Steampunk: Do ferro ao sangue
7 C6 — Ostentação
Notas iniciais
Anne olhava fixamente para o amado em coma. Era como se estivesse dormindo, vivendo em um mundo sem nenhum contato com o caos que o circundava. Enquanto médicos e enfermeiras corriam por todos os lados da tenda de enfermaria lá estava ela definhando com Jaafar.
Muitos a haviam advertido que não podia ficar dias e dias sem dormir, mas não se importava. Queria estar lá quando ele acordasse. Olhar de novo para aqueles lindos olhos cor de âmbar. Sabia que sua aparência não era das melhores naquele momento. Estava mais magra e as olheiras nos olhos se tornaram de um tom roxo escuro. Os cabelos estavam secos, quebradiços e desbotados e sua pele havia adquirido um tom amarelo doentio.
Mas ele não se importaria, não... Ele não.
Os outros não sabiam, mas havia algo que a alimentava desde o dia em que Jaafar voltara naquele estado para a Steampunk. Desde que olhara para Joe, desde que vira a verdade estampada em todos os lugares.
A vingança pode não ser um dos melhores sentimentos para quem a sente. Anne sabia disso, estava sofrendo as consequências por isso. Mesmo assim era tudo o que mais queria. Ver o sangue daqueles que fizeram seu amado estar ali, imóvel.
Segurava com força a mão automatizada que haviam feito para ele enquanto deitava a cabeça na cama de Jaafar e deixava as lágrimas rolarem. Ela sabia que eles pagariam, e pagariam caro.
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Lá estava ela manchando seu melhor vestido branco de graxa. Mas valeria a pena, e como. Faria um ótimo trabalho e poderia comprar outro vestido quando acabasse, poderia comprar milhares de vestidos quando acabasse.
Pensar assim sempre lhe fazia rir como a criança que era, ou como os outros do conselho diziam que era.
Havia muito que fazer ainda, mas não demoraria até Ela ficar pronta. Nesse exato momento estava sentada em sua mesa de trabalho com o protótipo do que seria o crânio de seu androide. E devia admitir que estava fazendo um ótimo trabalho.
Seus pensamentos foram cortados quando ouviu algumas batidas na porta de metal. Olhou para o relógio a engrenagens que funcionava a alguma distância de sua mesa de trabalho e franziu o cenho.
“Está adiantado meia hora...“
Limpou as mãos em seu vestido já machado e se dirigiu a porta destrancando-a com um sonoro clac. Olhou para a figura encapuzada que estava à frente e deixou-o entrar sem demora.
— Por que veio mais cedo? Não tinha um encontro com Alexei?
— Cancelado.
Miriam gostava do informante. Falava apenas o necessário e apenas quando o pagavam bem. Por enquanto quem estava pagando melhor era ela.
— Então, o plano dele deu certo?
— Sim, a Steampunk caiu. Encontra-se a algumas milhas daqui, acampada em um campo verde. Alguns feridos e mortos, mas ninguém que valha a pena ser mencionado. O “postiço” fugiu, não se faz ideia de como ou quando. Não acharam corpos perto das caldeiras.
Miriam sabia de quem ele estava falando. Do suposto culpado por traição para que ninguém suspeite do informante que ali estava. Não sabia quem ele havia posto no seu lugar, e também não lhe importava.
— Eles ainda estão com a androide e com a descendente?
— Todas duas em perfeito estado.
— Creio que seja só. — Assim que ouviu as palavras de Miriam ele se virou e se retirou andando pela sala até a porta. — Mas antes que fosse... Gostaria de saber por que os está traindo...
O vulto encapuzado se virou novamente, e dessa vez Miriam teve uma leve visão dos olhos azuis do traidor.
— Por que tenho sangue nobre, minha senhora.
Ele saiu pela porta fechando-a com força e Miriam voltou os seus olhos para o crânio de metal pousado em sua mesa. Seria perfeita, como nenhuma androide jamais foi.
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Ali estavam todos reunidos novamente. Valentina se sentia inquieta. Estavam sentados em bancos de madeira em volta a uma mesa qualquer em uma tenda montada de improviso. Fizeram o juramento e a Comandante olhava a todos com uma expressão preocupada. Provavelmente havia dormido mal, pois as olheiras eram visíveis em seus olhos.
— Podemos ser atacados a qualquer momento. Pus os nossos melhores mecânicos e construtores para reparar o dirigível, mas não tenho ideia de como reforçar nossas barreiras.
— Talvez colocar guardas...
— Por favor, não subestime minha inteligência, Emília, sabe que já fiz isso.
A ruiva se calou mordendo o lábio inferior. Val não gostou do modo que Martha falou com ela, sabia que estava irritada, mas maltratar os outros não resultaria em nada.
Olhou a sua volta, o único que parecia estar disposto a ficar ali era Desmond. Pietro estava ao seu lado, o rosto voltado para baixo sem dizer uma única palavra. Emília ainda calada pela represália da comandante e Anne nem compareceu. O grupo estava se separando.
— Senhora Comandante... Olhe para frente e não para os erros que cometemos atrás de nós. O grupo está se separando, não percebe? Seja lá quem for o traidor, culpamos Joe injustamente. Temos que nos reunir... Se o Conselho atacar e estivermos assim, lhe garanto que não sobrará sequer um corpo para velarmos.
— Valentina pare com essas bobagens. UNIÃO E AMIZADE NÃO SALVARÃO VIDAS!
— Não compreendo então por que diabos nos convocou até aqui se não quer ouvir as nossas opiniões!
— EU QUERO UMA SAÍDA! DIGA-ME COMO POSSO ACHAR UMA SAÍDA SE NÃO SEI EM QUEM CONFIAR!
— Ache sua saída sozinha, eu me retiro por hoje.
Quando se levantou, viu os olhares suplicantes de Pietro e Emília para que ficasse. Mas antes de poder sair um dos guardas entrou com uma expressão aflita. Algo havia acontecido, e pelo rosto pálido dele não havia sido nada bom.
— Comandante. Recebemos uma carta. Uma carta do conselho.
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O céu exibia um lindo luar naquela noite, mas Martha não conseguia simplesmente apreciá-lo. Estava nervosa. Andava em passos largos até a tenda da enfermaria e logo se encontrou no meio das camas montadas onde repousavam todos os feridos. Ou quase todos.
Jade se encontrava sentada na última cama com uma expressão serena segurando um livro. Quando percebeu a movimentação vinda da entrada da tenda desviou o olhar das páginas e esboçou um sorriso verdadeiro.
— Olá Comandante, faz tempo que não me visita.
Martha sentiu a voz dela lhe arrepiar. Era tranquila e harmoniosa como nunca havia ouvido em toda a sua vida
— Muito trabalho a fazer, Jade. — disse exibindo um semblante cansado.
— Entendo, segundo rumores há muito trabalho mesmo a fazer. Mas o que devo a sua visita?
Ela provavelmente havia ouvido os rumores dos membros da organização que estavam ali feridos. Martha não tinha muito tempo para conversar, a Steampunk estava ameaçada. Queria entender por que o Conselho mandara aquela carta... Poderiam ter atacado em segredo.
— Jade, preciso que me ajude... — Agora estava ao lado do leito da garota de lindos olhos verdes, seu olhar se encontrou com o dela – Preciso que guarde uma chave para mim... Parece que estamos com sérios problemas entende?
— Entendo. E o que tenho que guardar?
— Aqui está...
Martha pegou a chave de ouro cheia de rubis. Ninguém desconfiaria que ela estivesse ali, na enfermaria com uma das pacientes. Era o lugar mais seguro que tinham.
— Uma chave? Para que serve...?
— Eu contarei quando tudo estiver mais calmo Jade — a Comandante acariciou o rosto da garota — Guarde-a para mim certo? Logo os problemas vão acabar...
— Espero que não sejam os problemas a acabar com você.
Os olhos verdes se tornaram sérios. Martha também não queria que fosse esse o caso, só de pensar em deixa-la sozinha no mundo sentia uma grande tristeza lhe tomar o coração.
— Claro que não, pequena. Você verá... Estarei aqui antes que possa notar minha falta.
— Assim espero...
Martha se inclinou e beijou a testa de Jade e encarou pela última vez os olhos verdes da garota antes de sair.
“Que Luna te acompanhe, Martha...“
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Lá estava ela de novo apenas observando-os partir. Miriam era discreta, era de sua natureza ser discreta. Quando perceberiam que não havia ficado? Provavelmente nunca. Olhou para o grupo que saía. Gian estava ali, tinha certeza que faria um ótimo trabalho em seu nome. Acenou para o garoto que olhava de longe e teve o aceno retribuído.
Sua irmã estava dormindo em um dos andares do castelo do Conselho, não teria problema com aquela pequena bagunceira. As vezes pensava como poderia ter nascido gêmea de uma burra desastrada como ela.
Naquela noite em questão, usava o vestido púrpura e negro que havia ganhado de algum dos bajuladores do sangue nobre do Conselho. Os cabelos loiros presos em uma trança muito bem feita por Amanda Armstrong e sapatos escuros que faziam o mínimo barulho quando andava.
Miriam andou através dos corredores do castelo até alcançar uma grande porta de madeira escura. Abriu-a e sentiu o vento noturno lhe acariciar o rosto. Os olhos azuis varreram a área com rapidez mesmo sabendo que não encontraria guardas naquela saída do castelo.
Poucos sabiam de todo o conhecimento que Miriam acumulava em seu cérebro. Muitos do conselho esqueciam de que o sangue Adaggio era o mais antigo ali. E que aquele castelo, em todo o seu mistério e segredo havia sido feito pela sua família.
Por um momento até ela própria havia se esquecido disso. Quando olhou para Alexei disse a sí mesma que o Conselho de Luna havia acabado ali. Havia acabado, pois estava com medo de enfrenta-lo.
Enquanto pensava nisso andava com tranquilidade pelo caminho de pedra que passava no meio da densa floresta, apenas a lua a acompanhava.
“ Mas o Conhecimento é maior que o Medo pequena Miriam... “
A voz da sua falecida mãe ecoou pela sua cabeça. Sorriu como se ainda estivesse lá sendo embalada pelos braços dela, alguns minutos antes do incêndio. Do terrível incêndio. E aquela tragédia havia sido provocada pelos dois lados, pela briga do poder. Haviam lhe tirado tudo, pai, mãe, irmão, um lar...
Mas acabaria com aquela luta milenar.
Seus sapatos pisaram na grama e viu a sua frente todo o acampamento da Steampunk montado. Um amontoado de luzes e tendas que agora se preparavam para o ataque. Viu guardas se posicionando, viu pessoas gritando ordens, viu homens e mulheres rezando.
Viu tudo arder em chamas, como naquele dia trágico.
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A comandante gritava ordens para todos ali. Guardas foram colocados ao redor do acampamento, armados. Todos prontos. Valentina e Emília no comando do primeiro esquadrão, Pietro estava atrás com os membros armados. Desmond era o último no comando das máquinas. Anne não fora encontrada em lugar algum.
Pelo menos não por eles. Anne, a sombra. Era este o nome que haviam lhe dado. E assim era. Uma sombra. Os olhos purpuras vasculhavam a área a frente do acampamento. Aguardava pacientemente até que eles aparecessem e os mataria... Um por um.
Estava apoiada em um galho de uma árvore velha e o vento soprava forte fazendo os cabelos negros e curtos se agitarem. As duas facas de Mar Alto inscritas com as runas de sua cidade natal, estrategicamente colocadas na cintura para que fossem de fácil acesso, além delas não havia outra arma consigo. Faria justiça e faria com suas próprias mãos.
Sentiria o sangue deles. Cada um deles. Pagariam com a própria vida.
Foi quando avistou três sombras no topo da colina.
Finalmente.
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Jade olhava fixamente para a sua peculiar visita. Pelos trajes não era ninguém da Steampunk. E pelo olhar não parecia ser amigável.
Era apenas uma criança, parecia frágil como uma boneca de porcelana. Lindos cabelos loiros presos em uma extensa trança e olhos azuis muito claros. Mas emanava uma aura medonha.
— Olá — disse a criança. Sua voz era baixa e calma, algo que só deixou Jade mais nervosa.
— Olá... Poderia saber quem é você, pequena?
A garota se aproximava, era silenciosa. Jade não sabia se ela era naturalmente assim ou simplesmente agia assim, pois não queria acordar os outros pacientes no local. Quando voltou a falar, a estranha menina já estava perto de sua cama.
— Sou Miriam Adaggio e você suponho que seja Jade Abney, certo?
Jade anuiu com a cabeça e fechou o livro que estava lendo.
— O que devo a sua presença, Miriam?
— Oh, apenas quero conversar com você, Jade. Apenas quero saber de seu passado...
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Val viu as três sombras se aproximarem. Quando não viu ninguém mais ficou surpresa. Na carta dizia que ia ser um ataque em massa...
— VAL! O QUE É AQUILO?
A voz de Emília soou estridente do outro lado do primeiro esquadrão. Valentina voltou os olhos para as três sombras, agora uma quarta se juntava a eles. Só que do lado oposto. Mesmo a distância podia se ver os cabelos curtos balançando ao vento.
— Por Luna... Que não seja Anne...
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