Stella
13 Georgie
Notas iniciais
Os mais velhos costumam dizer que a ignorância é uma dádiva, pois assim não percebemos as desventuras que nos cercam como abutres em busca de carne fresca. Naquele momento, a ignorância era realmente uma dádiva para Will, que desconhecia o destino da esposa e aguardava alegremente pela noite que desfrutaria ao lado dela.
— Está sabendo que as crianças foram encontradas? – O cotovelo de Will cutucou as costelas de Lindsay quando ele parou ao seu lado. – Eu fiquei sabendo agorinha.
— É sério? – Os olhos dela encontraram os dele, e um sorrisinho se formou naqueles lábios cansados, enquanto ela pingava uma gota de sangue na extremidade da lâmina. – E como elas estão?
— Estão meio traumatizadas, mas acho que ficarão bem. – O sorriso que ele abriu também foi de completo contentamento. Agora que era pai, não gostava nem de pensar na ideia de investigar as mortes de mais de uma criança. – Os laboratórios da ala norte serão reabertos na semana que vem.
— Estou por dentro. – Os olhos voltaram para o seu trabalho; ela estava muito empenhada em não errar outra lâmina. – Até que foi rápido.
O homem respirou fundo, criando coragem para verbalizar a frase seguinte.
— Ah! – Exclamou, como quem estava lembrando daquilo naquele exato minuto. – Só mais uma coisinha. Tem algum problema se o Danny ficar com o meu turno dessa noite?
Ela virou a cabeça para ele, abrindo um sorriso insinuante.
— Algum plano para essa noite? Alguma coisa envolvendo a Stella?
Ele soltou uma risada envergonhada e passou a mão na nuca.
— Estamos descobrindo como lidar com tudo isso que tem acontecido... – Ela largou as lâminas de lado, virando totalmente o corpo para ele, com um olhar esperançoso. – Eu assumi que estava exagerando, e ela assumiu que a maternidade é um pouquinho mais complicada do que ela estava imaginando. – A tranquilidade em seu semblante se refletiu no dela. – E também concordamos que ela não está com depressão pós-parto e com a ideia dela voltar ao trabalho mais cedo.
— Nossa! Então essa foi uma longa conversa.
Ele estufou o peito, rindo.
— Estamos indo para o que chamamos de o nosso primeiro encontro desde que nos casamos. Uma noite romântica. Só eu e ela.
O marido não queria que nada nesse mundo estragasse aquela noite que deveria ser muito especial para eles, mas não imaginava que o agente do caos seria a própria esposa.
As coisas naquela cidadezinha eram pacatas como não eram na grande Nova York, e foi justamente isso que atraiu Stella para lá. Isso sem mencionar o enorme bônus que era não esbarrar com nenhum conhecido. Ela simplesmente poderia ser quem ela quisesse; era como se estivesse nascendo para o mundo naquele exato momento. E era bom.
— Oi, Danny. – A hesitação pairando sobre ela. – Sou eu. Você me faria um favor? Liga para o meu marido e diz que eu estou bem, só preciso de um tempo. – Os seus olhos se fecharam, os dedos apertando o celular como se ele fosse fugir. – Eu sei que isso é muito estranho, mas fica tranquilo. Eu prometo que explico tudo outra hora. Muito obrigada.
O celular foi guardado no fundo da bolsa, e ela entrou no barzinho. A primeira coisa que ouviu foram os cumprimentos da bartender, que disse:
— Oi.
Ela colocou o seu melhor sorriso no rosto, torcendo para que o seu nervosismo não fosse notado, e se aproximou.
— Oi.
A moça era experiente o bastante para saber qual bebida o cliente gostaria, mas aquela mulher que estava na sua frente era um completo mistério, até para os seus olhos bem treinados.
— O que vai querer?
— Ah... – Levou o dedo ao queixo. – Um shot de tequila seria ótimo.
— Eu acho que alguém aqui está com problemas...
Ela colocou a bolsa no banco ao lado e se sentou no que estava na sua frente; era meio alto, mas, pelo menos, era aconchegante.
— Eu... só quero me esquecer de tudo essa noite...
— Eu queria poder fazer isso também. – As mulheres riram como se fossem velhas amigas. – É bom sair da rotina de vez em quando.
— É exatamente isso que estou tentando fazer. – Abaixou a voz uma oitava. – Sair da rotina. Eu sou representante de vendas. – Esticou os braços sobre o balcão, relaxando os ombros. – Eu vendo produtos farmacêuticos, passei o dia numa reunião com os administradores de um hospital.
— Nossa. Isso parece puxado. – As suas sobrancelhas se franziram ao se imaginar desempenhando aquele papel, em vez do que estava desempenhando agora. Estendendo a mão na direção da mais nova cliente, disse: – Me chamo Louise, mas todo mundo me chama de Lulu.
— Muito prazer em conhecê-la, Lulu. – Apertou a mão da jovem, abrindo um sorriso sincero. – Me chamo Georgina, mas pode me chamar de Georgie.
Os pensamentos dela estavam quase que inteiramente voltados para o marido, e coincidentemente, ela também era o assunto principal na mente e nas palavras dele naquele exato momento.
— É como você me disse alguns meses atrás, Lindsay. – Entregou uma pasta para uma de suas subordinadas, fazendo uma pausa na conversa para explicar-lhe como proceder. – É um passo enorme começar uma família, e foi um exagero enorme da minha parte achar que ela tem depressão pós-parto só porque está demorando um pouco para se adaptar à nova vida.
A testa dela se enrugou; alguma coisa dentro dela dizia que não deveriam descartar essa possibilidade com tanta facilidade.
— Mas ela foi ao médico?
— Não, mas essa não é a questão. – A sua mão foi parar no ombro dela. – A culpa disso tudo foi minha. Eu que disse para ela que tinha alguma coisa errada. – Ela soltou um suspiro desanimado e assentiu. – Foi por causa da minha visão de como ela deveria ser com a Lily. E também acho que exagerei um pouco naquela conversa com o Dante. Ele acabou correndo até a Stella e dizendo: “Você está com depressão pós-parto, Stella”, porque eu falei demais. Eu sei que ele não queria ofendê-la, mas vê-lo fazendo isso foi como me olhar no espelho. E foi nesse momento que percebi o que eu estava fazendo com ela. Me toquei que estava a cercando como um abutre em cima da carne fresca. Observando cada movimento dela e fingindo que era o pai perfeito... então não me admira que ela tenha ficado tão reativa.
Foi a vez de Lindsay colocar a mão no ombro dele.
— Não seja duro demais consigo mesmo. Ela estava se comportando de um jeito esquisito mesmo.
— Eu sei, mas ainda acho que poderia ter lidado melhor com isso. Além disso, acho que toda essa coisa com o trabalho acabou piorando ainda mais as coisas. Eu sou o marido dela, poderia pelo menos ter a deixado supervisionar algumas atividades. – Limpou o rosto com as mãos. – Mas achei que ela precisava descansar um pouco... depois de tudo que aconteceu...
— Olha... eu acho que ela ainda não estava pronta para voltar...
— É... – A mão dela apertou seu ombro. – Pode ser... – Os seus lábios se contraíram em um sorriso entristecido. – Mas você sabe que ela é ótima no que faz, e você mesma teria a ajudado, se fosse o caso, e... isso tudo só aconteceu porque eu não queria que ela voltasse ao trabalho. E isso não é justo, sabe?
— Mas considerando tudo o que ela passou, eu também acharia melhor assim.
— Eu sei. – Os ombros dele caíram. – Mas eu poderia ter ajudado mais...
Ela deu de ombros.
— É... quem sabe...
— Eu vou tentar ser mais presente...
As palavras foram engolidas pelo nada, enquanto eles se encaravam como se estivessem numa espécie de transe. Isso só foi quebrado quando o celular dele tocou.
A chamada era para um novo caso na entrada da cidade, e aquilo o deixou profundamente irritado, mas não havia como colocar o prazer à frente do dever. Então, ele pediu que a amiga avisasse a esposa que ele ficou preso no trabalho. A mulher o seguiu com os olhos até perdê-lo de vista, sentiu pena.
Em outro lugar, não muito longe, outra mulher também estava com muita pena dele. Mas isso não a impediu de engatar numa conversa animada com a sua mais nova amiga.
— A Grécia é... – Os olhos de Stella brilhavam de excitação enquanto ela mexia as mãos. – É um lugar maravilhoso! – Respirou fundo. – Mas isso é só se você não for obrigada a ficar viajando a trabalho como eu.
Lulu sorriu.
— E lá é tão bonito quanto nas fotos?
Ela abriu um sorriso desinibido, abrindo também os braços.
— É muito mais bonito!
O toque do celular lhe deu um susto daqueles. Ela o pegou e colocou sobre o balcão, reconhecendo um dos números do laboratório estampado na tela. Então, simplesmente ignorou.
— Oi, aqui é a Stella. – A mulher do outro lado da linha até ficou animada, mas em seguida veio o balde de água fria. – É só deixar uma mensagem e... retornarei a chamada.
— Oi, Stella, aqui é a Lindsay. – Engoliu em seco. – Espero que escute isso antes de ficar plantada esperando o Will. Onde você está? Já chegou ao restaurante?
— Mas deve ser muito ruim ficar longe da família, não é mesmo? – Lulu comentou ao notar que o telefonema não atendido havia causado um comportamento inesperado da parte da outra.
— Não. – Engoliu em seco, bebendo a bebida quando sentiu um nó na garganta. – Eu não tenho família. Os meus amigos costumam dizer que sou casada com o trabalho, mas isso não é verdade. – Soltou uma risada sem graça. – Eu tenho uma vida... só não tenho marido, nem filhos.
As mulheres continuaram conversando durante metade da noite. Quando parecia que o repertório havia finalmente acabado, Stella disparou falando sobre ópera.
— Na minha opinião, Nova York tem uma companhia de ópera fantástica! Os meus amigos e eu temos ingressos para essa temporada. – Estava tão animada com o assunto, que as mentiras saíam de sua boca com muita facilidade. – Mas também tem muitas coisas maravilhosas nessa cidade.
— Uau! – Riu. – Eu acho que alguém aqui gosta mesmo dessa cidade.
— Eu amo isso aqui! – A próxima frase não veio carregada de tanta felicidade; muito pelo contrário, ela parecia estar perdida em pensamentos. – É o lugar perfeito para mim. Até me inscrevi em algumas aulas de culinária nesta primavera. Eles disseram que é tudo feito com produtos locais.
Lulu sorriu, sacudindo a coqueteleira e servindo a bebida para o outro cliente.
— Eu acho que ouvi falar sobre isso.
— Estou ansiosa para começar a plantar tomates e alface no meu terraço, embora ele seja do tamanho desse bar. – Olhou ao redor; era um espaço minúsculo, com quatro banquetas alinhadas perfeitamente em frente ao balcão e mais umas duas mesas ao fundo. A iluminação era muito fraca para que notasse outros detalhes; mesmo assim, era aconchegante. – Mas tem uma vista espetacular...
Aquela excitação que estava sentindo foi imediatamente substituída por um calafrio quando ouviu um chorinho vindo dos fundos. A outra mulher encarou a porta atrás de si, limpando as mãos na própria calça.
— A chefe está me chamando. – Stella notou aquele brilho maternal nos olhos dela. – Eu volto em um segundo.
A outra foi atender ao chamado, e ela tapou os ouvidos com as mãos; aquilo estava causando uma agonia tenebrosa em seu peito. Lulu voltou com uma menininha resmungando no colo. Os olhos de Stella se arregalaram; ela apontou para a criança e disse:
— Encolheram a sua chefe?
A mãe dela riu, arrumando a bebezinha no colo.
— Eu sei que esse não é o ambiente mais adequado do mundo para ela, mas a minha babá desmarcou comigo em cima da hora, e eu sou mãe solteira... – O orgulho transbordou de seus olhos quando olhou para a filha, causando uma reação esquisita no estômago da outra. – Então não tenho muita escolha. – A menina riu quando a mãe a sacudiu.
O sorriso de uma outra menininha passou pela mente de Stella. O seu maior desejo era sentir exatamente o mesmo em relação a ela. Fechando os olhos, afastou aqueles pensamentos da cabeça. Lulu não estava mais lá quando os abriu novamente, mas não demorou para que retornasse pela mesma porta onde estava mantendo a filha.
— Outra dose?
— Com certeza. – Ensaiou um sorriso, mas estava muito nervosa. – Imagino que deva ser muito estressante trazer um bebê para o trabalho.
— E é mesmo. – Serviu outra dose de tequila para ela. – Ela é muito nova para ficar aqui.
— Eu também acho. – Elas riram. – Mas você não tem algum outro lugar para deixar ela?
Lulu ergueu os olhos, contendo uma risada.
— Você tem ideia de quanto custa uma creche noturna? O que eu mais queria era poder ficar em casa com ela...
As palavras machucaram o ego de Stella, que tinha exatamente aquela oportunidade nas mãos e, mesmo assim, não estava dando o mínimo valor. Pelo contrário, estava fazendo de tudo para fugir da menininha que tanto sonhou em trazer ao mundo. Os pensamentos causaram vergonha, e a vergonha a fez abaixar a cabeça e murmurar:
— Eu imagino...
— Eu sei que estou meio que perdendo o crescimento da minha filha. Porque, quando ela está aqui, meu chefe faz questão de ficar me lembrando que estou aqui para cuidar dos clientes, não do meu bebezinho...
— O mercado de trabalho é uma porcaria...
Lulu colocou a bebida na frente dela.
— Eu tinha um emprego maravilhoso numa fábrica onde eu trabalhava desde que saí do colégio, então engravidei. – O desgosto ficou evidente no rosto dela. – O pai dela nunca quis saber dela... e eu sei que deveria estar tentando entrar numa faculdade para tentar conseguir um emprego melhor, mas isso significa que terei que passar mais tempo longe dela. – Stella bebeu um gole da bebida, sentindo o líquido passando com dificuldade pela garganta fechada. – Eu queria muito pegar ela, ir para casa, colocar uma música e me sentar numa cadeira de balanço com ela. Só eu e a minha filhinha. – Abriu um sorriso terno, abraçando o próprio corpo. – Eu queria ser uma daquelas mães que ficam em casa com as crianças o dia todo. Elas são tão sortudas.
O comentário causou outra onda de repulsa na outra mulher, mas a pior parte era aquela ternura no rosto. Ela terminou de beber a tequila em um só gole e devolveu o copo para o balcão.
— É... eu acho que são. – Os lábios se repuxaram, tentando formar um sorriso que não veio. – Escuta, mesmo que as coisas estejam muito difíceis agora, eu tenho certeza de que a sua menininha te ama muito.
A menina começou a chorar outra vez, roubando toda a atenção da mãe, que correu até lá e retornou com a criança no colo.
— Me desculpa. Ela estava com fome. – Stella estava procurando alguma coisa na bolsa. – Espero que não tenha te feito esperar muito.
— Não, sem problemas. – Entregou uma quantia maior do que a necessária para pagar a conta nas mãos dela. – Aqui, e pode ficar com o troco.
— Muito obrigada. – As palavras demoraram para sair, pois estava realmente boquiaberta. – E me desculpe por ficar falando sobre bebês o tempo todo... – Abriu um sorriso agradecido. – Eu acho que não é para isso que as pessoas vêm para um bar.
— Eu admiro muito a forma com que você tem lidado com as coisas. – Enrolou o cachecol ao redor do pescoço. – Espero que dê tudo certo para você e para essa princesinha.
— Eu acho que preciso achar outro trabalho.
— E irá. – Apertou a mão dela. – Eu acho que estava destinada a entrar nesse bar essa noite. – Os rostos delas foram iluminados por sorrisos enormes. – Muito obrigada mesmo.
No laboratório, outra pessoa estava ansiosa para saber notícias dela.
— Oi. – Will tocou o ombro da amiga. – E como foi que ela reagiu?
— Oi. – Lambeu o lábio superior, olhando para ele com tristeza. – Eu estava mesmo te esperando.
A testa dele se contraiu numa careta, e ele passou a mão.
— Então ela ficou muito chateada? – A expressão da mulher ficou ainda mais fechada, enquanto mordiscava os lábios. – Eu sei que ela estava muito ansiosa para esse jantar.
— Eu não queria te atrapalhar, porque sabia que você estava muito ocupado. – Os lábios dela estavam sofrendo com aquele festival de dentes em cima deles, mas era a única maneira de aliviar o nervosismo dentro dela. – Eu nem sei como te dizer isso... mas a Stella não chegou ao restaurante. Nem está atendendo o celular, e também não está em casa.
No quarto de hotel, ela destrancou a porta, respirando fundo ao entrar. A felicidade de entrar em um ambiente sem choros e gritos foi arrebatadora. Retirou o sobretudo lentamente, passando os dedos entre os cabelos na mesma velocidade. Foi um longo dia, mas também muito prazeroso. Em seguida, retirou os sapatos e se deitou na cama. Era bom interpretar aquele personagem. Era bom ser a Georgie.
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