Step One
1 lets talk
Notas iniciais
- Quantos anos você tinha na sua primeira vez?
A voz de Die vinha levemente abafada pela revista que cobria seu rosto. Shinya se sobressaltou; pela forma que o outro estava largado no sofá, supôs que ele estava dormindo.
- Quê?
- Quantos anos você tinha na sua primeira vez? Sabe, sexo, trepar, molhar o biscoito, ...
- Tá, chega, entendi. Porque você quer saber?
Die tirou a revista da cara e abriu preguiçosamente um dos olhos, encarando o baterista que se fazia um café na pequena cozinha do ônibus.
- Sei lá, curiosidade. Então, quantos?
- Vinte e um.
- Caralho, tudo isso? — Die sentou-se propriamente, encarando o mais novo com incredulidade estampada em sua face.
Shinya suspirou e sentou-se na poltrona em frente ao outro, cruzando as pernas sobre a mesinha de centro. Soprou a fumaça da caneca de café e bebeu devagar. Levantou o rosto.
- É, Daisuke, tudo isso. Mais um motivo pra você me zoar, viva. E você?
- Pra que tanto rancor no seu coraçãozinho, Shin? — falava com uma das mãos sobre o próprio coração, uma expressão de pena estampada no rosto — Como se eu fosse algum tipo de monstro insensível...
Shinya encarou Die por alguns instantes com uma expressão vazia, antes de voltar a tomar seu café.
- Enfim, eu tinha dezesseis, mas foi uma bosta. Eu não sabia o que tava fazendo, ela muito menos, foi tenso pra caralho. Tanto que a segunda vez demorou um bom tempo.
- ...Quanto você considera um bom tempo?
- Dois meses.
Silêncio.
- Que foi? Eu tinha dezesseis anos, porra, uma semana já era tempo demais!
- Você é um depravado.
- Não sei porque. Você gosta de sexo também, não gosta?
- Eu me recuso a discutir isso com você, Die.
Shinya fechou os olhos e continuou bebendo seu café, ignorando o rapaz completamente. Ouviu um som indistinto e voltou a abri-los, encontrando o face de Die muito mais próxima a sua do que se lembrava.
- Se você não gosta, Shin-chan, é porque você está fazendo alguma coisa errado.
- Daisuke, saia de perto de mim.
- Vai, Shin, fala a verdade. O que você não gosta?
O baterista suspirou e contou até dez mentalmente, pousando a caneca sobre a mesa e puxando as pernas para mais perto do corpo.
- Não é que eu não goste de sexo, Die. Eu só não vejo o que tem de tão especial, sei lá. Nunca encontrei uma garota que tirasse meu chão ou qualquer merda assim.
Daisuke sentou-se sobre a mesinha com as pernas cruzadas como um índio. Analisou o outro por alguns instantes com uma das mãos no queixo.
- E se for esse o problema?
- ... Qual, exatamente?
- Garota. Talvez você seja gay, já te ocorreu isso?
- Vá se foder, Daisuke.
Ele riu-se em voz baixa e deu um tapa leve no joelho do outro.
- Não, cara, sério! Eu não tô falando pra te zoar nem nada assim, eu não tenho nada contra gays, seria meio hipócrita da minha parte ter.
Shinya encarou Daisuke com uma sobrancelha erguida. Baixou uma das pernas do sofá e abraçou o outro joelho.
- Como assim, hipócrita?
- A hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, ideias e sentimentos que a pessoa na verdade não possui. A palavra deriva do latim hypocrisis e do grego hupokrisis ambos significando a representação de um ator, atuação, fingimento no sentido artístico. Essa palavra passou, mais tarde, a designar moralmente...
- Die, me faz um favor?
- Claro.
- Cale a boca.
- Eu só respondi sua pergunta, meu caro Shin-chan. — disse, apertando a bochecha do mais novo, que deu um tapa em sua mão.
- Não respondeu porra nenhuma e sabe muito bem disso.
- Ah, Shin, — se espreguiçou e apoiou um dos pés no braço da poltrona, inclinando-se secretivamente para a frente e chamando Shinya para mais perto com um dedo — eu também sou gay.
- ... Não, você não é. — disse, desviando do outro — Você pega mais groupies por show que o Toshiya.
- Tá, eu sou bi. O que importa é que eu também gosto de homens. Acho que até prefiro, sabe? Tem menos frescuras.
Shinya encarou o homem em sua frente. Procurava algum indício de mentira, mas não achou nenhum. Só o que encontrou foi um par de olhos muito escuros e um sorriso muito convincente.
... Maldito Daisuke fazendo-o questionar-se.
Talvez tivesse ficado em silêncio por tempo demais, pois Die suspirou e passou a mão pelo cabelo, sentando-se na borda da mesinha.
- Bem, se você não acredita, acho que vou ter que provar, não é?
E assim, sem mais uma palavra, puxou o rosto de Shinya para si e o beijou. Não havia nada de doce ou delicado, não havia fogos de artifício, e durante os primeiros sete segundos e meio, Shinya não respirou. Mais três segundos depois, seu corpo decidiu deixar de esperar uma resposta do cérebro aparentemente morto e começou a responder.
Um minuto e quinze segundos depois, seu cérebro voltou dos mortos e o fez empurrar Daisuke para longe com todas as forças — que não eram poucas, e acabaram por fazer Die despencar da mesinha de centro direto ao chão.
- Você tem problemas. Sérios problemas. — disse Shinya, muito vermelho, antes de sair correndo do ônibus.
Die se levantou, estalou as costas que havia batido na queda e sorriu.
- Primeiro passo dado. Agora é questão de tempo, Shin-chan...
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