Stella

40 Lobo solitário


Notas iniciais
Bom dia! Esse capítulo está muito mais muito bombástico mesmo, não é nem meme! Vocês terão muitas surpresas ao ler ele, espero que gostem de ler tanto quando eu gostei de escrever. Por enquanto esse é o maior capítulo da fic. Chegamos ao capítulo 40! (Achei que não ia conseguir escrever nem 10, vencemos!) Boa leitura! CAPÍTULO REVISADO

Jas estava com muito frio e com muito medo, mas não podia deixar de fazer o que era certo. Foi pensando exatamente nisso que ela aplicou aquela injeção nele o mais rápido possível, não queria prolongar ainda mais o seu sofrimento. O próximo passo foi tentar limpar toda aquela sujeira dos pés dele. Havia alguns cortes nas plantas dos seus pés, mas eram apenas superficiais. Então ela continuou limpando até achar que já era o suficiente.

Levou algum tempo até que ele finalmente abrisse os olhos, ainda estava meio desnorteado com o pesadelo. Acordou com a sensação de alguma coisa úmida sendo esfregada contra a planta dos seus pés, então olhou na direção deles, procurando a origem do incômodo. A surpresa ao constatar que era Jas a causadora daquilo foi enorme. Ela estava mesmo bem ali ao seu lado, exatamente como tinha prometido.

— Você está aqui.

A mulher tomou um susto ao ouvir a voz dele, não esperava vê-lo acordado tão cedo. Então simplesmente parou tudo que estava fazendo e sorriu para ele, tomando o cuidado de arrumar a barra da sua calça antes de abraçar o amigo por trás, formando uma espécie de conchinha com ele.

— Danny.

— Você está aqui. – Ela aproveitou toda aquela tranquilidade dele para acariciar os seus cabelos com a sua mão livre, deitando a cabeça sobre as suas costas. – Você está aqui. – Repetiu outra vez, levando a mão dela até os lábios e dando um beijo nas pontas dos seus dedos. – Como conseguiu me encontrar?

Jas sorriu, levantando a cabeça para olhar direto para o rosto dele.

— Eu imaginei que gostaria de voltar para casa. Para perto da sua mãe e do seu irmão. – Apertou o corpo dele com mais força. – O que eles te deram?

O homem ofegou, puxando-a para mais perto.

— Eu... não sei.

— Não importa. – Acariciou os cabelos molhados dele. – Eu precisei adivinhar, mas acho que vai dar tudo certo.

— Ok. – Aquilo saiu tão baixo que ela quase não ouviu. – Obrigado. – Virou de barriga para cima e a olhou com orgulho.

— Não precisa me agradecer, estou aqui para te ajudar. – Abriu um sorriso. – Acha que consegue se sentar? – Nem esperou pela resposta e já foi o ajudando a se sentar. – Quem fez isso com você... te queria morto. – O volume da sua voz foi diminuindo a cada palavra dita. – Eu acho que eles tentaram te dar uma overdose.

— Não, não. – Negou com a cabeça. – Eu não quero que você pense nisso. – Pegou o pano, tentando se cobrir com ele. – Só... só me ajude a me embrulhar. – Ela segurou o pano, fazendo exatamente o que ele pediu, então colocou a mão na testa dele, parecia que ainda estava com um pouco de febre. – Me lembro de ter corrido no meio dos carros... fiquei pensando em várias formas de me matar...

— Shhh. – Jas franziu as sobrancelhas enquanto terminava de enrolar o pano ao redor do corpo dele. – Não diga isso.

— Eu só não me lembro de como vim parar aqui. – Olhou ao redor, fazia muito tempo que não pisava os pés naquela casa. – Eu não faço a menor ideia de como vim parar aqui. – Encarou a amiga, talvez ela soubesse de alguma coisa que ele não sabia. – Lembra dessa casa, Jas?

Ela nunca havia estado naquela casa, então não tinha a menor possibilidade de que se lembrasse dela. Mas decidiu mentir para não o deixar ainda mais agitado.

— É claro que me lembro. – Mentiu com um sorriso simpático nos lábios, enquanto tirava os sapatos dele de dentro da bolsa e os colocava em seus pés, dando nós firmes nos cadarços.

— Ainda me lembro daquela noite. – Usou um tom muito sombrio, nem precisou especificar para que ela soubesse do que ele estava falando. – Eu vi... – Eles se encararam em completo silêncio. – Odeio essa casa.

A mulher apoiou o queixo em sua cabeça e usou uma das mãos para fazer carinho nos seus cabelos.

— Tudo bem. Tudo bem. – Abaixou a voz. – Vai ficar tudo bem. Vai dar tudo certo.

O homem soltou um gemido baixo, levantando a cabeça.

— Eu vi... coisas quando estava naquele beco. – Olhou ao redor, como se estivesse vendo os fantasmas do seu passado. – Vi pessoas...

Ele estava tremendo tanto, que ela estava com medo dele ter desenvolvido um quadro de hipotermia.

— É mesmo? – Enrolou mais o pano no corpo dele. – Do que está falando?

Ele passou as mãos no rosto, tentando limpar o nariz.

— Eu vi o Daxton. – Ofegou. – Eu juro que vi... eu sei que parece loucura, mas por favor... não ache que estou ficando louco.

— Não... – Negou com a cabeça. – Eu não acho. – Ensaiou um sorriso. – Eu também costumava ver o meu padrasto em todos os lugares... – Ele puxou a amiga para mais perto, dando-lhe um abraço cheio de significado. – Então... me fale sobre o seu irmão. – Aquela era uma das suas melhores tentativas de quebrar o gelo, não gostava de vê-lo estranho daquele jeito. – Eu queria muito ter o conhecido...

O homem se encolheu mais e começou a passar as mãos nos próprios braços.

— Ele... ele... ele estava assustado, Jas. – Olhou no fundo dos olhos dela. – Ele estava tão assustado... foi como se eu estivesse o perdendo outra vez...

A mulher deu uma risadinha sem graça e fechou os olhos.

— É por causa das drogas... – Umedeceu os lábios. – Ele... ele ficou assustado ao te ver nesse estado. – Acariciou o cabelo dele. – Até eu fico assustada te vendo assim.

— Mas eu não queria. Eu juro! – Negava veementemente com a cabeça. – Tá bom? – Encarou a mulher, procurando algum sinal de concordância nos seus olhos. – Tem que acreditar em mim. – Balançou a cabeça com mais força. – Eu não queria usar...

Jas abriu um sorriso tranquilo.

— Eu sei. Eu sei. Eu sei.

— É como se eu estivesse andando em círculos o tempo todo... – Lamentou, usando as mãos para fazer gestos. – E então alguém veio e simplesmente acabou de me empurrar para o fundo do poço.

— Tudo bem. – Segurou as mãos dele. – Vai ficar tudo bem. Eu prometo que vou ajudar...

Ele negou com a cabeça.

— Não. – Encarou a mulher com seriedade. – Eu não quero... não quero que me ajude. – Soltou as mãos dela. – É muito perigoso... não quero que se meta nisso.

Ela simplesmente revirou os olhos.

— Mesmo depois de tudo que eu passei? Depois de tudo que eu fiz? – Esperou por uma resposta que não veio, ele estava mais interessado em olhar para o cômodo. – Eu quero muito te ajudar a superar isso. – Engoliu em seco. – Eu só... eu só quero o melhor para você. – Segurou a mão direita dele e a apertou entre as suas. – Eu quero que tenha a sua vida de volta. – O homem a encarou, mas não disse nada. Ambos ficaram em completo silêncio até ela tomar a palavra. – Estou indo pegar o carro. – Tirou a chave do carro de dentro da bolsa. – Mas primeiro preciso te levar em um lugar, tudo bem para você?

Ele assentiu.

— Uhum.

A mulher abriu um sorriso para ele e saiu. Ele aproveitou a oportunidade para se arrastar até a bolsa dela e pegar o seu celular que estava dentro de um dos bolsos. Assim que o desbloqueou viu que havia uma mensagem de voz na sua caixa de mensagem, então simplesmente apertou para ouvir.

— Oi, meu bem. – A voz de Lindsay disse pacificamente. – Você não está me atendendo... então acho que deve estar trabalhando no caso da Hannah outra vez. – Houve uma pausa, ela parecia estar procurando as palavras certas. – Eu... eu só queria dizer que sinto muito por tudo que aconteceu desde que você pegou esse caso. – Ele sabia que ela tinha dito aquilo sorrindo, o seu tom de voz deixava isso claro. – Eu quero que saiba que eu te amo muito... e que acredito no seu potencial e na sua força de vontade. Eu sei que vai dar um jeito de resolver esse caso...

O homem não demorou muito para começar a tentar se levantar depois que terminou de ouvir a mensagem. Ainda estava meio tonto, mas mesmo assim conseguiu ficar de pé, em seguida discou o número da esposa, mas nem chamou. Foi só ao olhar para a tela do aparelho que entendeu o motivo.

— Sem sinal. – Usou os móveis de apoio para caminhar na direção da porta.

Jas apareceu nesse exato momento.

— Ei. Aonde pensa que vai?

— O quê? – Alternou o olhar entre ela e a saída. – Eu vou ver a Lindsay, ela está muito preocupada comigo.

— Não. – Negou com a cabeça. – Espera, espera. – Pediu com as duas mãos espalmadas na direção dele. – Espera um pouquinho.

Ele estudou muito bem o rosto dela, chegando à conclusão de que ela estava escondendo alguma coisa.

— O que aconteceu?

Ela ainda não tinha pensado numa forma de contar toda aquela história para ele, então simplesmente respirou fundo e o conduziu até o mesmo lugar em que o encontrou.

— Você precisa se sentar.

— Mas por quê? – Negou-se a se sentar. – Eu estou...

— Não. – Continuava balançando a cabeça. – Por favor...

— Eu estou bem. O remédio que você me deu está funcionando...

— Senta.

— Olha... – Obedeceu meio a contragosto. – Eu estou bem... já até consigo caminhar sozinho.

Ela se sentou de frente para ele.

— Eu tenho que te contar uma coisa.

— O quê?

— Danny... – Fechou os olhos por um segundo. – Aconteceu um acidente...

O homem ficou sem reação.

— Mas que... que tipo de acidente?

— Um acidente de carro... – Umedeceu os lábios. – A Lindsay foi arremessada para fora do carro.

O rosto dele ficou coberto de choque.

— O quê?

— Ela sobreviveu, mas está muito machucada...

— Não, não... – Negou com a cabeça. – Eu acabei de receber uma mensagem dela. – Levou as mãos ao rosto. – Tem certeza?

A mulher hesitou.

— Eu estava dirigindo o carro...

Ele ficou ainda mais surpreso.

— Mas o que ela estava fazendo no seu carro?

— Eu estava a levando para o hospital.

— Hospital? Por quê?

— Eu acho que isso não vem ao caso agora...

— Não... – Sacudiu a cabeça, como se estivesse tentando se livrar de algum pensamento ruim. – É claro que vem...

— O que importa é que você está vivo e ela também. Então vamos tentar pensar só nisso.

— Jas... – Usou um tom muito baixo. – Eu te conheço, sei exatamente quando... está me escondendo alguma coisa. – Segurou o braço esquerdo dela e a encarou. – O que foi que aconteceu com a Lindsay?

Ela o encarou de volta, estava tentando pensar numa desculpa, mas preferiu contar logo toda a verdade.

— Eu... eu me encontrei com ela quando estava te procurando. Ela viu os seus sapatos na minha bolsa... – Olhou para a bolsa. – E então também acabou vendo o remédio, então foi só somar dois mais dois. – Levou as mãos ao rosto. – Ela queria saber onde você estava.

— E o que você disse para ela?

— Eu disse a verdade. – Encolheu os ombros. – Eu não sabia mais o que fazer, e ela começou a me acusar de estar mentindo e também de estar tentando acabar com o casamento de vocês.

O homem tomou um tempo para respirar fundo.

— E o que mais?

— Então eu tentei explicar para ela que tinha te encontrado num beco e que alguém tinha te drogado... mas ela não deu a mínima, e me perguntou porque eu não tinha ligado para ela.

Ele abaixou a cabeça e fechou os olhos, apertando com força.

— E por que não ligou?

— Você me pediu para não fazer isso. Você me disse que eu era a única em quem você podia confiar. Foi por isso que eu não disse nada.

Ele levou as mãos à cabeça, forçando a própria memória.

— Eu não me lembro de nada disso.

— Ela disse que passou a noite inteira acordada... – Engoliu em seco, olhando direto para o chão. – Também disse que estava muito preocupada com você, e que como sua mulher... ela tinha o direito de saber exatamente o que estava acontecendo. – Umedeceu os lábios, tirando um tempo para respirar fundo. – Então eu disse para ela que só estava tentando te proteger... e que naquele momento, eu era a única pessoa que poderia fazer isso. E foi nesse momento que as coisas acabaram de ir por água abaixo. Ela começou a dizer que estava se sentindo excluída... e que era como se não fizesse mais parte da sua vida. – Os olhos dele estudaram o rosto dela. – Ela estava mesmo muito preocupada com você, e também estava com muito medo de que você acabasse tendo uma recaída.

— Então você disse para ela que eu tinha sido drogado?

— Sim. – Confirmou com a cabeça. – Ela estava com medo de que... de que você tivesse voltado a usar por conta própria. Eu disse para ela que não tinha sido você, e sim outra pessoa... ela disse que isso não importava.

— Ela... – Colocou as mãos na cabeça. – Ela contou isso para alguém?

— Não. – Negou com a cabeça. – Não, mas queria. – Umedeceu os lábios. – Ela queria chamar a polícia, ou qualquer outra pessoa que pudesse te encontrar... e também ficou muito zangada comigo por não ter te levado direto para o hospital. – Danny não estava mais prestando atenção nela naquela altura da história. – O Sage e o Axton também estão muito preocupados com você.

— O quê? – Encarou a mulher com uma expressão aflita. – Eles também sabem disso?

— Sim. – Confirmou com urgência. – Mas eles não vão dizer nada para ninguém... – Abaixou a voz. – Mesmo que não estejam cem por cento convencidos de que você não se drogou sozinho.

— E como eles descobriram?

As sobrancelhas dela se franziram numa careta.

— Você... não se lembra? – Esperou pela resposta, mas ele continuou calado. – Quando cheguei naquele beco...

— É tudo tão confuso... – Forçou a memória. – Me lembro de você ter estado lá...

— Eu te deixei com o Axton para ir buscar o remédio, mas você surtou e o atacou com uma barra de ferro.

A expressão dele mudou em um passe de mágica.

— Oh meu Deus! Ele está bem?

— Sim. – Abriu um sorriso tranquilo. – Ele está bem.

Ele colocou as mãos no rosto e ficou em silêncio, no momento a vergonha estava o consumindo por dentro.

— Ótimo. – Respirou fundo. – Então eu também ataquei a Lindsay? É por isso que ela estava naquele carro com você?

A mulher ficou calada por alguns minutos.

— Não. – Sussurrou. – Eu estava no píer 45 do Hudson River Park quando encontrei o seu celular jogado no chão, eu acho que você deve ter passado por lá em algum momento. – Respirou fundo, olhando nos olhos dele. – A Lindsay me seguiu até lá... estávamos do topo de uma escada, quando acabamos entrando numa discussão e ela caiu lá de cima. – Os olhos do homem se arregalaram. – Foi um acidente. Eu juro! Você tem que acreditar em mim...

O homem não sabia exatamente o que deveria dizer, mas sabia que tinha passado da hora de encontrar a sua esposa. Então simplesmente se levantou e foi na direção da saída.

— Eu tenho que vê-la.

O arrependimento tomou conta dela quase que imediatamente, mas ela sabia que tinha feito a coisa certa, seria muito pior se ele descobrisse só quando chegasse ao hospital. Ela ficou alguns segundos parada na porta da casa observando o amigo caminhar até o carro, então respirou fundo, reunindo toda a coragem que ainda tinha e o acompanhou.

Stella estava andando de um lado para o outro havia quase dez minutos, o gosto amargo em sua boca evidenciava ainda mais o seu nervosismo. Não era segredo para ninguém que ela odiava hospitais, passou tanto tempo enfiada dentro de um, que criou total aversão ao ambiente. As suas mãos estavam suando e o seu coração estava muito acelerado, ainda não estava pronta para saber o que aconteceu com a amiga, mas pronta ou não, precisava saber. Andou até o balcão com passos vacilantes, abrindo a boca uma ou duas vezes antes de finalmente falar.

— Com licença, eu quero ver Lindsay Messer. – Engoliu em seco. – Sou amiga dela.

— Ok. – A mulher assentiu. – Só um minutinho.

Stella deu um longo suspiro e ficou esperando a mulher terminar de fazer o que tinha que ser feito para que ela pudesse ver a amiga, foi quando avistou Danny e Jas no fim do corredor.

— Oh, meu Deus... – Foi ao encontro deles. – Você está bem?

— Estou... – Ele a deixou que ela o abraçasse. – E como a Lindsay está?

— Eu estava... – A frase morreu na sua boca e ela franziu as sobrancelhas ao olhar para ele. – Ei, espera. O que aconteceu? E por que você está mancando?

O homem colocou a mão no ombro dela, afastando-a para o lado.

— Não é nada de mais. – Aquela história ficaria para depois. – Com licença, onde fica o quarto de Lindsay Messer? – Respirou fundo, fazendo um esforço para se concentrar na recepcionista. – Sou o marido dela.

A mulher assentiu.

— Será que você pode me fazer o favor de nunca mais sumir desse jeito? – Stella foi na direção dele, não estava muito satisfeita com aquela falta de respostas. – Nem atender o seu celular você atendia... e ninguém sabia onde era que você estava.

Ele virou para ela.

— Stella... agora não. – Espalmou a mão na direção dela, virando novamente para a recepcionista. – E então? Qual é o número do quarto dela?

Jas parou do lado esquerdo dele.

— Ele estava numa tocaia. – Virou a cabeça para olhar para a amiga, que estava do lado direito dele. – Era por isso que ele não podia atender o celular.

A outra mulher franziu a testa, dando um longo suspiro, sabia muito bem quando alguém estava mentindo para ela.

— Mas vocês dois chegaram aqui juntos... então como você conseguiu encontrá-lo?

— A sua esposa está no quarto 940.

— Ok. – Danny soltou um suspiro aliviado. – E como ela está?

— Eu vou chamar o médico dela.

— Não, não. – Fechou a cara. – Só me diga o que está escrito no prontuário, tá bom?

Stella também fechou a cara, estranhando aquele comportamento dele.

— Tem certeza que você está bem?

Ele virou mais uma vez, fazendo questão de encarar a amiga.

— A Lindsay sofreu um acidente de carro e fez uma cirurgia de emergência. Então como você acha que eu estou me sentindo?

Ela coçou a nuca.

— Eu acho que você está tentando esconder alguma coisa...

Jas notou que o clima estava começando a ficar pesado entre eles, então resolveu interromper a conversa antes que acabasse em briga.

— Eu acho melhor você ir ver a Lindsay enquanto eu converso com a Stella.

— Não, espera. – Negou com a cabeça. – Eu sinto muito. Me desculpa pelo que eu disse. – O rosto dela ganhou uma expressão mais piedosa. – Esquece isso... você tem que ir ver a Lindsay. Mas se precisar de alguma coisa...

— Eu preciso... – Esfregou as mãos uma na outra. – Eu preciso que você me diga exatamente o que está pensando.

A mulher ficou muda.

— Nada... – Encolheu os ombros. – Só que o caso da Hannah te afetou tanto...

— Mas eu consigo lidar com isso.

— Mas não é o que parece... – Aquilo saiu meio sem querer. – Olha só para você.

Ele passou as mãos no rosto.

— Eu estava numa tocaia a noite toda. – Arqueou a sobrancelha. – Eu... eu precisei me adaptar ao ambiente. Você sabe como é.

— Escuta o que você está dizendo... não pode me culpar por ter ficado preocupada.

Ele simplesmente seguiu rumo ao elevador, deixando a amiga de lado.

— Eu ouvi isso de muita gente hoje...

— Então deveria pelo menos ter levado tudo isso em consideração.

O homem virou todo o corpo na direção dela.

— É o meu trabalho, Stella. – Respondeu pacificamente. – Será que você pode pelo menos me dar algum crédito por ter conseguido conduzir uma investigação de forma profissional?

Ela ergueu os braços.

— Está na defensiva?

— Ele ficou acordado a noite toda. – Jas se intrometeu, tentando intermediar a situação. – Só está muito cansado.

— E por que você o defende tanto? – Franziu a testa numa careta. – Eu também passei a noite toda acordada. A babá está lá em casa agora cuidando da minha filha, e o meu marido foi falar com o chefe dele para ver se consegue aliviar a barra do Messer aqui.

— Eu só estou tentando ser solidária.

— Eu diria que está tentando arrumar um álibi.

— O nome é tocaia por um motivo... – Danny voltou para onde elas estavam. – É exatamente como eu te disse... precisei me adaptar ao ambiente. E isso não significa que estou escondendo alguma coisa.

— Beleza. – Assentiu. – Você quer que eu recue, então irei recuar.

— Isso. – Assentiu. – É exatamente isso que eu quero, muito obrigado. – Ambos ficaram em silêncio, entretanto isso não durou por muito tempo. – Olha... só porque você não teve um pai, não significa que deva procurar isso em mim, ok? – Stella fechou os olhos, tentando não levar nada daquilo em consideração. – Eu não sou o seu pai... e nem nunca serei.

Ele simplesmente foi para o elevador, deixando as duas mulheres paradas no meio do corredor. Assim que ele saiu, a outra mulher começou a passar a mão nas costas de Stella, que soluçou com o gesto da amiga, engolindo o choro em seguida.

— Ele não quis dizer nada disso. – O movimento nas costas da outra não cessou. – Ele só está cansado... é só isso.

O homem ficou imediatamente consternado com o estado que sua mulher se encontrava. Todos aqueles machucados pelo rosto e colo dela produziram um nó na sua garganta, a cereja do bolo foi perceber que a cabeça dela também se encontrava enfaixada. O peso da culpa que sentia por não estar com ela em seu pós-operatório era quase insuportável. Levou apenas alguns segundos para que se sentasse na cadeira ao lado dela e segurasse a sua mão. Era muito difícil encontrar as palavras certas para dizer a ela, naquele momento ele se sentiu mais solitário do que nunca. Era exatamente como o seu irmão costumava dizer, ele era um lobo solitário, e nem mesmo um casamento e uma filha mudaram isso. Colocando esses pensamentos de lado, decidiu começar falando o que achava que ela gostaria de ouvir se estivesse acordada.

— Lembra de quando fazíamos biscoitos com a sua avó? – Abriu um sorriso sem graça enquanto brincava com os dedos dela. – Você sempre me dizia que queria ter momentos assim com a nossa filha. – O sorriso no rosto dele ficou mais suave. – Você ainda tem tantas coisas para viver, querida. Escuta, quando você acordar... iremos fazer tudo que você planejou para nós... e faremos isso juntos.

Ele não sabia, mas Stella estava do outro lado da porta escutando tudo. Ela achou aquele gesto dele muito bonito, mas precisava interromper para dar para ele algumas boas notícias.

— Eu acabei de falar com o cirurgião dela, e ele disse que ela vai acordar dentro de algumas horas. – Ensaiou um sorriso simpático. – Olha... eu sei que você não pôde estar aqui durante a cirurgia dela porque estava numa tocaia...

— Sim... – Engoliu em seco. – Mas vim assim que pude...

— E a Jas estava junto com você?

O homem ficou de pé.

— Ela só estava tentando me ajudar.

— Beleza... – Cruzou os braços. – E você estava trabalhando em qual caso? Estava mesmo tentando dar conta de tudo? Do processo? Da Jas? De tudo? E agora da Lindsay também?

— É... – Ele nem olhou para ela. – Mas ainda bem que vai ficar tudo bem. Como você mesma disse, o cirurgião disse que é só uma questão de tempo.

— E você não deveria estar focando nisso, em vez de estar focando na droga de uma investigação?

— Eu só quero descobrir se isso foi um homicídio. – Encarou a amiga, que se manteve em silêncio. – Mas é isso mesmo que está te incomodando tanto? Ou é o fato de eu estar tentando fazer alguma coisa do jeito certo?

Stella negou com a cabeça.

— É claro que não... – Levou a mão ao peito. – É que o trabalho policial é muito estressante, e você tem passado por muita coisa ultimamente...

— É... – Cortou o raciocínio dela. – Mas se você quer mesmo me ajudar, saiba que... – Foi até a cadeira, sentando-se novamente ao lado da esposa. – Essa sua palestrinha não me ajuda em nada.

Ela virou na mesma direção, aquela conversa ainda não tinha acabado.

— Danny... – As palavras morreram na sua garganta. – Eu acho que você devia tirar uma licença... – Apontou para Lindsay com a cabeça. – Só até ela melhorar. – Ele suspirou. – O que você acha?

Ele virou para ela.

— E enquanto isso eu vou fazer o quê? – Arqueou as sobrancelhas. – Ir para um bar ficar chapado?

— Mas o que você está fazendo é muito perigoso, Danny.

— Não. – Balançou a cabeça. – Eu também tenho outras preocupações, tá bom? – Os dois se encararam. – E não precisa ficar bancando a minha mãe não, você já tem um bebê em casa.

— Você é o meu melhor amigo. É como se fosse um irmão para mim, então eu não posso te ver fazendo esse tipo de coisa e...

— Ah, agora entendi. – Colocou um sorriso maldoso nos lábios. – Então eu sou tipo um agregado ou substituto para a família que você não teve. – A expressão no rosto dela deixou claro que aquilo doeu muito. – Tipo... os seus pais morreram e você me colocou no lugar deles...

— Espera... – Aquilo saiu baixo demais. – Eu só quero que você enxergue as coisas como elas são...

Ele fechou a cara e cerrou os dentes.

— O que você ainda está fazendo aqui? – Apontou para a porta. – Vai embora. – A mulher simplesmente arrumou a bolsa no ombro e saiu do quarto. O suspiro de decepção dele veio logo em seguida, enquanto ele encarava o rosto tranquilo da esposa. – Eu sei... – Aproximou o rosto do dela. – Eu sei que fui muito duro com ela, você tem toda a razão. – Fechou os olhos, respirando fundo. – Eu acho que essa coisa ainda está no meu organismo... e o pior é que eu digo a mim mesmo que não quero, mas alguma coisa dentro de mim diz exatamente o contrário. – Repreendeu esse pensamento ao olhar para ela. – Mas eu não vou ceder, meu amor. Eu prometo. – Acariciou o rosto dela. – Eu sei que você não acredita, mas irei provar.

Alguém bateu à porta, e ele viu o médico de sua esposa quando olhou para trás.

— Oi. – Entrou no quarto. – Eu só queria ver como ela está.

O marido se levantou e foi falar com ele.

— Eu não acredito que ela está mesmo aqui. É tudo culpa minha.

— Nada disso é culpa sua. – Checou o monitor cardíaco dela. – Essas coisas acontecem, mulheres são criaturas incontroláveis.

— Não... – Negou com a cabeça. – Eu sei exatamente o que ela vai me dizer quando acordar. Eu sei que isso tudo foi só um acidente.

— E o que você vai fazer se ela não acordar?

Aquela pergunta o pegou totalmente de surpresa.

— Os sinais vitais dela estão ótimos. – Olhou para o monitor. – Ela vai acordar.

— É... – O médico coçou a cabeça. – Isso é ótimo.

— Eu queria poder fazer alguma coisa por ela...

— Então converse com ela. – Abriu um sorriso. – Dê a ela um motivo para ficar.

— Mas eu não sei o que dizer... ainda mais depois de tudo que eu fiz...

— As suas palavras deveriam estar mais carregadas de amor e menos de culpa. – Colocou a mão no ombro dele. – Só assim ela te dará mais uma chance. – Saiu sem dizer mais nada.

Danny segurou a mão da esposa enquanto tentava pensar em alguma coisa bonita para dizer.

— Eu... eu não sei porque continuo te excluindo da minha vida. – Engoliu em seco. – Eu sei exatamente o que tenho que fazer e o que tenho que sentir, mas não consigo. Eu só sei fugir. Fui eu que te trouxe para a minha vida, fui eu que te pedi em casamento e também fui eu que escolhi esse maldito caso, mesmo tendo sido avisado de que não estava preparado para nada disso. – Usou a outra mão para tirar os cabelos do rosto. – Eu que comprei aquelas drogas. Toda essa bagunça... esse traficante... o Evan, ou seja lá quem for que esteja por trás de tudo isso... só está acontecendo por causa deles. E a única maneira de consertar tudo é tentando impedir. E é exatamente isso que eu vou fazer. – Abriu um sorriso singelo. – É isso que eu tenho que fazer. – Beijou a mão dela. – Até mais tarde. – Levantou e foi embora.

Lindsay esperou os passos dele sumirem e lentamente abriu os olhos, estava acordada o tempo todo, mas também estava com muita raiva e não daria a ele a satisfação de saber disso.

Aquela madrugada não foi fácil para nenhum deles, Danny passou a noite acordado observando a filha dormir e pensando no que faria caso a mãe dela nunca mais voltasse para casa. Jas ficou remoendo tudo o que tinha dito para Lindsay, enquanto torcia para que nada muito ruim acabasse acontecendo. Will teve muito trabalho para convencer Mark de que nem Danny e nem Jas estavam envolvidos em negócios escusos, mesmo que ele próprio não acreditasse no que estava dizendo. Stella passou a noite pensando no que Danny tinha dito, e para piorar, Lily acordou assim que chegaram em casa. A criança parecia ter uma espécie de escuta que identificava as vozes dos pais. Eles ainda tentaram fazê-la dormir novamente, mas a pequena não estava interessada, preferia passar esse tempo brincando e balbuciando para eles em troca de aplausos.

Jas estava de pé quando o primeiro raio de sol iluminou a cidade que nunca dorme. Estava muito ansiosa para ver Lindsay, pretendendo ser a primeira na fila dos visitantes. O seu azar estava tão grande, que a primeira coisa que ficou sabendo ao chegar ao hospital foi que a mulher ainda não havia acordado, mas mesmo assim decidiu esperar um pouco mais, quem sabe aquele não fosse o seu dia de sorte? Esperou quase uma hora inteira... e nada. Então simplesmente decidiu ir para o laboratório para falar com Danny.

— Oi. – Os olhos dele brilharam de ansiedade quando ela chegou. – A Lindsay acordou?

— Ainda não... sinto muito. – Os olhos dela fugiram dos dele. – Mas eu queria falar sobre outra coisa com você. – Eles foram para um canto mais reservado. – Eu queria muito falar sobre aquele caso...

— Ah... tudo bem... – Coçou a cabeça. – O que está rolando?

— Eu acho que sei quem é o cara. – Abaixou a voz. – E se for ele mesmo... então eu o prendi alguns anos atrás. Ele vendia uma parada sinistra, era duas vezes mais forte do que o original. – Levou a mão ao peito. – Não se preocupe... ninguém vai saber que você está envolvido nisso.

Ele riu.

— Não era nem para você estar envolvida nisso. – Olhou no fundo dos olhos dela, queria que ela soubesse que era melhor ficar fora disso. – Será que você sabe no que está se metendo?

— Eu sou bem grandinha.

— Jas... – Usou as mãos para cobrir o próprio rosto. – Você não tem que me provar nada. Nem para mim e nem para ninguém. Eu não te culpo por nada disso. – Ela abriu um sorriso agradecido. – A culpa da minha mulher estar no hospital é toda minha.

— Isso não é verdade.

— Olha... eu sei o que você está tentando fazer, mas não precisa tentar aliviar a minha barra. – Colocou a mão direita no ombro dela. – Eu vou ter que assumir as minhas responsabilidades em algum momento. Eu sou o culpado por ela estar nessa situação, foi por minha causa que ela te seguiu.

— Mas você não tem culpa de ter sido drogado. – Aquela voz calma o tranquilizou. – Alguém fez isso com você. – O silêncio ficou entre eles por um tempo. – Então para de ficar se culpando por isso, e para de ficar pensando no que poderia ter feito...

— Será que vou voltar a me drogar?

— Será que não está na hora de tirar uma licença?

— Não. – Encolheu os ombros, negando com a cabeça. – Não aguento ficar sem fazer nada.

— Então você quer que esses caras venham atrás de você de novo?

— Sim... – Assentiu. – Só assim terei a chance de pegá-los no flagra.

Ela negou freneticamente com a cabeça, dando um tapa no ombro dele.

— Você enlouqueceu? – O volume de sua voz ficou ainda mais baixo. – Eles vão te matar.

— Não. Eles não vão. – Abriu um sorriso cínico. – Eu não sei como explicar, mas preciso tirar essa gente das ruas, e só conseguirei fazer isso colocando um pouco mais de emoção nas coisas.

A mulher não aguentava nem ouvir uma coisa daquelas, então simplesmente deu as costas para ele. Mas ele não tirou aquela ideia estúpida da cabeça, e em pouco tempo estava caminhando para a saída, sendo seguido por ela.

— Eu queria muito que você tentasse pensar na ideia de pedir uma licença.

— O quê? – Ambos pararam no meio do caminho. – Acha que eu não dou conta?

— Eu... só não quero que você morra tentando...

— Eu sei exatamente o que esse maldito vício me custou. E nunca mais vou deixar isso acontecer...

— Eu sei que você quer muito ficar limpo... mas será muito mais complicado... ainda mais agora que você já experimentou...

— Mas sempre será complicado. Sempre existirá uma parte de mim que pedirá por isso, mas o que me consola é saber que ainda existem pessoas que acreditam em mim. – Umedeceu os lábios, forçando os olhos nos dela. – Você ainda acredita em mim, não é?

— É claro que sim. – A sua voz embargou. – Sempre acreditarei...

O homem a envolveu em um abraço muito apertado quando eles pararam na saída.

— Então vai dar tudo certo.

Ele estava quase indo embora, quando ela o chamou, tirando a correntinha que usava no pescoço e colocando na mão dele.

— Era da minha mãe, é o meu amuleto da sorte... será o seu também. – Ele estudou aquela expressão suave no rosto dela e abriu um sorriso tranquilo. – Vai com Deus, e se cuida.

Ele apertou a correntinha com força e a guardou no bolso de sua calça, indo embora com as palavras:

— Eu vou ficar bem.

A única coisa que ela pensou em fazer foi voltar para hospital para conseguir alguma notícia de Lindsay. O seu palpite não poderia estar mais certo, assim que pisou os pés no hospital ficou logo sabendo que ela tinha mesmo acordado. Ao abrir a porta do quarto, encontrou a amiga olhando fixamente para o teto.

— Então quer dizer que a nossa bela adormecida finalmente acordou? – O caminho até a beirada da cama foi feito em completo silêncio, enquanto a outra a estudava com os olhos. – Como está se sentindo?

Lindsay sentou na cama com um pouco de dificuldade.

— Ainda não morri.

Jas encarou o monitor cardíaco.

— Essa cirurgia foi muito bem sucedida.

— Eu sou um verdadeiro milagre, mas nós duas sabemos que foi você no Hudson River Park e também sabemos que também foi você na batida de carro.

— Aquilo foi... um acidente.

— Mas são muitos acidentes para um dia só, não acha?

— Estou muito feliz em saber que você ficará bem.

Lindsay riu.

— Ah, tá. – Um sorriso maldoso enfeitou os seus lábios. – Eu imagino que você deva estar se perguntando se irei contar tudo que aconteceu para o restante da equipe, ou se isso morre aqui. Eu acho que deveria contar para o Danny, ou para o pessoal da corregedoria.

O corpo da mulher se enrijeceu com aquela menção, mas ela disfarçou da melhor maneira que pôde, colocando um sorriso igualmente cínico nos lábios.

— Então espero que conte a verdade para eles.

— E o que está tentando dizer com isso?

— Estou tentando dizer que você acabou de passar por uma cirurgia muito delicada, deveria estar focando nisso, não em outras coisas.

— Eu nem consigo mais colocar a minha aliança. – O deboche não passou despercebido aos ouvidos da outra. – Nem sei se deveria colocar...

A outra mulher simplesmente cruzou os braços.

— Eu acho que está dizendo isso para a pessoa errada.

— E eu acho que precisamos falar sobre o meu marido, e sobre você...

Jas virou as costas para a amiga.

— E eu acho que volto mais tarde.

— Está tentando roubar o meu marido de mim...

O punho da outra mulher se fechou naquele mesmo instante e ela virou para ela numa velocidade impressionante.

— Eu não estou tentando roubar o seu marido! Isso é literalmente impossível! – Os dentes dela rangeram. – E quer saber por quê?

Lindsay continuou brincando com a aliança que tinha nas mãos, enquanto aparentava desinteresse na resposta.

— Diga.

— É porque ele é a porra do meu irmão mais novo!

Notas finais
Todo mundo tava achando que eles tinham um caso, não era? Quem achou estava errado, haha! Até o próximo!