Still Alive
21 Qual a parte que você não entendeu?
O Salão Principal fora maravilhosamente decorado para o Baile de Inverno; as quatro mesas haviam sumido, dando lugar a pequenas mesas quadradas de metal prateado, organizadas de forma a deixarem um grande círculo vazio no meio do salão; no centro dele, uma fonte jorrava água, decorada por uma estátua de gelo em forma de cisne. O palanque dos professores estava tomado por instrumentos, provavelmente para a banda que tocaria mais tarde. Flocos de neve caíam do teto e derretia quando chegavam às velas suspensas que iluminavam o lugar.
James encontrou os amigos ao pé da escada; viu primeiro Rose e Lily, a primeira com um vestido rodado rosa coral, e sua irmã usava um lindo vestido azul claro que ressaltava sua inocência juvenil. Ela estava de mãos dadas com Lorcan, e deu um sorriso de lado para ele; os dois estavam namorando há dias, mas ainda não haviam contado aos outros; o próprio James apenas sabia pois ele e Lorcan eram melhores amigos, assim como quando eles começaram a sair, Lorcan o havia questionado se o Potter não se incomodava caso pedisse sua irmã caçula em namoro.
O outro gêmeo acompanhava Rose, não romanticamente, mas porque se sentia muito mais confortável conversando sobre coisas nerds do que lidando com as garotas que, com frequência, davam em cima dele. Junto dos quatro estavam Alvo, Maia e Escorpio, conversando, mas James não conseguiu falar com eles, pois naquele momento, Lis e Kaleen apareceram no topo da escada.
O queixo de James quase foi ao chão. Descendo os degraus, juntas, as duas eram a perfeita harmonia de contrastes, como o Yin e Yang. Kaleen usava a noite estrelada bordada em um tecido fluido, que cobria seu colo e se agarrava a cada curva, deixando as costas expostas. Seu cabelo negro estava preso em um coque elaborado, finalizado com uma coroa de cristais em forma de estrelas.
E Lis… James com certeza entendia porque Nikolai havia se apaixonado, a ruiva era a realeza encarnada; deslizava pelos degraus como se fosse a dona do mundo; ela parecia imponente, e homens com muito poder gostavam de mulheres assim, James achava que um lorde se encaixaria na categoria de “homens com muito poder”.
Há muito tempo ele parara de vê-la como uma garotinha, mas aquele vestido evidenciava completamente a mulher que ela se tornara. O tecido branco pérola, assim como da Kaleen, se agarrava ao seu corpo, realçando sua cintura e quadril; a saia deslizava junto com ela, feita de várias camadas de um tecido quase esvoaçante, que parecia brilhar por conta própria.
Ao invés de cobrir o busto, um decote em V realçava seus seios fartos, sem ser vulgar, mas tornando quase impossível não olhar. James se obrigou a focar no colar de pedra da lua logo acima, e foi quando percebeu a intenção delas: Kaleen era o céu, obscura e misteriosa, Lis, a lua, bela e mística. Enfatizando a nobreza e o conceito do visual, seus cabelos, também em coque, estavam decorados com um diadema prata moldado em arabescos que se encontravam debaixo de uma lua crescente, virada para cima, como um sorriso.
Depois do que pareceu uma vida, ela chegou ao fim da escada, aceitando a mão que James oferecera. Ao olhar direto para ela, seu coração perdeu um compasso; ela não escondera as sardas, como sempre fazia, e isso a tornava ainda mais perfeita. Seus lábios estavam meio avermelhados e um glitter prateado decorava as pálpebras, realçando o azul de seus olhos. O brilho da saia vinha de espirais bordadas em fios de pura prata, que refletiam a iluminação do lugar, dando a impressão de que uma névoa a envolvia, ou algo assim. Ela apenas sorriu e olhou para os amigos
— Então, quem ganhou a aposta?
— Eu — Maia e Escórpio falaram em uníssono.
— Eu apostei que ele não chamaria — Alvo deu de ombros.
— Eu achava que ela não aceitaria — Lorcan disse.
— Eu fui inteligente, e não apostei — Lysander concluiu, e todos riram, mas logo foram interrompidos por uma afoita McGonagall, que apareceu, apressada e desorientada, até ver Lis e, literalmente, parar.
— Nossa, você está linda, menina — ela balançou a cabeça e voltou ao ritmo normal — Hora dos campeões dançarem. — Vocês quatro, venham.
Ela os guiou para perto do círculo central, onde Nikolai estava, acompanhado de Èmilie Nott; ela, criativamente (ou não) usava verde escuro e prata, e nem tentou esconder a careta ao olhar para Maia; James reparou, então, na americana, pela primeira vez na noite. Ela também usava verde, mas um tom tropical, que evocava o verão, totalmente contrário ao tema da festa, mas ela o usava com tanta confiança que não parecia deslocada. Para acompanhar, haviam argolas douradas em seus braços e orelhas, fora um colar e até um pó de ouro nas pálpebras; o cabelo cacheado estava ainda mais volumoso. Ele definitivamente adorava aquela garota.
Nikolai praticamente devorava Lis com os olhos, quase escaneando o corpo dela pelo vestido, e o estômago de James se revirou em ciúme e asco, mas ao olhar para a ruiva, viu que ela nem reparava, estava meio avoada, olhando as velas e as decorações, e quando Minerva deu o sinal, ela apenas se virou para ele, se pondo na posição que ensaiaram tantas vezes; a música iria começar.
James já conduzira a dança algumas vezes antes, mas aquilo era totalmente diferente. Nas aulas, ela era a professora, o corrigia e prestava atenção em tudo o que ele fazia, mas ali, no baile, sua mente e coração estavam completa e exclusivamente na música, então ele decidiu fazer o mesmo. Deixou que sua memória muscular tomasse conta dos passos e se focou na música, na melodia, e nos detalhes que o rodeavam.
Lis sorria levemente, uma expressão sonhadora, mas não deixou de reparar que estava sendo observada, revirando os olhos todas as vezes que o flagrava encarando. Sua saia voava hipnoticamente a cada giro, e farfalhava baixinho, como folhas ao vento. Aos poucos, outros casais entraram na pista, acompanhando-os. Umas três ou quatro músicas se passaram antes que Lis sugerisse uma pausa. Ela serviu uma taça de ponche e comeu algumas trufas de morango enquanto ele bebia um espumante. A ruiva reparou que ele a olhava, de novo, e riu.
— James, você está me encarando a noite inteira. Algo errado com meu rosto? — ele tocou o nariz dela de leve.
— Você não as escondeu — ela frisou os lábios, como se estivesse desconfortável.
— Não deu tempo.
— Deixe assim — ela se surpreendeu — sempre.
— Por quê? São só várias manchas no meu rosto.
— Parecem constelações — ele passou um dedo em sua bochecha — não as esconda. É… é lindo. Te deixa linda — ela sorriu, sem graça, e murmurou um okay.
As valsas continuaram, mas ela não deu indícios de querer voltar a dançar; comia chocolate e falava, falava sobre os casais, falava sobre as roupas, falava sobre tudo, ele nunca a vira falar tanto, parecia quase nervosa. De vez em quando ela fazia caretas ao Nikolai, ou fazia algum comentário sobre a Nott, levando-o a rir muito. Ela sabia como ser má; isso deveria assustá-lo, mas de alguma forma, não era o que acontecia. Severo os olhava, e às vezes sorria, satisfeito, como se soubesse algo que o jovem não sabia, e então voltava a conversar com o diretor Armstrong.
— Lis, sua roupa é um conjunto com a da Kaleen, não é?
— Sim, a Noite e a Lua.
— De onde tirou a ideia?
— Haviam duas irmãs, duas condessas D’Noir. Uma tinha cabelos loiro avermelhados, de olhos azuis, a outra era exatamente como a Kaleen; elas se completavam: seus humores, seus movimentos, eram como se fossem um; a lua sempre iluminando a noite. O nome de uma era Diana, a outra, Nix. No baile de dezessete anos delas, Nix usou um vestido estrelado e Diana usou um branco que parecia brilhar, como a lua. Por fim, Nix se casou com um lorde Pelletier, e Diana, com um duque, de outro lugar, mas uma de suas bisnetas voltou à família D’Noir, se unido a um conde chamado Arcturo, e teve dois filhos, Clarissa e Carlo D’Noir.
— Sua avó…
— Sim. E os diademas? São os originais — ele estava impressionado, ela foi longe ao escolher as roupas para um simples baile. Transformou algo totalmente supérfluo em simbólico.
A banda substituiu a valsa, animando a festa, mas Lis torceu o nariz e se virou para ele.
— Vem comigo lá fora? Amo valsas, mas essa música embaralha minha mente.
Ele concordou e eles saíram para o pátio; ainda dava para ouvir a festa, mas eles poderiam conversar sem elevar a voz. O vento frio e a neve os recepcionaram, e ela fechou os olhos, como se estivesse recebendo uma carícia. A ruiva murmurava baixinho a letra da música enquanto mexia distraidamente no cabelo, olhando tudo ao redor como se quisesse absorver cada luz e cor daquela noite. Ela não parecia sentir frio, mas James se arrepiava a cada brisa que soprava.
Quando a Snape abaixou a mão, segurava um monte de grampos prateados, que sumiram com um simples gesto. James havia visto muito poucas pessoas com tanto controle sobre a magia sem usar a varinha, e aquilo o encantava todas as vezes que ela fazia; ele próprio já tentara algumas vezes, quando mais novo, mas não conseguia muito mais que derrubar um copo com água da mesa. Lis balançou a cabeça e, como uma cachoeira, os cabelos se soltaram em cachos. Um deles caía suavemente em seu rosto, mas ela não se incomodou em tirar.
Agora, ela não parecia mais uma condessa, e sim, uma princesa dos filmes trouxas; o diadema emitia uma luz fria, dando-lhe um aspecto misterioso, como uma fada. O cabelo enrolado era tão raro nela, pois só ficava daquele jeito se ela não o penteasse, e James não resistiu a brincar com um dos cachos enquanto a conversa flutuava pelos assuntos, sem se fixar em nada específico por mais de dois minutos. Uma melodia calma começou a tocar, sem letra, apenas vozes indefinidas. Lis pegou sua mão, sorrindo.
— Dance comigo, Jay.
O cérebro dele travou; como um completo idiota, se pôs em uma posição de valsa, fazendo-a rir.
— Assim não, James — ela guiou as mãos dele por sua cintura, o tecido do vestido era macio em sua pele, então ela enlaçou o pescoço dele com os braços, seus corpos a centímetros um do outro, enquanto apenas oscilavam ao som da música.
I’m not the only traveler
Who has not repaid his debt
I’ve been searching for a trail to follow again
Take me back to the night we met
Lis murmurava a letra, e o olhava fixamente; estava realmente ali, diferente do momento da valsa, mas seus olhos estavam tristes, meio confusos, como se ela precisasse fazer uma escolha e não soubesse a resposta.
And then I can tell myself
What the hell I’m supposed to do
James passou uma mão para a bochecha de Lis, em uma carícia leve, a ruiva parou de dançar e fechou os olhos quando a mão dele foi para sua nuca; as dela deslizaram por seus braços até estarem, ambas, sobre as dele.
And then I can tell myself
Not to ride along with you
Mais tarde, James se lembraria de cada detalhe daquele momento; o modo como os olhos azuis brilhavam, estampando surpresa, compreensão e, então, certeza; uma certeza que James não via nela há meses, certeza de que ela não fugiria, não recuaria.
I had all and then most of you
Essa certeza deu coragem a ele. James ainda registrou um sorriso leve quando ele se aproximou.
Some and now none of you
Take me back to the night we met.
I don’t know what I’m supposed to do
Haunted by the ghost of you
Oh, take me back, to the night met
Seus lábios tinham gosto de morango (como?) e verão, seu beijo estava carregado de um carinho que lhe partiu o coração. Ele abriu a boca dela com a própria, e ela se entregou, beijando-o como se também tivesse o desejo de fazer isso tanto quanto ele.
When the night was full of terror
And your eyes are filled with tears
When you had not touched me yet
Oh, take me back to the night we met
O final da música e as mãos dela em seu rosto o despertaram do transe. Que diabos ele estava fazendo com ela? James interrompeu o beijo e se afastou, deixando-a confusa.
— Lis, desculpa. Eu prometi não tentar nada, não forçar nada, e aqui estou eu, te beijando — um sorriso se abriu no rosto dela, como se ele fosse uma criança de cinco anos que não conhece nada da vida. Lis colocou o rosto dele entre suas mãos, encarando-o nos olhos.
— James, você não me forçou a nada — ela falava, pausadamente — Sejamos francos, você queria isso há muito tempo. Falei sério quando disse que todos sabem que você me ama, está estampado em seu rosto — ela se afastou, segurando apenas o braço dele — Eu só demorei para perceber, sabe? Eu achava que estava afim de você e… quando te vi com outra, me fechei, tentando me convencer de que era apenas impressão minha, então me afastei… mas não adiantou. Assim que voltamos a conversar, meu coração acelerava contra minha vontade, e eu me fazia de superior, como fui treinada para a corte. Nikolai… ele foi uma distração útil, mas… quanto mais tempo passava com ele, mais queria estar com você, mais eu comparava os dois.
Ela fez uma pausa, suspirando. Ele tentou dizer algo, mas nada saía de sua boca; aparentemente, ela não havia terminado ainda.
— Lembra quando eu disse que só queria alguém que me entendesse, que me deixasse livre, que não me deixasse desconfortável; eu disse que queria ter o bom senso de escolher alguém certo pra mim… Sabe, James? Acho que esse bom senso apareceu. Eu percebi que tudo o que eu procuro e me frustro tanto por não encontrar em outros, eu tenho em você. Você é o que eu quero, James. Você é o certo.
Ele não sabia o que falar. Há meses que ele imaginava aquele momento em que ele a beijaria e diria a ela tudo o que guardava em seu coração, que reprimia por medo de machucá-la, ou perder a amizade, mas nunca imaginara que ela diria tudo o que disse, que se abrisse daquele jeito. Ela nunca falava nada. Ele mal sabia como reagir.
— James, fala alguma coisa — ela parecia angustiada — Eu acabei de me expor como nunca fiz na vida; por favor, me diz que não errei, ou… — ele não deixou que ela continuasse. A puxou pela cintura, colando seus corpos.
Os olhos dela estavam amedrontados, ela estava exposta de corpo e alma naquele momento, tão frágil, facilmente quebrável. James lhe acariciou o rosto, passando o polegar pelo lábio inferior tremulante, suspirando. Encostou a testa na dela, juntando seus narizes; ele já a vira fazer aquilo com o pai, e Escórpio lhe explicara o significado, mas agora… ele entendia. Ele sentia a respiração dela, sentia ela relaxando, se acalmando, sentia as palavras serem trocadas sem serem ditas.
Ela entreabriu os lábios, ainda trêmulos. Devagar, ele guiou os lábios dele aos dela, e a ruiva quase derreteu ao toque. A pele dela estava surpreendentemente quente, considerando que a única coisa que cobria suas costas era seu cabelo. James mal conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Uma música calma tocava ao fundo, e Lis encostou a cabeça no ombro dele; abraçados, se balançavam ao ritmo lento e suave. James ouviu passos na neve e se inclinou para olhar.
— Finalmente! — era Escórpio, sorrindo abertamente — Acabou a confusão, maninha? — Lis riu nervosa, e escondeu o rosto no pescoço do Potter, sua respiração o fez arrepiar — Bem, pombinhos, o baile acabou, mas a festa só termina quando a Grifinória disser que acabou, não é mesmo? Vamos para a comunal?
***
James acordou no tapete em frente à lareira da lareira da Grifinória; tentou se virar, mas lembrou que não podia. Lis dormia ao seu lado, a cabeça apoiada entre o ombro e o peito do garoto, a mão repousando em cima do seu coração. Ela ficava tão linda e serena dormindo que James fez o possível para se levantar sem incomodá-la.
Escórpio estava de pé, já saindo da sala comunal, enquanto murmurava algo sobre buscar os presentes. A mente de James deu um estalo; claro, ela Natal. Ele mal conseguia acreditar que a noite anterior acontecera de verdade, quanto mais lembrar que dia era hoje. O Potter sorriu ao recordar da noite do baile; após a festa, levara Lis para um canto isolado da sala comunal, onde conversaram, comeram e deral alguns beijos distraídos.
Ela beijava bem; mesmo depois de se afastarem, ele ficava meio zonzo; o perfume de jasmim e lotus também não ajudava muito,volta e meia ele falava algo completamente idiota, de tanto que estava confuso. Ela o desestruturava totalmente. Quando a sala esvaziou, ele trouxe um edredom para Escórpio e um para ela, já que estava tarde demais para eles voltarem, mas a ruiva não deixou que ele subisse para o quarto, e se deitou com ele no tapete, onde o rapaz dormiu ouvindo sua voz baixinha e o crepitar da lareira.
Ela não dava indicação de que acordaria, então ele foi ao dormitório, tomar um banho rápido. Sua cama era perto do banheiro, mas longe o suficiente para não ser incomodado pelo cheiro característico dos garotos naquele lugar. Todos os outros estavam dormindo; James vira seus colegas beberem tanto, que imaginava não vê-los acordados até a hora do almoço.
— Jay…? — a voz tímida de Lis soou junto com o som de seus passos delicados, ecoando pelo quarto. Ela ainda usava o vestido do baile, o cabelo estava selvagem, frizado pelo penteado e a noite no chão, a maquiagem se espalhara um pouco, dando um brilho diferente aos seus olhos. Ela estava ainda mais sexy daquele jeito do que quando estava arrumada.
— Melhor trocar de roupa, não? Quer ir ao seu quarto?
— Não… Muito longe — ela se aproximou, meio hesitante, como se não soubesse o que esperar, e pegou uma de suas mãos. Ele usou a livre para guiar o rosto dela em um beijo delicado, o que a fez relaxar. Lis virou de costas para ele, na direção do baú e, ao contrário do que ele pensava, não andou.
— Pode abrir para mim? — ele deu de ombros, embora soubesse que ela não veria; levou a mão ao zíper, que começava no meio das costas e o deslizou lentamente, roçando os nós dos dedos na pele dela enquanto o fazia. A ruiva respirou fundo em reação ao toque, arqueando a coluna.
James não sabia o que ela pretendia fazer, mas, certamente, não esperava que ela simplesmente soltasse o vestido e o deixasse cair no chão, deslizando e sussurrando por sua pele. A roupa não dava vez ao sutiã, por isso ela usava apenas a lingerie inferior, de renda branca; estava quase completamente exposta. Ele sabia que era falta de educação, mas não conseguiu deixar de olhar.
Sabia como era o corpo dela, claro, já a vira de biquíni, mas simplesmente não conseguia. Suas costas eram bem definidas pelo treino e os olhos de James acompanharam a depressão em sua coluna, descendo por sua cintura delicada e mais abaixo, onde seu corpo fazia uma curva tentadora demais para o próprio bem. O coração dele estava acelerado, suas bochechas queimavam, e se ele não estivesse tão paralisado, teria agarrado a ruiva ali mesmo.
Ela se inclinou, aparentemente alheia ao efeito que tinha nele, e pegou algo no baú; então se virou. O casaco que ela segurava cobria os seios, mas o resto ficava à mostra; ao olhar para ele, ela riu, parecendo perceber, só naquele momento, como estava.
— Desculpe, estou acostumada com o Escórpio, ele não se importa.
— Ah… Eu com certeza não me importo — ele deu um sorriso maldoso — te disse uma vez que você é sempre uma vista maravilhosa — ela riu. Não ruborizou ou desviou o olhar; ela, de fato, não estava tímida, ou não tinha pudor algum. Mesmo assim, ela se virou e entrou no banheiro para se vestir.
Quando ela saiu, Escórpio estava no quarto; ele havia lhe trazido calças, e lembrou ao James que já estava tarde e que ele ainda usava os trajes a rigor da festa. O Potter foi ao banheiro, tomando um banho corrido; o quarto estava vazio de novo, então ele se vestiu e pegou um pequeno pacote guardado em sua cômoda.
Ele saiu do dormitório e encontrou Lis sozinha no corredor entre os quartos, com um embrulho na mão. Só então ele percebeu que ela estava vestindo o suéter de dragão que o mesmo emprestara a ela uma vez. Seu orgulho masculino sorriu ao vê-la com uma roupa dele, com o cheiro dele, e não de outro homem, como quando ela ficava com Nikolai. Ela sempre cheirava a carvalho e algo que remetia a ele os palácios que visitara uma vez com os pais na Escócia depois que passava um tempo sumida com o francês.
— Pedi ao Scorp que nos deixasse a sós, queria entregar seu presente primeiro — um sorriso dançava em seus lábios e ele apenas assentiu ao pegar a caixinha que ela oferecia. Um relógio estava no interior, dourado, com indicações das posições dos planetas e fases da lua, e provavelmente muito mais funções que apenas ver as horas.
Ele riu um pouco; o último relógio dele não fora devolvido pelo pelúcio depois da prova, então o presente era mais do que necessário; fora que alimentava o ego dele, de tão bonito. Unir o útil ao agradável, era a cara da Lis. Ele agradeceu com um beijo e pegou o pacote que carregava no bolso.
— Ei, conheço isso.
— Sim… eu disse que era uma surpresa para o casamento, mas… era para ser um presente de aniversário. Ia te dar depois da festa, mas você sumiu tão rápido e não falou comigo durante meses — ela fez uma expressão que dizia a culpa foi sua de passar a festa com outra — Escolhi esse presente com tanto carinho… Não suportaria vê-lo jogado porque você estava com raiva de mim — ela abriu um sorriso melancólico e pegou o embrulho, abrindo.
— Ah… — ele não sabia se aquilo era bom ou não. O presente era um colar; uma pedra branca leitosa em forma de disco com veios coloridos que a perpassavam; os veios emitiam uma luz fraca, que oscilava levemente, em sincronia com os batimentos cardíacos de quem o usava, as cores mudavam de acordo com o humor. Gavinhas e flores de prata rodeavam a pedra e a uniam à corrente — Pode colocar em mim? É absolutamente lindo…
A ruiva tirou o colar de pedra da lua antes de se virar e afastar o cabelo, enrolando-o em um coque. Ele prendeu o colar, mas não conseguia se contentar com isso, não depois de ela ter, praticamente, se despido na frente dele. Beijou lentamente a pele exposta de seu pescoço, muitas vezes, antes de morder levemente o espaço macio antes do ombro.
Ela virou rapidamente, surpreendendo-o ao agarrar seu braço e recuar até estar encostada na parede, beijando-o com voracidade, como se tivesse libertando um desejo guardado há muito tempo. Seus olhos estavam fechados, mas conseguia ver a cor roxa pulsando rapidamente no colar. James se afastou, antes que não conseguisse mais fazê-lo, e ela fechou os olhos, ofegante, a boca entreaberta. Ela não conseguia ficar longe, então colou o corpo ao dela e uniu suas testas e narizes, respirando o mesmo ar que ela.
— Lis… — sua voz era trêmula, o nome dela, quase uma prece em sua boca — Eu… eu sei que você não gosta de se prender e dar satisfações, mas… — ela o calou, beijando-o novamente, mas ele interrompeu — Ei, estou tentando ter uma conversa séria aqui.
— E eu estou tentando dizer que nós não vamos ter essa conversa.
A temperatura pareceu diminuir dez graus, mas… Tudo bem… Ele esperou antes, esperaria agora. Esperaria ela estar pronta para aquilo. Mas aceitar não fazia seu coração doer menos. Ele a beijou levemente, e o colar tomou um tom sereno de azul.
— Vamos, o pessoal está nos esperando lá embaixo — ela parecia meio confusa, mas entrelaçou os dedos aos dele e desceu as escadas.
Seus amigos os receberam comemorando, com assobios e palmas; ele não estava no clima, então apenas andou para os sofás e poltronas.
— Finalmente, hein? — Alvo falou, animado — Estão namorando?
James resmungou e sentou em uma poltrona; todos fizeram silêncio e o encararam, até mesmo Lis. Ela o olhava com uma sobrancelha erguida.
— Vocês estão namorando ou não?
Lis quem respondeu.
— Até trinta segundos atrás, eu achava que sim; agora já não estou tão certa — James ficou confuso — Se me dão licença… Jay, pode vir aqui comigo?
Ele levantou e eles foram para um canto longe, o mesmo que haviam ficado na noite anterior; ela não estava “confusa frágil”, como no baile, estava “confusa indignada”, como se ele tivesse feito algo que não devia.
— James, eu não estou entendendo!
— Eu é que não estou entendendo. Você disse que não íamos falar…
— Eu disse — ela interrompeu — que não íamos ter essa conversa porque eu achei que não precisava! Por Merlin, garoto! Achei que tinha sido bem clara ontem; qual a parte do “eu quero você” que você não entendeu?
— Então estamos namorando?
— É, né.
Ele não se importou em ter agido como um idiota; a carregou e girou, fazendo-a soltar um gritinho surpreso. Ela riu e revirou os olhos, mas enlaçou as pernas em sua cintura e o beijou, ainda sorrindo. Merlin, como ele adorava beijá-la.
— Me coloca no chão, lerdinho. Hora de trocar presentes.
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