Já era noite quando a porta abriu, e Rose viu os cabelos negros entrarem, acompanhando um vestido roxo, tão escuro que poderia parecer preto sem a luz certa. Rose se ajeitou na cadeira, e Kaleen sussurrou algo com os guardas antes de fechar a porta, o rosto inexpressivo como sempre.

— Você demorou — era eufemismo; a francesa não aparecia há dias.

Ela assentiu sentando na cama ao lado de Hugo, que lhe deu um sorriso, ao qual ela retribuiu fracamente, como se não soubesse direito como fazer aquilo.

— Estive ocupada. Tenho feito companhia à Lis ou sendo arrastada por minha mãe para ajudar nos preparativos do casamento — isso quando ela não estava inventando desculpas para não poder aceitar os convites de um certo lorde.

Rose a encarou com uma sombra nos olhos.

— Então isso de casamento… é sério? — Kaleen deu de ombros.

— A cerimônia é daqui a quatro dias, e Lis não parece que vai desistir… Então acredito que sim.

— Então é o Nikolai… sempre foi ele, não foi? — a morena riu da pergunta do garoto, e os ruivos a encararam, confusos.

— Ninguém aqui nessa corte se casa por amor, Weasley. Ela diz e apresenta para todo a imagem de uma garota devotada e apaixonada. A verdade? A verdade é que eu duvido muito que seja real. Ela tem motivos para se casar com ele, e não são sentimentos. Na verdade, isso me leva ao que eu vim fazer aqui.

— Calma, antes de você falar… — Hugo interrompeu. Sabia que assim que ela dissesse o que queria, iria embora mais rápido que um raio, ela era maluca assim — Como está o James? Você o tem visto?

Ela assentiu, a mão brincando com o veludo do vestido.

— Como prisioneiro, ele foi obrigado a participar do Festival, ontem. Parecia bem, recuperado.

— Espera aí. James e Lis ficaram frente a frente — Kaleen ficou confusa com a exasperação da ruiva.

— Sim…?

— E como ela reagiu? O que ela fez? O que ela disse? O que ele disse? — compreensão lampejou no rosto da Pelletier, e então diversão, antes de voltar ao tédio.

— Bem, ele não disse nada, mas ela… — ela riu secamente — Você já ouviu falar na Fatale Nuit? — os dois negaram com acenos — É uma bebida destilada das folhas e pétalas de uma flor que nasce somente no Condado D’Noir. Dizem que foi um ancestral deles que a inventou com magia. O fato é: é uma bebida extremamente forte que as noivas D’Noir bebem no Festival da Lua para aproveitarem a noite totalmente e esquecerem das preocupações do casamento.

— A Lis bebeu isso?

— Ela bebeu pelo menos dois cálices antes de falar com o James. Passou, hoje, o dia inteiro no quarto, indisposta pelos efeitos colaterais. Eu poderia apostar que ela nem ao menos reconheceu o James. Ela não reconheceu nem a mim ou ao Nikolai, não sabia quem éramos e desistimos de tentar fazê-la sequer guardar nossos nomes.

Os irmãos assentiram, ficando em silêncio por mais alguns segundos. Rose remoía as informações, imaginando o quanto seu primo estava sofrendo com aquilo tudo, e querendo entender o que diabos estava acontecendo ali. Era improvável que Lis tivesse traído eles como Rose imaginava a princípio, mas ela não estava exatamente ajudando-os. Não, era Kaleen quem se esgueirava até o quarto deles para verificar se Hugo estava se curando direito, e quem trazia informações sobre o que estava acontecendo no castelo. Enquanto isso, Lis rodava o castelo envolta de vestidos e organizando o casamento.

— Mais alguma pergunta? — ela interrompeu os pensamentos da Weasley, fazendo-a lembrar de algo que ela queria, de fato, perguntar, há dias.

— Tenho — ela inclinou o corpo para frente — Alguma notícia da minha mãe? Ela recebeu a carta?

Hugo olhou para a morena, com tanta expectativa quanto a irmã, e Kaleen pareceu desconfortável com tamanha atenção, se remexendo um pouco onde estava sentada.

— Tenho quase certeza de que seus pais a receberam, mas não, não tenho tido notícias, boas ou ruins. Não me falam muita coisa… E não seria muito inteligente da parte dos seus pais se respondessem a carta, não é?

Ela deu um sorriso mínimo, e se Rose não a conhecesse, diria que estava em uma tentativa de fazer uma piada. O que, pelas calças de Merlin, havia acontecido com aquela garota? Imaginava que a única resposta era: efeito Lis. A pobre garota estava passando tempo demais com Lis Snape.

— Bem… — ela inspirou profundamente antes de continuar — acredito que podemos continuar com o que eu vim dizer. É muito simples, na verdade… Eu preciso que vocês dois não estejam na cerimônia de casamento.

Rose demorou um pouco para absorver as palavras. O que ela queria dizer com aquilo?

— Por quê, Kaleen..? — foi Hugo quem se pronunciou.

— Eu não tenho certeza, mas… Nikolai e os guardas dele andam sussurrando coisas, uma parte inteira da floresta foi completamente coberta com um feitiço de desilusão, e os nobres parecem muitos animados, por algum motivo. Ouvi Nik mencionar o casamento… Tem algo grande vindo, alguma coisa vai acontecer, então sugiro que, mesmo que meu pai os convide para o casamento, não vão. Finjam que estão doentes, ou algo assim, mas fiquem no quarto.

Rose nunca a havia visto falar tanto e, quando pensou, chegou à conclusão de que ela estava certa. Mesmo que nada acontecesse, seria mais seguro estar no quarto sob a proteção de pelo menos um guarda D’Noir. Era fácil demais acontecer algum “acidente” em uma festa cheia de pessoas.

— Nós ficaremos. Obrigada Kaleen.

Ela assentiu e levantou.

— Tenho que ir, ver se a Lis já acordou… ela bebeu demais noite passada… — ela não falava aquilo em voz alta, mas em um murmúrio enquanto conversava consigo mesma e se dirigia para fora do quarto.

***

O mundo a odiava. Ela tinha certeza. Ela tinha perdido a consciência no segundo copo de Fatale Nuit, e não lembrava de mais nada do resto da noite. Nada. Aquilo a deixaria preocupada, se a dor não ocupasse cada parte de sua mente.

A ressaca da Bebida da Noite vinha como um sino ressoando dentro do seu cérebro, e Lis não conseguiu sair da cama por um dia inteiro. Passou o tempo todo se sentindo miserável, bebendo o máximo de água que conseguia e enfiando comida garganta abaixo a despeito dos protestos de seu estômago. Não deixou as criadas abrirem as cortinas, e permaneceu na escuridão, pois a luz fazia sua cabeça gritar ainda mais.

Nikolai apareceu uma vez pela manhã, assim como Jean para verificar se ela estava bem, e foram dispensados com grunhidos e reclamações porque ela simplesmente não suportava ouvir qualquer voz ou barulho naquele momento. Havia dispensado as criadas, também, antes que as amaldiçoasse por ficarem murmurando e falando; o som retumbando nos tímpanos dela a deixava irritável e inconsequente o suficiente para fazer qualquer coisa idiota.

Já Kaleen esteve no seu quarto três vezes e, para a surpresa de Lis, pôs panos frios em sua testa e lhe trouxe, na terceira vez, uma poção para ajudá-la. Se a ruiva estivesse se sentindo bem, teria perguntado se a garota já havia pensado em seguir carreira como medibruxa. Seu silêncio e suas mãos leves e precisas foram tudo o que Lis precisava naquele momento.

Quando enfim a enxaqueca foi embora e a garota acordou, no dia seguinte, achando que conseguiria sair da cama e enfrentar o dia, ela soube que o universo a detestava. Ela tinha esquecido. Com toda aquela confusão de James machucado, ir para a França, guerra, ela esquecera de levar a poção que tomava todo mês para aquele tipo de dor.

Seus ciclos eram excruciantes desde o primeiro, aos treze anos. Parecia que estavam atravessando milhares de facas em seu útero, e dando choques em sua coluna. Tudo doía de forma enlouquecedora. E para fechar com chave de ouro, ela tinha alergia ao princípio ativo de todas as poções para dor conhecidas; remédios trouxas não funcionavam, tampouco. Sua sorte havia sido sua própria mãe que, como também tinha os mesmos problemas, inventara uma poção personalizada para ela, e Severo a replicou para a filha que gritava, desesperada, com as cólicas do seu primeiro sangramento.

Ela não tinha a poção ali, no entanto, então estava encolhida na cama, sofrendo e grunhindo; tentando segurar o parco café-da-manhã no estômago, que se revirava com a dor.

Ela deveria estar feliz pelo sangue ter descido, já que a chegada dele a fez lembrar que não tinha usado nenhuma proteção naquela noite com James e que poderia, muito bem, fazer jus aos sussurros dos criados estando realmente grávida, mas não de quem eles imaginavam. A parte boa era que ninguém ia imaginar aquilo mais. Aquelas dores eram prova suficiente.

Lis abriu os olhos, tirando o cobertor de seu corpo subitamente quente demais, e seu mundo girou. Falhou em se controlar, e logo estava inclinada na beirada da cama, colocando todo o conteúdo do seu estômago para fora e quanto lágrimas escorriam de seus olhos. Como ela odiava aquilo.

Uma criada trouxe água para lavar a boca, outra limpou o chão com um agitar da varinha. Lis não pediria desculpas pela bagunça. Finalmente havia entendido o motivo de tanto mau-humor ultimamente. Ela se encolheu novamente, fechando os olhos.

Depois de alguns minutos, ou horas, ela não sabia, ouviu vozes na porta do seu quarto. Nem se importou em tentar reconhecer quem era, mas seus instintos captaram a rigidez de ordens do tom de voz de um deles. Alguns segundos depois, sentiu algo gelado em sua testa. Abriu os olhos e encontrou a última pessoa que esperava ver.

— Vô? — ela afastou a mão dele, mas sua cabeça girou e ela teve de fechar os olhos para evitar outra onda de vômito.

— Shiiiu — ele pôs o pano de volta — deixe. Vai ajudar com o enjôo — sua voz era inesperadamente suave, mas segura, não permitindo contestações.

Ela assentiu levemente e não pôde negar que estava ajudando. Inspirou fundo uma vez e deixou o frio tirar a tontura e acalmar seu estômago.

— Mandei fazerem uma poção-

— Eu tenho — ela interrompeu, mas foi interrompida de volta.

— Alergia aos analgésicos, eu sei — ela não conseguiu evitar olhá-lo — Não pareça tão surpresa. Sua mãe tinha. Sua avó também. Seu pai me contou quando a deixou comigo na França — ela assentiu e voltou a fechar os olhos — fora que eu já cansei de cuidar da Clarissa e da Constance quando tinham cólicas. Parece que a genética não deixa negar, não é?

Ele soltou um som que poderia ser um bufo ou uma risada, mas Lis deixou aquela informação alojar-se em seu coração. Um pequeno lampejo de família em seu avô. O pano deixou sua testa apenas para retornar, mais frio, e Arcturo levantou quando a porta se abriu. Lis o acompanhou com os olhos. Nunca que imaginaria aquela cena: seu avô cuidando dela.

Ele retornou com um frasquinho e ela se inclinou para beber, reconhecendo a poção para enjôo. Então, logo em seguida, ele tinha nas mãos um cantil de couro.

— Acredito que os trouxas usem de plástico, mas... É o que temos. Sempre usei assim, e sempre ajudou — ela se perguntou sobre o que ele estava falando, e ele a entregou o cantil, que estava quente por fora, quase queimando-a — coloque na barriga, onde dói. Por cima da roupa, pra não queimar.

Ela obedeceu, desconfiada, mas aceitando qualquer coisa que mandasse aquele inferno embora. A ajuda foi quase instantânea; primeiro porque o choque do calor em sua pele sobrecarregou seus nervos, fazendo-a esquecer a dor, e depois, foi melhorando gradativamente, o alívio se estendendo por sua coluna e arrepiando sua pele. A temperatura melhorava a circulação, ela entendeu, e aquilo faria a dor ir embora ou, pelo menos, diminuir. Lis suspirou em alívio e manteve os olhos fechados, aproveitando.

Aquilo, aquele silêncio poderia ter durado uma eternidade, que ela não se importaria. Toda a sua mente rodava em torno daquele ponto quente no seu ventre.

— Só me diga uma coisa, filha — Lis paralisou, tanto pelo pronome quanto pelo fato de ele ter trocado para o inglês — Por que infernos você vai casar com aquele idiota do Pelletier?

A ruiva abriu os olhos lentamente, encarando o avô, que a olhava, incisivo. Seu corpo todo estremeceu, e não tinha nada a ver com a dor que ainda vinha, agora mais fraca, de seu ventre.

— Você não o ama. Não está nem minimamente interessada nele como esteve no baile. Eu não entendo — ele pareceu genuinamente curioso, mas ela ergueu uma sobrancelha, ainda sem coragem de falar. Respirou fundo.

— Você está certo. Não o amo — a ruiva se ajeitou nos travesseiros — sabe o que me surpreende? Sua insatisfação. Achei que ficaria feliz por eu não estar casando com um inglês mestiço — sua voz era fria como gelo.

Arcturo estreitou os olhos para a neta e fez algo que a surpreendeu ainda mais: passou os dedos calejados e grosseiros em uma carícia quase desajeitada no seu cabelo. Era como se estivesse enferrujado, embora ela não tivesse certeza de se ele já havia sido carinhoso de verdade alguma vez na vida. Seu rosto pareceu pesaroso, e aquilo fez o coração dela acelerar com uma sensação que nunca havia sentido.

— Acho que é minha culpa você achar que eu quero seu pior — ela arqueou as sobrancelhas — Eu não sou carinhoso, e nunca fui do tipo de pai ou avô que mima e distribui beijos. Eu achava que era o melhor para sua mãe, se casar com o Pelletier, assim como acho que é o melhor que você esteja casada cedo, estabilizada, para cuidar de sua própria família e do condado... — ele passou a outra mão pelos próprios cabelos, que estavam soltos, caindo pelo seu rosto — Eu deixei que sua mãe fosse embora quando ela fugiu. Não insisti, não fui atrás, pois seu tio me disse as coisas que Cormand fazia; não queria aquela vida para ela, embora desejasse que ela desistisse e retornasse para mim. Eu não desejo que você sofra o mesmo nas mãos dessa família. Se não o ama, o que infernos ainda está fazendo aqui?

Lis se ajeitou nos cobertores, ainda sentindo uma pontada incômoda na barriga, que a fez fechar os olhos antes de responder com uma sinceridade com que nunca tivera com ele.

— Não posso ir, vô... Eu prometi ao James que ele não se machucaria, e que tiraria Rose e Hugo daqui — ela quase choramingou.

— James... — a compreensão tomou seu rosto e ele riu, balançando a cabeça — Você, garotinha, é uma atriz e tanto — ela sorriu levemente, mas ele voltou a ficar sério — Você o ama — aquela frase quase a levou às lagrimas — O que... — ele estreitou os olhos — Obliviate?

Lis assentiu, e ele voltou a mexer no cabelo dela.

— Você não precisa fazer isso, pequena.

— Não tenho alternativa — ela encolheu os ombros. Não se permitia pensar muito, criar esperanças. Sabia que não tinha nenhuma.

— Tem, criança. Tem sim — ela imaginou que ele podia ver a interrogação nos olhos dela — Eu sei que você deve ter esgotado as possibilidades; eu mesmo as dispensei desde que o Potter apareceu naquele salãou, mas eu tenho uma idéia. Pode não dar certo, mas...

— Me fale — ela imterrompeu, sedenta. Arcturo sorriu.

— Bem, você sabe que eu sempre tenho um plano B....

***

A noite veio trazendo de volta o vigor da ruiva, mas não as criadas. Sorrindo internamente por estar sozinha, se banhou, agradecendo pela paz e vestiu uma roupa preta e as botas que usara no outro dia. Desenterrou do baú uma capa com aspecto quase líquido e prateada e sua varinha, escondendo-a na bota. O colar permanecia em seu pescoço, completamente negro, desde o festival.

Ainda tinha um sorriso no rosto quando abriu a porta e pediu aos guardas que fingissem que ainda estava no quarto. A lealdade que conquistara deles a fazia sorrir sinceramente. Por mais que tivesse recusado a herança que teria durante a sua vida toda, fugindo daquela corte, havia entendido uma coisa naqueles dias: ela nunca deixaria de ser uma D'Noir, e eles nunca se esqueceriam disso.

Ela havia decorado aquele caminho e, na primeira esquina, pôs a capa sobre si mesma. Teria que descobrir como devolvê-la caso as coisas dessem errado. Não havia se permitido pensar muito no plano do avô ainda. As chances das coisas realmente funcionarem eram ínfimas. Não queria criar esperanças apenas para se ver desolada mais tarde; preferia pensar na pior possibilidade existente.

Mal percebeu quando chegou ao final do caminho, seguindo a mesma senha que Nikolai havia feito, agradecendo internamente pela confiança deturpada que ele tinha nela. A capa permitiu que ela passasse pelos encantamentos e pela guarda; um ou dois feitiços desarmaram os alarmes. Anos de amizade com James e os gêmeos e ela sabia exatamente como invadir corretamente um local como aquele.

Como Lis esperava, não havia muitos guardas; apenas cinco ou seis que tinham os olhos prioritariamente nas bestas, garantindo que ficariam quietinhas e não matariam ninguém. Para a surpresa dela, os dragões estavam dormindo, ou pareciam dormir. Ela viu os olhos dos animais se abrirem à passagem invisível dela, mas não fizeram nada além de bufar e voltar à posição original.

Quando chegou no último dos cinco, sentiu-o rosnar e se agitar, reconhecendo a presença confusa dela. Lis tirou rapidamente a capa antes que ele chamasse a atenção dos guardas, sussurrando, ou melhor, sibilando para que ele permanecesse em silêncio. Sentiu os outros se virarem para ela ao reconhecer aquela língua antiga.

— Oi, Ragnar — ela se aproximou com cautela, falando na língua que herdara no sangue tanto quanto o sobrenome; talvez ele não se lembrasse tanto dela quanto imaginava, mas ele abaixou o pescoço lentamente, junto com a cauda, em pose de submissão — Desculpa por estar aqui. Se eu soubesse que haviam te sequestrado...

A ruiva estendeu a mão, e o animal permitiu que ela o tocasse, o hálito quente acariciando sua pele fria pelo ar da noite.

— Eu quero tirar você daqui — ela sorriu e olhou ao redor, para os outros que, ela sabia, prestavam atenção ao que ela dizia em ofidioglossia — Quero libertar vocês.

A ruiva sentiu o interesse das feras aumentar. Sabia que entendiam o que ela dizia, e que sua audição aguçada permitiam que ouvissem sem que ela precisasse elevar o tom de voz. Ela lhes explicou brevemente o plano naquela língua sibilada que lhe vinha com tanta naturalidade; sabia há mais de um ano que os dragões a entenderiam naquele idioma. Precisava ser rápida e precisa, sem erros.

— Vocês não podem sair até que eu dê o sinal, entenderam?

Cinco bufadas foram o suficiente para que ela aceitasse como uma confirmação. Inspirou fundo. Aquilo podia dar muito errado. Mas também podia dar muito certo. Caso a carta que seu avô enviara mais cedo naquele dia chegasse a tempo, seria uma ajuda a mais, caso não chegasse... Seria uma nova mensagem. Dragões poderiam viajar mais rapidos que corujas, se quisessem.

Com um sorriso que precedia confusão no rosto, deixou sua magia fluir pelo ar, sentindo a eletricidade que lhe arrepiava a coluna. Um feitiço de varinha acionaria dezenas de alarmes que ela não conseguira desativar, mas magia pura... Eles não veriam de onde ela viria.

Deixou o poder deslizar como um longo dedo, acariciando as correntes de aço reforçado, explorando e quebrando os encantamentos antes de estraçalhar os elos. Os olhos dourados do Meteoro-Chinês se lançaram na direção dela, o primeiro a ser libertado. Uma bufada e inclinação da cabeça. Gratidão. Nenhum movimento além desse, no entanto. As ordens foram claras. Não podiam chamar atenção dos bruxos ali.

Lis libertou todos os dragões sem que ninguém percebesse. Era apenas baterem as asas e sairiam dali tão facilmente quanto ela tinha entrado, mas ela havia pedido que não fizessem, que esperassem até a troca de guarda, até que ela estivesse longe. Teriam menos danos daquele jeito. A ruiva se aproximou de Ragnar, e ele deixou que ela se aproximasse.

— Preciso que você voe para um lugar específico. Os outros não precisam ir se quiserem, mas eu imploro que você entregue essa mensagem — ele não respondeu, não do jeito que uma cobra responderia, mas Lis já conhecia o suficiente de sua linguagem corporal para compreender o movimento de escamas junto com o mover lento de asas como uma confirmação de que ele faria o que ela pediu — Certo, lhe darei as instruções.

Após explicar onde Ragnar deveria ir, prendeu algo à sua pata. O torzelo era grosse demais, mas um dos dedos era o suficiente para que ela amarrasse aquela pequena bolsa de couro, com uma pulseira que ganhara de presente e uma carta magicamente protegida dentro. Assim que amarrou, se pôs nas pontas dos pés e deixou um beijo no grande focinho do animal. Não pôde deixar de reparar que ele não soprara uma mísera fagulha em sua direção, mesmo sem a poção.

Talvez fosse possível conquistar o afeto de um dragão.

— Estou feliz de ter te encontrado, Ragnar — e ela não estava se referindo à noite alguns dias atrás; ele fez um som gultural e empurrou a mão dela, o que Lis entendeu como um "eu também" — Você está livre para fazer o que quiser quando cumprir essa missão — ela se virou para os outros — todos vocês estão. Até mais, amigos.

A troca de guarda seria dali a pouco, então se afastou. O som que os dragões mantiveram natural havia disfarçado a voz dela para os guardas, mesmo que as feras tivessem ouvido e compreendido com clareza. Tinha esperanças de que aquilo faria a diferença para, se não o próprio futuro, para o dos seus países.

Fez o caminho de volta para o próprio quarto, e os guardas fingiram que ela nem havia saído. Quando deitou de volta na cama aquela noite, pôde jurar que sentia cheiro de fumaça.