Stella

50 Lobo em pele de cordeiro


Notas iniciais
Bom dia! Primeiramente, eu sei que demorei mais de um ano para postar capítulo novo, mas tentem levar em consideração que estive muito atarefada esse último ano. O meu presente de natal está entre nós! Espero que vocês gostem! Boa leitura! CAPÍTULO REVISADO

O homem que ele estava encarando naquele espelho não parecia em nada com ele, mas era alguém conhecido. As mãos seguraram as bordas da pia como se isso fosse livrá-lo do que estava vendo. O medo de espelhos era um segredo profundamente enterrado no fundo do seu peito: desde que sua família inteira morrera naquele incêndio, nunca mais ficou de frente para um. O receio de reconhecer o rosto daqueles que morreram por sua causa consumindo a sua alma como se estivesse preso em um legítimo castigo infernal.

— Eu... eu cometi... um erro. – O seu rosto demorou a se erguer novamente. – Mas eu nunca mais farei isso. Não vou. – O frasquinho escorregou por seus dedos suados, sendo erguido na altura dos olhos. O negocinho foi sacudido antes que ele retirasse um dos comprimidos. – Eu juro. – O rosto se contorceu numa expressão de profundo ódio, então o apertou até que virasse só um pozinho, em seguida ligou a torneira. – Esse é pela Luz. – Outro comprimido foi pelo ralo. – Esse é pela Lindsay. – Observou mais um sendo eliminado pela água. – E esses são pela... Jas, pelo Daxton e pela minha... mãe. – O restante da droga foi toda descartada no ralo e igualmente eliminada. A porta do banheiro foi fechada pelo peso do corpo dele, que se recostou totalmente nela e fechou os olhos. Os pensamentos vieram numa torrente muito parecida com a da água, só que não existia nenhum mecanismo capaz de desligá-los. – Eu consigo fazer isso. Eu consigo fazer isso. – A sua visão estava borrada e uma fraqueza enorme tomou conta das suas pernas, mas ele não caiu e nem se sentou. As passadas foram dadas com um esforço sobre-humano, e em alguns segundos ele estava encarando novamente o pai no espelho. – Eu vou superar isso. Vamos, Danny. Vamos. – A respiração também falhou e a visão voltou a ficar embaçada. Sacudindo a cabeça, ele se forçou a olhar para o reflexo naquele espelho. – Eu não vou mais usar essa merda. Eu não vou, não vou. Eu não vou. – Ele viu lágrimas no rosto do seu velho pai. Os seus também estavam molhados, mas ele enxugou com a manga da camiseta. – Eu consigo, eu consigo, eu consigo, eu consigo. Eu... consigo. – As mangas foram arregaçadas na altura dos cotovelos para que suas mãos pudessem começar a esfregar seus pulsos: um mecanismo de defesa que ele desenvolvera contra a vontade de se drogar. – Eu não quero. Eu não quero. Eu não quero. Eu estou bem. – O rosto suado também foi limpo na manga da camiseta. – Estamos bem, cara. – Mesmo com a boca salivando, estava lutando para não pensar na cocaína. As mãos estavam tremendo quando ele começou a jogar água no rosto, esfregando como se estivesse limpando o próprio pecado. – Estou bem. Eu vou ficar bem. – Encostou a palma da mão no espelho; era estranho tocar no pai depois de tantos anos, estranhamente reconfortante. O pai lhe dava mais conforto na morte do que jamais lhe deu em vida. – Vamos lá, cara. Você é um Messer. – Aquela seringa em cima da pia o tentou. – Você sabe exatamente quem você é. Eu não posso mais continuar fugindo do meu destino. – Esfregou os olhos doloridos com os pulsos. – Eu não sou como você, pai. Eu não sou como você... e nunca serei.

A boca estava salivando numa velocidade anormal enquanto ele encarava o fluxo da água. O peito doía como se estivesse mesmo se afogando, mas dessa vez ele não se entregaria. A seringa foi parar nas suas mãos, e ele jogou na lixeira ao lado, esbarrando na porta com passos desajeitados e caindo lá mesmo.

O coitado estava tão perdido nos próprios pensamentos que nem ouviu o chamado do cunhado do outro lado da porta. A primeira coisa que registrou com clareza foi o seu corpo sendo jogado para frente com a investida da porta contra ele. Os olhos de Dante foram direto para o frasquinho esquecido na pia, e ele viu o mesmo olhar decepcionado que sua esposa havia dado para ele na primeira vez em que o viu drogado.

A primeira coisa que ouviu da boca dele foi um xingamento, enquanto apertava aquele maldito frasco e gritava que ele estava jogando a própria vida no lixo, e que não deveria arrastar a irmã. Em seguida, informou aos berros que ela estava desaparecida há algumas horas e que ele não estava conseguindo localizá-la em canto nenhum da cidade.

O peso da culpa se instaurou nos ombros dele como uma espécie de maldição, um único pensamento cruzou a sua mente enquanto ele engolia em seco, mais um irmão que perderia por conta de seu vício. A cabeça foi sacudida violentamente, então ele se lembrou que a irmã tinha comentado que estava investigando alguma coisa pelos arredores do centro da cidade. A lembrança caiu sobre ele com a mesma brutalidade da notícia da morte de sua família; era como um prenúncio de sua morte.

Os homens não demoraram para correr para o carro, e também não demoraram a chegar naquele beco de onde Danny fora resgatado por ela. Agora, com a mente sã, ele se lembrava: aquele era um dos becos mais famosos da cidade. Em meio ao desespero, começaram a vasculhar tudo: lixeiras, caixotes e tudo que pudesse servir de esconderijo para alguém. No fim, tudo o que encontraram foi o celular de Jas descartado numa das lixeiras; a tela estava trincada. Os dedos dele apertaram o celular como fizeram com o braço dela no dia em que ela o encontrou naquele beco. Alguma coisa morreu dentro dele, mas ele ocultou isso do cunhado.

Em outra lixeira, mais ou menos do lado oposto ao que eles estavam, Lindsay procurava a aliança perdida, vasculhando cada cantinho fedorento dela. Os olhos chegaram a brilhar quando a encontrou numa latinha.

— Oh! Muito obrigada! – Ergueu aquela coisinha minúscula na sua frente, distribuindo uma sequência de beijinhos e o colocando no dedo em seguida. – Eu prometo que nunca mais você vai sair do meu dedo.

As mãos se apoiaram nas laterais da lixeira, e ela forçou o corpo para cima. No momento em que estava saindo, se deparou com dois homens trazendo a sua cunhada desleixadamente amordaçada e amarrada. Os olhares das duas se igualaram em seu horror, e a saliva desceu rasgando, enquanto suas pernas entravam em desacordo entre se esconder no fundo da lixeira ou sair correndo, mas era tarde demais para as duas coisas.

O coração de Danny estava quase saindo pela boca e a vontade de tomar um comprimido era tão grande quanto a vontade de encontrar a irmã, mas ele sabia que precisava se controlar para não decepcionar mais ninguém. O seu cunhado estava muito angustiado para ficar parado esperando alguma coisa acontecer, então voltou para o carro e foi pedir a ajuda de Axton para acessar o celular da esposa.

No entanto, os planos de Danny eram outros: investigar aquela maldita padaria. A padaria estava localizada numa lojinha minúscula e de péssima reputação, além disso, também não era a primeira opção de ninguém. Sabendo disso, ele concluiu que não seria a coisa mais complicada do mundo entrar naquela espelunca sem ser visto. Para a sua sorte, a portinha dos fundos fora esquecida aberta, e foi por lá que ele entrou, chegando até a parte do estoque onde eles estavam armazenando farinha de trigo.

A mente dele estava praticamente gritando com ele, e seguindo o instinto, ele tirou alguns pacotes e colocou em cima de um dos balcões, abrindo todos em seguida. O cheiro era neutro, mas o gosto entregou tudo: amargo com um leve efeito anestesiante na língua. Ele era experiente o bastante para saber que só podia se tratar de uma enorme remessa de cocaína.

— Oi, sou eu. – A informação chegou sussurrada do outro lado da linha, mas isso era porque o outro estava tentando passar despercebido por algum empregado. Mesmo concentrado em ouvir o que o cunhado estava falando, os seus ouvidos ainda estavam trabalhando em registrar cada barulhinho do ambiente. – E então? Como está indo com a sua parte da investigação? Encontrou alguma coisa no celular da Jas?

— Eu ainda não consegui encontrar a Lindsay e não achei nada sobre a Jas. – O celular estava tão colado ao ouvido dele que era como se fosse um novo membro do seu corpo. Por precaução, ele virava eventualmente a cabeça para verificar se algum dos colegas não estava ouvindo. – Mas, e você? Encontrou alguma coisa nessa padaria?

— Não. – A mão livre foi para o rosto e um longo suspiro escapou. – Nada muito importante. Mas eu ainda acho que estamos deixando escapar alguma coisa...

— Você acha? E o que exatamente isso significa?

— Eu me lembro da Jas me dizendo que descobriu que alguém estava roubando remédios do Mercy. E ela também me disse que seguiu essa pessoa até aqui. – Uma lembrança cruzou a sua mente. – Ah, e eu acho que esse foi o mesmo lugar onde a Lindsay ouviu uma conversa muito estranha entre dois caras, lembra?

— Eu me lembro, cara. – Conferindo a retaguarda, ele abaixou o tom de voz. – Eu acho que esse serviço não é mais para um homem só, irmão. Eu acho que está na hora de pedirmos ajuda para o restante da equipe...

— Não. Eu sei que consigo lidar com isso. A Jas salvou a minha vida uma vez, e eu não vou deixar ela na mão sem tentar fazer alguma coisa. Ela é a minha irmã, e eu não vou enterrar outro irmão por causa dos meus vícios. Só... não se preocupa, tá?

O coração dele demorou para voltar a bater como deveria, mas suas pernas responderam imediatamente, como se soubessem que era muito perigoso ficar exposto daquela forma. Ele voltou para o lado de fora se abaixando para que não fosse visto por nenhum transeunte. O esconderijo escolhido foi ao lado de uma das lixeiras, onde ele se manteve agachado; o lugar lhe dava uma vista privilegiada de ambos os lados. Lembrando da irmã, ele retirou a correntinha do bolso e beijou o pingente frio, torcendo para que o rosto dela não estivesse igualmente frio quando eles se reencontrassem. Com um sorrisinho melancólico, torceu para que o amuleto da sorte dela desse sorte para ambos. Os seus sentidos ainda estavam muito estimulados, então ele empunhou a arma só para se sentir mais seguro.

A irmã dele estava sentindo falta do amuleto da sorte, enquanto olhava para a cara de choro que a cunhada estava fazendo para ela. Os dedos delas se tocavam em um ritmo lento e calmante, mas nem isso afastou aquela sensação de ser um animal pronto para o abate. Jas encarou aquele rosto familiar por mais alguns minutos e uma ideia arriscada passou pela sua mente: pelo menos uma delas sairia com vida de tudo isso.

— Escuta. – A outra mulher olhou para ela, engolindo o choro como quem engole um remédio muito amargo. – Eu acho que tive uma ideia. – O sorriso que ela abriu era idêntico ao de alguém que está se despedindo da vida, e sua cunhada sentiu isso. – Me escuta direitinho, tá? É para você fazer tudo que eu mandar, combinado?

O tempo para explicar o plano foi muito curto, sem contar com Lindsay choramingando o tempo todo entre uma frase e outra. Mesmo assim, a outra mulher não lhe deu nenhum espaço para se opor. O barulho da chave no trinco fez Lindsay engolir em seco enquanto negava com a cabeça e apertava com força as mãos da cunhada.

— Eu não quero que você faça isso. – Uma lágrima escorreu pela bochecha dela, e a cunhada a secou com as pontas dos dedos. – Eu não quero que você morra.

— Eu sei que não, minha querida. – Abriu um sorriso tranquilizador para ela. – Mas eu tenho que fazer, esse é o meu trabalho. Eu sou uma policial treinada, lembra? – As mãos dela apertaram as da outra. – Agora, me escuta. Eu quero que você saia daqui e avise os outros, tá bom? Eu confio em você, e você? Confia em mim? – Beijou a testa dela. – Vamos sair dessa juntas, somos uma equipe.

— Mas... – Engasgou, ouvindo a porta sendo empurrada. – Você vai morrer, sua louca.

— Eu sei o que estou fazendo. – Ela correu e se escondeu atrás da porta, fazendo um sinal para a cunhada. – Faz o que eu mandei!

Em uma fração de segundos, o homem entrou, sendo surpreendido por Jas, que o desarmou pelas costas com uma facilidade que somente uma verdadeira especialista teria. Lindsay, ainda choramingando, trocou um último olhar com ela, e foi embora correndo.

A onda de coragem que tomou conta dela foi sumindo muito mais cedo do que o esperado, mas ela não largou a arma. O sorriso psicótico que ele abriu para ela era de regelar os ossos, fazendo as suas mãos tremerem como tremiam quando ela era só mais uma aspirante na academia. Os pensamentos ruins foram afastados pelo mais puro instinto de sobrevivência, e ela atirou. O medo cresceu quando ela percebeu que não havia acontecido nada; a arma estava descarregada.

As pernas dela travaram como se fossem feitas de barro endurecido pela ação do tempo, mas a pose de durona não sumiu. O capanga deve ter percebido que toda aquela bravata era só uma máscara, pois ele agarrou a arma que estava apontada para ele e puxou, trazendo a mulher com ela para os seus braços.

— Eu não sou tão burro assim, lindinha. – Agarrou os braços dela, torcendo para trás. – E você não é tão inteligente assim também. – Um sentimento de familiaridade tomou conta dela quando parou de espernear e começou a prestar atenção no rosto dele com um pouco mais de calma. A sua memória não era muito boa para rostos, mas ela tinha certeza de que conhecia aquele rosto de algum lugar. O entendimento veio ao seu encontro como numa batida de carro; aquele homem esteve atuando como membro do hospital em diversas ocasiões. – Eu acho que vou ter que usar o mesmo que deveria ter matado aquela outra vadia intrometida.

As sobrancelhas de Jas se franziram, sua boca ficou ligeiramente aberta, e ela se encolheu no caixote onde havia sido jogada.

— A Lindsay?

— É isso mesmo, vadia. – Ele arrancou furiosamente um frasquinho do bolso da calça e derramou o líquido em um paninho que tirou do mesmo bolso. O tempo de resposta para ela foi muito curto, pois ele a agarrou com a mesma força que havia empenhado para puxar a arma dela. O pano entrou em contato com seu nariz e boca na mesma hora, como se fosse uma coisa rotineira. – Mas até que você não é das mais burras.

O corpo dela não relaxou naquele mesmo instante, então ele a apertou como quem aperta uma fruta pronta para ser devorada. A mente de Jas estava meio turva por conta do sabor adocicado do éter no céu da sua boca, mas o seu instinto de sobrevivência era maior do que isso. O seu cotovelo aproveitou o espacinho entre os dois, acertando um pouco acima do estômago dele. A corrida por sua vida foi iniciada na mesma hora, mesmo que não soubesse exatamente para onde ir; sabia que não podia ficar esperando pela recuperação dele.

O primeiro beco por onde passou era escuro e fedorento, e deixou uma ligeira impressão de familiaridade. Ela entrou se espremendo entre as paredes, sentindo as pedrinhas arranharem os seus cotovelos, mas era melhor isso do que ser morta e desovada numa daquelas lixeiras. Olhando para a esquerda e para a direita, foi pela esquerda, correndo o mais rápido que as pernas aguentavam. Estava quase virando a outra esquina, quando o homem a alcançou, puxando o seu corpo para trás como se ela fosse uma boneca de pano.

O irmão dela ainda estava preso nos próprios pensamentos quando avistou a imagem da irmã correndo ao seu encontro. Ele olhou para ela como olhava para os fantasmas do seu passado. A arma em sua mão estava tremendo, mas alguma coisa dentro dele avisou que aquela era mesmo a sua irmã. O cérebro dele não respondeu como deveria, mas suas mãos obedeceram automaticamente, colocando o alvo na mira.

— Jas! – Ela virou, olhando para ele por uma fração de segundos. – Abaixa!

O tempo entre o momento em que ela se jogou no chão e o momento em que seu irmão atirou no suspeito foi minúsculo, mas aquele barulho encontrou morada na mente dos dois. Os ouvidos de Danny ainda estavam zumbindo quando correu em direção ao homem ferido e checou seus sinais vitais: oficialmente morto por um tiro certeiro abaixo do peito. O rosto de Jas estava em contato com aquele chão imundo, que apesar do nojo, estava viva. Ele desvirou a irmã com um carinho desmedido, aninhando o seu corpo nos braços como fazemos com uma criança pequena. Os olhos dela se abriram aos poucos, e com um sorriso aliviado, o irmão a ajudou a se sentar. As mãos dele inspecionaram o corpo dela inteiro: buscando algum ferimento oculto, mas para o seu alívio, ela tinha apenas algumas escoriações espalhadas pelo corpo. Ele olhou para o corpo e puxou a irmã para mais perto quando a realidade o atingiu. Foi a arrastando com ele até que estivessem a uma boa distância do falecido.

— Oh, meu Deus. Vem aqui, vem aqui. – Apoiou o queixo na cabeça dela, usando as mãos trêmulas para acariciar seus cabelos. – Você está bem? Está tudo bem com você? – Ela segurou o pulso dele e respirou fundo enquanto se deixava ser abraçada com força. – Oh, meu Deus do céu. – Eles ainda respiravam fundo quando ele beijou sua testa. – Tem certeza de que está tudo bem? Você está mesmo bem?

Ela assentiu com a cabeça, apertando a mão dele.

— Estou.

— E não se machucou quando caiu?

Ela negou, olhando para o criminoso ao usar o joelho dele como apoio para se levantar.

— Não. Eu estou bem.

Ele também se levantou.

— Eu sinto muito. – Entrou no campo de visão dela. – Eu o vi te agarrando.

— Não, não. – Ela negou com a cabeça e simplesmente o envolveu em um abraço apertado. – Eu não...

— Está tudo bem. – Acariciou os cabelos dela, fechando os olhos para aproveitar o abraço. – Eu estou aqui. Estou bem aqui com você.

O reencontro foi interrompido pela chegada do marido dela, que veio correndo na direção dela e do cunhado, entrando no abraço com o mesmo entusiasmo.

— Dante.

— Ei. – Abriu um sorriso orgulhoso, beijando o seu rosto com alegria. – Está tudo bem com você? Hein? – Ela respondeu com acenos de cabeça acompanhado de um sorriso aliviado. – E onde está a Lindsay? Ela estava com você?

— Eu... eu... eu... – As palavras não encontraram saída. – Estávamos. – Arrumou o cabelo. – Mas ela saiu antes de mim, e eu acho que um cara saiu correndo atrás dela.

— E você tem alguma ideia de para onde eles foram?

— Não.

O reforço foi chamado enquanto os três tentavam pensar no paradeiro de Lindsay. Jas teve o seu depoimento colhido pelo marido ainda na cena do crime, na companhia do irmão, que também se tornara uma testemunha-chave.

— Eu não me lembro muito bem, mas sei que o Danny atirou nele.

— O cara que você estava seguindo?

— Ele estava roubando remédios do hospital. Ele me trancou em um galpão e tentou me sufocar com alguma coisa.

— Entendi. E você sabe que coisa era essa?

— Eu acho que era éter. Ele me disse que era o mesmo que deveria ter matado a Lindsay.

O irmão dela olhou para o desconhecido.

— Ele tentou matar a minha mulher e a minha irmã.

— Eu não sei se foi ele mesmo quem fez isso, ou se ele mandou alguém até lá para fazer isso. Eu me lembro de tê-lo visto trabalhando no hospital algumas vezes, mas acho que tinha mais gente envolvida nisso.

Os lábios de Dante se comprimiram e ele olhou para o morto.

— E o que... e o que aconteceu com o outro cara que estava perseguindo a Lindsay?

— Eu acho que ele se chamava Eddie. Isso é tudo que eu sei.

O irmão dela alisou a nuca com uma das mãos, reconhecendo aquele nome.

— Eddie Pembroke. Esse cara é barra pesada. – Os três se entreolharam com a mesma coisa passando por suas mentes, mas nenhum deles disse mais nada. – Ei. Eu tenho uma coisinha aqui para você. – Ensaiou um sorrisinho animado, puxando uma correntinha do bolso e mostrando para ela. – Eu acho que está na hora disso aqui voltar para a sua legítima dona.

Um sorriso radiante iluminou o rosto de Jas.

— Eu senti tanta falta dele. – Os seus dedos tocaram o pingente frio. – Muito obrigada.

— Não foi nada. – O sorriso dele se alargou quando viu o rosto iluminado dela. – Eu estava te devendo uma, lembra? Está pago.

O irmão, com o instinto de proteção ainda focado nela, pegou uma das toalhas oferecidas por um de seus colegas e a envolveu com ela, tomando o cuidado de esfregar seus braços e costas. A imagem do irmão morto tomou conta da sua mente, mas a satisfação de ter salvado a vida da irmã o tornara um pouco mais humano. O espaço que ele ocupara em sua mente foi reivindicado pela imagem de sua esposa, mas nem precisou mergulhar muito naquele universo de possibilidades, pois numa questão de minutos ela também estava a salvo em seus braços. Lindsay havia sido encontrada se escondendo numa das lixeiras, uma medida desesperada que salvara a sua vida e tornara real aquele momento com o marido.

O ressentimento nascido entre Michelle e sua filha mais velha acabou envenenando também a relação da primogênita com a irmã. A raiva não era exatamente da irmã, mas conviver com ela a lembrava de que as duas não compartilhavam o mesmo pai, e isso era mais doloroso do que fingir que ela não existia. Melissa notou que a irmã estivera a evitando, criando uma ferida no relacionamento. Escondida na escada, Maeve observava o rostinho entristecido da irmã mais nova: ela sabia que era a causadora de toda aquela tristeza. Os pensamentos e o orgulho de Maeve foram deixados de lado quando viu as primeiras lágrimas se formando nos olhos da menina.

— Ei, maninha. – A menina usou o braço para enxugar os olhos e abriu um sorriso verdadeiramente feliz com a proximidade da irmã. Maeve esticou o pescoço, olhando para a tela do notebook. – Eu posso saber o que a senhorita anda aprontando na internet?

— Só olhando uma notícia sobre a mamãe.

O sorriso no seu rosto foi sumindo quando os seus olhos leram a manchete.

— Me deixa dar uma olhadinha. – Melissa levantou da cadeira, cedendo o lugar para a mais velha. As suas sobrancelhas se franziram enquanto ela lia o texto, que falava sobre sua mãe e o seu envolvimento bombástico com o prefeito. – Onde você encontrou esse lixo?

— Os meus amigos me mandaram. – Recebendo um olhar de censura da outra, encolheu os ombros. – Mas escuta... essas pessoas...

— A pessoa que te mandou isso não deveria nem ser chamada de amigo. – A sua mão pousou na bochecha da menina. – Escuta. Essas meninas são umas fofoqueiras, mas isso não significa que o que está escrito aqui seja verdade, entendeu? Muitas vezes essas pessoas inventam coisas horríveis sobre os outros sem nenhum motivo.

Melissa olhou para a tela do notebook.

— Mas isso aconteceu mesmo com a mamãe? Você não é minha irmã?

Os ombros de Maeve caíram.

— Eu não sei, meu bem. – O seu polegar acariciou a bochecha dela. – Mas eu sei que sempre serei a sua irmã. Eu quero que você me escute bem, tá? – Melissa assentiu. – Eu sei que é muita coisa para essa sua cabecinha, mas você só tem treze anos, ainda não entende como as pessoas podem ser feias por dentro. – A sua mão deixou o rosto da irmã, voltando para o mouse. – Esse texto é tão bobo. – Uma careta se formou enquanto passava os olhos no texto. – E pelo que parece a vida privada do prefeito tem agitado mais a cidade de Nova York do que a sua vida política...

— Maeve. – A mãe chamou da escada. – Eu não sei porque você mostraria uma coisa dessas para a sua irmã, mas eu sei que você é muito melhor do que isso.

A menina estava sentada no sofá olhando para o semblante constrangido da mãe quando ela e sua irmã pararam de berrar uma com a outra. As mãos da mãe agarraram as suas: como sempre fazia quando tinha uma coisa muito importante para falar e queria ter a certeza de que estava sendo ouvida. A irmã mais velha foi a única que não se sentou, permanecendo de pé atrás da mãe.

— Eu sinto muito por você ter descoberto isso pela internet, porque eu mesma queria ter te contado.

— O site disse que você teve um... – Evitou o olhar da mãe. – Um caso com o prefeito, e também que a minha irmã não é filha do papai.

Os braços de Maeve se cruzaram.

— Eu... não me arrependo da sua irmã. – Umedeceu os lábios. – Mas sei que foi um grande erro ter me envolvido com o prefeito.

Melissa fez uma careta.

— Mas por quê? Ele era seu amigo?

As palavras demoraram para chegar, então Michelle assentiu.

— Ele era, mas ele também era um lobo em pele de cordeiro, entende? – Evitou os olhos da menina, apertando mais forte as suas mãozinhas. – Mas teve uma época na minha vida em que eu estava... muito, muito triste... e ele foi muito legal comigo, mas acho que acabei deixando isso ir longe demais. – Os lábios de Maeve tremeram, mas ela não falou. – Eu... eu sei que não deveria ter feito nada disso.

— E por que todo mundo sabe disso?

— É porque o prefeito contou para todo mundo e agora está todo mundo falando sobre isso. – A menina continuou calada, esperando a mãe dar continuidade. – Mas a pior parte de tudo isso é que as consequências podem recair sobre... – Olhou para Maeve, que abaixou a cabeça. – Sobre vocês. – Levou uma das mãos ao peito. – Mas fui eu que errei, esse problema é meu. Então, não é sua responsabilidade e nem da Maeve tentar consertar nada, me entendeu? – A menina olhou para a irmã, que se esforçou para sorrir, e assentiu. – Mas infelizmente, o que aconteceu entre mim e o prefeito está sendo aumentado e distorcido em um monte de mentiras.

Maeve sentou ao lado da irmã.

— Mas por que eles estão mentindo?

Michelle apoiou o queixo na mão.

— Eu acho que é porque é o que as pessoas fazem quando estão com medo. – A sua mão livre acariciou os cabelos da filha. – E, infelizmente, não tem muita coisa que possamos fazer a respeito disso.

Melissa abaixou a cabeça, levando algum tempo para formular a sua próxima pergunta.

— Mas o que eu respondo quando meus amigos me perguntarem o que aconteceu?

Michelle estava com a resposta na ponta da língua, mas quem respondeu foi sua outra filha:

— E confie em mim. Eles irão. Eu mesma recebi uma porrada de mensagem esses últimos dias.

A mãe lançou um olhar de censura para ela.

— Escuta, se eles perguntem, então você diz que a sua mãe está trabalhando para acabar com toda essa fofoca. – O seu lugar foi abandonado. – Meu bem...

O rosto de Melissa se contraiu numa careta.

— Mas espera, e o que isso significa?

Maeve deu de ombros.

— Eu acho que nada. O meu voto é para você manter a sua boca fechada.

— Essa é uma ideia excelente. – Arrumou o vestido e a bolsa no ombro. – Agora, meu bem. Tem algum problema se deixarmos essa conversa para mais tarde? – Olhou para o relógio. – É porque você deveria chegar na casa da sua amiguinha às 5h. Vem. – A menina, meio cabisbaixa, obedeceu a mãe. – Vamos nessa.

Maeve também se levantou.

— Eu posso ir dar um tempo na biblioteca?

— Eu acho melhor você ficar por aqui mesmo porque eu quero dar uma palavrinha com você quando eu voltar. – Abraçou a mais nova pelos ombros, indo para a porta. – Vamos, meu bem.

Outra pessoa também vivenciava a sensação pungente de conviver com a culpa enraizada no peito. Essa era a parte mais complicada de cometer um erro: você acaba pensando que tudo de errado que está acontecendo ao seu redor também é sua culpa. No entanto, mesmo que achasse que aquele caso estava fadado ao fracasso por conta de suas transgressões passadas, Stella não poderia estar mais errada.

— Então quer dizer que o senhor agora é meio que o Superman do laboratório? – Os amigos conversavam entre risadas. – Eu acho que agora só está faltando trocar o jaleco por uma cuequinha por cima da calça.

Danny soltou outra risada igualmente animada.

— Eu troquei a minha camiseta suja por uma novinha em folha. – Exibiu a camiseta com a logo da polícia para ela, que riu. – Ela não é linda?

Um biquinho surgiu nos lábios dela.

— Então quer dizer que você é meio que um agente duplo agora?

Ele deu de ombros.

— Eu acho que em outra vida eu fui um policial foda para caramba.

— É mesmo? Você tem mais experiência do que eu, então?

— Certamente. – Franziu os lábios. – O que está te incomodando, minha jovem?

A atmosfera mudou quase que automaticamente, eliminando os sorrisos dos rostos dos amigos. Os ombros dele ficaram mais rígidos quando percebeu que o assunto era o caso que ele arruinara. A mulher olhou para ele com uma certa pena, mas tinha que tirar aquele peso da consciência.

— Então, primeiramente, eu sei que isso tudo te deixa muito perturbado, mas temos que encarar os fatos e sermos os adultos que somos, certo? – Analisando o rosto dele procurando por algum sinal de desconforto, continuou. – Eu acho que você é a única pessoa que poderá me ajudar a solucionar todo esse mistério com o prefeito e sua excelentíssima esposa. Infelizmente, eu acho que acabei colocando o carro na frente dos bois acusando o prefeito de assassinato...

As mãos dele passearam pelo rosto, e respirando fundo, respondeu:

— É... eu sei como é...

— A cidade inteira está sabendo... – O seu rosto ganhou uma expressão mais consternada. – O prefeito foi preso e vidas estão sendo arrastadas na lama por minha causa... – Os lábios se franziram em descontentamento. – Eu tinha certeza de que o prefeito tinha mesmo matado Hannah Knox, mas está tudo perfeito demais. Está muito amarradinho, sabe? Então, eu receio que estejamos deixando escapar alguma coisa.

— Então, vamos voltar para o início.

Ela assentiu.

— Essa história toda começou quando o Will recebeu um chamado para o Even. Encontramos a Hannah desacordada na cama, e o prefeito estava completamente desesperado. Ele contou uma historinha sobre ela ter batido a cabeça uma vez, mas no relatório da necropsia consta pelo menos duas.

— E você acredita nele?

Ela coçou a cabeça.

— Eu acho que talvez ele nem saiba disso, porque ele saiu do quarto e voltou depois. Então, meio que há uma lacuna entre a hora que ele saiu e a hora em que ele voltou. Outra pessoa pode ter entrado e batido na cabeça dela nesse meio tempo.

— Eu acho que estamos chegando em algum lugar com essa história.

Ela arrumou o cabelo, tirando mechas da frente dos olhos. A conversa acabou sendo levada para corredores mais vazios.

— E se ele realmente estiver contando a verdade? E se ele realmente planejasse pedir o divórcio para ficar com ela?

A próxima frase estava praticamente engatilhada quando avistou a primeira-dama saindo do elevador principal. A mulher também olhou para ela, vindo na sua direção quando Danny saiu de cena.

— Exatamente a pessoa que eu estava procurando. – Stella mordiscou os lábios, analisando a vestimenta da outra: um exuberante vestido preto. – Eu só quero agradecer novamente. Por toda a sua ajuda.

— E como exatamente eu te ajudei?

— Eu acho que você me ajudou sendo objetiva, detetive Taylor. E agora, eu só posso esperar que o tribunal seja tão imparcial quanto você.

— Eu imagino que esse esteja sendo um momento muito delicado para você.

A atmosfera pesou com o silêncio entre elas.

— O meu marido está trabalhando na defesa dele. Então, acho que posso acreditar na possibilidade de que seja inocentado.

As sobrancelhas de Stella se arquearam, mas ela se limitou a concordar enquanto pensava em alguma outra coisa.

— Eu também acredito que será.

A mulher abriu um sorrisinho, olhando para ela e depois para Danny.

— Com licença. – Foi na direção dele. – Eu sei que começamos com o pé esquerdo, mas gostaria de te pedir as minhas mais sinceras desculpas. – Ele não disse nada, balançando a cabeça em concordância. A outra mulher ficou apenas observando toda aquela agitação em volta do amigo. – Espero que possamos nos entender algum dia.

Os olhares deles se encontraram quando a primeira-dama voltou para o elevador pisando forte. Os ombros de Stella estavam muito tensos, mas ela tentou colocar um sorrisinho no rosto para contrabalancear com tudo aquilo.

— Eu sei que parece loucura acusá-la de ter matado a Hannah...

— As pessoas com aquela carinha de anjo não são as piores?

— Ela também parece meio homicida para você?

Aquela conversa acabou sendo levada para outra sala do laboratório e para outra pessoa, especificamente para o marido dela, que a recebeu com um sorriso carinhoso.

— Eu tenho pensado muito nesse caso ultimamente.

Will riu.

— Estou vendo, meu anjo.

— A única pessoa cujas ações não são nada consistentes é Diana Hubbard.

A própria estava ouvindo a conversa do outro lado da parede, mas os detetives estavam muito ocupados para notarem a sua presença.

— A mulher do prefeito?

— É isso mesmo. – O homem segurou os braços dela, que estavam cruzados sob o peito. – Escuta, primeiro ela contratou o Sage para seguir o marido dela, supostamente para descobrir se ele estava a traindo. Mas ela mesma disse que descobrir sobre o caso só depois que a Hannah morreu.

— E isso não faz o menor sentido.

Ela concordou,

— Mas acho que isso não faz a menor diferença. O ponto é que a única preocupação dela é tentar minimizar todo esse escândalo.

— Ela está mais preocupada com a carreira do marido...

— Exatamente. – Emoldurou o rosto dele entre as mãos. – Essa é a resposta. A Diana é tão ambiciosa quanto o marido, ou até mais. E se o prefeito for expulso do mundo político para sempre... então tudo o que restará para ela será um marido filha da puta.

— Você é uma mulher muito inteligente e muito atraente também, mas não posso acusar a mulher de assassinato baseado só nisso. Antes de especularmos quem matou a Hannah...

— Eu não acho que seja só especulação. Eu, sinceramente, acho que seja muito mais do que isso...

Ele a agarrou pelos quadris, puxando para ele.

— Eu quero saber se você vai me deixar te levar para jantar ou não.

Ela riu.

— Eu vou, mas por que quer me levar para jantar se somos casados?

— Eu também gosto de comer comida boa. – Eles caíram na risada. – Estou brincando. Mas é exatamente por sermos casados. – Encarou o rosto dela com seriedade. – Eu não quero ser um marido filha da puta. – As mãos dela esfregaram a própria barriga, que estava doendo por causa das risadas. – Eu vou te levar ao seu restaurante favorito, vamos ou não?

— Eu disse que sim, meu bem. E lá podemos conversar mais sobre esse caso.

O homem usou a boca para estender beijos preguiçosos por alguns pontos entre o pescoço e os ombros dela, notando uma onda de arrepios na pele.

— Eu estava pensando com outra cabeça.

A risada dela encheu a sala.

— Eu sei, mas vamos fazer o que fazemos de melhor, tá?

As sobrancelhas dele se franziram numa careta.

— Sexo? Eu acho meio inapropriado no meio do restaurante, mas...

— Não, seu engraçadinho! – Bateu no ombro dele. – Eu estava falando sobre fazermos várias coisas ao mesmo tempo. Em primeiro lugar, vamos considerar a possibilidade dele realmente amar a Hannah, e que estava pensando em se divorciar para ficar com ela. Então a mulher dele acabou descobrindo tudo...

— Eu admito que quando ele disse que amava a Hannah, também acreditei nele.

— E tudo indica que ela também o amava...

— E aquela conta?

Ela envolveu o pescoço dele com os braços, fazendo uma careta.

— Eu ainda não sei, não tive tempo para pensar direito nisso. Mas acho que não veio do prefeito. Ela não teria nenhum motivo para chantagear ele, mas, por outro lado, todos esses anos de lealdade da Diana estavam prestes a serem jogados fora. E essa mulher ambiciosa estava quase sendo abandonada no relento. As pessoas matam por muito menos.

— Mas não podemos dizer que ela matou aquela mulher só para salvar o casamento dela. Essa é uma reação muito extrema, entende?

— Então, digamos que ela soubesse que o marido dela e a Hannah estavam indo se encontrar no Even. – As sobrancelhas deles se arquearam ao mesmo tempo, enquanto ele acariciava a barriga dela com a mão livre. – Ela os seguiu até lá para confrontá-los. Ela entrou no quarto quando a Hannah já tinha batido a cabeça, então ela simplesmente decidiu unir o útil ao agradável matando a Hannah e culpando o marido filha da puta dela.

— O tempo em que o prefeito foi comprar o paracetamol...

Ela assentiu com orgulho.

— Essa mulher é um lobo em pele de cordeiro.

Notas finais
Estamos quase chegando ao fim desse caso! Até o próximo!