Três meses depois...

― Maria, você já está pronta? – Arthur pergunta.

Parado na porta de casa, Arthur está com o filho no colo, somente esperando Maria Flor para que possam deixar Sadrak com sua mãe e, em seguida, irem trabalhar.

Para Arthur, os últimos três meses foram uma grande transformação em sua vida, principalmente por conta de seu relacionamento com Maria e com Sadrak, se é que relacionamento pode ser considerado a palavra, visto que ele e Maria não são um casal.

As brigas entre os dois, que eram constantes, pararam consideravelmente, não que eles ainda não briguem, não é este o caso, mas, as brigas vêm com bem menos frequência do que antes. Ele conseguira convencer Maria a aceitar o trabalho no escritório de seu amigo, e, em três meses, ela vem aprendendo muito, deixando o trabalho nos arquivos e estando agora como assistente de secretária. Ele fica verdadeiramente feliz por ela estar crescendo na empresa e ter se mostrado bastante inteligente e capacitada, tudo o que ela precisava era uma chance de mostrar do que era capaz e, felizmente, esta chance apareceu.

Ainda espera conseguir pagar um curso pré vestibular para ela, a fim de que ela preste vestibular para medicina e realize o seu sonho, mas, a teimosa ainda insiste em dizer que não precisa de sua ajuda.

Bem, certas coisas nunca mudam.

― Maria, nós estamos atrasados. – ele volta a falar.

Não demora muito, e, Maria chega na sala, usando uma calça social preta e uma blusa social branca, os belos cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo. Os dois então deixam a cobertura e seguem direto para o elevador, onde Arthur já aperta o botão da garagem, e, ali chegando, eles rumam diretamente para a vaga do carro de Arthur, onde, ele não perde tempo e destrava o alarme, abrindo a porta de trás em seguida, colocando o filho na cadeirinha, para só então adentrar o banco do motorista, ao mesmo tempo em que Maria adentra o banco do passageiro.

Arthur então não perde tempo em ligar o carro, e, enquanto o motor esquenta, ele volta a sua atenção para maria Flor, para então dizer:

― Espero que você não tenha nenhum compromisso para hoje a noite.

Ante as palavras do homem, Maria Flor o encara um pouco intrigada, para então dizer:

― Arthur, você sabe muito bem que eu não tenho nenhum tipo de compromisso além do trabalho e de cuidar do meu filho. Então, diga logo o que é que você está tramando.

― Não estou tramando nada. – Arthur dá de ombros ao mesmo tempo em que pisa na embreagem e dá partida no carro – Apenas que minha mãe nos convidou para jantar, então, minha cara, se tem alguém que está aprontando algo, eu posso te garantir que não sou eu. Então, já que esclarecemos este pequeno detalhe, eu posso conformar o jantar com a minha mãe?

― Você sabe que eu não sou capaz de negar nada a Andrea, não é mesmo? Então sim, você pode confirmar.

O trajeto até o prédio em que Andrea reside é feito em silêncio, com apenas o rádio tocando músicas MPB e Sadrak brincando com sua pelúcia. E, tão logo chegam ao prédio em que Andrea reside, Arthur estaciona em frente ao prédio, onde, Andrea já está ali, esperando pelos dois.

Maria desce do carro, abre a porta de trás e pega o seu filho no colo, entregando-o em seguida para Andrea.

― Não esqueçam o jantar aqui em casa. – fala Andrea, de forma animada – Você vem, não é mesmo, maria?

― Venho sim, Andrea. – responde Maria, com um sorriso sincero em seus lábios – Você sabe que eu não sou capaz de negar nada a você.

― Maria, você é simplesmente maravilhosa! Agora vão trabalhar para não se atrasarem e, à noite nos veremos!

As duas se despedem com um beijo no rosto, e, Maria volta a entrar no carro, Arthur então volta a dar partida no carro, e, ele não perde tempo em dizer:

― Eu acho simplesmente incrível a facilidade com a qual você e minha mãe ficaram amigas tão rápido.

― Sua mãe é um amor de pessoa e sempre me tratou muito bem e, por isso mesmo é que eu não vejo motivos para não gostar dela.

― E ela gostou de você de graça. Achei impressionante.

― Por que? Acaso sua mãe não se dá bem com as pessoas?

― Ela só não costuma se dar bem com minhas namoradas.

― Vai ver é porque você tem um péssimo gosto para namoradas, basta olhar para aquela sua ex-noiva. E, não se esqueça de que não sou sua namorada, sou apenas a mãe do seu filho.

― O que faz de você mais do que minha namorada!

― Não mesmo! Para começo de conversa, se você não tivesse me embebedado aquela noite eu jamais teria caído na sua lábia!

― Bom, se você não tivesse, como você diz, caído na minha lábia, sua vida não teria mudado tanto.

― Arthur, sinceramente, as vezes você não tem noção das coisas que você fala. Eu amo o meu filho e ele foi a melhor coisa que poderia ter acontecido em minha vida, mas, você não imagina a saudade que eu sinto da minha terra.

As palavras de Maria fazem com que Arthur se mantenha em silêncio, pensativo. Ele, em nenhum momento, havia parado para pensar que Maria poderia sentir falta de sua terra. Ele nasceu e foi criado no Rio de Janeiro então, nunca esteve longe de sua terra, ainda mais sozinho.

Faz uma nota mental de que em breve precisará fazer uma viagem com Maria.

― Por que ficou calado de repente? – questiona Maria, estranhando o silêncio repentino de Arthur.

― Nada, não. – responde Arthur – Eu apenas estava pensando em uma coisa.

― Pensando em que? – Maria não consegue conter o tom de curiosidade em sua voz.

― Nada de importante, como eu já disse. E, por favor, não me faça mais perguntas. Olha, já chegamos em seu trabalho, ao final do seu expediente eu velho lhe buscar.

Os dois se despedem, e, Maria desce do carro, Arthur então dá a partida rumo ao seu escritório, pois, ele tem um longo dia de trabalho pela frente.

*****

Danielly chega completamente irritada ao escritório de Sebastian, e, encontra o homem sentado confortavelmente, olhando para alguma coisa na tela do computador.

― Danielly! – fala Sebastian, completamente animado – A que devo a honra de sua visita!

Ante as palavras de Sebastian, a raiva que Danielly sente apenas aumente em seu interior, pois, ela simplesmente não suporta a forma como ele parece estar calmo. Sem perder tempo, ela se aproxima e bate na mesa dele, para então dizer:

― Como você se atreve a estar aí, tão calmo quando há três meses você vem me enrolando e não executa o serviço que eu lhe paguei para fazer!

― E quem disse que eu não estou trabalhando nisso? Há três meses eu venho estudando a rotinha da Florzinha Clarinha, agora, tudo o que eu preciso é da oportunidade perfeita para executar este serviço.

― Você teve três meses para fazer isso! – Danielly está cada vez mais irritada – Como você tem coragem de dizer que em todo este tempo não teve a oportunidade perfeita?

― A não ser que você queira que eu envolva o seu amado Arthur no meio dessa história, pois os dois estão juntos em noventa e nove, vírgula nove por centro do tempo, não, Danielly, eu não tive a oportunidade perfeita para executar o meu trabalho. E, só para te lembrar, eu sou profissional naquilo que eu faço, e, por isso mesmo, é que não irei deixar alguém como você achar que pode se meter na forma como eu faço as coisas.

Danielly não gosta nem um pouco de ouvir as palavras de Sebastian, pois, elas apenas fazem com que ela sinta ainda mais raiva, principalmente porque o tempo está passando e ela vê Arthur e aquela Morta de Fome cada vez mais próximos, e, para ela, quanto mais tempo Arthur passa ao lado daquela desgraçada, mais tempo ela está perdendo, pois, ele já deixou claro que no momento aquela mulherzinha e o fedelho estão em prioridade em sua vida.

E, por isso mesmo é que ela precisa fazer Sebastian entender que o seu caso é urgente e, por isso mesmo, ele tem de ser rápido em matar aquela Retirante dos infernos.

― Sebastian. – Danielly fala com uma calma que está longe de sentir – Eu sei perfeitamente bem que você é profissional no que você faz e que por isso mesmo você gosta de fazer as coisas no seu tempo. Mas, acontece que eu estou com um pouco de pressa, meu querido! E, além do mais, eu lhe paguei uma pequena fortuna para que o serviço fosse feito com certa agilidade. Mas, infelizmente, três meses se passaram e aqui estamos nós, em um pequeno dilema pois aquela Retirante dos Infernos ainda está viva.

― Minha cara Danielly, eu lhe disse que a Florzinha Samarinha anda para cima e para baixo com o seu preciso Arthur e que por isso mesmo o serviço ainda não foi feito. Mas, se você não se importa que ele venha a se machucar no processo tentando protege-la, e, eu tenho provas concretas de que ele não pensará duas vezes em fazer isso, eu não me importo em executar essa tarefa ainda esta noite. Aliás, será um prazer ver os últimos suspiros de uma mulher tão bonita. Maltratada, é certo, mas ainda assim ela é muito bonita.

― Pouco me importa se você acha aquela Desgraça bonita! Eu quero ela morta não importa a que preço!

― Você manda. – Sebastian apenas dá de ombros – Agora, por favor, só não venha reclamar se o seu precioso Arthur se machucar no processo.

― Isso eu duvido. Até parece que Arthur será burro o suficiente para tentar salvar a vida daquela desgraçada.

― Aí é que você se engana, querida. – Sebastian sorri de forma debochada.

O sorriso debochado de Sebastian só serve para deixar Danielly ainda mais enfurecida, e, ela usa de todo o seu autocontrole para não começar a gritar com o homem à sua frente. Sebastian fala como se Arthur estivesse apaixonado por aquela retirante dos infernos, e, ela sabe que isso não é possível!

Arthur Montenegro é um homem sofisticado, acostumado a mulheres de alto nível, como ela, e, por isso mesmo, ele jamais se apaixonaria por aquela Mortinha de Fome. O que está acontecendo é que ele está deslumbrado pelo pirralho filho dele, e, de alguma forma, ele pensa que a mãe daquele garotinho dos infernos está incluída no pacote.

Mas, assim que ela estiver fora de seu caminho, Arthur irá recuperar o juízo e assim os dois irão poder retomar o compromisso que tinham antes da chegada daquela Retirante desgraçada!

E então, ela terá um prazer enorme ao mostrar a Sebastian o quanto ele está errado!

― Esta noite então? – Danielly se vê perguntando.

― Sim, minha cara. – Sebastian responde, com um sorriso debochado em seus lábios – Prometo a você que esta noite, a Florzinha Carminha estará fora do eu caminho.

E, ao ouvir estas palavras, Danielly sorri de forma plenamente satisfeita, para então dar as costas a Sebastian e deixar o escritório dele. Ela segue diretamente para o elevador que, por sorte, está parado no andar de Sebastian. Adentra ele e não perde tempo em apertar o botão do térreo, esperando alguns minutos até que o elevador chegue ali. Ela deixa o prédio e segue até a esquina onde deixou o seu carro estacionado, para então destravas o alarme a abrir a porta do motorista, adentrando o veículo e fechando a porta atrás de si. Coloca a chave na ignição e liga o carro, esperando alguns minutos até o motor esquentar e só então dá a partida no carro, começando a dirigir nas ruas da cidade com a certeza de que, esta noite, a sua inimiga estará fora de seu caminho.

*****

Maria acaba de deixar o prédio onde trabalha, e, não é surpresa nenhuma para ela encontrar Arthur esperando por ela, ao lado de seu carro. Caminha até ele e, educadamente, ele abre a porta do passageiro para ela, para só então tomar o seu lugar no banco do motorista e ligar o carro.

― Importa-se de passarmos em casa antes para tomarmos um banho e trocarmos de roupa? – Arthur não perde tempo em perguntar – Eu não sei você, mas eu não estou nem um pouco a fim de jantar na casa da minha mãe com a mesma roupa que fui para o trabalho.

― Eu não me importo. – Maria responde, dando de ombros – Mas, espero não nos demorarmos muito, eu já estou com saudades de Sadrak.

― Eu sabia que você iria falar isso, Maria. – Arthur simplesmente não consegue deixar de sorrir – E, n]ao se preocupe, não iremos nos demorar, apenas o tempo de tomarmos um banho e trocarmos de roupa.

E, após dizer essas palavras, Arthur dá partida no carro, e, começa a dirigir em direção à sua casa. Pegam um pouco de trânsito na Avenida Brasil, afinal de contas, estão em horário de pico.

Assim que chegam a cobertura de Arthur, os dois não perdem tempo e vão logo tomar um banho a fim de se arrumarem para o jantar na casa de Andrea.

Maria não se demora muito no banho, apenas o tempo suficiente para tirar o suor de seu corpo e relaxar um pouco a musculatura após um dia exaustivo de trabalho. E, após tomar banho, ela deixa o toalete e segue para o quarto de hóspedes, optando por usar um vestido branco de alcinha com flores vermelhas. Calça uma sandália de salto baixo e penteia os cabelos, deixando-os soltos. Em seguida, ela deixa o quarto e segue para a sala, onde Arthur está a sua espera.

Ao olhar para o homem, por um instante, ela perde o fôlego, pois Arthur está maravilhoso com uma camisa social de manga curta azul clara e uma calça preta, com sapatos da mesma cor. Seu coração começa a bater mais depressa contra o seu peito e, no mesmo instante, ela desvia o olhar do homem à sua frente, pois, não quer que ele perceba o efeito que está exercendo sobre ela.

Aliás, não é só porque Arthur é um homem bonito, e, céus, como ele é bonito. Mas o fato de que, em três meses de convivência, ela está conseguindo enxergar o homem por trás daquela máscara de magnata que ele usa, e, é este homem que sabe ser gentil quando quer, mesmo que tenha um gênio difícil, é que faz com que ela se encante.

Arthur, no fim das contas, é um homem bom.

― Vamos? – a voz de Arthur a tira de seus pensamentos – Não quero que você me diga que eu fiquei lhe atrasando.

― Em momento nenhum eu disse que você está nos atrasando. – fala Maria, arqueando uma sobrancelha.

― Certo, então, antes de você dizer isso, e, acho que a conheço um pouco melhor agora para afirmar, eu já estou lhe chamando para irmos.

Maria simplesmente não consegue deixar de sorrir ante as palavras do homem, que, a encara com um sorriso sedutor, para então, com um gesto de mão, apontar para a porta. Os dois deixam a cobertura e, enquanto Arthur tranca a porta, Maria não perde tempo em chamar o elevador. Eles seguem para a garagem e adentram o carro, Arthur coloca a chave na ignição e liga o carro, dando a partida no veículo e começando a dirigir pelas ruas da cidade.

Como já anoiteceu, os dois não pegam muito trânsito e, não demoram nada a chegar em Ipanema e, tão logo chegam ao prédio em que Andrea reside, Arthur estaciona o carro na porta do edifício.

Ele e Maria então deixam o carro, e, estão começando a se dirigir até o portão de entrada do prédio quando os dois são cercados por três homens armados.

No mesmo instante, Arthur se coloca de forma protetora na frente de Maria, que, ao olhar para as armas de fogo, sente o medo tomar conta de si e segura o ombro de Arthur, como se estivesse buscando algum tipo de proteção.

― Saia da frente! – um dos homens fala diretamente para Arthur.

― Não. – responde Arthur – Se é dinheiro que vocês querem podem levar a minha carteira. Mas deixem a moça em paz, ela não tem nada, eu tenho. Podem levar o que quiserem que eu não vou reagir. Apenas nos deixem em paz.

― Se é assim que você quer. – o homem volta a falar – Então me dê a carteira, o celular e as chaves de seu carro.

Arthur se vê completamente sem saída, e leva uma de suas mãos ao bolso de sua calça, tirando o seu I Phone, a chave de seu carro e a sua carteira. Ele mostra tudo aos homens que estão na sua frente.

― Ótimo. – diz o líder dos três – Agora se aproxime e coloque tudo isso em minhas mãos. Se fizer isso, garanto que nem você e nem a moça irão se machucar.

Arthur faz menção de dar um passo para a frente e fazer o que o homem quer, mas, Maria o segura.

― Arthur...! – é tudo o que ela consegue dizer.

― Não se preocupe. – Arthur tenta tranquiliza-la – Vai ficar tudo bem. Agora me espere aqui.

E, após dizer estas palavras, Arthur começa a caminhar, a fim de fazer o que lhe fora solicitado. E, no momento em que ele dá alguns passos para longe de maria, Sebastian surge por trás do grupo, com uma arma em mãos e faz um disparo, mirando diretamente no coração de Maria Flor.

Ao ouvir o barulho de tiro, Arthur olha para trás, mas, é tarde, pois Maria é atingida por uma bala na região pulmonar, caindo no chão em seguida com um grito agudo de dor.

E, ante tal cena, Arthur fica completamente paralisado, seu rosto torna-se instantaneamente branco como o rosto de um fantasma e, sua boca se abre em um grito desesperado:

― MARIA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Notas finais
CONTINUA...