Still Alive
30 Onde eu devo estar
Notas iniciais
Depois de mais um dia inteiro caminhando, Lis conseguia sentir a impaciência dos amigos. Lily e Escórpio já reclamavam de dores no corpo, apesar de eles terem diminuído significativamente o ritmo da caminhada; já teriam chegado há horas, se tivessem mantido o ritmo do dia anterior. James, embora fosse o mais preparado dos três, também já estava exausto, mas não reclamava. Lis, no entanto, não conseguia evitar aquela bolha de felicidade que surgiu em seu peito junto com o aroma de lavanda dois quilômetros antes e crescia a cada passo.
A maior colina que os Potter já haviam visto era a maior felicidade de Lis naquele momento. A ruiva ignorou os resmungos dos dois e acelerou o passo, ficando alguns metros à frente dos amigos e chegando primeiro ao topo, onde parou, sem fôlego, não pela caminhada, mas pela beleza inegável do que via.
Hectares e mais hectares de duas plantações: trigo e lavanda, que, antes separadas, se uniam até o horizonte, onde o sol, já se pondo, fazia o céu ficar púrpura.
Entre as plantações, uma fazenda que ela já conhecia muito bem, com um curral para os cavalos, algumas cabras e cachorros, dos quais ela apenas ouvia o latido. No centro de tudo aquilo, uma casa, simples, branca e com dois andares. Lis sentiu os amigos chegarem ao lado ela e deixou eles absorverem a paisagem antes de continuar a andar, em um ritmo muito mais lento, em direção à casa.
Ela viu a menininha antes de se aproximar demais. Tinha uns quatro anos, cabelos loiros muito cacheados, e colhia alguns feixes de trigo que, provavelmente, haviam caído quando os trabalhadores os colheram, mais cedo. Fazendo um sinal para os outros esperarem, a Snape andou devagar, e se agachou ao lado da menina, que não havia percebido sua presença até o momento.
— Oi, Louise... Tudo bem? — aqueles olhos amendoados a encararam, surpresa.
— Quem é você? Como você sabe meu nome?
— Meu nome é Lis — e antes que pudesse completar, a menina soltou os feixes que segurava.
— Lis? Como a Lady Lis da Mamãe?
— Sim, sou eu. Pode avisar a ela que estou aqui? — a menina concordou, e não demorou para entrar, chamando a mãe dela.
Os outros três se aproximaram, confusos. Estavam perto o suficiente para ouvir a conversa, mas não entenderam completamente, pois as duas falavam em francês. Os olhos de Lis se arregalaram com esse pequeno detalhe.
— Como anda o francês de vocês? Nossa anfitriã não fala a língua inglesa — Scorp deu de ombros, seu francês era tão bom quanto podia ser, sendo amigo dela há tanto tempo.
— Eu aprendi com a tia Fleur — Lily respondeu.
— Eu me viro — nesse momento, todos encararam o Potter, que pareceu ofendido — o quê? Eu tenho estudado, está bem?
Antes que pudessem responder, uma mulher jovem saiu da casa, sorrindo ao vê-los.
— Bienvenue, mon cher — ela abraçou Lis — Lady Lis, vous étiez en retard, je commençais à être inquiet — ela falou isso muito rápido, e Lis não conseguiu não rir da expressão confusa dos amigos.
— Marie, esqueça isso de Lady, por favor, me chame de Lis. E pegue leve com nossos convidados, eles não são tão fluentes na nossa língua — a mulher sorriu e se apresentou, com toda a elegância que seu emprego exigia — Marie, esses são Escórpio, James e Lily.
— Venham, entrem, imagino que estejam cansados e com fome.
A casa era aconchegante, mas não muito pomposa. Os outros perceberam como Lis parecia à vontade ali, pois logo ela se pôs a ajudar a mulher com o jantar, parecendo conhecer onde ficava guardado cada coisa. A refeição foi servida em uma mesa retangular na cozinha, feita de uma madeira tão gasta, que os fez imaginar que estava lá há gerações. Marie foi extremamente simpática ao responder às perguntas curiosas das visitas.
— Desculpa, Marie — Lily falou quando metade dos pratos já haviam sido comidos — será que posso perguntar como você e a Lis se conheceram? — a loira sorriu abertamente.
— Eu trabalho no castelo da família D’Noir — ela começou — conheci a menina Lis quando ela se mudou para a França, logo após… a morte da mãe dela.
— Você conheceu a mãe dela? — Escórpio se adiantou, deixando Lis desconfortável: estavam falando dela como se não estivesse ali.
— Non… Lady Clarissa foi embora muito antes de eu ter idade para trabalhar… Eu tinha apenas 17 anos quando Lis chegou no castelo — um silêncio se estabeleceu antes da Snape lembrar o que queria perguntar há dias. Marie já recolhia os pratos vazios.
— Marie, cadê o Jean? E por que você está aqui, e não no castelo? — uma sombra passou pelo rosto da mulher, e ela hesitou antes de se virar para os adolescentes.
— Estamos em guerra, querida… Seu avô, Conde Arcturo, evacuou o castelo. Qualquer trouxa ou aborto que estava lá recebeu ordens de se abrigar em suas casas e nos vilarejos próximos, onde a Guarda Municipal pode protegê-los. Só restaram os elfos-domésticos lá.
— Por quê você está aqui, então? Em um lugar tão afastado de tudo — fora Lily quem perguntara, mas Lis já sabia a resposta, e falou antes da criada.
— O terreno é protegido com vários feitiços e encantamentos. Marie é trouxa, mas Jean, o marido dela, é bruxo. Somente autorizados entram — ela sorriu com nostalgia — Eu tenho essa autorização há alguns anos — ela pretendia encerrar ali, mas percebeu os olhos deles, pedindo pela história que sabiam que ela tinha — Meu tio (que, se tudo der certo, vocês conhecerão logo) gostava de me arrastar pelo condado, conhecendo as pessoas que minha família governa. As tavernas são minhas velhas amigas desde os meus 13 anos, e ele era especialista em me tornar mais do que uma garotinha nesses lugares. Ele sempre vinha aqui em alguma parte da viagem: é perto da fronteira e Jean é um dos soldados favoritos do meu avô.
— Jean foi convocado pelo Conde a acompanhá-lo para o Castelo Pelletier, onde os nobres mais importantes estão no momento — Marie completou com informações que Lis desconhecia — Somente os soldados de sua maior confiança foram com ele. Antes de sair, ele reforçou os feitiços, mas manteve sua autorização. Imaginou que não ficaria muito tempo afastada da confusão, e acertou.
Lis sorriu, envergonhada. Os amigos já não ocupavam a mesa, mas as cadeiras estavam dispostas em um semicírculo enquanto eles acompanhavam a conversa, ansiosos.
— Isso me lembra… — Marie disse, antes de sentar junto a eles — Ele me mandou uma carta; chegou ontem, apenas, e por isso não te contei antes. Os irmãos Weasley estão realmente lá — apesar de não estarem surpresos, ficaram felizes com a confirmação — Seu avô, como sempre, está exigindo o domínio que sua posição exerce, e está responsável por mais da metade da guarda das crianças. O próprio Jean fica com eles no turno da noite. Por algum motivo, o Conde os quer seguros.
Isso foi surpresa para James, que ouvira histórias desagradáveis a respeito de Arcturo D’Noir, mas Lis apenas assentiu gravemente, e murmurou:
— Nenhuma dor desnecessária. É o que ele diz sempre, a respeito dessas coisas — ela explicou, quando viu a confusão no rosto dos amigos — São apenas crianças… Embora ele não seja o melhor homem do mundo, nunca atingiu crianças.
Exceto você. Ela pôde ver as palavras nos olhos do namorado, mas apenas balançou a cabeça. Ele era frio quando ela chegara à França, mas nunca a machucara além das indiretas a respeito da sua mãe e de possíveis casamentos; nunca eram castigos físicos, embora ela soubesse que eles eram aplicados em outras partes da corte. Um clima pesado caiu na sala até que Louise se aproximou de Lis, tímida. A ruiva a colocou no colo e sorriu.
— O que foi, Lou? Pode perguntar.
— Mamãe sempre diz que você canta muito bem, e eu sempre quis ouvir você cantar. Posso? — James olhou para a namorada, surpreso.
— Você canta? — ela corou até seu rosto ter a cor dos seus cabelos. Escórpio sorria. Já a vira cantar muitas vezes, mas nunca em francês. Nunca naquela língua que, mesmo sem melodia, era extremamente musical, na qual sua voz ficava macia e rouca ao mesmo tempo. Carlo sempre a fazia cantar, adorava vê-la constrangida daquele jeito, tanto quanto amava ouvir sua voz.
Marie a encarou, mas já levantava para buscar seu velho gramofone, uma das únicas tecnologias que funcionava em meio a tanta magia. Ela ria, e Lis disse que podia, sim, cantar. A menininha ficou muito feliz no seu colo, batendo palmas, e ela não resistiu a abraçá-la e fazer cócegas nela, que riu, deliciada. James a observava, com um sorriso. Ela via seus pensamentos naqueles olhos que amava tanto, e não ficou assustada ao perceber que ele a imaginava com uma criança dos dois no colo.
A música começou. La vie en Rose, sua preferida. Ela lembrou da letra e encarou James, esperando que ele entendesse a mensagem, que era para ele.
Des yeux qui font baisser les miens
Un rire qui se perd sur sa bouche
Voilà le portrait sans retouche
De l'homme auquel j'appartiens
A melodia se tornou mais rápida, e ela sorriu ao perceber que ele entendia cada palavra. Os outros a olhavam, encantados. Até mesmo Escórpio: nunca a tinha visto cantar daquela forma.
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça me fait quelque chose
Lis começou a ficar constrangida, então brincou com Louise enquanto cantava os próximos versos, mas ainda sentia as bochechas queimarem pela atenção que estavam lhe dando.
Il est entré dans mon cœur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est lui pour moi
Moi pour lui dans la vie
Il me l'a dit, l'a juré
Pour la vie
Ela conseguia ouvir a voz da cantora original por trás da sua. Jean tinha alterado aquele disco justamente para momentos como aquele, abaixara a cantora e destacara os instrumentos, assim poderiam ouvi-la bem.
Et dès que je l'aperçois
Alors je sens en moi
Mon cœur qui bat
A parte a seguir era quase como uma declamação de poesia, e ela não tirou os olhos de James enquanto deixava as palavras musicarem a si mesmas em sua voz.
Des nuits d'amour à plus finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Des ennuis, des chagrins s'effacent
Heureux, heureux à en mourir
Quando o refrão veio, ela levantou e dançou com Louise, como Carlo costumava fazer com ela, embora a menina fosse muito menor. Ela cantou por um tempo, mas quando os amigos se levantaram e James pegou a menina de seus braços e a girou no ar, ela deixou o disco apenas tocar.
A música acabou, e Marie mostrou onde era o banheiro e Escórpio foi primeiro, enquanto Lis sentava, ainda anestesiada daquele pequeno momento de felicidade. Louise voltou ao seu colo, e não dava sinal de se levantar, então ela apenas começou a trançar os cachos dela.
— Sua voz… — James começou — Aquilo foi incrível. Não ache que será a última vez que te ouvirei cantar, Lady D’Noir — ela riu e devolveu a ele um sorriso melancólico.
— Excuse moi — Marie se aproximou, e Lis percebeu, surpresa, que James falara com ela em francês. Era sempre difícil processar aquelas mudanças, principalmente ali — Eu irei dormir no quarto da Marie. Deixarei a cama de casal, o sofá e um colchão para vocês. Se arrumem como preferirem.
Antes que Lis pudesse se posicionar, Lily interrompeu.
— Eu e Scorp ficaremos na sala. Fiquem você e James no quarto — Lis levantou uma sobrancelha — Ele dormiria no sofá em qualquer uma das arrumações, e eu durmo em qualquer lugar — ela deu de ombros e abaixou a voz — E eu estou com a impressão de que vocês precisam de um tempo juntos. Sozinhos — ela completou antes de se oferecer para ajudar Marie a arrumar as coisas.
Ela voltou às tranças, e percebeu James observando-a.
— Então… estudando francês, an? — ele riu, sem graça.
— Comecei depois do casamento do Teddy e da Victoire. Percebi como você falava com fluidez e pensei em te impressionar. Ainda não estou muito bom. Por algum acaso, já tinha escutado aquela música que você cantou — ele completou ao ver a confusão nos olhos dela — Muito obrigado pela declaração, aliás — ela riu.
— Você pode conversar com a Louise — a menina olhou para os dois quando escutou o nome dela, mas não sabia o que era, pois não entendia inglês — ela também está aprendendo. Será uma ótima parceira.
Ele sorriu e embarcou em uma conversa com a menininha, que ria das tentativas dele de lembrar frases prontas. No entanto, ele estava até bem, e ela não conseguia não sorrir. Ele realmente era bem empenhado no que queria. Depois de alguns minutos, a trança estava pronta, e ela conjurou algumas flores para decorar o cabelo da menina. James não reparou que ela fez isso sem precisar da varinha.
Lily voltou do banho, anunciando que o banheiro estava livre, e Lis deixou James conversando com Louise: não queria interromper o início de uma amizade. Na pequena banheira, ela teve uma ideia, e tirou da mochila o óleo de rosas que ela sabia ser o favorito do James. Estava escondida na sala do pai quando ele fizera sua primeira poção do amor, confuso com o cheiro que sentira. “Rosas…? De onde é esse cheiro?” Ela achou que era da namorada dele na época, mas ficara extremamente ciente de que ela era a única que usava um perfume com cheiro de rosas de verdade, e não aqueles que exalavam apenas o álcool da fórmula.
Revirou sua mochila e encontrou uma camisola que nem lembrava existir: era de seda, branca, e com renda nos seios; era acompanhada de um robe, também de seda, que a cobriria até o momento certo. Ela tomou cuidado para que ninguém a visse subindo para o quarto de casal, mas fez barulho o suficiente para que James percebesse que havia saído, e o ouviu entrar, também.
O quarto era simples, mas a cama parecia confortável. No lado oposto a ela, havia uma penteadeira, com um espelho grande, e ela sentou ali, aguardando Marie, que viria, conforme ela havia pedido. A loira entrou e, apesar dos protestos de Lis, se pôs a escovar os cabelos dela. Não haviam nós, mas Lis compreendia: cuidar dela, arrumar as coisas, era o familiar para ela, a deixava tranquila enquanto discutia com Lis o que viria a seguir.
— Ficou lindo esse cabelo curto. Você está parecendo a sua mãe.
— É, eu sei — o tom da voz de Lis e um olhar bastaram para a loira entender suas intenções.
— Você tem certeza de que quer fazer isso? — ela falava baixinho, para dificultar o trabalho de qualquer curioso.
— Eu preciso fazer isso, Marie. Não tenho escolha…
— Certo, milady. Então deixarei tudo preparado — Lis nem teve tempo de reclamar do vocativo, pois a loira deixara a escova com ela e já ia embora.
Ao mesmo tempo que Marie saiu, James entrou no quarto, enquanto Lis ainda penteava os cabelos. Era estranho, estavam uns 30 centímetros menores, mas a leveza era libertadora. A ruiva observou, pelo espelho, o namorado tirar as roupas. Ele havia esquecido o pijama e dormiria apenas com a roupa íntima, o que era extremamente conveniente para as intenções dela naquela noite. Ela observou, com os olhos atentos, se ele demonstrava dor ao subir na cama, mas ela parecia ter desaparecido. Perfeito.
Lis levantou da cadeira, tirando o robe que vestia, e se posicionou à meia luz das velas. Sabia que sua camisola semitransparente não fazia nada para esconder coisa alguma, e James, que já tinha um livro em mãos, pareceu perceber que ela não pretendia deixá-lo ler, pois fechou-o e colocou de volta na cômoda.
O coração de Lis acelerou enquanto ele a observava, os olhos lambendo-as como labaredas, brilhando em um desejo que se estampou no seu sorriso quando ela se aproximou. Ele se endireitou na cama, e ela pôs as pernas dele entre as dela, sentando em seu colo, encaixando seus quadris, traçando cada músculo daquele abdômen com as unhas.
Ela esperava a impetuosidade e selvageria da última vez, não aquele carinho delicado com o qual ele a tocou e beijou. As mãos deles eram firmes, mas cuidadosas em sua cintura, enquanto a empurrava contra o quadril dele de uma forma que a deixava tonta. Seus lábios e dentes faziam um caminho do pescoço ao ombro, provando cada pedacinho. James a tocava como ela nunca fora tocada. Ele a tocava como se fosse a última vez que a tocaria na vida.
Lis afastou esse pensamento e o beijou novamente, mordiscando seus lábios. James tirou a camisola dela, fazendo-a gemer ao sentir seus calos roçando sua pele macia. Então, ela arqueou a coluna, dando espaço para ele descer do pescoço aos seios, onde ele alternava beijos e pequenas mordidas. O vento frio a fazia se arrepiar, ou talvez fosse a eletricidade que percorria seu corpo em cada pedaço que pele que estava em contato com a dele.
James estava terrivelmente paciente, pois a lambia e circundava seus mamilos como se tivesse todo o tempo do mundo. Lis se afastou e tirou a única roupa que restava nele, apreciando a visão por alguns segundos antes de ele puxá-la de volta, seus seios contra o tórax dele, suas línguas dançando, as mãos fortes abaixo dos seus quadris, o desejo dele contra o ventre dela de tal forma que a fazia querer mais.
Mas não era isso que ela pedia. Seu corpo o desejava imediatamente, mas seu coração implorava por aquela lentidão eterna, querendo que aquele momento não acabasse nunca, que durasse horas, dias, séculos.
Quando ela já estava tonta, quase sem conseguir respirar, ele a afastou, ao que ela respondeu com insatisfação antes de ele a deitar na cama. James permaneceu ajoelhado, fitando-a com um olhar que ia além do puro desejo. Havia tanta paixão, carinho, havia tanto amor naqueles olhos que o coração dela pesou com a culpa do que iria fazer.
No entanto, as mãos dele passearam por suas pernas e tiraram, vagarosamente, sua calcinha. Ele traçou uma fila de beijos na parte interna de sua coxa, fazendo-a esquecer de qualquer problema. James se demorou entre suas pernas, arrancando gemidos dela, e segurando seus quadris para que não se mexesse enquanto ele a provava te tal forma que a fazia sentir como se fosse entrar em combustão.
Ela tentou tocá-lo da mesma forma, mas ele não permitiu, o olhar dizendo que queria fazer isso do jeito dele, no tempo dele, e que ela apenas aproveitasse. Então, ele trilhou, com lábios, língua e dentes, todo o caminho até seus seios, até que ela esquecesse de onde estava.
O Potter apoiou um braço ao lado dela, pressionando-a com seu peso, a outra mão ainda se aventurava entre as pernas da ruiva. Aqueles olhos perguntavam, sem palavras, se ela realmente queria que ele seguisse em frente. Lis sorriu e abraçou o quadril dele com as pernas em resposta, quase derretendo com o prazer do calor dele sobre ela. Ela o queria, e tinha certeza disso. Ele a beijou com intensidade, e quando se pôs dentro dela, com cuidado, eliminando qualquer espaço entre eles, ela não conseguia lembrar nem seu próprio nome.
***
O toque do cobertor de pele de lobo era macio em seu corpo nu. Lis desvencilhou o braço de James, que a envolvia, com cuidado, e ele se revirou no sono, mas sem acordar. Abandonar o calor do corpo dele era difícil, mas necessário, e ela deixou o vento frio arrepiar sua pele enquanto saia da cama. Uma roupa quente já a aguardava na cadeira próxima. Não era dela, mas Marie tinha exatamente o seu tamanho.
Lis se encarou no espelho. Viu o medo nos próprios olhos, e se obrigou a escondê-lo. Recolheu suas coisas na mochila, tirando o que seria necessário para James e os outros dali pra frente: o mapa, os sacos de dormir, e outras coisas úteis. Não precisaria daquilo. Tirou um bilhete também, escrito antes mesmo de saírem da Inglaterra, direcionado para James. Aquele era o plano dela desde o começo, e seu coração doeu o caminho inteiro por escondê-lo deles.
Pôs a carta na escrivaninha e encarou o namorado. Ele era tão sereno dormindo, relaxado, os músculos definidos aparecendo mesmo sem esforço, o cabelo sempre uma bagunça, mas uma bagunça linda. Ela suspirou. Queria beijá-lo uma última vez, mas não poderia arriscar acordá-lo. Antes que mudasse de ideia, saiu do quarto e fechou a porta.
Marie a esperava na cozinha com uma sacola de mantimentos já pronta. A loira não sorriu quando a viu, apenas serviu um prato com pão e queijo de cabra, além de uma sopa fria, tradicional daquela parte da França. Lis encarou o prato, e sentiu seu estômago revirar.
— Não vou conseguir comer, Marie — ela nem havia sentado.
— Você precisa comer, milady — Lis não tinha forças para reclamar, então apenas envolveu o pão e o queijo em um pano, com um sorriso forçado.
— Como no caminho. Sério, estou sem fome — ela acrescentou sob o olhar desconfiado da criada, que não disse nada, mas pôs uma maçã a mais na bolsa de couro que havia separado.
— O cavalo está lá fora.
— E os outros?
— Dormindo.
O cavalo era marrom. Bonito, mas não chamava muita atenção. E o mais importante: ninguém o reconheceria além do Jean, e seria mensagem o suficiente. Ela amarrou a bolsa e a mochila na cela como fora treinada desde os sete anos, os movimentos quase automáticos; o familiar a evitava de pensar demais no que estava fazendo. Marie saiu da casa, trazendo uma capa que Lis reconheceu.
— Marie, guarde isso. Eu te dei de presente — a loira sorriu, teimosa.
— Você não se preparou para esse frio. E é uma desculpa boa o suficiente para você garantir que vai voltar — Lis deixou que ela prendesse a capa, e sentiu o calor a envolver.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Marie a abraçou, e Lis teve que se segurar muito para não cair no choro. Ambas sabiam o que a aguardava, caso seu plano não desse certo. Depois de tantos anos, Marie deixara de ser uma criada, e passara a ser amiga, e foi nessa posição que Lis a segurou pelos ombros, olhando profundamente em seus olhos.
— Marie, por favor. Não conte a eles onde eu fui, ou o que eu fui fazer. Se perguntarem, você não sabe. Não os deixe vir atrás de mim — ela era dez anos mais velha que Lis, mas não parecia ter mais que vinte quando a encarou, assustada — eles precisam chegar ao castelo do meu avô. Não estarão seguros antes disso. Você precisa garantir isso.
— Sim, Lis... Eu farei o meu melhor.
Ela se deu por satisfeita e montou no cavalo. Com um sorriso triste e uma última olhada para a casa, ela bateu as pernas no tronco do cavalo e o fez andar, deixando a colina e as plantações para trás. As plantações demoraram a sumir, e enquanto deixava o cavalo seguir a trilha entre os ramos de trigo, os pensamentos de Lis vagaram pelas memórias.
Poucas pessoas sabiam que ela vivera dois anos naquela fazenda; nem mesmo Marie conhecia aquela história. Para receber o nome D'Noir, Lis teria que nascer na França e, embora o parto tivesse ocorrido em uma filial do St. Mungos em Paris, seus dois primeiros anos foram naquela casa de dois andares que acabara de deixar.
Os pais de Jean eram amigos da mãe dela, e o casal recebeu os Snape enquanto a casa em Hogsmead não ficava pronta. Logo depois eles construíram também a casa atual deles e onde passariam os verões, apenas para ficarem longe da escola um pouco. Lis morou na França por dois anos sem os avós saberem, e quando eles descobriram, a viagem para a Inglaterra já estava arranjada. Os avós a viram naquela época, ela lembrava vagamente da mãe a levando com uma carruagem que a deixava enjoada a ponto de chorar a viagem inteira. Sua mãe sempre contava essa história enquanto fazia cócegas em sua barriga, mas nunca explicou o porquê de não visitarem mais os avós, ou de ela nunca ter conhecido o próprio tio. Ela entendeu depois, porém.
As plantações uniformes deram lugar à floresta densa pouco depois do sol subir completamente para o céu. Existiam dois caminhos para o castelo Pelletier: o curto, pela estrada principal, e o longo, se embrenhando pelas árvores sem trilhas. O primeiro era fortemente guardado, então ela preferia gastar mais tempo e ganhar o elemento surpresa. Fora que não tinha garantia de que os guardas a tratariam bem no caminho forçado até o castelo.
O sol já estava alto quando ela finalmente fez uma pausa, mais pelo cavalo do que por ela mesma, e desceu do animal, deixando-o beber um pouco de água no córrego. Ela imaginou que James estaria acordando naquele momento. O sono dele era leve, e provavelmente acordaria ao primeiro movimento dela, por isso ela se viu obrigada a pôr algumas gotas de poção do sono no chá que ele tomara sem nem questionar. Além disso, ele automaticamente atrelou o súbito sono ao que haviam feito minutos antes.
Lis sorriu ao lembrar daquela noite: tinha certeza, e acertou, que seria perfeito pelo simples fato de ser com ele e, Merlin, ele sabia o que estava fazendo. Balançando a cabeça, ela se obrigou a não pensar mais nisso. Estava perto demais do castelo, e precisaria de foco, caso quisesse que o plano desse certo. Resignada, se levantou e deu alguns cubos de açúcar para o cavalo antes de montar novamente e continuar seu caminho.
O castelo Pelletier era mais parecido com o de Hogwarts do que com o D’Noir, só que em uma escala menor e menos impressionante. Ela desceu do cavalo ao ver os soldados se aproximarem, e abriu um sorriso enorme para eles. Sua maior arma ali era o poder de Veela, e podia ver que eles já haviam sido fisgados. Algumas palavras, e ela esclareceu que precisava falar com o Lorde Pelletier, e os jovens guardas a conduziram ao salão.
Era enorme, parecia o salão de recepção do seu avô, e ela não se surpreendeu ao ver um homem em um mini trono, encarando-a: Cormand. Enquanto se aproximava, analisava a sala: Nikolai a encarava com uma surpresa explícita ao lado do pai, dois soldados enormes que ela pôde reconhecer como Hansel e Gretel guardavam as saídas, e seu avô, ladeado por seus próprios guardas, a fitava, impassível.
— Ora, ora… o que temos aqui…
Cormand se levantou, ao passo que Lis fazia uma reverência treinada e não prejudicada pela ausência de um vestido. Ele sorriu, e a fez olhar para ele.
— Sua neta é muito bonita, Arcturo — ele disse aquilo sem tirar os olhos dela, as pupilas faiscaram — É igualzinha à mãe — ele riu, antes de seu semblante se tornar extremamente sério — O que você quer comigo, garota?
— Na verdade… — Lis fez o possível para não perder a confiança enquanto tirava os olhos do homem e lançava ao seu filhos — Eu queria falar com o Lorde Nikolai Pelletier.
O garoto pareceu surpreso, e ela abriu um sorriso fraco ao se desvencilhar do Cormand para ir na direção dele. Aquilo funcionaria direitinho. Às vezes ela utilizava o poder Veela sem perceber, e não havia se dado conta de que o utilizara no festival com Nikolai até recentemente. Ele estava fisgado, e acreditaria em qualquer palavra que ela dissesse, faria tudo por ela. A encenação seria para os outros.
Ela apressou o passo, como se não pudesse esperar, e se lançou nos braços dele, abraçando-o, e não esperou qualquer reação dele antes de beijá-lo. Já havia feito aquilo antes: beijar alguém sem sentir nada; por isso seu estômago não revirou, e ela não precisou de muito esforço para parecer apaixonada, não quando ele retribuiu o beijo sem resistência, agarrando-a pela cintura.
— O quê… — Nikolai começou quando ela se afastou. Lis conseguia sentir os olhos dos outros sobre os dois.
— Eu cometi um erro terrível em te deixar, Nik. E cometi um maior ainda achando que estaria bem longe de casa. Ninguém me compreende lá. Aqui, na França, com você, é onde eu devo estar.
Ela conseguia sentir seus cabelos mexerem com uma brisa inexistente, e sua aura de poder dominar o lugar, convencendo os homens, enquanto as lágrimas falsas e sua postura frágil convenciam as únicas mulheres da sala. Nikolai enxugou suas lágrimas enquanto a beijava rapidamente. Então virou para o pai:
— Ela pode ficar, não é, pai? — pelo rosto dele, não era exatamente uma pergunta, mas um procedimento formal. Ela ficaria mesmo que ele dissesse “não”, o que ele não diria.
— Mas é claro que sim. Um membro da corte sempre tem um lugar aqui. Ela disse o certo, ela deve estar aqui, ao seu lado, e ao lado do avô. Por que não mostra a ela o quarto onde ela ficará?
Nikolai parecia empolgado em mostrar-lhe cada parte do castelo, seus quadros favoritos e os lugares para onde cada corredor levava. O interesse dela não era fingido, quanto mais informação tivesse, melhor. Ela viu uma criada abrindo uma porta escondida na parede e marcou mentalmente aquele lugar que, para a sua felicidade, era perto do quarto que ficaria.
— Nik, achei que vocês teriam apenas elfos domésticos aqui, e não criados.
— Temos alguns nas cozinhas, e algumas selecionadas para cuidar da minha mãe e da Kaleen. Minha mãe acha desonroso ser vestida por elfos. No entanto, são todos bruxos, nenhum trouxa ou aborto — ela acenou com a cabeça, e deixou que ele a mostrasse o quarto — seu avô deve deixar guardas na sua porta, para sua segurança.
Ela analisou o quarto. A disposição era parecida com a que tinha no castelo do avô, com exceção da sala de jogos, que não existia ali. Alguns vestidos estavam já no guarda-roupa a mando do Nikolai, mas ele não deu um passo em direção ao quarto, permanecendo na porta.
— Estou feliz que tenha vindo — ele sorria, nenhuma sombra de desconfiança em sua voz ou rosto. Bom. — Vou deixar você descansar. A viagem deve ter sido longa, principalmente feita sozinha — ela deixou os ombros caírem, e concordou, suspirando de alívio quando ele deixou o quarto.
Meia hora depois, já com um vestido simples e de banho tomado, ela saiu do quarto. Queria investigar aquela porta, ver para onde dava, mas antes que pudesse ao menos chegar perto, alguém a puxou pelo braço para uma sala, tapando sua boca. Os segundos de desespero se dispersaram quando ela viu quem era: ninguém mais, ninguém menos que Arcturo D’Noir.
— O que você está fazendo aqui?
— Eu — ele a interrompeu.
— Não diga que está apaixonada pelo idiota do Nikolai. Acha que não sei quando usa o poder de veela? Sua avó era filha de uma, lembra? Você veio soltar os Weasley — o sangue dela gelou e, embora tentasse permanecer impassível, sabia que não havia conseguido. Ele vira seu medo.
— O que vai fazer — ela retomou, parecendo mais corajosa do que estava se sentindo — Me entregar?
Ele riu amargamente, e soltou o braço dela.
— Se você prestasse atenção em qualquer coisa da corte, saberia a resposta. Não vou te entregar pros podres Pelletier — a voz dele destilava veneno e nojo — Achei uma idiotice pegar aquelas crianças desde o princípio. Faça o que veio fazer — ele a encarou, os olhos mais afiados que a espada que carregava na cintura — E não seja pega.
Ele praticamente rosnou aquilo antes de sair, deixando-a sozinha na sala, que ela percebera ser outra passagem, que ele deu a ela, de graça. Era isto. O plano começara.
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