Stella

53 Erro de cálculo


Notas iniciais
Bom dia! Eu sei que demorei quase 6 meses para postar um capítulo novo, mas quero que vocês saibam que não estou desistindo da história e nem desistirei... mas a minha vidinha está muito corrida, então é isso. Mas prometo que me esforçarei um pouco mais (ou tentarei). Boa leitura!

Os pensamentos de Stella ainda orbitavam exclusivamente em torno daquele único caso, e nem mesmo uma rotina agitada de trabalho fazia com que ela parasse de pensar em como fora leviana. E agora, uma pessoa inocente poderia estar vendo o sol nascer quadrado por causa disso.

A imagem de Hannah surgia em sua mente entre um relatório e outro, um lembrete constante do seu descuido, e aquilo pesava muito mais do que ter que comandar toda a equipe. A investigação corria em absoluto segredo; somente ela e mais umas três pessoas sabiam para que um dos laboratórios vagos estava sendo usado.

O trabalho começara a tomar uma enorme parcela de sua vida naqueles últimos dois dias; esboçou um sorrisinho ao lembrar que seu marido diria que aquilo tudo estava parecendo mais com uma obsessão. O rosto dele reivindicou seu lugar em sua mente e o remorso fechou sua garganta. As coisas estavam tão corridas que não dava mais tempo para vê-lo nos intervalos entre os turnos.

A nova amostra estava fresca e era o motivo perfeito para sair correndo e voltar para o laboratório, que se tornara praticamente uma segunda casa. As suas pernas praticamente a carregavam para lá quando Will cruzou o seu caminho.

— Oi.

— Oi. Olha, eu... sinto muito... – A vergonha internalizada falava tão alto que nem precisou olhar na cara dele para concluir que aquela conversa seria sobre a óbvia lacuna deixada por ela na família. – Eu sei que...

Os seus olhares se cruzaram pouco antes dela abaixar a cabeça e limpar a garganta como quem devia muito ao marido. Na falta do que fazer com as mãos, iniciou uma tentativa nervosa de arrumar os cabelos desgrenhados, ouvindo uma risada vinda dele. Respirando fundo, amarrou o cabelo com uma das mechas soltas e também riu.

— Eu imaginei que estaria mesmo muito ocupada para ouvir as novidades...

A mera menção da palavra a fez levantar a cabeça.

— O quê?! – Usou as duas mãos para segurar os braços dele. – A Michelle não está em cana, está?

Ele riu.

— Não. – Negou com a cabeça, escondendo um sorrisinho quando ela largou seus braços e respirou fundo. – O caso é o mesmo, mas os suspeitos não. A Michelle está imune até que alguém realmente consiga provar o potencial assassino dela. – A mão dela foi parar no próprio peito e ela sorriu abertamente, mas esse sorriso desapareceu na frase seguinte. – E o mesmo vale para a Diana.

Os cabelos de Stella estavam inacreditavelmente ainda mais desgrenhados quando ela correu do laboratório, onde foi pegar alguns arquivos do caso, e foi direto para a sala de Will. A conversa tinha que ser um tanto mais reservada, então tomou o cuidado de fechar as persianas das janelas e da porta, pois todo mundo sabia que a ardilosa primeira-dama tinha ouvidos em todos os lugares.

— Viu? – Ergueu uma pasta na altura dos olhos dele, colocando-a em cima de sua mesa para se sentar na cadeira de frente para ele. – Eu te disse que valia a pena ser um pouquinho obsessiva de vez em quando. – O sorriso vitorioso que ela abriu aqueceu o peito dele, que abriu um parecido, sem deixar o ceticismo sumir completamente do rosto. – O que foi? Nem vem! Não me olha assim! Eu te falei que, com certeza, a Hannah não tinha o costume de apagar o histórico de chamadas dela.

Arqueando uma sobrancelha, ele sacudiu a cabeça.

— Mas não era para a senhora estar no Frisson com os nossos amigos?

— Até era... – Umedeceu os lábios, mordiscando-os no fim. – Mas, então, quem seria a mente brilhante por trás dessa descoberta ma-ra-vi-lho-sa, hein, meu amor?

— Mas... achei que já soubéssemos que o terceiro elemento é mais baixo que o prefeito, e que provavelmente fosse da mesma altura da Hannah. Não sabíamos?

— Uma mulher que adora saltos altos.

— E que poderia muito bem ser a Michelle. Ela tem motivos e teve a oportunidade. E ela tem ficado cada vez mais suspeita.

Ela fechou a cara para ele.

— Vai com calma. A Michelle não matou a Hannah, e eu vou te provar com a maior facilidade desse mundo.

As mãos dele foram parar em seus ombros enquanto ele a encarava com todo o carinho.

— Eu sei que é muito delicado para você, mas algumas vezes temos que simplesmente admitir a derrota, mesmo que não...

Ela afastou as mãos com um único movimento.

— Que derrota? Que nada! – Estalando a língua em desgosto. – Eu não sei quem te disse que estou derrotada, meu bem.

— Eu sei como é descobrir uma coisa...

— A Michelle não matou a Hannah.

Aquela conversa estava a caminho de virar uma discussão quando a porta do elevador principal se abriu, e Michelle saiu como se tivesse sido invocada pelas palavras da amiga. Eles se encararam por uma fração de segundos e foram ao seu encontro.

— Oi. – Ergueu a mão esquerda. – Estava indo para casa. Todo mundo que eu conheço acha que sou uma assassina...

— Oi. – A outra mulher a cumprimentou com um sorriso animado. – Ei, pensa rápido, Michelle! – As chaves foram atiradas na sua direção, e ela, como o esperado, as agarrou com a mão esquerda, arrancando uma risada vitoriosa da detetive. – Bingo! – Encarou o marido, sendo encarada por dois pares de olhos igualmente confusos.

— O quê? – As sobrancelhas dela se arquearam. – O que foi isso? E por que jogou as suas chaves para mim?

— O Will e eu fizemos uma aposta. – Aquele sorriso irritantemente vitorioso parecia estar grudado em seu rosto. – E eu ganhei!

Notando a confusão no rosto da amiga, Will se apressou em explicar:

— Ela disse que você era canhota, e eu apostei o contrário. – Sacudiu a cabeça. – Uma péssima ideia.

— Então quer dizer que você me chamou aqui... no que eu acho que é um dos piores dias de toda a minha vida por causa de uma aposta? – A sua expressão se fechou numa careta enquanto ela encarava o chaveiro entre seus dedos. – É isso mesmo que eu entendi?

— Não... – Negou com a cabeça. – Estávamos só tentando provar que você é inocente...

— Por eu ser canhota?

A mão de Will foi parar no ombro dela, e a de Stella foi para o outro.

— Na verdade, essa é uma das peças que estava faltando na nossa investigação.

— Eu te prometo que vou descobrir o que realmente aconteceu com a Hannah. – Acariciou o ombro dela. – Mas, por enquanto, só queria que soubesse que não acho que foi você quem matou ela.

Ela a agradeceu com um sorriso desanimado.

— Oh, Stella. Estou muito agradecida pelo que tem feito. – Entregou o chaveiro para ela. – Mas acho que nenhum de vocês deveria estar se preocupando com isso, porque... – Algumas mechas de cabelo foram colocadas atrás de sua orelha. – Mais cedo ou mais tarde, a verdade vai acabar aparecendo.

A evidente indiferença de Michelle acabou inflamando ainda mais a sede de justiça de Stella e, enquanto a noite cobria a cidade, ela continuou trabalhando em cima das evidências.

— Eu acabei, oficialmente, de encerrar o meu turno. – Will comentou com orgulho, passando por ela para anotar as conclusões no computador. – Você acredita que recebi um garoto que morreu com um skate cravado no crânio? – Ela fez uma careta para ele, mas não disse nada. – Me lembre de não deixar a nossa filha chegar perto dessas coisas, e nem de meninos que gostam desse tipo de coisa, tá? Vamos colocar isso na nossa lista.

— Foi uma noite e tanto, não foi?

— Nossa, nem me fale. – Ela levou um sustinho quando ele chegou por suas costas e lhe deu um beijo na bochecha. – Mas ainda bem que acabou. – Largou as pastas na mesa ao lado das dela. – E o que a senhora quer fazer agora? O que acha de dar um pulinho no Frisson?

— Não. – Um biquinho surgiu em seus lábios enquanto ela deixava a voz mais manhosa. – Os nossos amigos já foram embora uma hora dessas. – Um sorriso exausto tomou conta daqueles lábios enquanto ela encostava o quadril no dele. – E, além disso, prefiro ir para casa com o meu maridinho.

— Oh! – Abriu um sorriso chocado. – Essa era exatamente a resposta que eu estava esperando ouvir. – Beijou o topo de sua cabeça. – E quer saber de uma coisa? – As suas mãos deslizaram por debaixo do jaleco dela, acariciando suas costas. – Eu acho que vou te ajudar a levar todo esse trabalho para casa.

Rindo, ela arrumou algumas pastas e entregou para ele.

— Eu sei que pareço meio obcecada com toda essa história, mas o meu instinto está me dizendo que a Michelle está sendo só um bode expiatório nisso tudo, e que tem alguma coisa muito errada com Diana Hubbard. Isso sem falar que ela parece extremamente determinada a não deixar que a morte da Hannah arruíne a carreira brilhante do marido dela, mesmo que isso signifique jogar tudo nas costas da Michelle...

— Você é uma mulher muito inteligente, sabia? – Mordiscou a lateral do pescoço dela, finalizando com um beijinho. – Eu sou burro demais para você.

Ela riu, segurou a mão dele e beijou a palma.

— Eu sei que devo estar te enlouquecendo com tudo isso...

— Mas não está. – Acariciou o seu rosto com a mesma mão que ela beijara. – Estou orgulhoso, e muito feliz pela Michelle ter uma amiga que acredita tanto nela. Ela tem muita sorte.

— Muito obrigada? Olhei as fotos da necropsia um trilhão de vezes, e juro por tudo que é mais sagrado que aquele padrão não bate com o de alguém que use a mão esquerda. – Esfregou os olhos com as costas das mãos. – Aquele... – A frase foi interrompida por um longo bocejo. – Aquele hematoma indica que alguém bateu nela da direita para a esquerda, e a Michelle acabou de provar que ela é canhota...

— Não é só porque você a viu pegando um chaveiro com a mão esquerda que isso necessariamente prove alguma coisa...

— E quem é o especialista em patologia forense aqui? Sou eu ou você?

Ele ergueu os braços e se afastou dela.

— Não está mais aqui quem falou. Mas, mesmo assim, isso não prova nada.

— Ela mesma disse que ela é canhota. Além disso, seria muito estranho ela pegar aquele chaveiro justamente com a mão esquerda, não acha?

— Eu não quero bancar o advogado do diabo nem nada do tipo, mas você teria como provar isso no julgamento?

Ela abaixou a cabeça.

— Eu não faço ideia, mas quer apostar quanto que a Diana é destra?

No dia seguinte, os olhos de Stella nem bem estavam abertos direito e ela já estava correndo para o laboratório. Uma nova integrante fora adicionada à sua equipe naquele meio tempo: Lily.

A mãe deveria estar de folga naquele sábado, mas não conseguia ficar em casa sabendo que a vida e a reputação de Michelle estavam indo para a lama. Os colegas receberam a menininha com enorme entusiasmo, brincando e fazendo caretas para arrancar-lhes algumas risadinhas.

Lily também era muito sociável quando queria e tinha uma habilidade impressionante de prender a atenção de todos ao seu redor com aqueles seus olhinhos azuis. Vendo como seus amigos foram completamente enfeitiçados pelos encantos de sua filhinha, Stella anotou isso mentalmente; poderia ser de grande utilidade em um futuro muito próximo.

A pesquisa corria maravilhosamente bem enquanto a pequena brincava com seu ursinho e balbuciava alguma coisa. A mãe também tomou o cuidado de deixá-la esticar as perninhas de vez em quando, mesmo que o ambiente não fosse muito propício para as peripécias de um bebê da idade dela. Mesmo concentrada no trabalho, fazia algumas pausas para alimentá-la ou para rir de suas brincadeiras. Lily estava no meio de uma mamadeira quando seu pai entrou.

— Olha só quem está aqui, papai! – Retirou a filhinha do carrinho e a ergueu, enchendo as suas perninhas e a sua barriguinha de beijinhos. – Está trabalhando com a mamãe, meu amorzinho? É? É? – As perguntas foram pontuadas com um beijinho para cada. – Está, não é?

— Mamãe, baiando! – Ergueu a mamadeira, sacudindo e rindo com imensa euforia enquanto o pai terminava de beijar o restante do seu corpinho. – Papai! Beijo!

Ele empurrou a cadeira para mais perto da esposa, sentou a filha em suas pernas e beijou o ombro da mãe dela.

— Então foi aqui que você veio beber tequila com as meninas, hein?

Ela olhou para ele.

— E como você sabia que eu estava aqui?

— Eu acho que é porque você não acorda tão cedo assim na sua folga. – Encarou as inúmeras pastas espalhadas pela bancada enquanto esperava ela terminar de analisar alguma coisa no microscópio. – Hannah Knox. Eu achei que era para tudo isso estar na mesa de outra pessoa agora.

— E era mesmo. – Ergueu os olhos para olhar para ele. – Mas, infelizmente, não temos outro especialista livre...

— Stella... – Umedeceu os lábios, pensando nas próximas palavras. – Eu acho que isso está meio que realmente se transformando numa obsessão.

— Eu tenho que ter certeza de que não estou deixando nada para trás. – Mexeu numa das pastas, adicionando mais um arquivo. – Eu acusei o prefeito e meti a Michelle nessa enrascada.

— Então agora está tentando encontrar alguém para culpar, é isso?

Ela o censurou com os olhos, afastando algumas mechas de cabelo do rosto.

— Não, é claro que não. Mas tenho que confiar nos meus instintos, e eles me dizem que a Michelle não tem absolutamente nada a ver com isso. – Acariciou o rosto dele com a mão livre, presenteando-o com um sorriso cansado. – Mas não tem problema se quiser levar a nossa coisinha para casa. – Beijou uma das bochechinhas de Lily.

O homem simplesmente arrastou a cadeira para o lado esquerdo dela, onde teria livre acesso para mexer nas pastas, e pegou uma delas.

— Então, acho que esse será um caso em família, não é, meu amorzinho?

O sorriso que Stella abriu roubou o fôlego dele.

— Então você acredita em mim?

Ainda com a mamadeira na boca, mordendo a borracha, Lily respondeu:

— Dito!

— Viu? – Ambos caíram na risada, dando beijinhos naquelas bochechinhas. – E o papai também.

A pesquisa se estendeu por horas e, mesmo com a empolgação dela aumentando a cada relatório lido por seu parceiro, o trabalho foi finalizado sem nada realmente significativo para o caso. A mulher transbordava frustração quando embalou a filha em seus braços cansados, então olhou para aquele rostinho e teve uma ideia: era a vez da nova integrante trabalhar no caso.

A mãe simplesmente colocou a menina no carrinho e saiu do laboratório com um único destino em mente. Em alguns minutos, mãe e filha estavam paradas em frente à casa do prefeito. O carrinho fora estrategicamente posicionado na frente do portão, assim, poderia ser ouvida por quem estivesse passando.

— Escuta bem, minha bonequinha. – Agachou na altura do carrinho, sussurrando para explicar os pormenores do seu plano. – Agora que estamos bem na frente do portão dessa mansão enorme, a sua única missão é ajudar a mamãe a atrair alguém para cá. Você sabe por que eu te trouxe aqui, não sabe? É porque uma menininha linda como você tem uma habilidade especial de chamar a atenção das pessoas. – A bênção do padre Sinead cruzou sua mente, e ela a recitou baixinho e fez o sinal da cruz na testa da criança, como ele costumava fazer na sua. – Então, fique sentadinha aí e faça aquela sua carinha fofa enquanto a mamãe aqui tenta conversar com algum vizinho, combinado? – O seu tom de voz foi aumentado quando percebeu que uma senhora estava vindo na direção do portão para checar a caixinha de correio. – Tudo certo? – As suas mãos tatearam as costas e o bumbum da menina, enquanto ela fingia estar checando a fralda dela. – Estamos alimentadas e secas, e estamos prontas para fazer isso, não estamos?

— Olá, está precisando de alguma coisa? – A senhora se aproximou com aquele sorriso que abrimos quando vemos um bebezinho muito fofo. – Está tudo bem com essa coisinha mais linda?

— Oh! – Abriu o seu sorriso mais animado e arrumou o cobertorzinho ao redor daquele corpinho, dando o espaço necessário para que a outra mulher visse a menina. – Só... fizemos uma pausa para trocar a fralda.

— Oh! Olha só que menininha mais linda que temos aqui!

Lily choramingou.

— Essa é a Lily.

A senhora nem esperou um convite para se agachar na frente do carrinho.

— Oi, Lily. – Os seus dedos fizeram cócegas nas perninhas dela, que estirou o lábio como prenúncio de choro. – Oi, Lily.

Ela começou a realmente chorar quando a desconhecida tentou segurar suas mãozinhas.

— Está tudo bem, querida. A mamãe está bem aqui. – A criança mexeu a cabeça, procurando a mãe, e choramingou ainda mais quando encontrou apenas o rosto daquela estranha. – Ela é meio tímida.

— E quantos anos essa lindeza tem?

Sorrindo, ela foi para trás do carrinho.

— Um ano e dois meses. Vai fazer três no dia vinte e dois.

— Ela é tão lindinha! Está tudo bem, Lily. A tia Linda também é um pouquinho tímida.

— É... – Olhou para a mansão. – Você... mora aqui?

— Nem nos meus sonhos! – Ergueu olhos arregalados para ela. – Eu nem tenho condições de morar em um bairro como esse. Essa aqui é a casa do prefeito. – Puxou um dos dedinhos daqueles pezinhos. – A tia Linda é só a governanta. – A brincadeira com a menina não parou, mas Stella ficou mais tranquila quando percebeu que ela não estava mais chorando. – Oi, menininha linda! Oi!

O retorno para o laboratório foi mais do que entusiasmado, pois as informações que conseguira com Linda foram de enorme ajuda. Um sorriso enorme estava gravado em seu rosto quando retornou para contar as novidades ao marido.

— Mãos para o alto! – Os seus indicadores estavam sendo usados como se fossem uma arminha. – Eu tenho um bebê muito fofo e não tenho medo de usá-lo!

Entrando na onda, ele ergueu as mãos, contente com todo aquele brilho nos olhos da amada.

— Uau! Olha só para esse sorriso no seu rosto. Eu acho que aquele trabalho de mãe e filha foi um verdadeiro sucesso.

— A nossa aluna foi brilhante!

— É mesmo? E onde está essa nossa aluna brilhante?

— Está com a Lindsay, tirando uma soneca muito merecida.

— Maravilha. – Um sorriso começou a surgir em seu rosto; nunca vira a esposa tão animada quanto estava agora. – E então? Me conta como foi.

— Tá bom. – Reprimiu uma risadinha animada. – A Lily estava sendo fofa como sempre, e foi com toda essa fofura que a nossa bonequinha conseguiu pescar ninguém mais, ninguém menos do que a governanta da casa do prefeito. – Aquele sorriso convencido continuou em seu rosto enquanto dava a volta na mesa para se sentar no colo dele. – E, aparentemente, a casa do prefeito não é o lugar mais feliz da Terra.

— E isso não seria nenhuma surpresa, ainda mais levando em conta que ele foi um adúltero.

— Mas você nem imagina como me senti quando a Linda começou a me contar coisas que muitos jornalistas matariam para saber. Escuta só essa, nas palavras dela: a Diana preferia vê-lo preso ou morto do que dar aquele bendito divórcio.

— Uau! – Beijou a bochecha dela. – A Lily fez mesmo um excelente trabalho, mas será que ela conseguiu fazer essa governanta dizer se gravou toda essa conversa, ou que pelo menos concordasse em ser uma das nossas testemunhas?

— Olha aqui. – Enfiou o dedo no peito dele, cerrando os dentes em advertência. – Não precisa ficar cortando a minha onda esfregando isso na minha cara, tá? Eu sei que nada disso pode ser usado como prova.

— Não ainda.

O rosto dela se contraiu numa careta enquanto ela ria em completa surpresa e descrença.

— Como é? – Arqueou a sobrancelha. – Foi mal. Eu acho que não ouvi direito o que você disse. – O seu ouvido foi propriamente encostado na boca dele. – Eu acho que você estava meio que me incentivando...

— É isso mesmo, detetive. – O seu sussurro arrepiou a pele inteira dela, que, por puro reflexo, apertou os braços ao redor do pescoço dele. – Você está fazendo um excelente trabalho. – Virou aquele rosto para beijar sua boca. – Então continue assim, tá?

O homem pareceu entender os sinais que ela estava dando, mas antes que ela pudesse deixar ainda mais claro, ele segurou seus quadris e saiu debaixo dela, sentando-a em seu lugar e saindo da sala. Ele voltou alguns minutos depois entregando um copo de alguma coisa que gelou a garganta e as mãos dela.

— Mas, voltando ao assunto... – Ela levou a mão à garganta, incomodada com aquela sensação congelante. – Mas... se tivéssemos evidências que realmente pudessem incriminar a Diana por assassinato, não precisaríamos pedir nada para a Linda. Nós simplesmente intimaríamos.

— E esse “nós” somos eu e você, você e eu? Ou você, eu e o resto da polícia da cidade?

— E tem alguma diferença?

Ele bebeu um pouco da própria bebida.

— Essa não. – Sacudiu a cabeça, apertando os olhos. – Então, nesse caso, acho que a Diana está ferrada.

As sobrancelhas dela se arquearam.

— E por que está dizendo isso?

— É por causa desse olhar determinado nesse seu rostinho lindo. – Ela riu, raspando o lábio inferior com os dentes. – Ele me diz que você não vai desistir até ver aquela mulher atrás das grades.

Roçando o corpo levemente no dele enquanto andavam, ela estirou o lábio e murmurou:

— E será que esse cavalheiro poderia acompanhar essa pobre dama até a nossa cena do crime?

Os corredores do Hotel Even eram tão malditamente frios que ela chegou a jurar que até os seus ossos estavam meio regelados. A pele desprotegida dos seus braços estava sofrendo as consequências; nem mesmo a fricção de suas mãos neles era capaz de mudar isso.

Aquela sensação só aumentou quando ela parou em frente à porta do quarto 678, que ficava mais ou menos no fim do corredor do sétimo andar. As mãos tremiam ao lado do corpo, mas não poderia mais voltar atrás, pois era uma escrava do dever, e sabia que era hora daquele cerco se fechar de uma vez por todas.

As primeiras batidas na rígida madeira foram tímidas e hesitantes, mas da terceira em diante ela começou a bater como uma legítima policial no cumprimento do seu dever. Os seus ouvidos captaram um som baixo que parecia estar vindo direto daquele quarto; era uma música, mas ela não conseguiu identificar exatamente de quem.

A hóspede do outro lado abriu apenas uma brecha da porta, olhando para ela como se ela fosse uma intrusa no paraíso. O convite para entrar não foi feito, e nem seria, mas, antes que Diana tivesse a chance de bater aquela maldita porta na sua cara, Jas colocou a perna entre aquela brecha e o batente e usou as duas mãos para empurrar a porta com todas as suas forças, enquanto a outra mulher fazia exatamente o mesmo do outro lado.

A batalha entre elas acabou quando Jas entrou no quarto, escancarando a porta com um sorriso vitorioso. O sangue estava voltando a circular no seu cérebro quando os seus ouvidos finalmente conseguiram identificar a melodia que vinha diretamente do sonzinho na cômoda ao lado da cama: era California Dreamin’, de The Mamas & The Papas.

Os seus olhos passearam pelo quarto e ela notou algumas outras coisas, como a mala em cima da cama e alguns pares de roupas dobrados ao lado. Em frente à única janela, havia uma mala de mão enorme, pronta para viagem, e foi aquilo que fez o sangue de Jas ferver. A briga começou quando Cass e Michelle estavam no meio de uma estrofe ofegante da música, com Jas partindo para cima da outra com toda a fúria do mundo.

— Aonde você pensa que vai, hein?

— E isso é da sua conta? – Uma risada escarniosa irrompeu dela, inflamando ainda mais a ira de Jas, que a segurou pelos dois braços. – Não temos o direito de ir e vir nessa maldita cidade?

— E eu pareço alguma retardada para você, hein? – Jas abriu um sorriso raivoso, mostrando uma fileira de dentes para ela. – Você acha que eu não sei o que você fez? Ou que não sei quem você é?

Vendo a raiva latente nos olhos da oponente, a outra mulher pareceu abaixar a crista.

— E... o que a polícia poderia... querer comigo?

Jas semicerrou os olhos, apertando ainda mais os braços dela.

— Não banque a inocente, porque não combina com você, minha querida. – Foi nessa hora que ela a soltou e vasculhou a própria bolsa, retirando uma foto para mostrar para ela. – Está lembrada desse vaso aqui? Hein? Não? Mas ele é seu, meu anjo. Você o usou para causar aquele hematoma na cabeça da Hannah. – Os olhos de Diana se arregalaram, e seus lábios começaram a tremer. – O que foi? Achou que ninguém nunca descobriria? – A outra usou a cama como apoio enquanto a música voltava para o início pela terceira ou quarta vez. – Ou será que achou que eu realmente deixaria você jogar o seu crime nas costas da coitada da Michelle? Ela foi o bode expiatório perfeito, não foi? Mas isso acaba aqui! Eu não vou deixar você acabar com a vida de mais ninguém! Nem que essa seja a última coisa que eu faça nessa vida! Entendeu?

A policial não percebeu quando foi que a primeira-dama chegou tão perto dela; estava concentrada demais para reparar na movimentação da outra. O fato era que aquelas mãos estavam nela, e ela as encarou com um nojo imenso.

A música estava no refrão quando Jas tropeçou na mala que estava no chão e se desequilibrou, dando cerca de três ou quatro passos para trás. Aquela parte específica da música ficaria gravada para sempre na sua memória, quando suas costas bateram no vidro da janela e ela foi jogada para fora sem nenhuma cerimônia.

♬Todas as folhas estão marrons (todas as folhas estão marrons)

E o céu está cinza (e o céu está cinza)

Eu saí para um passeio (eu saí para um passeio)

Num dia de inverno (num dia de inverno) ♬

Os seus olhos simplesmente se fecharam enquanto ela tentava se agarrar em alguma força invisível. Os estilhaços começaram a cortar a porção da sua pele que estava mais vulnerável, e ela gritou pela primeira e última vez antes de sentir o baque da água nas costas e apagar.

A inescrupulosa mulher olhava para a adversária inconsciente dentro da piscina pelo rombo na janela causado pela queda dela. O desespero estava evidente, gravado naqueles olhos enquanto os demais corriam para ajudar Jas, e ela pensava que havia cometido mais um tenebroso erro de cálculo.

Notas finais
É... tem dias que é noite... Até o próximo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.