Stella
17 Alguém que me proteja
Notas iniciais
O corpo do marido dela estava rígido como se fosse feito de cimento, e os seus membros realmente pesavam uma tonelada quando ele tentava se mover para aplacar aquela dor estranha que se espalhava por seu estômago como um câncer. A respiração era outra coisa ruim de controlar, pois o pânico tomara conta no momento em que viu aquela cena, e não passara nem com as mãos sendo rigorosamente esfregadas contra ele. Os tremores nas mãos eram outra coisa que estava o matando, mas parte mais dolorosa estava sendo captada por seus ouvidos enquanto lágrimas escorriam por seu rosto contra a sua vontade. Encarando os dedos trêmulos, secou os olhos com as costas da mesma mão e apurou os ouvidos para escutar o restante da conversa.
— Eu só queria que soubesse que eu me diverti muito essa noite. – O sorriso que ele abriu combinado com seus dedos erguendo o rosto de Stella o irritaram, mas tanto ele quanto o estranho foram hipnotizados por aqueles maravilhosos olhos.
— Eu também. – O sorriso que ela colocou no rosto era idêntico ao que usava para seduzir o marido. – Muito obrigada por tudo.
A mão daquele sujeito no rosto dela causou um sentimento primitivo nele, que fechou o punho como se realmente estivesse segurando a raiva que estava sentindo. As unhas ardiam na palma da mão, mas era melhor isso do que partir para a ignorância enfiando um soco no meio da cara dele.
— Eu também queria que soubesse que, se mudar de ideia sobre ir embora... eu adoraria te ver outra vez.
A próxima frase que saiu da boca dela doeu como se tivesse sido marcada com ferro em brasa em sua pele.
— Eu acho que você é um dos caras mais doces que já conheci.
A mão de Scott abandonou o rosto dela, indo direto para o próprio peito, sua risada ecoou pelo corredor e na mente de Will.
— Eu? Doce? Você acha?
— É, você mesmo. – Cutucou o peito dele com o indicador, franzindo o nariz numa risada descontraída. – E eu sou extremamente grata por você ter aparecido na minha vida justamente no momento em que eu mais estava precisando.
Ele respirou fundo e, ainda rindo, abaixou a cabeça numa reverência exagerada.
— E eu sou muito mais grato.
— Ah, é? – A mão dela se estendeu no seu rumo, e ele a segurou e beijou. – Mas eu aposto que você adoraria ter saído para ver o jogo com os rapazes.
Ele negou com a cabeça e, mordendo os lábios, disse:
— Eu posso ver meus amigos quando eu quiser, mas não é todo dia... – A boca estava ligeiramente entreaberta quando ele a olhou de cima a baixo, voltando para aqueles olhos. – Mas, definitivamente, não é todo dia que uma mulher tão linda entra na minha vida.
Alguma coisa dentro dela mudou, isso foi constatado pelo desaparecimento do brilho em seus olhos.
— Mas tem certeza de que não ficou chateado?
O homem se empertigou todo, relaxando os ombros.
— Eu acho que você tinha alguém muito especial te esperando em casa e, se ainda não está pronta para estar com outro homem... eu respeito isso. – O polegar dele acariciou a bochecha dela, que sorriu com o movimento. – Então, espero que você seja feliz, Georgie. Você merece.
— Obrigada. – Ele deu um beijo em sua bochecha. – Você também, Scott.
Ele abriu um sorriso carregado de melancolia e se afastou.
— Adeus.
O carpinteiro seguiu pelo mesmo corredor que Will deixara há apenas alguns minutos, mas aquele sentimento maravilhoso de ter sido escolhido novamente embriagou os seus sentidos, e ele virou a cabeça para olhar, uma última vez, para aquela criatura maravilhosa antes de sumir de uma vez por todas de sua vida. A porta foi fechada no momento em que ele sumiu. Levando as mãos à cabeça, ela concluiu que estava na hora de voltar a ser a Stella.
Em casa, o marido dela ainda estava profundamente perturbado, por mais que lutasse para processar tudo o que havia visto e ouvido naquele maldito hotel. As chaves praticamente escorregaram das suas mãos para a mesinha, e ele se virou para a porta e ficou parado com os olhos vidrados nela. Os pensamentos estavam tão longe que nem percebeu quando Lindsay chegou com Lily no colo.
— Encontrou a Stella?
Assustado, ele virou para ela e assentiu. O choro estava entalado na garganta; então demorou um pouco para conseguir formular alguma coisa.
— Encontrei.
Lindsay varreu a sala com os olhos, esperando encontrar a amiga.
— E por que ela não veio com você?
— É porque ela ainda está em Redfield.
— Oh. – Ergueu a mão livre para tocar a dele, que se esquivou, indo sentar no sofá. – Então... espero que esteja tudo bem com ela.
Os seus lábios se repuxaram numa coisa que parecia uma mistura de riso e soluço, e seus ombros caíram enquanto levava as mãos direto para a barriga dolorida. A carícia não estava ajudando muito, mas ele gostava de pensar que aquilo servia para alguma coisa. Evitando os olhos dela, continuou com o movimento.
— Eu... – Fechou os olhos, recebendo uma enxurrada de imagens do acontecido. – O mais engraçado é que eu nem consegui falar com ela. – O seu corpo ficou ereto no sofá, os polegares começaram a se apertar e os seus ombros ficaram tão rígidos quanto os demais membros. – A boca dela estava muito ocupada beijando a de outro cara.
A boca de Lindsay foi se abrindo lentamente, e a menina em seus braços choramingou como se estivesse por dentro do assunto. Por puro instinto, ela a embalou com suaves assobios enquanto encarava o seu pai, completamente embasbacada.
— O quê? – A mão cobriu a boca. – Mas... isso só pode ser um engano...
Ele negou com a cabeça, engolindo em seco.
— Não, Lindsay. O único engano aqui sou eu. – Os seus olhos encontraram os dela pela primeira vez. – Estou aqui tentando lidar com a depressão pós-parto dela, brigando com os nossos amigos, cuidando da nossa menininha... enquanto ela lida com isso dormindo com outro cara. – A mulher continuava sem palavras, mas a expressão em seu rosto estava dizendo tudo. – E sabe o que é mais engraçado nisso tudo? – Arrancou o sobretudo e jogou no outro sofá. – É que quando nos conhecemos, ela me criticava por dormir com um monte de mulheres... – Os seus dentes foram travados. – Mas, agora é ela quem está me traindo!
— Eu acho que essa é uma situação muito delicada...
— E você tem toda a razão. – Os lábios dele foram mordidos com força. – Mas acho que o mais complicado é que ela é soropositiva, e não sabemos se ela contou esse detalhezinho para esse cara. – A carranca no rosto dele provocou uma careta nela. – Ela pode ter escolhido manter isso em segredo. Ou talvez tenha achado melhor não estragar a diversão... sabemos muito bem como está a cabeça dela.
— Will. – Mordeu os lábios. – Eu sei que isso deve estar sendo muito chato para você, mas...
— É? – Os olhos dele foram parar direto na garrafa de vodca esquecida na mesa, tornando-a muito mais convidativa. – Sério?
— Olha... – Acariciou as costas da menininha, que estava com a cabecinha deitada em seu ombro. – Eu não estou tentando defender ela, mas li muita coisa sobre depressão pós-parto, e acho que essa é uma das condições mais imprevisíveis que já vi.
Ele soltou uma risada sarcástica, tomando um pouco da bebida.
— E era para eu me sentir melhor com isso, Lindsay?
Ela negou com a cabeça.
— Não... – Encolheu os ombros. – Mas acho que te ajuda a entender que ela não está fazendo isso de caso pensado. É tudo sintomas de uma doença muito...
— Entendi. – Assentiu com amargura. – Então deixa eu ver se entendi, não é para levar para o lado pessoal, certo? – Ergueu o indicador, cobrindo a boca com o antebraço para engolir o líquido. – Então me diz uma coisa, você também não levou para o lado pessoal quando o Danny era um drogado e você era uma corna? – A postura dela mudou na mesma hora, e o arrependimento bateu na porta dele. – Olha... me desculpa. Eu sei que foi puxado toda aquela coisa com a cocaína...
— Tudo bem. – A frase saiu dos seus lábios com dificuldade. – Essa eu mereci. Foi uma ótima comparação, e eu sei exatamente como está se sentindo...
— É como se tivesse acabado de levar um soco no estômago...
Lindsay sentou ao lado dele.
— É como se o mundo que você conhece estivesse se despedaçando...
— Eu... eu acho que de todas as coisas que pensei que encontraria quando chegasse lá, essa foi a única que nunca passou pela minha cabeça.
Ela arrumou a chupeta que estava quase caindo da boca da menina.
— Mulheres com depressão pós-parto se sentem muito sobrecarregadas, e também se sentem um verdadeiro fracasso como esposas e mães. – Abraçou a pequena, deitando aquela cabecinha em seu ombro. – Então elas fantasiam uma vida perfeita, onde nada disso existe e onde elas possam ser o que elas quiserem.
— Eu entendo isso, mas não consigo entender os motivos que a levaram a se agarrar com outro cara. E agora, simplesmente, não consigo excluir essa imagem da minha cabeça. – As mãos foram à cabeça com a garrafa vazia enquanto ele deixava um longo suspiro escapar. – E ainda me sinto um bosta por não ter trazido ela para casa.
Lindsay acariciou as costas dele com a mão livre.
— Ela vai voltar...
— Vai saber...
— Ela vai.
Lily olhou para o pai com olhinhos sonolentos, e ele sorriu, esticando os braços para retirar a filha do colo da madrinha. Em seguida, levantou com ela.
— Oi, meu amorzinho. Vem com o papai. Estou aqui com você.
A mulher abriu um sorriso melancólico, esfregando as costas da menininha.
— Ela te ama, e também ama a Lily. Vocês são tudo que ela sempre quis: um bebê saudável e um marido maravilhoso. – Ele olhou para ela com o canto do olho. – O problema dela é que ela acha que tudo tem que ser perfeito.
O pai abraçou a criança.
— Ela conseguiu acabar com isso.
Lindsay se levantou, indo até ele.
— Vocês poderão discutir tudo isso quando ela voltar para casa.
Ele beijou os cabelos de Lily.
— Não, por favor. Eu não quero mais falar sobre isso, e também não quero que ninguém saiba que eu sei que ela estava com outro homem, principalmente ela.
A estadia de Stella naquele hotel estava sendo encerrada naquele exato momento, era hora de voltar para a cidade que nunca dorme e encarar outra vez a sua vida.
Era madrugada quando Will retirou Lily do berço e desceu para observar as estrelas através da enorme janela da sala.
— Ei, amorzinho. Você também não está com sono, não é? – Beijou o topo de sua cabecinha. A menina também parecia estar um pouquinho mais ansiosa desde o desaparecimento da mãe. Mesmo sendo muito pequena, o pai poderia jurar que ela sabia exatamente o que estava acontecendo. – A sua outra alternativa é me ouvir, mas acho que não vai querer fazer isso, porque o papai está muito confuso. – Outro beijo foi depositado naquela cabecinha. – Estou tendo alguns problemas com a mamãe... pensei que ter uma esposa e um bebê em casa fosse me trazer felicidade instantânea, mas eu estava errado. – Lily resmungou, bocejando. – Eu sei que a mamãe tem tudo o que ela sempre quis, mas parece que agora ela não quer mais. Ela foi embora em busca de alguma coisa que eu não sei o que é, e eu acho que ela também não sabe. – Os barulhinhos que ela estava fazendo eram reconfortantes. – Mas eu não quero que você se preocupe com nada disso, tá? Eu prometo que vou cuidar de você. – Outros beijinhos foram espalhados por aquele rostinho. – Não importa o que aconteça.
Eles estavam voltando para o segundo andar quando a porta se abriu, e ele viu a figura da esposa parada. A única coisa que saiu da boca dela foi um singelo “estou em casa”, como se aquela frasezinha consertasse tudo.
Enquanto ela ficou na sala organizando as próprias coisas, ele voltou para o segundo andar para colocar a filha na cama.
— Eu sei que você não dá a mínima, mas a Lily está bem.
Ela olhou para ele, dando de ombros e dobrando as roupas.
— Maravilha.
— Eu sei onde você estava, Stella. O Danny colocou um alerta para você. – Ela umedeceu os lábios, mas continuou calada. – Eu ia te buscar, mas...
— Mas não foi. – Largou o que estava fazendo. – E eu acho que era melhor eu voltar com as minhas próprias pernas. – Eles se calaram. – Eu estava indo te encontrar para jantar, mas acabei numa encruzilhada que me levou direto para a rodovia, e... – Foi para o sofá. – Não sei. Alguma coisa aconteceu na minha cabeça e acabei pegando a estrada direto. O que eu mais queria mesmo era pegar a estrada e ir para longe de tudo que estava fazendo eu me sentir uma merda. Aquela era a minha chance, então nem pensei em nada. – Ele a encarou, e ela levou as mãos à cabeça. – Eu sei que parece loucura...
— E por que para Redfield?
— Foi aleatório. – As suas sobrancelhas se franziram. – Eu parei em um bar e fiquei conversando com a bartender.
As sobrancelhas dele se arquearam.
— Uma mulher?
— Uma mulher chamada Lulu. – O suspiro dela chegou aos seus ouvidos. – Ela era mãe de uma menininha linda. E acabei dizendo para ela que o meu nome era Georgie Samms. Nem sei como cheguei nesse ponto, mas acabei inventando toda uma identidade nova. Sem nenhum compromisso ou responsabilidade. Também disse que não era casada, que não tinha filhos, e que era uma representante de vendas de produtos farmacêuticos da Grécia.
Respirando fundo, Will se sentou na outra ponta do sofá, mantendo o meio desocupado.
— E ela foi a única pessoa com quem você conversou a noite inteira?
— Foi. – Evitou os olhos dele. – Então voltei para o hotel e, quando me olhei no espelho não consegui mais ver a Stella. Nem a esposa, a mãe, ou a detetive, e... estou com muito medo. – A sua voz embargou. – Eu... preciso de alguém que me proteja de mim mesma. Eu acho que estou mesmo com depressão pós-parto... e preciso da sua ajuda, por favor.
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