Stella

36 Capítulo 36 – Eu te amo, Dean!


Notas iniciais
Já podemos considerar esse um dos maiores momentos da Stella? *u*

O dia chegou.

E desde as seis da manhã eu já sabia que seria um daqueles dias que as roteiristas da minha vida adoram me entregar: completamente insano.

Acordei com um barulho infernal vindo da sala. Parecia que alguém estava torturando um elefante com uma serra elétrica. Levantei correndo, ainda de pijama, e abri a porta do quarto.

Meu pai tinha acordado a casa inteira com um velho toca-discos de vinil dos anos 70 que ele jurava ser “uma relíquia”. O disco estava arranhado, girando torto, e a música saía toda distorcida e altíssima.

— PAI, QUE CARALHOS É ISSO?! — gritei do alto da escada.

Minha mãe já estava no modo loka total, descalça, cabelo preso com uma presilha torta, gritando:

— HAROLD CARTER, DESLIGA ESSA PORCARIA AGORA! VOCÊ QUER ACORDAR O BAIRRO INTEIRO? A GENTE TEM UM CONCURSO HOJE PRA VER, NÃO UMA FESTA DE FORMATURA DOS ANOS 70!

Meu pai, todo orgulhoso, aumentou o volume ainda mais.

— É pra dar sorte! Música antiga traz energia boa!

Eu fechei a porta do quarto, encostei a testa na madeira e suspirei.

— Esse dia vai ser longo… muito longo.

No carro, a caminho do auditório da escola, a loucura continuou.

Minha mãe não parava de falar:

— Stella, não esquece de sorrir no palco! E se o Dean não aparecer, você canta sozinha mesmo, tá? Eu já combinei de fazer vídeo chamada com a Madison e pro Tom, eles vão assistir ao vivo, estão torcendo por você.

Meu pai, dirigindo com uma mão só:

— Eu só quero saber se tem buffet depois. Eu tô com fome desde ontem.

Zack, do banco de trás, zoando:

— Se a Stella tropeçar de novo, eu filmo e edito em câmera lenta depois, hehe.

Melody, sentada do meu lado, segurou minha mão.

— Respira, Stella. Tá tudo bem. Eu tô aqui.

– Valeu Melody. – Falei aliviada, segurando a mão dela. – Estou muito feliz por ter você do meu lado.

– Você vai se sair incrível, confie em mim. – Melody continuou.

– Tô ansiosa, admito. Mas eu não quero desistir, e nem me arrepender de nada.

– E você não vai. Só sobe naquele palco e faz o que você faz de melhor, arrasar.

Sorrimos juntas. Eu só conseguia olhar pela janela, cabeça a mil. A música que eu ia cantar. O nervosismo. E, principalmente, a dúvida que não saía da minha mente:

O Dean vai aparecer? Ou eu vou ter que subir sozinha no palco depois de tudo que rolou?

Tudo estava uma verdadeira loucura pra mim.

Nos bastidores, o caos era geral. Gente correndo com fantasias, microfones chiando, professores gritando instruções. Eu encontrei o Luke perto da mesa de produção, todo concentrado com uma prancheta na mão.

— Ei, cupido — ele disse, sorrindo ao me ver. — Tá pronta?

Eu dei um abraço forte nele.

— Tô morrendo de medo, Luke. E se o Dean não vier?

Ele apertou o abraço.

— Se ele não vier, você vai brilhar sozinha. Como sempre.

Eu me afastei um pouco, olhos marejados.

— Como você consegue ser tão… confiante?

Luke deu de ombros, sorrindo.

— Porque eu sei como é gostar de alguém e ter medo de estragar tudo. Eu passei por isso com o Christopher. E olha a gente agora. Se eu consegui, você também consegue. Vai lá e mostra pra todo mundo quem é a Stella Carter.

A gente se abraçou de novo, mais demorado. Foi bom. Foi real. Um amigo de verdade.

— Obrigada, Luke. De verdade.

— Qualquer coisa, tô aqui nos bastidores. Se precisar de um empurrãozinho, é só gritar.

Sunny, Camily e Melissa subiram primeiro. A performance delas foi exatamente o que eu esperava: uma música pop bem coreografada, cheia de passos sincronizados, luzes piscando e Sunny no centro como se fosse a estrela do universo.

Elas usaram playback descarado e dava pra ver os lábios da Sunny se movendo um segundo atrasado da voz original. Camily e Melissa faziam backing dance perfeito, sorrisos plásticos, cabelo voando. Sunny mandava beijos pra plateia e fazia caras de diva. A plateia aplaudiu bastante, mas eu só revirei os olhos nos bastidores.

— Clássico Sunny. Pelo menos ela serviu. — murmurei.

Depois foram Becky e Jenny. O show de piadas delas foi... ér... uma merda. Tipo, piadas de tiozão.

– Por que o livro de matemática tava triste? – Perguntou Becky, com uma roupa rosa de cowgirl.

– Ora, porque ele tinha muitos problemas. – Jenny respondeu fazendo cosplay de Lady Gaga.

As duas trocavam olhares, riam das próprias piadas e o público só fazia um silêncio constrangedor seguido de alguns aplausos por pena. Becky até tropeçou no microfone. Jenny esqueceu o punchline de uma piada. Foi tão cringe que eu quase senti pena.

Mas acho que no fundo elas nem se importam, e isso é algo que eu no fundinho, admiro nelas.

Eu fiquei cada vez mais nervosa. Meu celular não tinha nenhuma mensagem do Dean. Nem eu mandei nada pra ele. Nada. Silêncio absoluto.

Christopher subiu e tocou guitarra lindamente. Christopher subiu no palco logo depois das gêmeas. O auditório ficou em silêncio quando ele sentou no banquinho, ajustou a guitarra no colo e começou os primeiros acordes de “Iris”.

A voz dele era baixa, rouca e absurdamente bonita. A plateia inteira parou pra ouvir:

“And I’d give up forever to touch you… ’Cause I know that you feel me somehow…”

Ele tocou com os olhos fechados na maior parte do tempo, como se estivesse cantando só pro Luke. Quando chegou no refrão, a voz dele ganhou força e o auditório inteiro vibrou:

“I don’t want the world to see me… ’Cause I don’t think that they’d understand…”

"When everything's made to be broken... I just want you to know who I am"

Eu vi o Luke nos bastidores, encostado na parede, sorrindo daquele jeito bobo e apaixonado. Christopher abriu os olhos no final da música, olhou direto pra ele e sorriu. A plateia explodiu em aplausos e gritos.

– Dedico essa musica pra você Luke. Eu te amo. – Christopher diz, logo ao encerrar sua performance antes de sair do palco.

A plateia vibrou. Eu fiquei ali, nos bastidores, respirando fundo, me preparando psicologicamente pra subir sozinha.

Chegou a minha vez.

Eu subi no palco sozinha. O holofote bateu em mim. Na plateia, vi minha mãe, meu pai, Zack e Melody. Minha mãe já estava com o celular na mão, fazendo chamada de vídeo pra Madison e Tom assistirem.

Eu subi no palco sozinha.

O holofote bateu bem no meu rosto, quente e cegante. Minhas mãos tremiam segurando o microfone. A plateia inteira tava lá: minha mãe com o celular na mão fazendo chamada pro Tom e pra Madison, meu pai com cara de quem só queria saber do buffet enquanto me gravava, claramente forçado pela minha mãe, o Zack e Melody sentados juntos, Luke nos bastidores com a prancheta. Todo mundo olhando pra mim.

Meu coração batia tão forte que eu jurava que o microfone ia captar o barulho.

Eu consigo. Eu consigo brilhar sozinha. Mesmo sem o Dean. Mesmo depois de tudo.

A música começou. Os primeiros acordes de “I Love You” da Avril Lavigne encheram o auditório. Eu respirei fundo, voz saindo baixa e insegura no começo:

“I always thought that I’d be better off alone…”

Minha voz tremeu. Eu fechei os olhos por um segundo. Não pensa nele. Não pensa no Dean. Só canta.

“Until you came and changed my mind…”

Foi aí que eu ouvi o barulho de uma guitarra sendo plugada ao meu lado.

Abri os olhos.

Dean.

Ele entrou no palco pelo lado direito, guitarra no ombro, cabelo bagunçado do jeito que eu amava, olhar fixo no meu. Sem aviso. Sem ensaio. Só ele, a guitarra e aquele sorriso que desmontava tudo.

A plateia soltou um “oooooh” coletivo.

Eu congelei por meio segundo. Depois sorri, porque não tinha mais como segurar.

Ele começou a tocar junto, os acordes certos, perfeitos, como se tivesse ensaiado mil vezes na cabeça. E cantou comigo, voz grave misturando com a minha:

“I love you, I love you, I love you…”

Nossa voz se encaixou. Algo diferente. Mais intenso. Como se todos os dias de briga, silêncio e chuva tivessem evaporado ali, naquele palco.

Eu cantei o refrão olhando direto pra ele:

“You're so beautiful, but that's not why I love you”

Dean não tirou os olhos de mim e continuamos nos olhando no palco.

“I'm not sure you know, that the reason I love you”

Algo diferente. Mais intenso.

“Is you... being you... just you... yeah, the reason I love you”

Como se os últimos dias de briga, silêncio e chuva tivessem evaporado ali, naquele segundo.

“Is all that we've been through, And that's why I love you”

A plateia vibrou. Luzes piscando em tons de roxo e azul, exatamente como no Space Bar. Eu senti as lágrimas subindo, mas não parei. A gente cantou juntos, voz sobre voz, guitarra preenchendo o espaço entre nós.

“La, la, la, la, la (That’s why I love you)”

Quando a última nota acabou, o auditório explodiu em aplausos. Eu peguei o microfone, voz tremendo de emoção:

— Dean, eu posso ser imatura pra caralho, posso fazer umas bostas, falar umas asneiras. Eu sei, eu sou assim. Sinto que melhorei muito, mas ainda preciso aprender muita coisa com a vida. Mas se tem uma pessoa que eu tenho certeza que quero manter na minha vida… esse alguém é você, Dean.

A gente se emocionou ali, na frente de todo mundo.

Dean baixou a guitarra, olhou pra mim com aquele sorriso fofo, e ao mesmo tempo safado que desmonta tudo e perguntou, quase sussurrando:

— Essa é a parte que a gente se beija?

Eu não esperei. Dei um passo à frente, segurei o rosto dele e o beijei.

O auditório inteiro explodiu. Zack e Melody pularam comemorando. Luke vibrou lá dos bastidores, batendo palmas como louco. Minha mãe desmaiou de novo no colo do meu pai.

– MARAVILHOSOS” – Ouvi a Melody gritando

– EU SHIPPO! – Ouvi Luke nos bastidores gritando.

— DEAN, DEPOIS A GENTE BATE UM PAPINHO, HEIN?! – Meu pai gritou.

Todo mundo ovacionou.

O auditório ainda estava vibrando com aplausos quando o diretor subiu no palco com o envelope na mão. Eu e Dean ainda estávamos de mãos dadas, suados, coração batendo forte depois do beijo e da performance.

— E o grande vencedor do Concurso de Talentos deste ano é… — o diretor fez uma pausa dramática — Christopher Peterson, com sua incrível performance de “Iris”!

A plateia explodiu. Christopher, lá no canto do palco, arregalou os olhos, completamente surpreso. Luke, dos bastidores, soltou um grito de felicidade e correu pra abraçar ele, Luke pulou em Christopher e os dois caíram no palco.

Eu ri, genuinamente feliz.

– LINDOS! – Eu gritei em apoio, orgulhosa.

— Ele mereceu. Foi lindo pra caralho. – Disse Dean.

Dean apertou minha mão, sorrindo.

— Mereceu mesmo. – Respondi.

A gente saiu do palco juntos, juntos de mãos dadas, enquanto a plateia continuava aplaudindo. Nos bastidores, um canto mais calmo, Dean me puxou pra um canto mais reservado, encostando a testa na minha.

— Stella… a gente precisa conversar.

Eu engoli em seco, já sentindo o peso de tudo que tinha acontecido.

— Eu sei. Eu fui uma idiota. Eu explodi, não te deixei falar nada… de novo.

Ele respirou fundo, mas não soltou minha mão.

— Eu não tava paquerando a Malia. Eu juro. Ela tava conversando comigo porque ela gosta da Sunny. Tipo, gosta de verdade. Ela me pediu conselho sobre como chegar nela, porque acha que a Sunny vai rir na cara dela. Eu tava só tentando ajudar. Nada além disso.

Eu pisquei. Depois pisquei de novo.

— Espera… a Malia tem uma queda pela Sunny?

Dean assentiu, rindo baixinho.

— É. Ela tá caidinha. E eu meio que tava sendo o wingman dela. Só isso.

Eu cobri o rosto com as mãos, morrendo de vergonha.

— MEU DEUS EU SOU UMA JUMENTA. Uma jumenta ciumenta, imatura e burra pra caralho. Eu criei um drama enorme por nada.

Dean puxou minhas mãos pra baixo, rindo.

— Você é uma jumenta linda. Mas é a minha jumenta.

Eu ri junto, o alívio batendo forte.

— Sabe o que isso significa? — eu disse, olhos brilhando. — A gente tem uma nova missão pros cupidos! Vamos juntar a Sunny e a Malia. Vai ser épico demais.

Dean caiu na gargalhada e me puxou pra um beijo apaixonado, daqueles que fazem o mundo parar. Mãos no meu rosto, corpo colado no meu, o beijo profundo e aliviado, como se a gente tivesse esperado dias por isso.

Quando a gente se afastou, ainda com as testas encostadas, ficamos alguns segundos em silêncio, sentindo a respiração um do outro. Eu sussurrei:

— Eu te amo, Dean!

Ele sorriu, olhos brilhando.

— Eu também te amo, Stella.

A gente riu e se beijou de novo, mais calmo, mais doce.

Mesmo sem ganhar o concurso… eu tinha ganhado algo muito maior.

Meu grande primeiro amor: O Dean

E isso era o suficiente pra mim.