Stella

28 Capítulo 28 - Essa é a minha vida


Notas iniciais
Eita que temos cenas dignas de dorama aqui viu Sr. Dean e Sra. Stella

Depois do esbarrão épico com o Dean e da trollagem da Karen (que ainda tá com a bunda colada na cadeira, eu vi no stories de alguém), eu juro que só queria um dia normal. Mas nessa escola, "normal" é palavra que não existe no dicionário.

Eu estava andando pelo corredor depois da aula de Educação Física quando vi ele. Luke. O mesmo Luke de sempre, só que agora com uma cara de quem carregava o peso do mundo nas costas. Por incrível que pareça, a gente anda se falando mais que antigamente. Tipo, depois da rejeição eu achei que ia ser super estranho pra sempre, mas não. A gente se cumprimenta, troca um “oi” e às vezes até conversa de verdade.

— Ei, Stella — ele disse, parando no meio do corredor com aquele sorriso educado de sempre.

Eu ainda me atrapalho um pouco, óbvio. Meu cérebro faz questão de lembrar que ele já me rejeitou.

— O-oi, Luke! Tudo… tudo bem com você? — gaguejei, mas pelo menos não derrubei nada dessa vez. Parabéns, Stella, você evoluiu.

Ele riu baixinho, normal como sempre. Eu também tentei ser normal. Na medida do possível.

Me lembrei na hora da primeira vez que a gente se falou depois da rejeição. Eu tinha pegado um bolinho com chantilly na cantina e tacado na minha própria cara só pra ele não me reconhecer. Tipo, cobertura branca inteira no rosto, parecendo um palhaço de circo.

— Stella? — ele tinha perguntado, segurando o riso. — É você debaixo dessa nuvem de chantilly?

A gente riu juntos naquele dia. Foi estranho, mas foi bom. Tipo um “tá tudo bem entre a gente”.

Hoje ele tava diferente. Olhando pro chão, mexendo na alça da mochila sem parar.

— Luke você tá bem? — perguntei, encostando na parede ao lado dele. — Tá com cara de quem não dormiu direito.

Ele suspirou, passando a mão no cabelo.

— Tô com alguns problemas. Coisas que eu tô tentando resolver sozinho. Família, escola, sei lá. Nada que eu queira colocar na sua conta.

— Ei — eu falei, dando um soquinho leve no braço dele, do jeito que a gente fazia antes. — Você pode contar comigo pro que precisar. Sério. Mesmo depois de tudo que rolou eu ainda tô aqui.

Ele olhou pra mim e, pela primeira vez, o sorriso dele pareceu verdadeiro.

— Obrigado, Stella. Você é uma boa amiga. De verdade. Isso significa muito pra mim agora.

A gente ficou conversando mais uns dois minutos. Nada pesado, só ele desabafando um pouco sobre “coisas complicadas”. Eu fiquei feliz por ele ter confiado em mim. Pelo menos uma coisa na minha vida não virou guerra total.

Enquanto isso, na sala de Matemática, o Kwon Dean tava sentado pertinho de mim. Em TODAS as aulas ele acabou caindo do meu lado. Coincidência? Eu duvido.

A professora tava explicando não sei o quê de equação quando ele empurrou o caderno pra mim. Tinha um desenho: um cara derrubando café na cabeça de uma garota com cara de desastrada. Embaixo: “Ainda traumatizada ou já superou?”

Eu ri e respondi embaixo: “Traumatizada não, sequelada. Mas pelo menos você não tá mais com cheiro de café. Quer que eu derrube suco da próxima vez pra variar?”

Ele escreveu de volta: “Por que não soju?”

A gente trocou uns cinco bilhetes idiotas até a professora perceber.

— Kwon e Carter! Pro corredor AGORA! E deixem o caderno de vocês comigo, que eu quero ver essa “matemática” depois.

A sala inteira riu. A gente saiu cabisbaixo, mas assim que a porta fechou, Dean encostou na parede e deslizou até sentar no chão. Eu sentei do lado dele.

— Então… você se mudou da Coreia por causa de um “dorama”? — perguntei, lembrando do que tinha ouvido.

Ele assentiu, olhando pro teto.

— Eu ouvi essas bostas aí. Na real, meu pai abriu uma filial aqui. Minha mãe ainda dá aula de piano toda semana. Eu vim pra fugir de um monte de drama de lá e acabei derrubando café em mim no primeiro dia por causa de uma doidona.

Eu ri.

— Foi mal pelo café.

— Foi mal por ter te chamado de desastrada na frente da turma toda.

A gente ficou em silêncio uns segundos. Eu senti o coração apertar um pouco ainda pensando no Luke, na Melody, em tudo. Mas aí o Dean sorriu aquele sorriso matador e esquece. Tudo sumiu rapidinho. Esse cara realmente tem o molho.

— Sabe — ele disse —, eu odeio drama. Mas você é o tipo de caos que eu acho maneiro.

Eu fiquei vermelha.

– Ser maneira é algo que eu ainda estou aprendendo a ser. – Falei, abrindo um sorrisinho. – Aliás, quer… quer tomar um sorvete depois da aula? Só um rolê rápido.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Sorvete? Com a garota que quase me queimou com café?

— Exatamente.

— Por que esperar a aula terminar? A gente pode ir.

Eu fiquei chocada. Tipo, queixo caído, olhos arregalados, o pacote completo.

— AGORA? Tipo… fugir da escola? Você tá maluco? Tu não é o cara que odeia dorama?

Ele deu de ombros, já se levantando.

— Nah, drama é ficar sentado aqui ouvindo equação. Vamos fugir. Topa ou não?

Eu olhei pra porta da sala, pro corredor vazio e sorri.

— Topo. Vamos nessa.

A gente saiu sorrateiramente, colados na parede como dois espiões de filme ruim. Quando chegamos no portão, o zelador tava distraído no celular. CORREMOS. Dean na frente, eu atrás, rindo feito idiota. O vento batia no rosto e eu juro que nunca me senti tão viva.

Chegamos na sorveteria ofegantes. Eu pedi meu favorito (chocolate com pedaços de brownie, óbvio) e Dean pegou um de matcha com morango.

Sentamos na mesinha de fora.

— Então, você sempre foge da aula assim ou só quando quer impressionar uma desastrada? — perguntei, lambendo a colher.

— Só quando a desastrada é engraçada. — ele respondeu, dando um sorrisinho. — E você? Sempre convida caras que quase queimou com café?

— Só os que tem molho.

No final, eu peguei o celular.

— Me passa seu Instagram. Pra eu poder te mandar foto do próximo café que eu derrubar.

Ele riu e passou o @ (kwondean007). Eu segui na hora.

De repente as gêmeas Becky e Jenny apareceram, ofegantes, trazendo nossas mochilas.

— Aí Stella, aqui está, exatamente como você nos pediu! — Becky bufou, jogando a mochila do Dean no colo dele.

— Você nos deve a grana — completou Jenny, cruzando os braços.

Eu sorri com a cara mais inocente do mundo.

— Claro! Amanhã eu pago vocês queridas.

— Epa, epa! O trato era agora. – Jenny contestou

Em menos de cinco segundos eu levantei, peguei a mão do Dean e saí correndo de novo.

— TCHAU, GÊMEAS! — gritei enquanto corríamos.

— STELLA SUA CALOTEIRA DESGRAÇADA! — berrou Becky.

— VOLTA AQUI! — Jenny deu pt total.

A gente correu pela rua, rindo alto. Quando finalmente paramos num quarteirão depois, ainda ofegantes, eu acenei pra ele.

— Até amanhã, Dean!

Ele acenou de volta, já correndo na direção oposta.

— Até amanhã, desastrada!

Quem diria que fugir da aula ia ser a melhor ideia do ano?

Cheguei em casa, abri a porta e… que merda era aquela?

O Zack tava jogado no sofá, luz apagada, televisão no volume máximo. Titanic. A cena do “I’m flying” com o Jack e a Rose. E o meu irmão… chorando. Chorando de verdade, com lágrimas escorrendo e nariz fungando.

— Zack? — eu chamei baixinho.

Ele nem olhou pra mim. Fui até o sofá e me sentei do lado dele. Assisti o filme por alguns segundos.

– É a Melody né – Perguntei, já planejando acertar um gol.

Ele não respondeu e ficamos em silêncio por alguns segundos.

– Vou interpretar esse silêncio como um sim.

— Eu me sinto sufocado, Stella. Sufocado pra caralho. – Zack começou, em meio as lágrimas. – Saudade da Melody pra todo lado. Ela bloqueou tudo, sumiu, e eu não consigo parar de pensar nela. A gente era idiota juntos, mas era bom demais.

Meu estômago deu um nó enorme. De repente todas as vezes que eu trollei eles, que eu fui malvada com a Melody, que eu tentei afastar os dois… tudo veio na minha cara como um caminhão. E bem feito pra mim.

— Zack eu me arrependo. Amargamente. De tudo que eu fiz pra estragar vocês dois – Falei com a voz tremendo. – De ter sido uma vaca com a Melody. Eu achava que tava protegendo vocês, mas na real eu só tava sendo egoísta. Desculpa. Desculpa mesmo.

Ele virou o rosto pra mim, olhos vermelhos.

Eu continuei:

— Eu vou tentar caçar a Melody. Vou dar um jeito nessa merda toda. Pelo menos por você. Prometo.

Zack ficou quieto um segundo. Depois sorriu, meio torto, meio choroso.

— Apesar de todos os pesares, eu fico feliz de ser seu irmão, Stella. Na moral.

A gente se abraçou ali mesmo, no sofá, enquanto a musiquinha triste do Titanic tocava ao fundo. Eu chorei. Ele chorou. Os dois completamente destruídos por causa de uma garota que bloqueou a gente.

Quando a gente se soltou, eu limpei o nariz escorrendo com a manga da blusa.

— Tá bom, CHEGAA! Vou pegar bolacha na mochila pra gente afogar a tristeza em carboidrato.

Abri o zíper da mochila, enfiei a mão… e senti algo estranho. Gelado. Molhado. Pegajoso.

Tirei a mão devagar.

A mochila inteira tava cheia de… ovo cru. As gêmeas Becky e Jenny tinham deixado uma trollagem nível hard dentro da minha mochila enquanto traziam as coisas da escola.

– AI QUE NOJO ESSAS DUAS FILHAS DA PUTA.

Eu dei um berro que deve ter sido ouvido até na casa da Sunny do outro lado da cidade:

— SUAS VADIASSSSSSSSSSSSS!!!

Zack olhou pra mim, depois pra mochila, e caiu na gargalhada no meio das lágrimas.

E eu? Eu só consegui rir junto, porque… bem… essa é a minha vida.