voltei à imaterialidade. Talvez, no fim do dia, eu nem sinta tanta falta de você. Talvez eu só sinta falta da garota que era quando estávamos juntos. Da garota que ainda preciso reencontrar. Reconstruir.

Ainda sua,

Rose.

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Hogsmeade, 22 de maio de 2030

Scorpius,

Essa é a última carta. Precisa ser. Porque não posso continuar assim. Porque não há sentido nessa insanidade. Há três anos você partiu meu coração, fez suas malas e se mudou para o outro lado do mundo. Me deixou para trás. Está na hora de eu fazer o mesmo. Está na hora de te deixar partir. Ou algo parecido. Sendo honesta, sei que nunca vou conseguir te abandonar totalmente. Há uma parte minha que sempre irá te amar. Há uma parte sua que sempre viverá em mim. Mas já fiz as pazes com essa realidade.

Você foi importante demais na minha história para que eu possa simplesmente te apagar. Além disso, não quero te apagar. Porque isso significaria desaparecer com todas as coisas belas que vivemos juntos. O fim pode ter pintado bordas sombrias nas minhas aquarelas cor de rosa, ainda assim, isso não tira totalmente o brilho daquelas telas antigas. Houve um momento – um instante ínfimo do espaço-temporal – em que você me fez a garota mais feliz do mundo. E eu te agradeço por isso. Te agradeço por esses dias que existirão imortais na roda do tempo. Obrigada por tudo o que foi bom. E pelo que foi ruim também. Obrigada por ter feito parte da minha vida.

Obrigada especialmente por me ensinar que não podemos ficar fixados no passado. Que é preciso olhar para o futuro. O nosso amor morreu jovem e isso é uma tragédia. No entanto, não significa que o resto dos meus dias precisem ser trágicos. Essa não é a história que quero escrever. Mais do que isso, é uma história que me recuso a escrever. Você foi o meu primeiro amor, Scorpius, mas não será o último. Tenho que aprender a me sentir real sozinha. Tenho que encontrar novas coisas e pessoas para amar. Seja romanticamente ou não. Tenho que me levantar daquela mesa e deixar o restaurante.

Acho que isso é um adeus.

Com amor,

Rose.

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Hogsmeade, 22 de maio de 2030

Querida Rose,

Não sei muito bem como começar essa carta. Faz tanto tempo que não nos falamos, não é mesmo? Tempo demais, se quer saber a minha opinião. Não tenho sido muito gentil com você. Te deixei esquecida em um canto qualquer. Tranquei todos os seus sonhos e planos em um baú que joguei no porão. Negligenciei todas as suas necessidades por três anos inteiros. Te peço desculpas por isso. Desculpas por ter me perdido de você em algum ponto do caminho. Desculpas por ter traçado uma trajetória cheia de tropeços, tentando perseguir um amor antigo, quando o único amor que realmente importa escorria por entre meus dedos. Desculpas por ter te anulado como mulher e nunca te amado o suficiente. Estou tentando ser melhor agora. Melhor para você. Melhor por você.

Às vezes quase consigo. Às vezes me sinto quase inteira novamente. Quase real. Quase presa a esse mundo e não a uma memória. É difícil recuperar o ritmo da vida, após ter se embaraçado na coreografia, porém, é preciso continuar dançando. Às vezes sinto como se houvesse acabado de despertar, após passar anos adormecida. Tudo é um tanto novo e diferente. E eu também preciso ser nova e diferente. Suponho que esteja conseguindo.

De uma forma ou de outra, hoje vou te levar para um encontro. Apenas nós duas. Acho que iremos arrasar com nossos cortes de cabelos novos e melhores sapatos. Espero que seja divertido. Mas se não for, tudo bem. Tenho convicção de que em algum momento a alegria nos encontrará de novo, só precisamos nos abrir para ela. Nos abrir para o amor. Nos abrir para a vida. Eu estou aberta, espero que você também esteja.

(Apesar de tudo) Ainda sua,

Rose

Notas finais
Acho que podemos dizer que é um final agridoce, não é? Pelo menos, a Rose não ficou esperando para sempre como na música da Taylor haha Enfim, espero mesmo que tenha gostado!!! ♥ Beijinhos, Thaís
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!