Still Alive

12 Ora, o que temos aqui...


Foi extremamente fácil desviar da família Potter-Weasley durante dois dias, principalmente com Maia levando ele para os lados mais estranhos do acampamento. Escórpio sabia exatamente em que barraca os Potter estavam, e se surpreendeu dos amigos não terem descoberto ainda que o mini castelo do outro lado do campo pertencia a ele. Ele achava que tivera sorte, mas naquele dia, não. Era impossível fugir deles durante a final, já que estariam todos no camarote especial.

Devia ser por volta das dez horas quando todos começaram a se dirigir ao enorme estádio de Quadribol. O camarote dele ficava no andar mais alto de todos, então ele foi obrigado a subir inúmeras escadas, acompanhado de sua avó, que reclamava a cada segundo do lugar, do barulho, das pessoas... Sua mãe trabalhava no St. Mungos e por isso não iria com ele para o jogo, e era trabalho de Narcisa tomar conta do neto, embora ele já tivesse dezesseis anos.

Todos os Weasley já estavam lá, Malfoy percebeu por todos os cabelos ruivos, com excessão de James e do seu amigo, Alvo, que estava brincando c um onióculo novo. Rose o viu chegar, mas virou o rosto, e Escórpio se segurou para não​ revirar os olhos pra ela, o que seria estranho para o garoto que já o vira. Apesar da intimidade que ganharam no ano anterior, a ruiva não mandara nenhuma carta de desculpas ou explicação, o que ele considerou como uma concordância às coisas que o pai dela dissera naquele dia. Aparentemente, o primo não sabia de nada, pois não fez menção alguma em suas cartas.

— Escórpio! Estou te procurando desde que cheguei, onde estava?

— Vai me dizer que não reparou em uma barraca em forma de castelo perto do rio?

— Não... Mas enfim. Cadê a Lis? Mandei uma carta para ela, mas...

— Ah, sim — ele tirou um papel do bolso — uma coruja chegou hoje cedo com uma carta dela.

— “Alvo, coitada de sua coruja, sabia que estou na França e ela que veio voando até aqui? A essa altura já deve ter percebido que não vou assistir ao jogo com vocês, Escórpio te explica tudo. A propósito, vou enviar essa carta para ele, pois meu pai pegou por rede de flu e sabe onde ele está.
E sobre sua coruja, a julgar pelo modo como ela está gostando do tratamento daquiz acredito que só voltará comigo para Hogwarts, e não voando.

Outro detalhe, para os dois: não me esperem no trem, não estarei aí a tempo. Me encontrem no jantar, ok?

Beijos, Lis." — o Potter olhou para o amigo — Tá, explica?

E ele explicou tudo, desde o relacionamento complicado da menina com o avô até o motivo que a levou para outro país e depois disso a conversa fluiu para outros assuntos. Para a felicidade do garoto, todas as vezes que Rose era convocada para a conversa, ela apenas dava de ombros ou dizia "ah, legal" e enfiava a cara em um livro que estava lendo, ou fingindo ler.

Alguns instantes depois, Escórpio ouve a voz do pai e vira para vê-lo chegar com um senhor negro de cabelos grisalhos e a filha. Maia abriu um sorriso que iluminaria até a morte quando viu o novo amigo logo ali, e foi na direção dele.

— Olá, garoto.

— Oi garota.

Ela olhou para o Alvo e inclinou a cabeça.

— Ora, o que temos aqui... Um Potter. Pelos olhos, imagino que seja o mais novo, Alvo — as sobrancelhas do garoto se ergueram em surpresa.

— Você sabe quem eu sou?

— Não, imagina, seu pai é só um dos bruxos mais famosos de todos os tempos. Ninguém de importância. A propósito, meu nome é Maia, sou dos Estados Unidos.

Eles poderiam ter falado mais, porém o desfile dos mascotes de cada time começou. A menina tirou tampões de cera do bolso e ofereceu pros meninos.

— Os mascotes Búlgaros são Veelas, vocês vão mesmo querer isso.

Eles colocaram, e perceberam que o pai dela fez o mesmo ao lado do Draco Malfoy. Mulheres muito bonitas entraram no estádio, dançando. O garoto viu o James e o pai entrarem em uma espécie de transe, absortos com a visão dos belos seres que mandavam beijos e risinhos. As meninas pareciam, no máximo, entediadas. Alguns homens tentavam pular das grades, deixando o menino com os olhos arregalados, pois não se importavam em estar a mais de dez metros do chão. A Veelas dançavam o hino da Bulgária, ele percebeu, ao notar os torcedores cantando.

— Eu avisei — disse a morena ao seu lado, quando a exibição acabou — olha, agora são os meus! Os pumarunas.

Dois bruxos entraram acompanhados por um par de animais enormes, que lembravam pumas, mas tinham mais patas, e alcançavam acima de seus quadris quando andavam. Eles eram lindos, o pelo dourado, os rugidos eram fortes o suficiente para balançar o estádio, e arrancar comemorações e gritos dos americanos, que logo começaram a cantar seu próprio hino com emoção, isso incluía a garota entusiasmada ao seu lado.

Logo os times entraram em campo: os búlgaros de escarlate e os americanos de azul. O apito soou, e a goles foi lançada. Então, o céu se tornou um borrão de azul e vermelho, os jogadores tão rápidos em suas vassouras que o narrador só tinha tempo de dizer os nomes dos jogadores que pegavam a bola. Viktor Krum chegou perto da cabine deles e lançou uma piscadinha a alguém antes de voar para longe; Escórpio olhou para saber quem. Com a distração da abertura, e de Maia falando, nem havia reparado nos pais da Rose um pouco atrás dele. A mãe dela sorria, corada; então foi para ela a piscada... e ele voltou a atenção para o jogo mais uma vez, ignorando o ruivo emburrado ao lado dela.

Acompanhava a partida com seu onióculo, a fim de ver mais perto as jogadas. James e Lily estavam de pé, com seus próprios onióculos, comentando cada passe que eles achassem diferente, ou que poderia ser usado no time em Hogwarts. O loiro se aproximou dos dois, na grade.

— Vão ficar em pé a partida inteira?

— Ah, oi, Malfoy. Quem é sua amiga ali?

— É americana, e não é pra você dar em cima dela, James, ela não precisa fazer parte da sua lista de garotas pelo mundo.

Os três riram, e o garoto voltou para o seu lugar, onde os amigos estavam vidrados no jogo, e fez o mesmo, acompanhando as passagens de bolas, comemorando quando a bulgária fazia um gol (apesar da cara feia de Maia, ele estava, sim, torcendo para o outro time), gritando quando um balaço era acertado nos adversários, e uivando quando os americanos faziam pontos ou acertavam os jogadores búlgaros sem dó.

O time escarlate estava à frente, mas não o suficiente para a pontuação necessária, então Krum apenas rodava tranquilamente pelo estádio e, percebeu o menino, mantendo a atenção do outro apanhador longe do pomo de ouro que ele já havia visto algumas vezes.

Algumas horas depois, o jogo virou, e os americanos estavam na frente, para a alegria da garota ao lado do Malfoy. Ele havia esperado até a última hora para ir ao banheiro e comer, mas o jogo já se demorava, e era o Viktor quem estava "no comando" do pomo, então ele resolveu sair. Minutos depois, voltou com comida suficiente para todos, e então eles comeram, comentando o jogo, conversando e rindo. Estava sendo mais divertido do que ele imaginava, e a Rose mal olhava para ele na maior parte do tempo, então ele não ligou muito para a presença dela ali, não quando Maia o fazia rir a cada minuto.

Anoiteceu, e os times fizeram uma pausa, sem tocar no chão, para comer e beber tônicos energéticos, pois o jogo poderia durar a noite inteira. E durou. O garoto nem dormiu, com medo de perder qualquer coisa, assim como cada um dos seus companheiros; e eles viraram a noite, e o dia seguinte, e nada do jogo acabar.

As pausas aconteciam a cada três horas agora, e os únicos jogadores que não pareciam cansados eram Krum e Morrinson, os apanhadores dos times. e a noite caiu novamente, eles se recusavam a dormir, mas Lily não resistiu e cochilava no ombro do irmão.

Apesar do aspecto exausto deles, o jogo se tornou mais violento, talvez pelo mau humor, e os balaços eram rebatidos com raiva e forças incríveis, um deles acertando feio um jogador americano, que caiu da vassoura, quebrando um braço, dando agora a vantagem que a bulgária precisava para passar as pontuações acirradas. Uma comoção no alto. Os apanhadores voavam na mesma direção, o Krum liderando, e então, ele mergulhou.

— É uma fita de Wronsky — disse Lily, que agora estava junto com todos eles na sacada, após ser acordada com os gritos — ele não viu o pomo de verdade. Papai disse que ele já usou isso antes.

— Não... ele está cansado demais para joguinhos, embora não aparente — Maia falou, fazendo todos olharem para ela por poucos segundos — e eu vi o pomo. Ele é incrivelmente rápido, vai conseguir pegar e eles vão ganhar, sem dúvida — sua voz era um misto de admiração e decepção.

De fato, quando estava perto do chão, Viktor desviou e subiu, com a mão para o alto, segurando uma pequena bolinha alada. O outro não tivera tanta sorte e estava rolando no chão, o nariz sangrando. Os gritos no estado se tornaram um rugido uniforme, e os torcedores pisavam, em ritmo, no chão, parecendo um grande coração batendo. A Bulgária havia ganhado.

O dia amanheceu com todos comemorando, e ao meio dia, Maia apareceu na cabana para se despedir.

— É uma pena que seu time não tenha ganhado, mas eles aguentaram bem. Dois dias.

— Sim. O fato de termos chegado nas finais já é uma vitória para nós e na próxima arrebentaremos com vocês — ambos riram — Também ganhei fotos autografadas de todos os jogadores dos dois times e conheci você, estou feliz, valeu a pena, a viagem.

— Sim... — os jovens se abraçaram, ela cheirava a maçã — Promete que vai escrever?

— Claro, mas não vai precisar, nos veremos em breve.

E com aquelas palavras confusas, ela virou e o deixou sozinho.

***

O som de metal cortando ar e feno ressoava havia uma hora. Lis havia passado os últimos cinco dias treinando por horas a fio, até o pôr do sol. A carta de Alvo havia chegado no dia seguinte ao baile, e ela mandara a resposta ao pai pela lareira, para que não demorasse e chegasse a tempo para o jogo.

Quase uma semana sozinha naquele lugar deveria, no mínimo, ser produtiva; então ela lera diversos livros na biblioteca pessoal e do ano letivo que começaria dali a dois dias, aprendendo os assuntos necessários dos NIEM's (Níveis Incrivelmentes Exaustivos em Magia).

Também utilizava seu tempo e contatos para investigar a situação dos franceses em relação aos trouxas, em meio à confusão contra o governo inglês. Descobrira que poucos trouxas, presentes nos territórios dos nobres puristas, estavam sofrendo nas mãos de seus senhores e fugindo, o que preocupou a menina, várias familias poderiam estar sofrendo...

Quando indagou sobre o seu avô, lhe contaram que ele recebia as facções, e só era servido pelos elfos durante as reuniões , mas continuava a garantir proteção e privilégios aos não mágicos em seu condado, além de oferecer emprego e abrigo aos fugidos de outros lugares que não tinham condições de mudarem para as cidades ou centros rurais trouxas.

Apesar de todos os ressentimentos que tinha em relação a ele, ela resolveu ser gentil, em agradecimento a tudo o que ele fez pelos camponeses e descobriu, surpresa, que ele era agradável quando a neta não chegava na defensiva, e conseguiu até lhe arrancar um sorriso ao falar sobre uma leitura em comum. Sua semana se tornou muito mais fácil após isso.

E então, chegara o dia do festival , e Lis já se acostumara com as preparações quase ritualísticas que começavam já na noite anterior, quando suas criadas lhe serviram um chá de ervas a fim de que ela dormisse até o sol estar alto no céu, e tivesse energia para virar a noite.

O objetivo da comemoração era aproveitar e festejar o final do verão, antes que a chuva chegasse. Ainda lembrava do primeiro que ela participara, a chuva chegara cedo aquele ano, e caíra durante a festa das fogueiras, mas não acabara com o espírito das pessoas, que continuaram noite adentro com as músicas ora históricas, ora sujas e indecentes.

O café da manhã foi reforçado e farto, então ela passou por momentos de cuidados com a pele, cabelo, massagem tântrica e então Marie a enfiou em uma banheira com leite, dizendo que fazia bem para a pele, e depois a banhou em água tão pura que nenhum cheiro ficou em seu corpo além do dela própria.

Lis começou a discutir com as mulheres, mas o sol chegando ao horizonte a fez decidir que era perda de tempo. Então ela deixou que Stefanie passasse um óleo corporal em toda sua pele, literalmente, cada pedacinho do pescoço pra baixo, enquanto as outras buscavam sua roupa. A morena também passou um brilho prata em suas pálpebras e um tipo de batom que tinha gosto de morango (ela precisava, mesmo, levar aquilo para casa).

Enquanto esperava, a menina se encarou no espelho, passando os dedos pela pele aveludada e branca como a lua que brilhava, soberana, despontando no céu ao leste. O aroma exótico e quase hipnotizante de lótus que vinha dela mesma enchia o aposento. Stef mencionou algo sobre o cheiro atenuar com o tempo, e Lis esperava muito por isso.

As outras duas chegaram pela passagem de criados e a ruiva deixou que a vestissem. Aquilo não era um vestido, propriamente dito, e ela não queria mesmo que fosse. Lembrava das roupas usadas pelas jovens solteiras nos festivais de sua infância e desenhara algo ainda mais livre e ousado para aquela última noite quente no verão.

A parte de cima era apenas um bustiê branco, preso por uma fita ao pescoço, que o enrugava no vale entre os seios fartos, modelando-os. Flores reais e da cor de chamas foram costuradas e conservadas por magia, cobrindo a parte frontal e impedindo que sua pele ficasse evidente pelo tecido transparente. Sua barriga lisa estava completamente exposta, a curva de sua cintura era convidativa ao brilhar sob a luz fraca.

A saia ia até os seus calcanhares, aberta de baixo até o alto das coxas, quase no quadril. As mesmas flores do busto desciam em um triângulos delicado, cobrindo a roupa íntima, mas o conjunto continuava leve e permitiria que ela dançasse à vontade.

Com uma coroa de flores e ramas no cabelo ruivo e liso, ela saiu para a varanda, de onde podia ver parte da clareira onde acontecia a festa. O cheiro da fumaça e a música que começava, tímida, atingiram os seus sentidos, e uma brisa leve envolveu sua cintura, chamando-a. Nada poderia atrapalhá-la , e aquela noite era dela.

As fogueiras queimavam, com três metros de altura, em cores lindas, aquecendo o lugar. As pessoas já dançavam, sem ligar em quem chegava ou saía, as roupas das mulheres parecidas com as dela, talvez mais recatadas; os homens usavam calças marrons, simples, e camisas largas de algodão branco, isso quando as usavam. Muitos deles giravam ao redor das fogueiras menores, ou as pulavam, em sinal de boa fortuna.

Não eram somente os bruxos nobres que poderiam participar, então o festival era variado e ali não havia títulos ou magia além da força que os colocava em êxtase a noite inteira. Um elfo doméstico se aproximou com uma bandeja e a garota fez menção de pegar uma que era servida em um cálice de flor branca, quando uma voz familiar a surpreendeu.

— Não faria isso se fosse você. A Fatale Nuit é muito forte.

Lis virou, e olhos azuis sorriram para ela.

— Carlo! — ela pulou em seus braços, que a envolveram em um abraço apertado — Por onde andou?

— País de Gales — ele viu a pergunta em seus olhos e estendeu a mão — Dance comigo e te direi o que tenho feito desde o último verão.

Então eles dançaram. Não era uma valsa, era algo mais folclórico e primitivo, lembrava os costumes irlandeses, remetia a uma sincronia com a natureza; você se tornava o vento, e as árvores, e o fogo. Era livre e sem julgamentos, e Carlo rodou a sobrinha pela fogueira, e então falou.

A menina percebeu que era uma versão resumida dos fatos; em sumo, ele estava passeando por toda a Europa para fugir das propostas de casamento com garotas pouco mais velhas ou mais novas até que Lis, pois as mulheres nobres da idade dele que se prezassem já teriam, pelo menos, dois filhos. Também esperava alguém de quem realmente gostasse, para se unir e livrar das tentativas do pai de usar ele como negócio para mais bens e terras.

Lis tinha a impressão de que aquilo não era tudo, mas entendia o tio, então também falou. Contou do dragão, do mapa, do aniversário, do casamento; pôs sua raiva pra fora ao falar de James e a francesa e do pai da Rose; então relatou a última semana, a briga com o avô, o que descobrira sobre ele e o novo conhecido, Nikolai. Quando terminou, ambos pararam para se hidratar e comer algo.

— Ah... Agora entendi — Carlo falou subitamente, olhando para um ponto ao longe.

— Entendeu o quê?

— O cara bonitão que não parou de te olhar a última hora inteira.

Lis virou para onde ele apontou, sem se preocupar em ser discreta e ali estava, aquele ser lindo com os cabelos castanhos caindo na testa, a gola da camisa larga, mostrando os músculos do peitoral. Os dentes perfeitos se abriram em um sorriso felino ao ver que ela o observava, e seus olhos a examinaram inteiramente pelo menos três vezes. Em qualquer outro dia, se sentiria exposta demais, com aquela roupa que mal deixava espaço pra imaginação, mas não naquela noite. Quando se virou para o tio, viu que ele misturava duas bebidas discretamente.

— Diluí a Bebida da Noite para você, e mesmo assim, não exagere; o conde não vai gostar nada de saber que a querida neta acordou na cama do vizinho — os dois riram e ele entregou a ela outro cálice — essa é para ele, a pura Fatale Nuit. Divirta-se.

Lis pegou os dois cálices feitos com pétalas da flor noturna, característica do condado D'Noir e matéria prima da bebida, então deu um gole no seu. O gosto era doce com um toque cítrico, delicioso. O que quer que tivesse nela, já começara a fazer efeito, fazendo tudo mais brilhante e deixando-a inconsequente. Já não se sentia devorada pelo olhar do rapaz no outro lado da festa.

Com o andar calculado como o de um gato selvagem, ela foi na direção dele, lançando um sorriso predador que botaria o do Nikolai no chinelo. Perto o suficiente para ver os riscos negros em seus olhos dourados, ela colocou o outro cálice na mão dele. Lis poderia simplesmente deixá-lo lá e sair, para que a seguisse, mas tinha algo que ela queria muito fazer.

Ela quase gemeu com o quanto aqueles lábios eram macios, o beijo estava carregado de um desejo guardado, para a sua surpresa, de ambos. O hálito dele era fresco e tinha gosto do licor de menta que estava sendo servido. Nikolai passou o braço em sua cintura nua e a puxou contra ele, ela se recusou a sequer suspirar diante do calor contra sua pele. Lis o abraçou, encostando o rosto em seu pescoço, aspirando o perfume almiscarado, e sussurrou com uma voz rouca e sensual.

— Dance comigo — não era uma pergunta.

Ele respirou longa e profundamente, então soltou o ar com um gemido audível, e ela soube que o cheiro de lótus em sua pele já o tinha atingido, e inebriado. A ruiva deixou uma trilha de beijos desde o seu pescoço, até a ponta de sua boca, então desgrudou o corpo do dele, bebendo mais um gole do cálice e deixando-o de lado, sem deixar que o rapaz percebesse que ela não havia bebido nem a metade.

Ele abriu aquela boca linda, provavelmente para dizer algo que tiraria qualquer juízo que restasse a ela, mas Lis colou os lábios aos dele, dando passagem para sua língua, deixando que ele provasse o gosto de morango, e então interrompeu o beijo e se afastou, desviando do seu abraço com agilidade felina e seguindo para as fogueira com um rebolado leve e sedutor que os homens adoravam.

Após alguns segundos, ela olhou para trás, sorrindo maliciosamente e mordendo o lábio inferior; virou quando viu o rapaz entornar a bebida e começar a segui-la com um brilho lascivo nos olhos. Coitado, esperava uma presa indefesa naquela noite... mal sabia que ela era a caçadora, e que ele havia caído na armadilha.

***

A luz ardeu em seus olhos, ela virou pro outro lado, gemendo, quando uma voz suave a chamou.

— Senhora... Lis — ela abriu um pouco os olhos — Desculpa, mas são quatro e meia, e a senhora pediu que a acordasse.

Quatro e meia. Ela precisava se arrumar. Lis levantou a tempo de ver Stef deixando o quarto, e encarou sua imagem no espelho. Parecia ridícula: ainda estava com a roupa da festa, os cabelos emaranhados, a prata das pálpebras em todo o rosto e o cheiro... Ela cheirava a lótus e carvalho almiscarado. Um sorriso preguiçoso se abriu enquanto ela entrava na banheira de água morna.

Ela, com certeza, se divertira na noite anterior. Não tanto que se arrependesse, mas o bastante para escandalizar Escórpio e seus costumes conservadores caso ela contasse, o que ela com certeza não faria. Ainda sentia o toque de Nikolai por sua pele e se permitiu lembrar disso por um tempo, e então riu do estado em que o deixara, pela manhã. Ela o havia feito beber e beber a noite inteira, e quando o sol nasceu, ele estava tão desnorteado que não conseguia voltar para o quarto, e ela teve que arrastá-lo até os aposentos da corte, e largá-lo na cama, onde, cinco segundos depois, ele começou a roncar alto.

Então, deixou que a água lavasse aquela noite embora, agradecendo por nunca mais ter que vê-lo na vida e deixou o banheiro. Suas malas estavam arrumadas, a coruja do Alvo em uma gaiola e Kandle em uma bolsa adequada para gatos, e não em sua mala, ainda bem. Logo, logo ela deixaria aquele lugar infernal.

Ela sabia que não conseguiria voltar a tempo pro trem, pois a festa acabava sempre ao nascer do sol, então avisou ao pai que a buscasse pouco antes da hora do jantar, para que tivesse tempo de dormir. Arcturo deixara que o Severo aparatasse e desaparatasse daquela vez, a pedido da neta, então seria rápido, não levaria um minuto para a viagem completa. Lis desceu as escadas para comer, e teve que se apoiar no corrimão; o efeito da Fatale Nuit não havia passado ainda, e ela sabia que o jantar de recepção seria um inferno para ela, pois teria muita dor de cabeça, e aquele salão estaria extremamente barulhento.

Se encheu de bolos que as criadas haviam feito, um mais delicioso que o outro, e terminou com café, para se manter acordada. Tudo estava meio enevoado ainda, e precisou que trouxessem suas coisas, pois não confiava em suas pernas para subir as escadas, o preço de uma noite de dança e diversão. Cinco horas, e Severo apareceu do nada na sala de estar do castelo, olhando para a filha que quase apagara no sofá, ela com certeza parecia destruída.

— Devo saber que tipo de coisa acontece nesse festival? Parece que você foi atropelada por uma manada de centauros.

— Dancei até o amanhecer, papai. É exatamente assim que deveria parecer.

Ele carregou os animais e ela se segurou ao malão e a ele. Um puxão no estômago quase a fez colocar o café tardio para fora, mas logo ela estava nos limites de Hogwarts, e eles entraram no castelo. Ela soltou a coruja, que voou para uma das torres e então seguiu para a casa comunal da Sonserina, soltando o gato e se jogando na cama. Ajustou o despertador, teria uma hora antes que os trem chegasse à estação de Hogsmead, e aproveitaria seu tempo dormindo.