Stella
42 Evento traumático
Notas iniciais
Stella sempre soube que não conseguiria fugir do seu passado pelo resto da sua vida, mas não esperava receber um golpe tão grande do destino. Os deuses pareciam mesmo estarem brincando com ela, como se ela fosse uma marionete ou alguma coisa do tipo. Sem saber como fugir daquele som, ela levou as mãos aos ouvidos, tapando com tanta força que chegava a doer, mas aquilo não incomodava, preferia a dor do que a tortura de ficar ouvindo aquele assobio.
O marido dela só percebeu o que estava acontecendo quando fez uma pergunta para ela e não ouviu a resposta. Então chamou o seu nome mais uma vez, igualmente sem resposta. Acabou decidindo olhar para trás, se deparando com a cena de sua esposa tapando os ouvidos com as mãos.
— Stella? – Abandonou o que estava fazendo para acudir a mulher, que estava pálida como se tivesse acabado de ver um fantasma. – Minha querida? – Segurou as mãos dela com muita delicadeza, e só então as tirou de seus ouvidos. – Ei, tudo bem? – Os seus olhos procuraram algum sinal de concordância nos dela. – Sou eu. – Lentamente a envolveu em um abraço, apertando-a com uma força contida. – O que foi? – Afastou a mulher para olhar em seus olhos. – O que aconteceu?
Ela tentou explicar ao marido o que estava acontecendo, mas a sua voz simplesmente não saía. O homem a abraçou mais forte quando ela começou a chorar. A única coisa que sentia no momento era vontade de abandonar o trabalho e levá-la para casa, mas não podia se dar ao luxo de abandonar um caso. Sem nenhuma outra alternativa, ele a acompanhou até a recepção e pediu para a recepcionista ficar com ela até que ele terminasse de processar a cena do crime, não queria deixá-la sozinha no carro naquele estado.
O serviço foi concluído com muita agilidade, em seguida eles pegaram o carro e voltaram para o laboratório. Will estranhou o silêncio da mulher, mas decidiu não a perturbar com perguntas fora de hora, esperaria o momento certo para isso. O restante do serviço ficaria sob responsabilidade de Chad, que havia retornado ao trabalho há apenas alguns dias, mas que já estava ansioso para mostrar serviço.
— Uma moeda por seus pensamentos. – Ela olhou para a moeda na palma da mão do marido e sorriu. – Duas?
— Os meus pensamentos são muito mais caros que isso, Taylor. – Arqueou as sobrancelhas, dando uma risada tão gostosa que fez o coração do homem bater mais rápido. – Valem no mínimo umas dez dessas.
— Então acho que sou pobre demais para comprar os seus pensamentos, Taylor. – Abriu um sorriso muito sincero e a abraçou. – Mas você quer me contar o que te deixou daquele jeito?
A expressão dela se fechou e ela se arrumou no banco.
— É uma longa história...
— Sem problemas. – Aquele sorriso continuava no seu rosto. – Temos todo o tempo do mundo... – Olhou para o relógio em seu pulso e limpou a garganta. – Todo o tempo do mundo até às 19h, que é a hora que a Kate vai para casa.
Ela riu do comentário e respirou fundo.
— Eu acho que ser órfã é uma das piores coisas do mundo... – Aquilo saiu tão baixo, que parecia mais um sussurro ou um mero ruído. – Não tem ninguém para te proteger, sabe? – Apertou a própria coxa. – Eu passei por tanta coisa ruim naquele lugar...
Ele não podia nem imaginar os horrores que ela tinha vivido na sua infância, e nem ousaria mensurar o tamanho da dor que ela carregava em seu peito, então se limitou a acariciar as suas costas e oferecer-lhe um sorriso gentil, não queria que ela se sentisse obrigada a falar sobre um assunto tão delicado.
— Eu via muito aquela expressão... em ex-fuzileiros. Mas não precisa me contar...
Ela respirou fundo para criar coragem.
— Não...
O marido dela levou a mão até o seu rosto, fazendo carinho em sua bochecha com o polegar.
— Estou aqui com você.
— Nós sempre sabíamos quando ele estava chegando... – O seu tom ficou mais sombrio. – Sabe como?
O homem negou com a cabeça, e ela aproveitou a deixa para lançar um olhar ainda mais sombrio sobre ele e imitar exatamente o mesmo som que eles tinham ouvido naquele quarto de hotel. Os pelos do braço dele se eriçaram como se ele estivesse na pele dela.
Anos atrás – Orfanato em Calamata
Stella estava acostumada a se esconder nos lugares mais inóspitos do orfanato, era tão boa nisso que sabia exatamente onde os outros não procurariam de jeito nenhum. No entanto, era uma pena estar usando aquele armário para se esconder daquele homem asqueroso. A sua respiração estava alta demais para alguém que deveria passar batido, então ela fechou os olhos e tentou pensar em alguma coisa boa, assim seria mais fácil respirar. O coração da menina disparou enquanto o som do assobio dele ficava cada vez mais próximo. Ela sabia exatamente o que iria acontecer, mas tentou não se deixar dominar pelo medo.
— Stella. – O homem disse baixo demais. – Vem aqui. – Ela conseguia ouvi-lo andando de um lado para o outro, enquanto revirava o lugar inteiro. – Eu tenho um brinquedinho novo para você. – O barulho do couro em contato com os móveis deu um susto nela, que deu um pulinho, batendo a cabeça no teto.
Ela sabia exatamente o que aquilo significava, e não estava disposta a inaugurar mais um daqueles brinquedinhos dele. No entanto, parecia que os deuses não estavam mesmo ao seu lado, pois não demorou muito para que ele a encontrasse encolhida no fundo do armário. Ele abriu um sorriso cheio de dentes, como se tivesse acabado de encontrar um tesouro, e a segurou pelos cabelos, a arrastando para fora. A menina acabou cometendo o erro de tentar sair correndo, o que só ajudou a piorar ainda mais as coisas. Ele simplesmente usou o cinto para dar uma única chicotada em suas pernas, que a fez cair de cara no chão.
O único movimento que ela fez para tentar se proteger das agressões dele foi usar os braços para tentar salvar o rosto, mas ele os puxou para baixo, e começou a chicotear todas as partes visíveis do seu corpo. Rosto, pernas, braços, barriga. O contato do cinto com sua pele, queimava como fogo e os seus olhos quase não conseguiam mais segurar as lágrimas. Ela sabia que não podia chorar, pois isso serviria como combustível para ele, então só aguentou firme até que tudo acabasse. No fim, ela se encontrava desolada sentada ao lado de uma poça do próprio xixi e ainda segurando o choro, não queria apanhar mais. O homem abriu um sorriso vitorioso para ela, como se tivesse se divertido muito com todo o sofrimento que causou nela e saiu.
O restante da semana se resumiu em tentativas de esconder as marcas deixadas em seu corpo com roupas mais largas e ficar longe dos outros órfãos. Os seus amigos até notaram a sua falta, mas preferiram não incomodar com perguntas sobre o que teria acontecido naquele dia, sabiam que ela era do tipo de criança que preferia resolver os seus problemas sem o envolvimento de terceiros.
A única coisa que ainda a animou no decorrer de todos aqueles dias foi ir à igreja visitar o padre Sinead, ele sempre sabia exatamente o que dizer para acalmar o seu coração. A primeira coisa que ele perguntou ao colocar os olhos nela foi porque ela estava usando roupas tão compridas, e ela tratou logo de ir mudando de assunto. O padre tinha as suas suspeitas, mas escolheu respeitar o seu silêncio.
— Padre... – O seu lábio inferior começou a tremer. – Eu posso fazer uma pergunta?
Ele sorriu para ela e assentiu.
— Mas é claro.
— Eu queria... saber... porque eu não tenho uma mãe e nem um pai...
O padre abriu a boca para responder, mas ficou sem palavras, então segurou as mãozinhas da menina entre as suas e olhou no fundo dos seus olhos.
— Eu não sei a resposta desta pergunta, minha filha. – Abriu um sorriso carinhoso, quase paternal. – Mas sei que você veio para esse mundo para nos agraciar com a sua existência. – Ergueu o queixo dela com o indicador. – E tudo acontece exatamente como tem que acontecer. – Usou as duas mãos para acariciar os seus cabelos. – Agora você quer a sua bênção, mocinha?
A mocinha assentiu, colocando um sorriso enorme no rosto. O padre arrumou a postura e colocou a mão sobre a sua cabeça.
— Que o caminho seja brando aos teus pés, o vento sopre leve em seus ombros, que o sol brilhe sobre a tua face. – Encerrou a oração dando um tapinha nas costas dela, que sorriu em troca. O padre a segurou pelos ombros antes que pudesse sair correndo. – Minha filha... – Umedeceu os lábios. – Eu quero que se lembre muito bem disso... – Ela simplesmente assentiu. – Stella, ninguém é forte sozinho.
O rosto dela se contraiu numa careta, não tinha entendido uma palavra do que ele havia dito, mas também não teve coragem de perguntar o que aquilo significava, então agradeceu ao padre pelas palavras e pela bênção ofertada e saiu correndo.
Fim do flashback
— Eu acho essa oração tão linda. – Abriu um sorriso saudoso. – Era a minha preferida. Ela me confortou nos piores momentos da minha vida, espero que faça o mesmo na vida da nossa filha.
— Ela é linda mesmo. – Beijou o topo da cabeça dela. – Eu sinto muito por tudo isso...
— Essa nem foi a pior coisa que aconteceu comigo naquele lugar... – Levou a mão à testa, soltando um longo suspiro. – O pior mesmo era ter que deixar de comer para dar para as crianças mais novas. – A sua voz vacilou. – Não tinha o bastante para todo mundo. Eu acho que é por isso que eu sou tão magra. – Soltou uma risada sem graça. – O meu corpo ainda não entendeu que não precisamos mais fazer isso.
Will não disse mais nada, apenas a puxou para os seus braços, a envolvendo em um abraço muito apertado. Eles ficaram assim até ela fazer um comentário sobre a hora, então os dois se levantaram e foram embora para casa. O seu coração se encheu de alegria quando abriu a porta e foi recebida pelo sorriso banguela da filha, foi quando soube que o padre Sinead realmente tinha razão.
A angústia também era um sentimento muito presente na vida de Danny desde que a sua esposa fora hospitalizada. O mais complicado era procurar respostas no escuro, Lindsay não se lembrava de muita coisa, e o que ela lembrava não era de muita serventia. A sua memória parecia mais um quebra-cabeça com peças faltando, e por mais que tentasse se lembrar de alguma coisa, era inútil.
Naquela noite, antes de dormir, orou, pedindo para que alguém lá em cima lhe desse uma luz. O seu pedido parece ter sido ouvido, pois naquela mesma noite os eventos daquele dia a atingiram como um raio.
Hospital Mercy – Quarto 940
O clima entre as duas mulheres havia melhorado muito, nem parecia que tinham discutido há tão pouco tempo, mas agora tudo aquilo eram águas passadas. Era tão boa a sensação de ter colocado tudo para fora e tirado aquele peso de suas costas. Jas não gostava de guardar segredos, muito menos de ser vista como uma traidora.
— Eu preciso mesmo ir ao banheiro, tudo bem se continuarmos essa conversa quando eu voltar? – Soltou as mãos da cunhada.
— Tudo bem, pode ir. – Sorriu. – Eu vou sobreviver.
— Eu volto daqui a pouco. – Levantou da cadeira, indo em direção à porta, dando uma última olhadinha para ela antes de deixar o quarto.
Lindsay sorriu para si mesma, virando a cabeça para o lado e fechando os olhos, pretendia descansar um pouco enquanto ela não voltava. Estava quase se perdendo em seus próprios pensamentos, quando ouviu o barulho da porta se abrindo, estranhou de imediato, era impossível ser ela. Então simplesmente abriu os olhos para ver quem era, dando de cara com um homem negro de estatura mediana a encarando com um olhar enigmático. No começo, achou que pudesse ser algum médico ou enfermeiro, por conta de suas vestes, mas não se lembrava de nenhum funcionário com aquela descrição.
Mas pode ser um funcionário novo.
Foi exatamente o que pensou enquanto ele lia o seu prontuário.
— Lindsay Messer? – Olhou para ela, que assentiu com um sorriso amigável.
O homem calçou as luvas ao ter a confirmação e tirou uma seringa do bolso. O sorriso que ele deu deixou a pele dela arrepiada, como se soubesse que tinha alguma coisa muito errada acontecendo. Ela se encolheu na cama, como se quisesse fazer parte dela, e o sorriso que tinha nos lábios foi lentamente desaparecendo.
— Qual é o problema? – Chegou mais perto, fazendo a mulher se encolher mais. – Medo de agulha? – O seu sorriso se abriu ainda mais, deixando tudo ainda mais assustador. – Ah, me desculpe. – Levou a mão à testa, dando meia-volta para ir fechar a porta, fazendo questão de também fechar as persianas da porta e das janelas. – Não queremos nenhuma interrupção, não é mesmo? – Voltou para perto dela. Lindsay até pensou em gritar, mas seria um esforço inútil. – Então vamos ao que interessa. Eu sei que você deve estar pensando em gritar, e esse é um ótimo instinto, mas prefiro que você não complique ainda mais as coisas. – Riu. – Que cara é essa? Eu não tenho nada contra você, mas seu maridinho precisa aprender uma lição. E infelizmente a vida é assim. – Explicou, enquanto andava de um lado para o outro. – Os mais velhos costumam dizer que o tempo é tudo em nossas vidas, e o seu está mesmo acabando... culpa do seu marido, é claro.
Ela encarou aquela seringa nas mãos dele, tentando pensar em alguma coisa que ajudasse a ganhar um pouco mais de tempo.
— E o que você vai fazer?
— Não precisa se preocupar com nada disso. – Soltou uma risada, mudando a seringa para a sua mão dominante e indo até ela. – Sério mesmo. Eu juro que não sou do tipo que esfaqueia alguém trinta e sete vezes e vai embora coberto de sangue. Eu acho que quanto mais sutil for a coisa, melhor ela é. – Ela engoliu em seco, torcendo para alguém entrar naquele quarto e a tirar daquele pesadelo. – É muito mais criativo, não acha? Mas enquanto nada disso acontece, acho que podemos conversar um pouco, assim tiro algumas dúvidas. – Estudou bem o rosto dela. – Onde está o seu orgulho?
Lindsay franziu as sobrancelhas numa careta.
— O quê?
— Olha a situação em que você se enfiou, e tudo por causa daquele cara. – Abriu um sorriso cínico. – Um policial viciado que é a causa da sua morte.
Ela fechou a cara.
— Isso não é verdade.
— Tem certeza? – Riu. – É porque está parecendo que as drogas sempre estarão em primeiro lugar na vida dele.
— O Danny não é mais um viciado.
— Ainda não, mas voltará a ser... muito em breve. – Olhou no fundo dos olhos dela. – Uma decepçãozinha e ele já voltou a usar.
— Não...
— Tudo bem, você venceu. – Fingiu bater palmas. – Talvez tenhamos ajudado um pouco. Dois de nós o segurou e o terceiro injetou a coisa nele. – Estava quase sentado na cama quando disse aquilo. – Um produto da melhor qualidade. Foi como ver alguém voltando para casa depois de muito, muito tempo. – Virou as costas para ela, que aproveitou para puxar um pouco o fio que lhe daria acesso ao botão para chamar os enfermeiros. – Eu acho que você sabe exatamente o que aconteceu depois. – Virou para ela. – Ele aproveitou cada segundo daquilo, foi como desfrutar da companhia de um velho amigo. A vida ganhou cor outra vez.
— Mas ele lutou tanto para ficar sóbrio...
— Ah... a sobriedade... eu sei como é... – O rosto dele se contraiu numa expressão de falso choro. – Mas nem tudo é como a gente quer...
— Não faça isso com ele.
— Oh... – Levou a mão ao peito. – Isso é tão comovente. – Aquela expressão de falsa tristeza continuava estampada no seu rosto. – Tanta preocupação com um cara que não liga para nada. – Riu. – Não me olha assim, eu não sou um monstro. Eu acredito muito no amor verdadeiro, sério mesmo. Mas infelizmente... – Pulou em cima dela, arrancando o fio das suas mãos. – Você está no meu caminho. – Atirou o fio no chão, indo desligar o monitor cardíaco dela. – Eu era jardineiro, e antigamente as rosas eram a minha paixão. – Foi até a beirada da cama, onde havia deixado a seringa. – É uma flor maravilhosa. – Tirou um frasco de vidro de dentro do bolso e o destampou, enfiando a agulha lá dentro. – Sabia que as primeiras rosas têm cerca de dois milhões de anos? Não é incrível? – Esperou a seringa se encher de líquido. – É uma beleza tão delicada, combinada com uma vontade tão grande de sobreviver. – Sorriu. – Eu sei que você tem muita vontade de sobreviver. Eu sei... porque a vida é uma coisa tão linda, uma coisa linda em um mundo feio. – Mostrou a seringa para ela. – Você deve estar se perguntando o que é isso aqui. É só uma coisinha que o meu médico me receitou. – Mostrou os dentes para ela. – Essa é só mais uma das vantagens que eu tenho com esse negócio, médicos que trabalham para mim. É o que me ajuda a evitar todo o trabalho de tentar convencer algum médico a receitar um remédio para uma doença que eu nem tenho. É só fazer uma ligação e prontinho, tenho exatamente o que eu preciso nas minhas mãos.
— Então você vai me drogar...
— Oh... – Levou a mão à boca. – É mesmo, essas daqui vêm direto de uma padaria no centro da cidade. – Mostrou o outro frasco para ela, molhando o pano com um líquido que ela não sabia o que era. – Estamos espalhando alegria por toda parte, e é bem mais fácil vender nas ruas usando uma padaria como fachada. – Umedeceu os lábios. – Mas você percebeu que ainda não coloquei tudo? – Apontou para a seringa que estava segurando com a mão esquerda. – É porque ainda preciso que responda algumas perguntas. O seu marido sabe quem está por trás de tudo isso?
Lindsay negou com a cabeça, sentindo os olhos arderem.
— Não.
— Não. – Imitou a voz dela.
— Não.
— Ótimo. – Abriu um sorriso vitorioso. – Essa informação poderia até salvar a sua vida, mas é como eu disse... você está no meu caminho. – A mulher se encolheu ainda mais na cama. – Mas você entende, não entende? A vida é assim mesmo. – Acabou com o restante da distância entre eles, indo para cima dela com o pano nas mãos. Ela tentou escapar, mas estava indefesa.
— Não. – Usou os braços para se proteger, mas numa fração de segundos, aquele pano estava sendo pressionado contra o seu nariz.
— Vamos lá. – Segurou a sua cabeça. – É só... – Forçou o pano em seu nariz, imobilizando os seus braços para que não tivesse a chance de escapar. – Só tentar relaxar e seguir o roteiro. – Ela sacudiu a cabeça e se debateu na cama, mas ele era muito mais forte que ela, e conseguiu a imobilizar sem nenhuma dificuldade. – A vida é mesmo cheia de surpresas, não é? E muitas delas podem levar à morte, só resta aceitar. Eu sei que esse assunto é muito delicado para você, mas a vida é isso mesmo. – Lindsay foi fechando os olhos aos poucos, estava muito cansada para continuar lutando. – Isso, relaxa. – Aquilo foi só um sussurro. – Você vai encontrar a paz eterna. É tarde demais agora. – Saiu de cima dela com um sorriso no canto dos lábios. – Acredite ou não, você me pegou em um bom dia. Os meus planos para o seu marido são muito piores, ele vai morrer aos poucos, um comprimido de cada vez.
O homem estava prestes a enfiar a agulha na bolsa de soro dela, quando ouviu passos no corredor e se escondeu atrás da porta para não ser visto. Jas abriu a porta quase no mesmo momento.
— Lindsay. – As suas sobrancelhas se franziram numa careta involuntária. – Ei, Lindsay. – A ausência de resposta deixou uma sensação estranha no seu peito, mas mesmo assim decidiu deixar a outra descansar mais um pouquinho. – Eu volto mais tarde.
Com medo de ser pego no flagra, ele verificou os sinais vitais dela, pegou um dos travesseiros que ela estava usando, retirou um canetão do bolso e escreveu a palavra mentiroso em caixa-alta na fronha, então o colocou novamente atrás da cabeça dela e saiu do quarto. Mas para o seu azar, ela era realmente muito boa em se fingir de morta.
Fim do flashback
O grito que ela deu ao acordar ecoou pelo quarto, assustando a jovem enfermeira, que estava ali só para injetar mais uma dose de morfina na sua veia. A mulher limpou o suor que escorria do seu rosto com as mãos e se desculpou com a moça, voltando a se aconchegar na cama. Aquele com certeza tinha sido o evento mais traumático de toda a sua vida.
Enquanto cantava para a filha dormir, Stella também pensava no próprio evento traumático que tinha acabado de relembrar. Mas tentava não pensar em nada ruim enquanto ninava o bebê em seus braços, ela merecia todo o amor do mundo. Cantou até notar que ela estava começando a fechar os olhinhos.
— Tenha bons sonhos, meu amor. – Colocou a menina adormecida dentro do berço. – A mamãe te ama demais.
— E o papai também. – Will completou, cruzando os braços e se encostando na porta.
— E o papai também. – Adicionou, colocando um sorriso no rosto e acariciando o rostinho da filha. Então acabou se lembrando da oração do padre Sinead. – Que o caminho seja brando aos teus pés, o vento sopre leve em teus ombros, que o sol brilhe cálido sobre a tua face... que as tarefas do dia não sejam um peso em teus ombros, e que os deuses te envolvam num manto de amor. – Concluiu a oração dando um beijinho na testa dela.
O marido dela sorriu com a cena, a abraçando pelos ombros quando ela passou por ele e a apertou contra o seu peito. Os dois estavam deitados na cama quando ela se lembrou que ainda tinha mais uma coisa que ela não havia contado para ele.
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