Notas iniciais
Bem, como prometido, está aqui o capítulo inédito para aquelas que já leram *u*
Peço desculpas pela demora, mas passei o fim de semana com meu namorado, já que sexta-feira completamos dois anos juntos *u*
Só aviso que estou muito chateada, pois o número de leitores aumentou, e em contrapartida os comentários DIMINUÍRAM. Isso não faz sentido.

— POV SARAH —

Havia se passado basicamente um mês desde que Lori e T-Dog haviam partido, e a doce Judith — filha de Rick e Lori — chegara para trazer um pouco de alegria aos nossos dias.

Dois meses que habitávamos a prisão, e desde aquele dia do incidente com o alarme, não enterramos mais nenhum corpo.

A verdade é que sequer tivemos a chance de enterrar os corpos de T-Dog e Lori. Não havia sobrado nada, nem uma parte sequer... Fazer um funeral simbólico foi o único meio de guardá-los em nossa memória.

Há alguns dias ando sentindo-me um pouco estranha. Tenho estado indisposta e a comida não tem feito bem ao meu estômago. Acredito que a data de validade ultrapassada tenha colaborado para isso, contudo, apenas eu tive essas reações. Isso não era de se estranhar, já que eu tinha uma imunidade baixa, o que não mudaria com o “apocalipse zumbi”.

Como de costume, Daryl e eu sairíamos em busca de leite em pó para Judith. Sempre revezávamos com Maggie e Glenn, e essa era a nossa semana.

— Hey, dorminhoca — Daryl chamou-me, sentando-se ao meu lado no colchão.

— Bom dia — cumprimentei sonolenta, esfregando os olhos. — Que horas são?

— Bem, a julgar pelo sol, já deve ser meio-dia — respondeu dando de ombros.

— O que?! — questionei nervosa, levantando-me rapidamente.

Minha cabeça parecia pesar toneladas, então precisei ficar alguns minutos de olhos fechados, até que tudo voltasse a seu estado normal. Apertei minhas têmporas, como se esse simples gesto pudesse amenizar meu mal estar.

— Você está bem? — indagou preocupado. Senti que ele havia se aproximado um pouco mais.

— Sim, é só que... — não, era bobagem preocupá-lo com coisas sem importância.

— Que...? — ajoelhou-se à minha frente, tocando meu rosto com suas mãos ásperas. Abri meus olhos minimamente, encarando aquele par de orbes claras que definitivamente obrigavam-me a falar a verdade.

— Eu ando me sentindo um pouco indisposta ultimamente. Cansada demais, na verdade gostaria de dormir o dia todo. A comida daqui não está me caindo bem. Realmente, não é nada de mais — suspirei desviando o olhar e passando a encarar o teto.

— Talvez você esteja doente... ­— constatou, levando à mão até minha testa, a fim de checar minha temperatura. — Acho que deveria falar com Hershel. Nós estamos seguros aqui, o que não quer dizer que vivemos imunes ao resto — concluiu, acariciando minha bochecha.

Sabia o quanto era raro Daryl demonstrar tanto carinho, então preferi apenas aproveitar o momento.

— Daryl... — sussurrei enquanto o abraçava com força, enterrando meu rosto na curva de seu pescoço.

— Você... está chorando? — perguntou afastando-se um pouco para encarar-me.

Surpresa, eu toquei minha face e constatei que realmente estava úmida.

— Ah... Acho que estou me tornando uma chorona novamente — ri nervosa, tentando aliviar a tensão.

Talvez conviver com um bebê e manter-me totalmente isolada da maldade que havia após os portões da prisão estivesse deixando-me um pouco mole demais.

Daryl revirou os olhos, como se eu estivesse agindo feito uma louca.

— Te espero lá embaixo. Preciso dar uma checada no mapa para saber qual caminho seguiremos.

Apenas concordei enquanto o observava se afastar.

Joguei-me novamente no colchão, suspirando pesadamente. Cobri o rosto com o cobertor e esfreguei meus olhos, incomodada com a claridade.

Eu precisava levantar-me, e o choro manhoso de Judith do lado de baixo da prisão, apenas salientava meu pensamento.

Lentamente levantei-me e peguei a garrafa d’água que havia ao lado de minha cama, caminhando a passos lentos em direção à cela ao lado. Parei-me a frente da pequena pia e abri a garrafa, colocando um pouco de água em minha mão e jogando em meu rosto logo em seguida.

Abaixei-me e peguei minha escova de dentes na nécessaire que estava no chão da cela. Estava com um gosto horrível na boca, como se tivesse metal ou sangue incomodando-me.

Escovei-me apressadamente, sabendo que Daryl estaria impaciente no andar de baixo. É claro que ele não falaria nada — como sempre —, mas realmente não era algo agradável tê-lo calado ao meu lado durante o percurso inteiro.

Olhei-me rapidamente no pequeno espelho precário que havia acima da pia e não gostei do que vi. Por mais que dormisse horas a fio, minhas olheiras pareciam um pouco acentuadas, além de meu cabelo estar um caos totalmente sem solução. Vendo que não havia mais alternativas, prendi-o em um rabo-de-cavalo frouxo e desci.

Assim que cheguei ao centro do bloco, percebi que apenas Beth estava ali, junto com Daryl. Ela tinha Judith nos braços e a embalava sorridente.

Como Judith normalmente era inquieta, imaginei que ela estivesse dormindo. Por mais incrível que pudesse parecer, Daryl estava sentada no último degrau da escada, observando-as admirado.

Não foi premeditado, mas infelizmente senti uma pontada de ciúmes ao vê-lo encarando-as daquela forma. Engoli em seco e passei reto por ele, encaminhando-me até Beth.

— Ela está dormindo? — questionei enquanto passava a mão pelo cabelo fino e claro da pequena.

­— Sim, já faz algum tempo — Beth respondeu-me docemente, sem sequer tirar os olhos dela.

— Vamos? — disse Daryl impaciente, praticamente arrastando-me pelo braço.

Soltei-me bruscamente e parti a passos largos à frente, em direção a sua moto.

Ah, outro detalhe a se incluir na minha lista era meu humor: Volta e meia às coisas pareciam deixar-me totalmente irritada. Se considerasse toda a infinidade de sintomas eu diria que além de doente, minha TPM estava durando um pouco além do habitual.

Daryl sequer encarou-me, logo subiu na moto ligando o motor. Sentei-me atrás dele e passei os braços entorno de seu corpo. Naquele momento era como se toda minha irritação houvesse se esvaído, apenas por tê-lo tão próximo. Realmente, minhas variações de humor estavam começando a incomodar.

— Vamos até uma creche na cidade vizinha — comentou de forma áspera assim que cruzamos o portão que Carl havia aberto.

— Por que você está falando dessa forma comigo? — questionei sentindo um nó formar-se em minha garganta.

— Qual é o seu problema?! — desviou os olhos da pista rapidamente e encarou-me por uma pequena fração de segundo enquanto franzia a testa.

— Nenhum. Só... deve ser a TPM... — comentei enquanto encostava minha testa em suas costas.

Notei que ele apenas acenou positivamente, então passamos às duas horas restantes do trajeto em completo silêncio.

A única coisa que vinha à minha cabeça no momento era a TPM. A julgar pela dor incomoda nos seios e também nas costas, não havia outra explicação plausível para tanto desconforto.

Chegamos ao nosso destino e Daryl desceu da moto, encarando-me por um tempo.

— Você tem certeza de que está tudo bem? Estou ficando preocupado... — admitiu, chutando uma pedra e encarando uma árvore ao longe.

— Tenho sim. Logo isso vai passar — sorri o mais convincente que pude e levantei-me, tomando a frente.

A creche estava praticamente intacta. Provavelmente, logo que o caos estourou, foi um dos primeiros lugares a fechar. Não queria pensar sobre isso, entretanto, entrando em um lugar como esse, fui obrigada a imaginar o fim trágico que as pequenas e inocentes crianças tiveram, ficando desamparadas depois que grande parte da população foi dizimada. Pobres anjos, não mereciam ter esse fim...

Suspirei pesadamente, deixando meus ombros caírem enquanto segurava a maçaneta da porta, insegura sobre o que encontraria do lado de dentro.

Senti Daryl remexer-se impaciente às minhas costas, então, sem mais delongas girei-a. Obviamente ela estava trancada.

— Tudo bem, deixa comigo — comentou enquanto eu lhe dava espaço, logo acertou um chute certeiro na porta já podre, que caiu sonoramente no chão.

Avancei alguns passos, porém Daryl afastou-me lentamente, tomando a frente. Ele sabia o quão independente e forte eu havia me tornado, contudo, em nenhum momento deixou de ser tão protetor em relação a mim.

— Acho melhor nos separarmos. Sairemos daqui mais rápido — apontei, olhando para as diversas portas que havia pelo corredor.

Imaginei que Daryl protestaria, porém ele apenas acenou positivamente, não sem antes encarar-me de forma dura.

— Vai dar tudo certo. Não há nada de mais aqui — assegurei-lhe e então separamo-nos.

Não era necessário que nos combinássemos, instintivamente segui pela primeira porta à direita, e ele encaminhou-se para a última à esquerda.

Assim que adentrei o local, notei que havia diversos berços enfileirados pelo recinto. Não deixei de sentir um forte aperto no peito, imaginando nossa pequena Judith que dormia em uma caixa de supermercado. Nossa... Era algo comum imaginá-la como minha. A verdade era que a pequena pertencia um pouco a cada uma das mulheres da prisão, já que Lori infelizmente não estava presente para ela.

De alguma forma ela despertou-me um sentimento materno. Nunca pensei em como seria se fosse mãe, mas ter um bebê em meus braços fez com que eu desejasse que as coisas fossem diferentes...

E se o mundo voltasse ao seu estado normal, eu chegaria a conhecer Daryl? Jamais me imaginei com alguém como ele... Daryl era tão grosseiro, todavia, possuía um coração de ouro, mesmo que não admitisse e que poucas pessoas tivessem a chance de conhecê-lo assim como o conheço.

Se por ironia do destino chegássemos a ficar juntos, conseguia até imaginar o nervosismo que seria ao apresentá-lo para meus pais. Nosso casamento seria perfeito... Sorri ao pesar nele fazendo caretas ao ter que vestir um terno.

Nossa lua-de-mel seria algo extremamente especial, então depois viriam nossos filhos, preferencialmente parecidos com ele. Seríamos tão felizes...

Sacudi a cabeça fortemente, afastando aqueles pensamentos. Por que idealizar algo além do que tenho? Minha vida estava longe de ser perfeita, mas ter Daryl ao meu lado fazia com que cada um de meus dias valesse a pena.

Antes que ele terminasse de vasculhar e viesse checar o motivo de minha demora, dirigi-me até o grande armário que havia ao fim da sala.

Abri-o devagar, e recuei alguns passos, chocada com a cena. Involuntariamente, um grito agudo escapou por minha garganta enquanto lançava minha faca em direção ao walker que debatia-se pendurado pelo pescoço à barra de ferro que havia logo acima do armário.

O cheiro horrível atingiu-me em cheio, como um soco no estômago. Antes que pudesse pensar ou sequer reagir, vomitei tudo o que havia em meu estômago, caindo de joelhos no chão.

A verdade era que não havia nada demais a ser posto para fora, já que na pressa para sair não havia comido nada pela manhã.

Rapidamente, Daryl surgiu atrás de mim, segurando meus cabelos que passaram a grudar-se em meu rosto suado. Provavelmente foi alertado por meu grito.

— O que aconteceu? — questionou-me preocupado.

— Nada... É só, esse cheiro...

— Achei que já estivesse acostumada — comentou ajudando-me a levantar.

— Devo estar um pouco fraca, não me alimentei antes de sair — disse enquanto encarava o chão.

— Vamos embora. Já temos o que precisamos — encarou-me com a testa franzida. — Você irá até Hershel assim que chegarmos — esbravejou, arrastando-me porta a fora.

Não protestei, estava cansada e zonza demais para insistir em qualquer coisa.

Acho que deveria dar mais atenção à minha saúde. Não tenho me alimentado direito e tenho dormido demais, o que devia estar prejudicando ainda mais minha frágil imunidade.

Não queria que Daryl ficasse preocupado ou até mesmo zangado comigo, então prometi a mim mesma que dedicaria um tempo à mim.

Seguimos em silêncio, preferi não comentar muitas coisas, sabia que assim que passássemos pelos portões da prisão, Daryl viria com uma enxurrada de perguntas sobre mim. Só de pensar nisso já me sentia exausta.

Eu sequer podia reclamar do que estava por vir, afinal, tenho procurado isso. Desde que chegamos à prisão, tenho batalhado fortemente para ser alguém útil ao grupo, então não tive um descanso de fato. Após Judith nascer, passava basicamente o dia todo me dedicando a ela.

Antes mesmo que Daryl me atacasse, já sabia que tudo seria com razão, então apertei meu braços em seu quadril, aproveitando o breve momento de calmaria antes de chegarmos “em casa”.