Still Doll

1 Capítulo único: Noite sombria


Notas iniciais
"A morte me perseguia. Percebi isso quando aquilo aconteceu pela terceira vez" Jheena Parker

Talvez fossem os olhos vazios e sem vida que tanto me prendiam ao encanto de Alice.

O caso é que nunca acreditei que ela fosse um ser totalmente inanimado. A boneca de porcelana, com cachos loiros e bem trabalhados possuíam uma inexpressividade digna de nota. O azul de seus olhos de vidro desprovidos de qualquer expressão parecia encarar e examinar até mesmo o canto mais escondido de minha alma. Sua vestimenta era sempre o mesmo vestido rosa de seda com rendas nas pontas. Era simples, mas a singularidade presente na beleza da Alice fazia qualquer detalhe simplório se transformar no mais bem trabalhado de todos.

Ela era tudo que me sobrara. A boneca que um dia fora de minha avó materna, por conseguinte de minha mãe e finalmente minha, era a única que ouvia minhas lamúrias e infortúnios. Era a única com quem eu podia contar. Alice era minha melhor amiga.

~ll~

–Hey! Você vai participar do concurso que a escola está organizando?

Eu escutei aquela voz e mal pude acreditar. Havia alguém falando comigo? Não. A conversa era dirigida a uma menina que caminhava atrás de mim.

–Não. Eles são muitos cruéis. –Comentou a menina apressando o passo para alcançar à amiga, a fim de que eu não mais continuasse entre elas. Acompanhar o assunto da conversa, bem como os passos delas, tornava-se cada vez mais difícil. Não que eu realmente ansiasse por estar com elas especificamente, só não gostava de caminhar sozinha. Para ser sincera, nem conhecia direito as garotas.

Parei de súbito esbarrando em uma delas. Ambas haviam parado repentinamente e não pude evitar o choque. Não entendi o motivo daquela parada abrupta até que senti a gota de líquido quente respingar em minha bochecha. Voltei meu olhar para o teto, local onde a atenção das duas moças estava concentrada.

Senti um aperto na região do estômago, bem como um calor sufocante, tomaram conta de meu corpo. Havia alguém pregado lá em cima. Seu rosto estava contorcido em uma expressão de dor e pregos a atavam ao teto. Seus olhos, tão vazios quanto os de Alice, me fitavam como se me estudassem, mas a inexpressividade contida neles denunciava: a menina estava morta. O líquido vermelho e quente que gotejava em minha bochecha já era um velho conhecido meu: sangue. Lembrei de imediato do dia em que encontrei o corpo de meus pais, em pedaços sobre a cama que dividiam. Enquanto eu estava em estado de choque, as duas meninas ao meu lado tomavam atitudes inversas: uma corria para chamar ajuda de zeladores, suponho eu, enquanto a outra debulhava-se em lágrimas e vomitava sem parar. Eu não conseguia esboçar reação alguma, bem como não conseguia desviar meus olhos daquela cena bizarra. Alysson, a menina com quem lembrara de ter trocado uma ou duas palavras sobre o concurso de roteiros que a escola estava promovendo para a peça a ser realizada no festival de Halloween daquele ano, agora jazia pregada no teto, com seus lisos cabelos longos e negros, pingando sangue, bem como a branca pele de seu corpo esguio.

~ll~

–Você está melhor? –Perguntou-me a menina que correra para chamar ajuda mais cedo, sentando-se ao meu lado na calçada da escola. As aulas haviam sido suspensas obviamente.

Assenti com um sinal de cabeça.

–Você não é de falar muito não é mesmo? Só fui saber que estávamos na mesma sala depois do que aconteceu ainda há pouco. Jheena Parker, certo? –Perguntou-me, tagarelando sem parar. Sem nada a dizer assenti novamente.

–Sou Katherine Jones, 16 anos. É um prazer te conhecer, mesmo que as circunstâncias não sejam as melhores. –Eu parecia entorpecida, letárgica, de forma que a voz dela ecoava por minha cabeça em sons disformes. Estava frio, mas de repente não estava mais. Senti algo bom em meio a tantos sentimentos ruins. Como se eu finalmente estivesse segura após anos de solidão auto-imposta.

–Não se preocupe. Vai dar tudo certo. Vai ficar tudo bem. –Ela me abraçava forte e enterrava o rosto em meus cabelos negros cacheados que caíam por meus ombros. A menina que antes me parecia como uma muralha, chorava em silêncio em meu ombro. Ela não estava apenas me apoiando, ela também estava buscando apoio. Ao perceber isso a envolvi em meus braços, correspondendo a sua carícia e senti-a relaxar pouco a pouco sob meu aperto.

~ll~

A escola parecia ter sido tomada por um manto negro que levara sua vitalidade antes tão exposta. Não decidiram cancelar as festividades para a noite de 31 de outubro, mas os alunos não estavam mais tão animados quanto antes da morte de Alysson. Já era de ser esperar. Não?

– Fez o trabalho de História? –perguntou-me Kathy que caminhava ao meu lado. Não que estivéssemos nos tornado amigas nem nada depois do ocorrido, mas, por alguma razão, a garota havia praticamente se tornado minha sombra. E eu? Eu simplesmente não tinha força para repeli-la.

– Não-suspirei, sendo acometida por uma nova sensação ruim. Eu já não estava bem naquela matéria, deixar de fazer aquele trabalho significaria a minha ruína!

– Relaxa!-comentou Kathy abrindo a mochila que carregava, retirando dois envelopes e me entregando um deles. – Eu sabia que você ia esquecer, então fiz o de nós duas!

– Ela vai desconfiar. –Comentei olhando com indiferença para o envelope em minhas mãos. Qualquer um com um pouco de dinheiro ou tinta na impressora conseguiria tirar uma Xerox e a professora sabia disso.

– Hey! Acha mesmo que não pensei nisso? Fiz ambos os trabalhos à mão e modifiquei as palavras óbvias, ela não vai desconfiar de nada! –Meu coração bateu apressadamente no peito. Nessas duas semanas eu havia me tornado importante para ela a ponto de fazê-la perder tempo para assegurar minha nota? E se eu tivesse feito o trabalho? Seria tempo gasto à toa. Tanto trabalho... Tantas folhas... Minha garganta prendeu-se em um nó.

– Obrigada. –sussurrei lhe mostrando um doce e sincero sorriso.

~II~

Todos na escola sempre me pareceram iguais: fúteis e inúteis. Completamente iguais com seu egoísmo irrefutável. Kathy era diferente. Kathy sempre estava comigo e parecia importar-se mais com meus sentimentos do que com os dela própria.

Eu sentia a falta dela quando ela não estava ao meu lado. Quando aparecia alguma novidade, era a primeira à quem pensava em contar. Acho que é isso que os outros chamam de amizade.

Tanto a estimava que resolvi mostrar-lhe algo que não ousara mostrar a mais ninguém.

–Incrível! –Ela me disse assim que me encontrou no dia seguinte devolvendo meu caderno. –É com essa que vai concorrer no Halloween?

Assenti levemente corada.

–Está perfeita! Faz a minha parece um monte de lixo mal escrito! –Aquelas palavras me acertaram como uma bofetada, ela...Também escrevia?

–Vai concorrer também? –Limitei-me a perguntar fingindo um sorriso solitário.

–Sim! Olhe! –Começou retirando um caderno da mochila e o entregando a mim. –Acho que não está boa, por isso não queria me inscrever, mas mudei de idéia ontem enquanto lia a sua! Ela me deu inspiração para criar um final, de modo que me inscrevi hoje mais cedo no concurso de roteiro.

–Ah! –O mundo parecia estar fechando-se sobre mim. Kathy era minha rival? É sério isso? Mantive-me calma. Talvez o roteiro dela realmente esteja ruim. Talvez não tenha chances de ganhar do meu. Talvez...

~II~

Chorei com uma criancinha ao retornar para casa. Desabei agarrada à Alice contando-se toda a dor que sentia, o tamanho da ameaça que o roteiro de Kathy deixara em meu coração. Diabos! O texto estava perfeito e a finalização não poderia ter sido mais surpreendente! No fim, cada sorriso e cada incentivo que transmitia à Kathy, transformara-se em lágrimas e lamúrias as quais eu despejava em Alice! Era duro demais! A única coisa que eu me sentia única e boa o suficiente, agora havia sido suprimida. Eu havia encontrado alguém que escrevia melhor do que eu! Voltei a me sentir tão inútil quanto anos antes, até meu professor de redação assinalara meu talento descrevendo-o como único. Bem, que ironia não? Ele não era tão único agora! E justo a única pessoa a quem eu amara o roubara de mim! A dor era tão sufocante que parecia comprimir meus pulmões. Alice, como sempre, era a única a me acalentar, com seus profundos olhos vazios. Inspirada nela, peguei papel e caneta alterando o final de meu roteiro de um final feliz para uma catástrofe enfadonha. Não. Isso não me faria desistir. Eu sou a melhor. Eu vou conseguir. Será mesmo? Mais uma vez, Alice me deu força para continuar.

~II~

O dia esperado havia chegado. Todos contemplavam curiosos o enorme toldo negro que cobria a decoração feita no dia anterior para o festival de Halloween que se realizaria amanhã. O resultado do concurso seria anunciado assim que a decoração fosse exposta, o que ocorreria dali à uma hora mais ou menos. Preocupei-me. Não conseguia ver Kathy em lugar algum. Estaria ela doente?

–É agora, alunos! O momento tão aguardando por vocês! –Começou o diretor, usando um microfone chamando a atenção de todos, inclusive a minha, para a cobertura dos enfeites, os quais ameaçava expor a qualquer segundo. –Preparados? –Perguntou fazendo suspense enquanto uma chuva de excitados”sins” percorriam a boca de cada aluno presente no pátio.

O toldo foi ao chão após um breve agradecimento ao clube responsável por todo o trabalho de ornamentação do local.

Era lindo! Aranhas e morcegos de borracha pendiam do teto por fios vermelhos que pareciam vísceras. Uma enorme estátua de uma bruxa estava no centro de todo aquele amontoado de coisas mórbidas e falsos animais peçonhentos sob uma iluminação arroxeada. As paredes com detalhes que formavam inúmeras cabeças de abóbora. Ao redor da velha bruxa, um rio de sangue falso rodeava o caldeirão à sua frente. Membros estavam pendurados no caldeirão. Falsos obviamente. A bruxa segurava uma cabeça. Me surpreendi ao notar que não era a tradicional luminária em forma de abóbora que estava presente nos demais festivais. Era uma cabeça humana! Sobressaltei-me ao ver o desmaio de uma das componentes da decoração e a inquietação dos que estavam em minha volta. Por que tanta balbúrdia? Se temiam algo mórbido por que decorar o pátio desse modo então?

Levou cerca de dois segundos para que a ficha caísse. Nada daquilo era falso! Não faziam parte da decoração original! O sangue, as vírceras, os membros! Agora que ponderava sobre essa possibilidade, o cheiro doce de ferro acertou com força as minhas narinas. Era sangue de verdade! Mortificada, caminhei à frente tentando reconhecer a vítima, a cabeça na mão da bruxa.

Aqueles olhos... Aqueles olhos abertos e livres de expressão como os de Alice! Não era a primeira vez que me prendiam daquela forma! Cai de joelhos frente à cena dolorida demais até para chorar, enquanto a multidão à minha volta corria ensandecida ao deparar-se com os restos mortais de Kathy. Estava choque novamente, como no dia em que nos conhecemos. Seus olhos, sua boca, sua face, agora repleto daquela de quem eu tanto fugia: A morte. Por que eu tinha de presenciar tais coisas, por quê? Por que comigo? Por que justo ela? Eu a amava! Em nada isso era justo! Ela nunca mais estaria ao meu lado! Nunca! Isso me desesperou mais do que o bilhete encontrado pelo diretor, ao lado da cabeça de Kathy.

“Amanhã é o seu dia Jheena! Brilhe!”

Palavras que, obviamente, devido à caligrafia, haviam sido escritas por uma criança. Palavras, que obviamente, significavam que eu seria a próxima vítima. Talvez fosse melhor assim. Poderia então ficar junto à minha melhor amiga pela eternidade.

–Noite anterior (Ponto de vista onisciente)-

Após mais um dia sorrindo sem vontade para Kathy e chorando para Alice, Jheena finalmente adormeceu. Mas não tardou para que seus olhos se abrissem novamente. Sentou-se na cama de forma robótica sem nem ao menos piscar. Seus olhos não focavam nenhuma direção. Como uma sonâmbula caminhou pelo quarto escuro até um baú, sem nem ao menos tropeçar em nada. Parecia enxergar em meio à carência de luz. Abriu-o retirando de seu interior um vestido vitoriano rosa-bebê, repleto de babados e detalhes mais simples. Já havia o vestido outras vezes, mas nunca havia o lavado. As manchas do sangue de seus pais misturavam-se às mais recentes, pertencentes a Alysson, a menina que oferecera ameaça ao roteiro de Jheena e tivera um trágico fim dias depois. Claro, Jheena nunca saberia quem fora o responsável, bem como nunca saberia quem esquartejara seus pais após uma sugestão deles de que se desapegasse um pouco de Alice agora que já estava “grandinha”. Mas Alice não permitira que a separassem de sua única amiga, e também não permitiria que ferissem-lhe os sentimentos da forma que Alysson o fizera. Agora a menina sofria novamente. Alice queria exterminar qualquer que fosse a fonte da dor de Jheena. Então, essa noite, a moça que se sentava frente a penteadeira para organizar seus cachos e ajeitar o vestido não era Jheena. Não mais. Os olhos vazios e sedentos de sangue delatavam isso. Aquela era Alice. E com a determinação ferrenha de uma amiga fiel pronta para proteger sua preciosa dona, Alice vestiu-se e partiu. Pronta para matar Kathy e voltar a ter Jheena só para ela. Para sempre.

Notas finais
nota do autor: Alice também é minha melhor amiga, então, não difame a obra! (brincadeirinha!). Essa obra foi inspirada em uma música de mesmo nome. Sugiro que enquanto esteja lendo, ouça a música e depois leia a tradução. Deixarei o link aqui caso queira se aventurar. Espero que tenha gostado da estória! Deixe um comentário e seja feliz! E, tente não conversar com bonecas, está bem? Bye. bye! Clip de Still Doll da cantora Kanou Wakeshima (copie e cole) http://www.youtube.com/watch?v=fV-hxR-AEKI Tradução : (copie e cole) http://letras.mus.br/kanon-wakeshima/1236518/traducao.html
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!